Descarregando munições em Moçâmedes, antes da 1ª ponte, em ponte móvel
Até
1873 não havia em Moçâmedes um modesto arremedo sequer de ponte de
cais.Na baía, apesar da extensão e profundidade do fundeadouro, faziam-se
os embarques pessoais aos ombros dos pretos, que, desastrosos,
compeliam por vezes os passageiros a tomarem um banho forçado.
Já em
1861, o autor anónimo do livro "Quarenta e cinco dias em Angola"
aconselhava a construção de um cais que nivelasse a praia pela altura
proximamente das construções regulares e com escadarias para embarque e
desembarque de pessoas e uma ponte de carga e descarga para o serviço da
Alfândega.
Só em 1873 é que se construiu em Moçâmedes a primeira ponte
de cais, toda de madeira, acente sobre estacaria, que, pela celeridade
da construção, em pouco tempo se arruinou e se inutilizou. Assim nos
informa o Governador Costa Cabral no seu relatório, datado de 19 de
Junho de 1877, propondo a sua urgente substituição e lamentando que não
houvesse no local outros meios de desembarque, ou de carga e descarga,
que se faziam, em ocasiões de grande calema, com perigosos riscos
pessoais e sensiveis prejuizos para as mercadorias.
Colonos desembarcando em Moçâmedes(?), ou outra qualquer ponte na região... Da capa do livro Slaves, Peasants and Capitalists in Southern Angola 1840-1926 (African Studies)
by W. G. Clarence-Smith (December 3, 2007)
by W. G. Clarence-Smith (December 3, 2007)
"...Noticias
posteriores dizem que o governador ultimamente nomeado, o sr. Graça,
completando o pensamento do seu antecessor, o sr. Costa Leal ia mandar
construir o caes em frente da alfandega, para o que encontrara já alli
amontoado não pouco material; mas, como lhe faltassem para isso os
necessários meios, abrira uma suhscripçao particular entre as pessoas
mais abastadas e mais interessadas do municipio,
e esta subscripçao em alguns dias, produziu logo a quantia de 20000
réis. A construção do caes é de grande utilidade, pois torna
mais commodo e menos perigoso o desembarque de pessoas e mercadorias."
in Archivo Pittoresco,
Semanário Ilustrado, vol x, 1867, uma referência
que mostra bem a penúria da colonização portuguesa:
Perspectiva da ponte, tendo por fundo uma parte da vila e a praia. Foto de finais do século XIX. Uma primitiva ponte que depressa se inutilizou foi inaugurada em 1881.
Sobre
a primitiva ponte, refere em 1954 Manuel Júlio de Mendonça
Torres: "Durou esta ponte, cuja localização os textos nos não indicam,
até 1881, ano em que foi inaugurada a actual, no dia 04 de Agosto, pelo
Governador Nunes da Mata, assunto de que havemos de tratar num volume,
possivelmente intitulado "O Distrito de Moçâmedes, na quadra da
produção intensiva da cana".
In
Conspecto Imobiliaário do Distrito de Moçâmedes nos anos 1860 a 1879
por Manuel Júlio de Mendonça Torres in Boletim do Ultramar PORTUGAL. Agência Geral do Ultramar. Nº 348-349 - Vol. XXX, 1954, 289 pags.

Movimento na ponte onde se vê o guindaste. Encostados à ponte um batelão e mais próximo uma chata
Desembarque do Bispo de Angola, D. António. Este conjunto de fotos, embora de finais do século XIX e de inicios do século XX, já apresentam a ponte de embarque/desembarque definitiva
Este postal regista o momento da passagem pelo antigo Piquete da Guarda Fiscal de Moçâmedes, em 1 de Outubro de 1905 do Conselheiro do Governador Geral de Angola, já de regresso a Luanda. No dia 28 de Setembro de 1905 fora inaugurada a Estação principal do Caminho-de-Ferro de Moçâmedes , assinada a acta, e procedeu-se ao assentamento da primeira pedra no cunhal leste da estação pelo Dr. Ramada Curto. No dia 29 de Setembro de 1905 foi oferecido um copo d'água, no Saco, pela comissão de festejos, composta de comerciantes e agricultores da cidade. Também no mesmo dia partiu o primeiro comboio de Moçâmedes ao Saco, conduzindo o Conselheiro Governador Geral, o Governador do Distrito, e o Engenheiro Director dos Caminhos de Ferro de Luanda e convidados.
O Piquete da guarda-fiscal era um
tipo de construção interessante, do século XIX, de traça romântica, que
acabou por desaparecer com a inauguração do cais acostável. Era por
ali que se fazia o controle da saida e entrada de mercadorias e pessoas
que dos navios, ancorados a meio da baía, acediam à ponte, as mercadoria através de
quatro batelões, barcos possantes e sem motor, que eram por sua vez
rebocados por um pequeno barco a motor, as pessoas em barcos a motor alimentados a gasolina, chamados, por analogia, de
«Gasolinas». Eram pequenos barcos, agradáveis à vista, pintados de
branco, que podiam possuir uma cabine totalmente fechada, ou meia
fechada, com bancos corridos, e que comportavam cerca de 50 pessoas,
sentadas e de pé.
Desembarque das 1ªs locomotivas destinadas ao Caminho de Ferro de Moçâmedes na ponte da Praia das Miragens
CURIOSIDADES
Conta-se que nesses tempos em que não existia ainda o cais acostável, inaugurado em 1957, em que
os navios fundeavam ao largo, já não encostavam à ponte de embarque e desembarque existente, houve necessidade de se
descarregar carruagens novas destinadas ao Caminho de Ferro de Moçâmedes e
como na época era a firma Duarte
d'Almeida, agentes da Companhia Nacional de Navegação (CNN), que
possuia um estaleiro na Torre
do Tombo na antiga praia do cano, hoje zona da Avª marginal, teve de
construir algumas barcaças bastante grandes para se fazer a descarga. As
barcaças eram encaminhadas para a a zona da praia da Capitania, ao lado desta
ponte, onde foram montados carris ficando ali a aguardar a altura própria
da maré para que as carruagens fossem removidas para terra firme. Nesta
operação
bastante difícil e instável trabalharam entre muitos alguns carpinteiros
da época, Gilberto, Celestino, Manuel e António Valente, André,
etc., gente anónima que merece ser aqui lembrada.
A PONTE (POEMA)
Moçâmedes, Beijada pelo Deserto
Na ponte de Moçâmedes, o "Salvador Correia" descarrega material para uma Companhia de Guerra, destinado às Campanhas de África.
Na ponte através de um guindaste embarca-se gado bovino. Ao largo, navios, palhabotes, batelões e baleeiras. Transcrevo um texto de
Roberto Trindade
TOURADA NA PRAIA
(De Roberto Trindade)
Ela ainda existe, velhinha e desmobilizada, testemunho silencioso de um tempo que não volta mais, desmobilizada que fora após a inauguração, em 24.05.1957, do 1º troço das obras do cais do porto de cais iniciadas em 24.06.1954, por ocasião da visita à cidade e distrito do Presidente da República, General Francisco Higino Craveiro Lopes.TOURADA NA PRAIA
(De Roberto Trindade)
Antes de ter sido construído o cais acostável, a estrada marginal e
a linha de caminho de ferro que a acompanhava para transporte das
mercadorias, os navios que escalavam Moçâmedes fundeavam ao largo e os passageiros eram transportados para terra e
para bordo, por pequenos barcos de passageiros a que chamavam os
“gasolinas do Bauleth”, por ser o sr. Bauleth o concessionário de tal
transporte.
As mercadorias eram descarregadas para bordo de batelões, que eram
rebocados para ancorarem ao largo, aguardando que fossem descarregados
na ponte cais, onde trabalhava o sr. Rogério Camusseque, que para lá se
deslocava na sua velha e pachorrenta
bicicleta, tendo a parte de baixo das calças seguras com duas molas de
roupa, para que se não sujassem de óleo na corrente da geringonça !
Também lá trabalhava nos guindates o sr. António Martins, irmão de outro
Martins da Escola Industrial, e ainda irmão do João e Roberto Latinhas (...)
(Por alturas do Natal, nadávamos para os batelões para nos abastecermos de castanhas) ! ...
Do mesmo modo procediam quando as mercadorias, não só locais, como de outras zonas do interior, eram exportadas a partir de Moçâmedes.
Ali embarcavam pequenas manadas de gado destinadas ao puto. Os mucubais levavam a manada até à ponte, e o processo de embarque era muito original. Passavam uma cinta pela barriga do animal e este era içado pelo guindaste que o ia colocar a bordo do batelão. (Vejam na foto que junto abaixo, onde se vê um boi pendurado).
Por vezes acontecia escorregar um bicho que dava um monumental mergulho e acabava por nadar para terra e ir esbaforido para a Praia das Miragens, causando o pânico entre os banhistas que ali disfrutavam e se bronzeavam.
Certo dia em que aconteceu o mesmo, o desgraçado do boi corria de um lado para o outro, assustado e assustando cada vez mais os banhistas que tentavam correr mais que o boi e ainda assustavam mais o bichinho.
Foi nessa altura que se revelou o grande talento do nosso saudoso amigo António Carvalho Minas (Tonito Minas, como era conhecido) para a arte de bem tourear. O Tonito agarrou numa toalha de banho e vai de enfrentar a fera !...
Imaginem a cena : O boi assustado e o Tonito gritando : Hé, touro !
Fez uma faena e tanto, de tal forma que, em Moçâmedes, durante um tempo foi tema de conversa e foi merecida a ovação que todos lhe prestaram."
Do mesmo modo procediam quando as mercadorias, não só locais, como de outras zonas do interior, eram exportadas a partir de Moçâmedes.
Ali embarcavam pequenas manadas de gado destinadas ao puto. Os mucubais levavam a manada até à ponte, e o processo de embarque era muito original. Passavam uma cinta pela barriga do animal e este era içado pelo guindaste que o ia colocar a bordo do batelão. (Vejam na foto que junto abaixo, onde se vê um boi pendurado).
Por vezes acontecia escorregar um bicho que dava um monumental mergulho e acabava por nadar para terra e ir esbaforido para a Praia das Miragens, causando o pânico entre os banhistas que ali disfrutavam e se bronzeavam.
Certo dia em que aconteceu o mesmo, o desgraçado do boi corria de um lado para o outro, assustado e assustando cada vez mais os banhistas que tentavam correr mais que o boi e ainda assustavam mais o bichinho.
Foi nessa altura que se revelou o grande talento do nosso saudoso amigo António Carvalho Minas (Tonito Minas, como era conhecido) para a arte de bem tourear. O Tonito agarrou numa toalha de banho e vai de enfrentar a fera !...
Imaginem a cena : O boi assustado e o Tonito gritando : Hé, touro !
Fez uma faena e tanto, de tal forma que, em Moçâmedes, durante um tempo foi tema de conversa e foi merecida a ovação que todos lhe prestaram."











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