Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 28 de maio de 2013

A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes em Angola

 

Igreja de São Pedro, na cidade de Moçâmedes, actual NAMIBE. em Angola

"De expressão moderna, com volumes de silhueta triangular, em articulação com um expressivo corpo tronco‐cónico em betão aparente, onde se rasgam pequenos vãos de modo irregular, no tipo da Igreja de Romchamp, por Le Corbusier. Foi projectada pelo arquitecto Luís Taquelim na década de 1960."

José Manuel Fernandes

A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.

A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.


A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.


A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.


A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.


A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.


A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.


A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.


A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.


A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.


A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.

A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.


A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.


A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes, Namibe. Perspectivas.


OLHAR A IGREJA DE S. PEDRO DE MOÇÂMEDES/NAMIBE, SOB UMA PERSPECTIVA DIFERENTE...



Regra geral, olhamos superficialmente os edifícios, sofremos o impacto daquilo que eles a nossos olhos representam, gostamos, não gostamos, fazemo-lo empiricamente, apoiados exclusivamente na experiência e na observação, sem quaisquer análises estética ou ideológica do edifício em si, sem nos preocuparmos com contextos históricos, com correntes arquitectónicas, com aquilo que eles de facto representam, a menos que tenhamos uma formação académica ligada às coisas da arquitectura, ou que a curiosidade nos leve à pesquisa,

A Igreja de São Pedro na cidade de Moçâmedes,  Namibe,  Angola, projectada pelo arquitecto Luís Taquelim na década de 1960, tem algo mais a transmitir que um simples olhar para a sua fachada. Ela segue a arquitectura modernista da Igreja Notre-Dame du Haut (Nossa Senhora das Alturas), mais comumente Igreja de Ronchamp, de Paris, projectada por Le Corbusier, considerado o farol da modernidade, reconhecido por alguns dos cometimentos arquitetónicos mais extraordinariamente significativos do século XX, decisivos para o desenvolvimento da arquitectura da segunda metade do século. E isso devia ser um orgulho para nós.

Como  Ronchamp, a Igreja de S Pedro,  também  ela pode ser descrita pela sua fachada, "...paredes em ângulos rectos, curvos, a um tempo triangular, redonda, alongada, baixa, alta, vasta, fechada, aberta sobre exterior, com pequenas janelas irregulares que permitem e penetração de jogos de volumes de luz, etc etc."

 
.............................................................................................................................................................................A A Igreja de S. Pedro  foi construída na fase final do Estado Novo, ela faz parte do conjunto de edifícios modernos que vieram romper com numa época em que a arquitectura portuguesa esteve condicionada pela vontade do Estado e da ditadura vigente, que se impunha ao nível do gosto e da estética dos cidadãos, fazendo com que os arquitectos lusos  não acompanhassem o desenvolvimento  da arquitectura europeia ou mesmo mundial,  com reflexos no urbanismo.

Este é um tema pouco debatido, porquanto a arquitectura moderna  acabaria por ser desenvolvida nas antigas colónias, durante a vigência do Estado Novo, quando na Metrópole a arquitectura era ainda usada como instrumento de propaganda do Regime. Portugal dava os primeiros passos para entrada na modernidade em termos de arquitectura, quando uma viragem aconteceu, imposta pelo Estado Novo, rumo a uma produção de características nacionalistas e monumentais,  que ficou para sempre denominada "Português Suave", e que ficou marcada com a grande Exposição do Mundo Português em 1940. Logo em 1941 é apresentada, em Lisboa, a Exposição da Moderna Arquitectura Alemã, organizada pelo arquitecto Albert Speer, o preferido de Hitler. Os arquitectos que anos antes tinham seguido os princípios do Movimento Moderno passaram, salvo raras excepções, a instrumentos da criação dos modelos da ditadura, centralizados no Ministério das Obras Públicas, e controlados pelo ministro Duarte Pacheco. Desde então, os edifícios públicos (universidades, cine-teatros e tribunais) aproximavam-se dos exemplos alemães e italianos da época, com um forte carácter monumental e clássico, cujo objectivo era transmitir aos cidadãos a ideia de autoridade e ordem. Nos edifícios de menores dimensões nas pequenas cidades era escolhida uma arquitectura   mais regional (escolas primárias, pousadas, edifícios dos Correio, da Caixa Geral de Depósitos e nos bairros de habitação social). Em Lisboa raros arquitectos se opunham às imposições do Estado Novo. Na cidade do Porto, ao nível das escolas os adeptos do regime, conseguiam inda assim manter uma postura mais liberal, incentivando os alunos a descobrirem outros caminhos na arquitectura em constante mutação, mas foi com o fim da II Guerra Mundial, em 1945, e a consequente queda do regime nazi, que Salazar foi proporcionando uma maior abertura no campo cultural. O Congresso Nacional de Arquitectura,   em 1948,  promovido pelo Governo para celebrar os “15 Anos de Obras Públicas” foi o início da contestação da classe de arquitectos. Deste então começou a emergir uma geração jovem de arquitectos com vontade e coragem para enfrentar as imposições do Estado Novo, reivindicando os princípios  do Movimento Moderno. Ao longo dos anos 1950 assiste-se a uma progressiva libertação da arquitectura portuguesa que se vai aproximando dos circuitos internacionais. Um acrescento para referência aqui do edifícios dos Correios de Moçâmedes, erguida em finais dos anos 1940, inicio dos anos 1950, que se enquadra nesse tipo de arquitectura mais regional do estilo "Português Suave" , estilo mais tarde bastante valorizado.

A Igreja de S. Pedro de Moçâmedes enquadra-se pois, nessa dinâmica que veio romper com a tradição estado-novista,  e em simultâneo com a arquitectura eclesiástica ligada ao dogmatismo religioso, opostas à linguagem moderna de Le Corbusier, que se veio a revelar em terras da África portuguesa, pela mão de alguns arquitectos que para lá "emigraram", munidos de uma nova visão, fortemente influenciada o advento do modernismo, e pela produção da arquitectura brasileira, mais internacional  bem acolhida junto das novas gerações mais libertos de condicionalismos ideológicos.   Até porque do ponto de vista climático o Brasil era semelhante ao continente africano, os arquitectos podiam dispor de soluções e técnicas já experimentadas facilmente transpostos para o novo contexto.  Em Angola construíram-se inúmeros edifícios modernos, acontecendo porém que décadas após a independência, aquele que era provavelmente o mais emblemático de todos, o Mercado do Kinaxixe em Luanda, acabaria demolido, talvez por ignorância do seu verdadeiro valor para a História da Arquitectura das cidades,  para  no seu lugar  nascer um centro comercial com seis pisos e duas torres. Uma perda irreparável. Com a independência, em 1975, a generalidade dos arquitectos modernistas regressaram a Portugal, mas alguns partiram para o Brasil, estabelecendo a sua actividade naquele país.

Em Moçâmedes/Namibe, esse "modernismo tropical" para além da Igreja de S. Pedro, deixou algumas outras obras de um modernismo de ponta que muito dignifica aquela cidade, quer por aquilo que representam do ponto de vista histórico-ideológico, quer pela contribuição estilística para a paisagem urbana: Mercado Municipal, o Impala Cine, o Cinema inacabado, os que melhor recordo, se não os únicos.
 
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Não queremos terminar sem integrar aqui um texto relacionado com o projecto desta nova Igreja, então ainda a construir, de acordo com o plano de urbanização da cidade de Moçâmedes, aprovado pelo Ministro do Ultramar, Sr. Comandante Sarmento Rodrigues. Reproduziremos, para tal, a crónica da Agência Geral do Ultramar, distribuída pela Casa da Metrópole de Luanda e publicada no Diário de Luanda de 19 de Janeiro de 1952.

"A fachada principal do novo templo, de grande beleza arquitectónica, apresenta dois baixos-relevos com cenas da vida de S. Pedro, e é dominada por uma cruz alta, de bronze, iluminada com tubos de neon que projectarão um cruzeiro com 14 metros e 50.

"A nova Igreja, em cuja planta foram rigorosamente observados os preceitos litúrgicos, tem a configuração de cruz latina. De nave única, permite, de qualquer ponto do seu interior, uma visão perfeita sobre o altar-mor, destacando-se, entre outros pormenores, a localização do baptistério, de forma a que o neófito não entre na Igreja antes de baptizado, e a da câmara mortuária, com entrada independente, o que permite a normal celebração do acto do culto.

"Tanto a escultura, como a pintura a fresco, contribuem para realçar a beleza do magnífico conjunto arquitectónico, dando-lhe a dignidade e imponência próprias do elevado fim a que se destina esta nova obra. No topo de uma das naves haverá um carrilhão e um indicador das condições atmosféricas, de grande utilidade, especialmente para a população piscatória da cidade, e na torre um relógio e um sino de grandes dimensões.

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Sobre o  projecto da nova Igreja de Moçâmedes, aprovado pelo Ministro do Ultramar, Comandante Sarmento Rodrigues,  conforme referido pelo Dr Manuel Júlio de Mendonça Torres,  in "Conspecto Imobiliário do Distrito de Moçâmedes nos anos 1860 a 1879" reproduziremos
a crónica da Agência Geral do Ultramar, distribuída pela Casa da Metrópole de Luanda e publicada no Diário de Luanda de 19 de Janeiro de 1952:


"...Tendo-nos referido, no presente trecho deste capítulo, ao edifício actual da Igreja Matriz, parece-nos acertado descrever o concebido projecto da nova igreja a construir, em local indicado, no plano de urbanização da cidade, que já foi aprovado pelo Ministro do Ultramar, Sr. Comandante Sarmento Rodrigues.

"A fachada principal do novo templo, de grande beleza arquitectónica, apresenta dois baixos-relevos com cenas da vida de S. Pedro, e  é dominada por uma cruz alta, de bronze, iluminada com tubos de neon  que projectarão um cruzeiro com 14 metros e 50.

"A nova Igreja, em cuja planta foram rigorosamente observados os preceitos litúrgicos, tem a configuração de cruz latina. De nave única, permite, de qualquer ponto do seu interior, uma visão perfeita sobre o altar-mor, destacando-se, entre outros pormenores,  a localização do baptistério,  de forma a que o neófito não entre na Igreja antes de baptizado, e a da câmara mortuária, com entrada independente, o que permite a normal celebração do acto do culto.

"Tanto a escultura, como a pintura a fresco, contribuem para realçar a beleza do magnífico conjunto arquitectónico, dando-lhe a dignidade e imponência próprias do elevado fim a que se destina esta nova obra. No topo de uma das naves haverá um carrilhão e um indicador das condições atmosféricas, de grande utilidade, especialmente para a população piscatória da cidade, e na torrem um relógio e um sino de grandes dimensões.

Boletim Geral do Ultramar . XXX - 348 e 349
PORTUGAL. Agência Geral do Ultramar.
Nº 348-349 - Vol. XXX, 1954, 289 pags.

Pesquisa e texto de MariaNJardim 
 
 
 
 
 http://memoria-africa.ua.pt/Library/ShowImage.aspx?q=/BGC/BGU-N348-349&p=109


http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/05.058/485


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Apreciemos então  agora a  Igreja Ronchamp, construída na década de 1950 no alto de uma colina vasta e verdejante, a sudeste de Paris, que veio ocupar um lugar desde há muito de peregrinação católica, que fora destituído de seu principal símbolo de comunhão, a sua Igreja, atingida por um bombardeamento alemão, no Outono de 1944. Este edifício já havia substituído outro anterior, destruído por um incêndio em 1913. Ronchamp foi depredada numa tentativa de furto e sofreu um dano irreparável, o único vitral assinado pelo grande mestre foi completamente destruído.

Desenhada para "criar um local de silêncio, oração, paz e alegria interior", segundo Le Corbusier, o pai do modernismo, a Igreja Ronchamp foi classificada como monumento histórico em 1967,  e atrai  anualmente cerca de 80 mil turistas. Foi uma obra polémica, tanto por parte dos arquitectos, quanto pelo público, quer em relação à plasticidade, quer a outros aspectos,  Uns viram em Ronchamp  um indício da crise do racionalismo. Outros viram um regresso ao passado. Na verdade, com Ronchamp, a reprodutividade e a estandardização cedem espaço à experiência singular, a Arquitectura e a História relacionam-se, ergue-se o valor da dimensão simbólica, social e cultural.

De um branco brilhante em seus muros externos, paredes grossas e curvilíneas, a um tempo quadrada e redonda, alongada e contida, baixa e alta, vasta e aberta sobre o exterior, com pequenas janelas irregulares que permitem o jogo dos volumes sobre a luz, qualidades que se evidenciam na Igreja de S. Pedro de Moçàmedes, eis da Igreja Ronchamp algumas fotos:


Igreja Notre-Dame du Haut (Nossa Senhora das Alturas), mais comumente Igreja de Ronchamp, projectada por Le Corbusier, considerado o farol da modernidade




Perspectiva do interior da Igreja Notre-Dame du Haut (Nossa Senhora das Alturas), Igreja de Ronchamp.



Pesquisa e texto por MariaNJardim

 


Nota: Respeitem este blog e o trabalho de pesquisa da sua autora. Se retirarem algo daqui não se esqueçam de citar a proveniencia da informação. Plágio é crime!


 

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