Quando em 1865 os primeiros portugueses se fixaram na Baía dos Tigres, ali não havia água, não havia nada, apenas areia e mais areia, um mar piscoso e um céu azul... Todo o resto era isolamento e solidão!
O abastecimento de água provinha de duas cacimbas que existiam no lado continental, mas a água era intragável a tal ponto que passou a ser utilizada apenas em limpezas e como último recurso, depois de fervida e filtrada, e assim sendo, era transportada em pipas através de barcos à vela, a partir de Moçâmedes e do rio Curoca, perto de Porto Alexandre. Assim descreveu Hermenegildo Capelo, no seu relatório, quando ali esteve, juntamente com Roberto Ivens, no ano de 1896, no decurso de uma expedição. Eram barcos de arrojada navegação sempre difícil e perigosa, e muita da água se perdia mo trajecto. Foi este vai-vem em busca de água que deu o nome ao "Bairro da Aguada" em Moçâmedes, Aguada como nome indica, porque era naquele bairro que os pescadores da Baía dos Tigres iam carregar os barris com água potável, e abastecer-se de frescos para em seguida regressarem à povoação.
Nos Tigres, a água reservada nas ditas pipas era racionada, e os habitantes obrigados a poupá-la religiosamente, e se entretanto ela se deteriorasse, o que acontecia com frequência, era posta a "arejar", isto é, era posta ao ar durante umas horas, em seguida fervida e passada por uma "sanga" para poder ser consumida, ou preparada para durar como reserva por mais algum tempo. A "sanga" tinha o condão de tornar a água fresquinha e mais agradável ao gosto. Todas as casas no distrito de Moçâmedes possuíam "sangas", feitas a partir de uma pedra que existia na região de Moçâmedes, que passou a ser chamada a "pedra de filtro", a mesma que tornou famosos os canteiros "quimbares" ou mbalis, criadores de esculturas tumulares de influência afro-cristã, que podiam ser vistas no chamado "cemitério dos pretos" da cidade de Moçâmedes, e noutros locais espalhados pelo distrito, como no cemitério de S.Nicolau onde se encontravam no tempo colonial esculturas do célebre canteiro Victor Jamba, empregado de João Duarte de Almeida, por este mandado a Lisboa para se especializar na referida arte cemiterial.
Na verdade, a vida dos homens do mar na Baía dos Tigres não era fácil, exigia enorme espírito de sacrifício e de abnegação a que os olhanenses, habituados à dureza da vida, souberam responder. Hermenegildo Capelo, quando esteve em Moçâmedes em 1884, com Roberto Ivens, seguindo a seguir para a Huíla, Cubango e Cuando, até à bacia do Zambeze. alcançando Quelimane (Moçambique), no ano seguinte, no seu Relatório refere que por essa altura na “ Baía dos Tígres” já existiam 13 pescarias, com 33 embarcações, onde trabalhavam 253 serviçais Que a maior parte dos proprietários que viviam em Porto Alexandre e em Moçâmedes, deixando para os serviçais os trabalhos da pesca, da salga e da seca do peixe. Referiu ainda que era de cerca de 1.133 quilogramas, no valor total de 68 000$00 réis, o peso do peixe exportado de Julho de 1895 a Setembro de 1896. Que existiam algumas casas de pau a pique, e um infecto barracão para armazenagem do pescado, e dispunham de 11 embarcações que descarregavam o peixe seco em Moçâmedes. E que já ali na mesma altura se encontrava estava instalada a autoridade marítima composta por um oficial, um sargento, e 10 soldados, a quem na altura foi fornecido um destilador, para obviar à falta de água potável, e que o oficial estava pessimamente alojado, embora existisse material para a construção de uma casa.
Na realidade a evolução da Baía dos Tigres, quer economicamente, quer em população, caminhava a passos lentos. A este respeito na Revista "Portugal em África, Revista Cientifica , volume 5", podemos encontrar num relato do encarregado pela "Companhia de Mossâmedes" sobre um estudo da parte meridional de Angola, durante os anos 1894-95, referências a uma travessia por terra, através de Porto Alexandre para a Baía dos Tigres, onde estavam estabelecidos apenas 7 pescadores que pescavam com sistema de redes, produziam muito, eram pescadores ricos. Aponta a razão de tão pouca gente que tinha a ver com a difícil navegação para aquela baía, devido ao vento sueste que frequentemente originava temporais.
Sanga
Desenho de uma "sanga", por Carlos Janeiro
Na verdade, a vida dos homens do mar na Baía dos Tigres não era fácil, exigia enorme espírito de sacrifício e de abnegação a que os olhanenses, habituados à dureza da vida, souberam responder. Hermenegildo Capelo, quando esteve em Moçâmedes em 1884, com Roberto Ivens, seguindo a seguir para a Huíla, Cubango e Cuando, até à bacia do Zambeze. alcançando Quelimane (Moçambique), no ano seguinte, no seu Relatório refere que por essa altura na “ Baía dos Tígres” já existiam 13 pescarias, com 33 embarcações, onde trabalhavam 253 serviçais Que a maior parte dos proprietários que viviam em Porto Alexandre e em Moçâmedes, deixando para os serviçais os trabalhos da pesca, da salga e da seca do peixe. Referiu ainda que era de cerca de 1.133 quilogramas, no valor total de 68 000$00 réis, o peso do peixe exportado de Julho de 1895 a Setembro de 1896. Que existiam algumas casas de pau a pique, e um infecto barracão para armazenagem do pescado, e dispunham de 11 embarcações que descarregavam o peixe seco em Moçâmedes. E que já ali na mesma altura se encontrava estava instalada a autoridade marítima composta por um oficial, um sargento, e 10 soldados, a quem na altura foi fornecido um destilador, para obviar à falta de água potável, e que o oficial estava pessimamente alojado, embora existisse material para a construção de uma casa.
Na realidade a evolução da Baía dos Tigres, quer economicamente, quer em população, caminhava a passos lentos. A este respeito na Revista "Portugal em África, Revista Cientifica , volume 5", podemos encontrar num relato do encarregado pela "Companhia de Mossâmedes" sobre um estudo da parte meridional de Angola, durante os anos 1894-95, referências a uma travessia por terra, através de Porto Alexandre para a Baía dos Tigres, onde estavam estabelecidos apenas 7 pescadores que pescavam com sistema de redes, produziam muito, eram pescadores ricos. Aponta a razão de tão pouca gente que tinha a ver com a difícil navegação para aquela baía, devido ao vento sueste que frequentemente originava temporais.
Embora de 1885 a 1915, como refere René Pélissier
, no sul de Angola, região do Cunene , o ambiente fosse e guerra, guerra o gentio
revoltado, contra as intromissões dos alemães do
sudoeste africano, os pescadores da Baía dos Tigres, na sua rotina do dia a dia, passaram ao lado do conflito, envolvidos na faina do mar. Suas vidas continuaram iguais, e sem alterações. A politica e os conflitos não era com eles. As armas dos algarvios eram as do trabalho de erguer o peixe do fundo do mar.
Em 1909 já a Baía dos Tigres passara a ter a visita mensal de um navio da Companhia Nacional de Navegação que ali ia levar água, que era paga pela população a preços muito além das suas possibilidades. Na praia, do lado da baía, ficava o depósito da água que era reabastecido pelos "Save", ou pelo "28 de Maio", a partir do Curoca ou de Moçâmedes. A água, como sempre, tinha que ser fervida e filtrada através das sangas como prevenção. O atraso destes navios chegava a tomar proporções catastróficas, uma vez que o precioso líquido tinha que ser racionado, com ração diária de umas poucas canecas distribuídas, para as pessoas não morrerem sede.
Em 1909 já a Baía dos Tigres passara a ter a visita mensal de um navio da Companhia Nacional de Navegação que ali ia levar água, que era paga pela população a preços muito além das suas possibilidades. Na praia, do lado da baía, ficava o depósito da água que era reabastecido pelos "Save", ou pelo "28 de Maio", a partir do Curoca ou de Moçâmedes. A água, como sempre, tinha que ser fervida e filtrada através das sangas como prevenção. O atraso destes navios chegava a tomar proporções catastróficas, uma vez que o precioso líquido tinha que ser racionado, com ração diária de umas poucas canecas distribuídas, para as pessoas não morrerem sede.
A dureza da vida na Baía dos Tigres era tal que os cães que ali existiam, em grande quantidade, ficaram célebres pelo modo como comiam e bebiam, na luta pela sobrevivência. Nadavam e pescavam de cerco e em matilha,
empurravam o peixe para terra. Posuiam membranas interdigitais, e bebiam
água passando de manhã cedo a língua suavemente por sobre a água
salgada, e retirando dela a fina camada de água doce que o cacimbo
deixava.
Assim decorreram anos até à década de 1920, sem que a situação se alterasse, continuando a população a
ter que poupar
religiosamente que continuava a chegar ali em barcos de navegação à vela, sempre de Moçâmedes e do Coroca. Água representa vida! Não se podia
perder uma gota sequer.
A fixação dos algarvios na Baía dos Tigres foi efectuada por sua conta e risco, e talvez mesmo não interessasse de início ao Governo português, investir em infra-estruturas naquelas paragens. Podia não ser lucrativo.
A fixação dos algarvios na Baía dos Tigres foi efectuada por sua conta e risco, e talvez mesmo não interessasse de início ao Governo português, investir em infra-estruturas naquelas paragens. Podia não ser lucrativo.
Com Norton de
Matos, desde 1921 a 1924, como alto Comissário , os Tigres beneficiaram da acção daquele governante, pelo
menos em parte, com a instalação de de um destilador de água
do mar que passou a produzir vinte e dois mil e quinhentos litros diários de
água doce. Não era grande abundância, mas era uma boa ajuda para
os nossos pescadores do Deserto, e sem os pesados encargos da água que vinha
de Moçâmedes e do Coroca. Embora a água destilada tivesse os seus inconvenientes
para a saúde, podia ser bebida, o que não
acontecia com a água das cacimbas do lado continental, embora esta chegasse a ser bebida por
auxiliares nativos, facilitada por chefes de posto, até que em 1931 um chefe mais enérgico pôs termo a essa desumana
discriminação.
Em 1929, o Estado mantinha em Angola um navio costeiro, o "Granja", que naquele ano foi vendido à Companhia Nacional de Navegação para continuar a navegar na costa de Angola, com o nome de "Save". No contrato da venda ficou desde logo estabelecido que o "Save", obrigatória e gratuitamente, tinha que fornecer água à população dos Tigres, uma vez por mês. Na praia do lado da baía ficava o depósito de água que era reabastecido pelos "Save" e depois também pelo "28 de Maio", a partir do Moçâmedes e do Coroca.
Em 1929, o Estado mantinha em Angola um navio costeiro, o "Granja", que naquele ano foi vendido à Companhia Nacional de Navegação para continuar a navegar na costa de Angola, com o nome de "Save". No contrato da venda ficou desde logo estabelecido que o "Save", obrigatória e gratuitamente, tinha que fornecer água à população dos Tigres, uma vez por mês. Na praia do lado da baía ficava o depósito de água que era reabastecido pelos "Save" e depois também pelo "28 de Maio", a partir do Moçâmedes e do Coroca.
A respeito do "Save" e em face do compromisso assumido pela entidade compradora, passaremos a transcrever uma passagem do livro intitulado "Menina do Deserto", de Manuela Cerqueira, nascida na Aldeia do Leão(1) que alí viveu sua infância, com seus pais:
Dia de Save, dia de Mãe-Água, dia de outro Mundo, dia de bom comer... Tinha vigilia, como as grandes festas, cheias de ritos de preparação: era a limpeza das praia, o embarque dos barris, a barrela dos soalhos, o banho suplementar, roupa saida das malas... (quem não vestia o melhor em dia de São Navio?).
O dia do "Save" era, pois, um dia diferente para as gentes dos Tigres, que aguardavam de pé firme na praia pela chegada do navio que transportava o precioso líquido de que necessitavam para viver, e trazia também mantimentos àquela gente isolada entre o mar e as dunas. Representava também o contacto mensal com gente vinda de outro mundo que lhes trazia correspondência e novidades. Mesmo com a visita mensal do "Save" o velho destilador de Norton de Matos, já desgastado e cheio de intermitências ocasionais, pela falta de lenha ou avarias, foi funcionando até 1935, acudindo aos atrasos dos fornecimentos daquele navio, quando havia reparações a fazer ou se atrasava no trajecto, por qualquer motivo. Como recordação do destilador ficou uma forja e vários ferros que tinham sido utilizados na purificação da água nesses tempos. O "Save" foi cumprindo a sua missão até aos anos 1940, tendo a partir daí o fornecimento de água passado a ser efectuado por outros navios costeiros ou de longo curso, ou ainda por navios de guerra portugueses que, quando necessário ali iam propositadamente levar a água.
A determinada altura a Baía dos Tigres passou a ter um batelão, o "Tejo", que servia de depósito para onde a água era transbordada. Era ali que os interessados iam encher os barris que os serviçais transportavam, rolando, para as habitações, onde a água permanecia nos mesmos, ou era mudada para recipientes apropriados. Um consumo doseado até novo fornecimento.
A partir dos anos 1950 antevia-se já o abastecimento à povoação da água vinda da foz do Cunene. O sonho das gentes da Baía dos Tigres estava prestes a tornar-se realidade. Com a entrada nessa década, o governo português acabou por se render à audácia daquela gente abnegada e disposta a muitos sacrifícios, muito trabalho e a privações extremas, e mandou edificar vários edifícios públicos que ajudaram a tornar a fixação humana. Eram edifícios alinhados de um lado e do outro da única rua cimentada, que servia também de pista de aviação, de entre os quais, o posto sanitário, a escola, a estação radio-telégrafo-postal, o hospital, a delegação marítima. E para que as areias das dunas , trazidas pelos ventos que não paravam de soprar não ficassem acumuladas cobrindo as construções, eram assentes sobre pilares de cimento em forma de palafita, o que conferia à Baía dos Tigres o ar da sua singularidade. Foi construída também uma Capela, a Capela de S. Martinho, cuja arquitectura imponente nos faz lembrar uma catedral. Era para a população dos Tigres a sentinela vigilante, guardadora e protectora, no interior da qual nenhum mal lhes podia acontecer.
A Baía dos Tigres em Março era formada por uma longa restinga de areia,
lançada quase na direcção Norte-Sul, paralela à costa, com cerca de 35
kms de comprimento, delimitando um braço de mar com 11 kms de largura
máxima (a norte). A restinga, muito baixa, não ia além de 3 a 4 metros
de altitude, enquanto, pelo contrário, o litoral que lhe fica em frente era
constituído por um maciço dunar que subia até 100-200 m, com mais de 10
kms de largura, e ultrapassava os 100 m a menos de 1 km do mar.
Em 1962, terminado que fora o período experimental do abastecimento de água à Baía dos Tigres a partir da foz do Cunene, após a empresa responsável ter feito a entrega das instalações aos Serviços de Obras Públicas de Angola, e a população ter finalmente visto correr pela primeira vez o precioso líquido nas torneiras das suas casas, uma alegria indescritível tomo conta da população. Afinal, já podiam beber à vontade uma água de superior qualidade. Já podiam cozinhar e lavar a sua roupa em condições, tomar o seu banho à vontade, e à vontade dar o banho aos seus filhos, mas , pura mmaldição, a água correu nas torneiras da Vila de S. Martinho apenas naquele ano de 1962... No dia 14 de Março de 1962, pouco depois de construído o sistema de captação de águas na Foz do Cunene, quis o cruel destino, mais uma vez castigar as esforçadas, sacrificadas e desafortunadas gentes da Baía dos Tigres, dificultando-lhes de novo a vida. Uma forte calema atirada de SW, bateu furiosamente na parte de fora do saco da restinga, com ondas de mais de dez metros de altura, e provocou a ruptura do istmo no ponto que ligava a povoação ao Continente, destruindo naquele ponto a conduta de fibrocimento (1) que conduzia a água através do Deserto, daí resultando o corte à população do fornecimento de água canalizada vinda do rio Cunene. Foi um espectáculo terrível. A Baía dos Tigres deixou de ser uma restinga, passou a ser uma Ilha, deixando ainda mais isoladas as suas isoladas gentes. A diminuta população assistiu impotente ao espectáculo, temerosa e sempre à espera que a própria ilha fosse tragada pelo Atlântico. Um fenómeno natural que se concluiu ser cíclico.
A verdade histórica confirma esse fenómeno periódico. No Mapa Mundi de 1623, de António Sanches, a "Baia dos Tigres" vem assinalada como uma restinga. Na Carta Geográfica da Costa Ocidental, desenhada em 1790 por Pinheiro Furtado, apresenta-se como uma ilha. Pedro Alexandrino visitou-a em 1839, a bordo da corveta Izabel Maria, e reconhece uma restinga. Já em 1846, nos seus Ensaios Estatísticos, Lopes de Lima refere outra vez em ilha. Em 1861, os primeiros pescadores algarvios que ali chegaram encontram uma restinga fechada. O projecto de canalização da água tinha incentivado os industriais de pesca dos Tigres à montagem de novas fábricas e à remodelação das antigas, e levado ao aumento da população.
Em 1962, terminado que fora o período experimental do abastecimento de água à Baía dos Tigres a partir da foz do Cunene, após a empresa responsável ter feito a entrega das instalações aos Serviços de Obras Públicas de Angola, e a população ter finalmente visto correr pela primeira vez o precioso líquido nas torneiras das suas casas, uma alegria indescritível tomo conta da população. Afinal, já podiam beber à vontade uma água de superior qualidade. Já podiam cozinhar e lavar a sua roupa em condições, tomar o seu banho à vontade, e à vontade dar o banho aos seus filhos, mas , pura mmaldição, a água correu nas torneiras da Vila de S. Martinho apenas naquele ano de 1962... No dia 14 de Março de 1962, pouco depois de construído o sistema de captação de águas na Foz do Cunene, quis o cruel destino, mais uma vez castigar as esforçadas, sacrificadas e desafortunadas gentes da Baía dos Tigres, dificultando-lhes de novo a vida. Uma forte calema atirada de SW, bateu furiosamente na parte de fora do saco da restinga, com ondas de mais de dez metros de altura, e provocou a ruptura do istmo no ponto que ligava a povoação ao Continente, destruindo naquele ponto a conduta de fibrocimento (1) que conduzia a água através do Deserto, daí resultando o corte à população do fornecimento de água canalizada vinda do rio Cunene. Foi um espectáculo terrível. A Baía dos Tigres deixou de ser uma restinga, passou a ser uma Ilha, deixando ainda mais isoladas as suas isoladas gentes. A diminuta população assistiu impotente ao espectáculo, temerosa e sempre à espera que a própria ilha fosse tragada pelo Atlântico. Um fenómeno natural que se concluiu ser cíclico.
A verdade histórica confirma esse fenómeno periódico. No Mapa Mundi de 1623, de António Sanches, a "Baia dos Tigres" vem assinalada como uma restinga. Na Carta Geográfica da Costa Ocidental, desenhada em 1790 por Pinheiro Furtado, apresenta-se como uma ilha. Pedro Alexandrino visitou-a em 1839, a bordo da corveta Izabel Maria, e reconhece uma restinga. Já em 1846, nos seus Ensaios Estatísticos, Lopes de Lima refere outra vez em ilha. Em 1861, os primeiros pescadores algarvios que ali chegaram encontram uma restinga fechada. O projecto de canalização da água tinha incentivado os industriais de pesca dos Tigres à montagem de novas fábricas e à remodelação das antigas, e levado ao aumento da população.
Após
esta calamidade, a autoridade foi levada a agir de imediato, e viu-se
obrigada a adquirir um rebocador que levava um batelão
cisterna até ao terminal da conduta, junto ao Continente, enchendo-o de
água que era bombeada para os depósitos existentes e distribuída à
população, seguindo as normas habituais. A água continuava a chegar
através do Deserto em boas condições, situação que facilitava o
racionamento, que apesar de tudo passou a acontecer sem necessidade das
antigas
restrições. Apenas se verificou a redução do consumo, através do
controle de gastos. Enquanto os técnicos procuravam resolver o problema,
facto que levou 8 anos, foram construídos 3 depósitos, dois subterrâneos
e
um elevado, igualmente abastecidos pelo batelão cisterna, cuja
capacidade de armazenamento já permitia algum desafogo.
SEGUE UM TEXTO
QUE É UM TESTEMUNHO VIVO DE UM VELHO MOÇAMEDENSE QUE VEIO FALECER EM TERRAS DE PORTUGAL
(ALGARVE), EM 1991, ARMINDO GONÇALVES BENTO:
Este
texto foi escrito pela sua própria mão, já depois do nosso pai ter
sofrido uma trombose, razão pela qual, devido ao seu tamanho e
pormenores, foi necessário um esforço muito grande de memória e muita
força de vontade para o concluir. Por isso, o recordamos sempre como uma
pessoa inteligente (e culta apesar da sua pouca instrução), dinâmica e
persistente.
O
nosso pai veio a falecer com 78 anos de idade, no dia 25 de Setembro de
1991, ou seja, 7 dias depois de ser atropelado por um camião do lixo,
numa passadeira para peões, perto do nosso bar da praia, em Quarteira.
Veio a provar-se em Tribunal que o condutor da referida viatura se
encontrava alcoolizado no momento do acidente. Mas nós não quisemos
complicar a vida desse homem em Tribunal, visto que era um pobre coitado
e nada mais interessava, agora que o nosso pai estava morto. A Câmara
pagou uma quantia ridícula como indemnização pela sua morte. Esta
transcrição serve apenas como recordação para a família e amigos mais
chegados, daquele que foi, tal qual o seu pai (nosso avô) um trabalhador
incansável, um bom marido, bom pai e grande amigo.
Os filhos

A publicação destas memórias só foi possível devido à prestimosa colaboração de Albano Júnior, dirigente da ADIMO – Amigos do Distrito de Moçamedes, que nos facultou o acesso ao texto que passamos a publicar.
Os nossos penhorados agradecimentos.
Admário Costa Lindo "
Os Bento constavam em 1975, de uma galeria de nomes exposta no novo
edifício do Grémio dos Industrias de Pesca de Moçâmedes, inaugurado em 1957, na
Rua da Praia do Bonfim, em frente ao
"Espelho e Água" e gazelas. Ou seja, figuravam nessa galeria os nomes de João Gonçalves Bento e Joaquim Bento, com 47 anos de
pesca,
Manuel Nunes de Carvalho, com 52 anos de pesca, António Mestre, com 40
anos de pesca, Domingos Martins Nunes, com 46 anos de pesca, Tomás Ribeiro, com
52 anos de pesca, António Santos Paulo, com 39 anos de pesca, António
Viegas Seixal, com 48 anos de pesca e Manuel Baptista Lisboa, com 44
anos de pesca.
Continuemos...
Quando em 1975, às
vésperas da independência, a população de S. Martinho dos Tigres teve que
abandonar a sua Ilha, ante o fogo cruzado dos
movimentos de libertação que alastrava na região de Moçâmedes, em ambiente de total
anarquia, e com a administração portuguesa em retirada, antevendo-se já a
internacionalização do conflito, a situação não se tinha alterado no respeitante ao fornecimento de água. Verificaram-se contudo alguns melhoramentos, entre os quais um pequeno avião passou a fazer carreira para a Baía dos Tigres, e trazia também a carne fresca para a população. E quando o avião não podia aterrar, a carne que o talho lhes mandava andava para lá e
para cá, e muitas vezes quando chegava aos destinatários já era destinada aos cães.
Mas mesmo assim, como dizia uma jovem, fora ali que vivera 2 anos felizes da sua meninice, com as suas brincadeiras e as suas liberdades...
Quem hoje visita a “Baía dos Tigres”, um dos mais desoladores lugares da terra, poderá confrontar-se com toda uma série de edificações abandonadas que ali existiram na época colonial, algumas das quais assentes em pilares, em forma de palafita, para deixarem passar as areias das dunas movidas por ventos fustigantes que se assim não fosse tudo cobririam à sua passagem.
Por lá continuam o posto sanitário, a escola, a estação
rádio-telégrafo-postal, o hospital, a delegação marítima, e a imponente
Capela de São Martinho, alinhando-se
de um lado e do outro de uma única rua
cimentada, que servia também de pista de aviação, verdadeiros
monumentos históricos que persistem em ficar de pé, resistindo ao tempo e
à
degradação, a lembrar um quadro surrealista!
Esta é uma boa parte do drama de vida em que sempre viveu a população dos Tigres, e do quanto podem a abnegação e a resistência humanas.
Será que um dia aos Tigres voltará a presença humana? Não me parece!
Ficam estas recordações.
Será que um dia aos Tigres voltará a presença humana? Não me parece!
Ficam estas recordações.
Pesquisa e texto da autoria de MariaNJardim
(1) Chama-se a atenção para este sistema de captação de água a partir da foz do Cunene. Hoje sabe-se quão perigoso é o fibrocimento para a saúde ( algo cancerígeno), sobretudo aquele que naquele tempo tinha o amianto na sua composição.
Bibliografia consultada:
-Moreira, Cecilio. "Baía dos Tigres"
-"Jornal O Namibe", Moçâmedes, 23.09.1972
- B. O. II série, n.19, de 15.05.1929.
-Cerqueira, Maria Manuela . "Menina do Deserto, Lisboa. Agência Geral do Ultramar, 1969.
-Districto de Mossâmedes, Explorações e Viagens por J.Pereira do Nascimento 1888 a 1895
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
(1) Numa separata do autor Cecilio Moreira, n.6 da
Revista Africana. Univ Portucalense, Porto, 1990, com o título "Das
Pedras de Filtro à Arte Funerária dos Quimbares no Sul de Angola", encontrei o desenho de uma "sanga" da autoria de Carlos Janeiro, destinada a filtrar a água para beber, que existia em
muitas casas no distrito de Moçâmedes. A
velha "sanga", que nas palavras de Cecilio Moreira, deixou
saudades a quem mourejava pelas plagas africanas de Angola... Não só
filtrava a água, como a tornava muito fresca e dava-lhe um gostinho
muito agradável. Eram construidas por artistas canteiros do Distrito de Moçâmedes
(quimbares), que utilizavam para o efeito um bloco de pedra de forma
de cubo ou de paralelipípedo, (pedra de filtro de Moçâmedes, feita de um arenito
existente na região), que desbastavam com maceto de ferro e
cinzel até ganharem a forma interior e exterior pretendida. Na cavidade
cónica ficava o depósito de água a ser filtrada (ia de 5 a 25 litros,
tudo dependia do tamanho da "sanga"). A água infiltrava-se através dos
poros da pedra e corria para dentro de um pote de barro. A utilização
destes filtros era possível porque assentavam sobre um armário de
madeira que tinha uma porta para o interior, onde era colocado um
recipiente para aparar a água que para ali caia muito lentamente. Esse
armário podiam ser de vários feitios, mais simples ou mais elaborados, e
também servia de decoração. Era ao conjunto da pedra e armação de madeira que a
suportava, que se dava o nome de "sanga". Eram, regra geral, colocados em varandas, e
escolhia-se o lado dos ventos predominantes para que a água se
mantivesse o mais fresquinha possível. Lembro-me que com o rodar o tempo
a parte de baixo e exterior da pedra cobria-se de avencas. Para se
fazer uma ideia do apreço que se tinha por estas sangas, em 1857 e
1858, menos de 10 anos após a fundação, segundo um apontamento do médico
Dr Lapa e Faro, foram exportadas 150 pedras de filtro pela Alfândega
de Moçâmedes, a 3 mil e 5 mil reis por unidade. Apontamentos existem que
referem terem sido bons clientes desta pedra, na 2ª metade do sec XIX, a
Ilha de Santa Helena,a Costa Oriental, o Congo belga, o Congo francês,
S. Tomé, e o Gabão. A pedra de filtro iria dar lugar, também, à célebre
arte funerária Mbari ou Mbali, arte do povo quimbar.
...............
NOTA DA AUTORA
Este texto pode ser republicado desde que sejam respeitados os "direitos de autor" fazendo referência ao mesmo, remetendo para o link deste blogue . Caso não sejam respeitados os direitos de autor, é considerado Plágio.
https://www.msn.com/pt-pt/video/newsafrica/reportagem-no-sul-de-angola-a-ba%c3%ada-dos-tigres-%c3%a9-uma-aldeia-fantasma-com-administrador-ausente-editado/vi-AAwdpSn?ocid=sf
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NOTA DA AUTORA
Este texto pode ser republicado desde que sejam respeitados os "direitos de autor" fazendo referência ao mesmo, remetendo para o link deste blogue . Caso não sejam respeitados os direitos de autor, é considerado Plágio.
https://www.msn.com/pt-pt/video/newsafrica/reportagem-no-sul-de-angola-a-ba%c3%ada-dos-tigres-%c3%a9-uma-aldeia-fantasma-com-administrador-ausente-editado/vi-AAwdpSn?ocid=sf









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