llmo e Exm.º Snr.:
As divisões politicas da nossa Pátria me obrigaram a sahir
d’ellla, e a vir em terra estranha procurar subsistência por meio do trabalho.
Não me posso absolutamente queixar da sorte por ter vindo de Pernambuco, onde
resido há nove anos, e tenho vivido, e tenho vivido, senão bem, ao menos
soffrivelmente; mas já há tempos
desejava sahir em razão de observar que se promovia guerra acintosa aos
Portugueses, oferecendo-os, como cavallos de batalha, os partidos, em que se
acha dividida esta Província, para chegarem aos seus fins. Bem via eu o perigo
que corriam todos os Portugueses, os quais pela maior parte faziam chamar sobre sí as
vistas ambiciosas d’aquelles que nada possuem, porque não empregam o trabalho e
a indústria, fontes seguras da riqueza, mas os horrorosos acontecimentos do
dia 26 e 28 do mez passado me fizeram tomar a resolução de sahir sem demora
d’uma terra, em que na presença das auctoridades e da tropa se arrombam a
machados as portas das habitações, se arrancam homens inermes e sem crimes do
seio das suas famílias, e se assassinam a pancadas, chuçadas, golpes, facadas e
baionetadas, arrastando seus cadáveres ensanguentados pelas ruas,
roubando-se-lhes os seus haveres, sem que se dê uma outra razão sino o de terem
o crime de merecerem em Portugal, o nome que por despreso denominaram marinheiros. Os
gritos que retumbaram do meio das turbas que pelas nove horas da manhã do dia
28 começaram a inundar um dos bairros d’esta cidade, eram de –mata
marinheiros—não escape um só--. A perseguição se predispunha pelas folhas,
planos infernaes se urdiam em nocturnos clubes, contra os Portugueses, e si não
acontecesse uma rixa entre um estudante do lyceo e um caixeiro Portuguêz, o
qual depois de dar uma bengalada atirou aquelle com um peso de 4 libras, não
abortaria a perseguição, que se foi medonha, e mais que muito demonstrou quam bem
dispostos estavam os ânimos contra nós, seria ainda mais temível, si aparecesse
com a canalha regularmente armada: devo porem dizer, em abono da verdade, que,
com poucas excepções, o grande numero de turbulentos e perpetradores dos
horrendos crimes era gentalha e escravatura.
Tinha pois resolvido sahir com brevidade, mas deteve-me a
consideração de que podia fazer um serviço aos meus Patrícios e à minha Pátria,
procurando um meio de fazer sahir d’aqui um grande numero de Portugueses para
as nossas possessões da Azia ou da Africa. D’accordo com o Consul, o Snr.
Joaquim Baptista Moreira, que não fez mais em favor dos seus, porque
desgraçadamente as nossas divisões, nos tem reduzido alem de pequenos a zero: a
não termos o menor respeito; e andarmos pelo mundo, como judeos, que sofrem
toda a quallidade de injurias, sem ninguém tomar d’ella satisfação, lembrei-me
de fazer publicar, que representava ao Governo Portuguez, a nossa situação, e
que se pediam providencias, entre as quaes o enviar transportes para serem
conduzidos a um ponto das nossas possessões da Azia ou da Africa, como colonias,
aquelles que ahi quisessem estabelecer-se. Todos ao principio repelliam esta
idea, opondo a insalubridade do clima, argumentando com o facto de que já
d’este império havia sahido para Africa no tempo da Administração do Exm.º Sá
da Bandeira, um grande número a convite
dos Consules por ordem do Governo, e que todos haviam sido victimas de
moléstias, que alli grassa. . Com geito se há rebatido a tal oposição, e hoje
vejo os ânimos inclinados tendo muitos dado já o seu nome como prontos a seguir
para qualquer ponto que o Governo determine, uma vez que envie com urgência
transporte, e empregue medidas de
interesse e comodidade que chamem e atraião os colonizadores: e julgo de grande
utilidade aproveitar a ocasiam, pois que sendo estes bem sucedidos, para o que
deverám tomar medidas, não só irám outros d’aqui e de todo o imperio e com
fundos, mas se mudara a mania de só virem os Portugueses procurar fortuna no
Brasil.
Dar-se-ha direcção a essa grande emigração anual para as
nossas possessões, e virám ellas em poucos anos a tornar-se proveitosas a
metrópole, e a entreter um commercio nacional que tornara a elevar a nossa
dechaida marinha.
O Snr. Consul remettera por copia a redacção dos que já
deram o seu nome, os quaes sam o dos residentes na cidade, a quem
particularmente se comunicou a medida que hia adoptar-se por quanto se julgou
politico não dar porosa publicidade pellas folhas.
Eu que livre de orgulho afirmo poder seguir para onde me
conviesse, sacrifiquei-me a esperar, e a ir compartilhar dos trabalhos e
revezes que acompanham o estabelecimento de uma colonia, só porque vejo que
comigo acarreto algum numero, mormente dos mais uteis, porque sam os que
entendem do fabrico dos assucares, e plantações das canas, e mesmo do tabaco e
café, pois que vivo em relação com muitos engenhos, tengo neles arranjado
vários e me hei dedicado a conhecer como fundamento o modo mais profícuo de
fazer o assucar, e de agricultar a cana com vantagem, segundo a natureza do
terreno, e a tirar da matéria prima toda a possível utilidade, mormente em as
distilações, que bem dirigidas sam de sumo interesse.
Nas considerações que a esta acompanham, não só explico a
razão porque digo que os que entendem dos trabalhos agrícolas sam os mais
uteis, mas exponho alguns alvitres que me ocurreram. V. Ex.ª me desculpara na
certeza de que o não faço, porque não seja persuadido do seu profundo saber;
mas porque muitas veses uma lembrança de um homem medíocre faz produzir medidas
acertadas.
Approveito esta ocasião para offerecer a V. Ex.ª o meu
diminuto prestimo.
Deos Guarde a V. Ex-ª por muitos anos – Recife de
Pernambuco, 13 de Julho de 1848.
Lllmo e Exm.º Snr. Ministro e Secretario d´Estado dos
Negocios da Marinha e Ultramar da Nação
Portuguesa.
Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, cidadão
portuguez.
À margem: N.º 582 – A 848 / 5 8.º s
(1.ª suplica que veio dos Portugueses em Pernambuco).
(A lapis está a seguinte notação): Approvado este plano no
seu ponto essencial em Concelho de Ministros no dia 30 d’Abril de 1848
redigir-se-há uma série de Instruções que serão cometidas conjuntamente ao
Consul, e ao proponente no sentido que abaixo vai notado.
Convem principiar por lhes declarar que se ordenou ao
Governador Geral de Angola ( e eu direi verbalmente os motivos desta
preferência que é condicional) que pozesse à disposição da Colonia com as
formalidades da Lei um ou mais treactos de terreno bem situado e salibre, e a
mais próprias a produzir os géneros a cuja cultura vai acostumado segundo esta
exposição.
N.B.—Seguem as notas no papel das considerações.
CONSIDERAÇÕES
Portuguezes mais habilitados pela sciencia do que eu, teem
de há muito clamado contra o desleixo e a indiferença, com qua a nossa
Administração hãm olhado para as nossas possessões. Temos na Azia e na Africa
uma superfície de quatro cenras e settenta e tres mil milhas, donde podíamos
tirar innumeras vantagês, e que so nos acarretam despezas, e fornecem provas da
nossa incúria e ignorância
Ninguem há ahi que não saiba que a falta de braços
inteligentes é a causa primaria de nenhuma vitalidade

Sem comentários:
Enviar um comentário