Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












domingo, 12 de agosto de 2007

Pioneiros da colonização de Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe, Angola): João Duarte de Almeida, Amélia Duarte de Almeida. Alguma genealogia.

João Duarte de Almeida

João Duarte d'Almeida
 

Amélia Josefina Duarte de Almeida quando era mais jovem


João Duarte de Almeida: Genealogia


João Duarte de Almeida,  natural de Midões, (Beira Baixa - Portugal), onde nasceu em 26 de Março de 1822, era com mais 4 irmãos, filho de João Duarte de Almeida, bacharel em medicina, natural de Castelo Branco, Beira Baixa,  e de D. Ana Emília Duarte de Almeida.  Ou seja, filho de D. Ana Emília Brandão, * Midões, prima co-irmã do célebre João Brandão, político caído em desgraça, conforme vem descrito em GeneallNet.

João Duarte de Almeida casou com D. Amélia Josefina da Costa, filha de um seu companheiro de colonização, José Joaquim da Costa, chefe do segundo agrupamento de colonos ido de Pernambuco para Moçâmedes em 1850, e tiveram 6 filhos: Alfredo, Amélia, Laurentino, Adelaide, Albertina e Elisa Duarte de Almeida. Tinha como irmãos Miguel Duarte de Almeida, e Luís Castelino Duarte de Almeida, que como acima referido, também foram para Moçâmedes.

João Duarte de Almeida era órfão de pai, quando muito cedo, em 1838, com mais 4 (?) irmãos menores, dos quais 3 varões, resolveu partir para o Brasil em busca de fortuna, onde viveu em Pernambuco, tendo viajado para Angola, e se fixado primeiro em Benguela, em seguida em Moçâmedes, indo ao encontro da 1ª colónia de emigrantes chefiada por Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro, ali chegada na barca "Tentativa Feliz",para dar inicio a povoamento da região.

Esta informação está contida no livro "Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro, fundador de Moçâmedes", escrito pelo padre José Vicente (Gil Duarte), ou seja, quando Bernardino chegou a Moçâmedes já se encontrava alí (no distrito), João Duarte de Almeida, "dedicado à indústria de charqueação e da colheita de urzela".


Em Moçâmedes Duarte de Almeida estabeleceu-se com duas fazendas agrícolas e onde se tornou um grande produtor de algodão e de cana-de-açúcar nas suas fazendas «S. João do Norte» e «S. João do Sul», no Coroca, em Porto Alexandre. Há referências que em 1859 era proprietário de três fazendas, em vias de desenvolvimento, uma, situada na Várzea dos Casados, outra, em S. Nicolau (1) e a terceira no Coroca. E já no decénio de 1849-1859 se dedicava, no distrito, a outros ramos de actividade, como o da indústria de charqueação para além da urzela. Também há referências que na margem esquerda do rio Bero (Varzea dos Casados?),  o 1º colono que aí se instalou foi  João Duarte de Almeida,  tendo mandado construir uma vala para aproveitamento da água do rio, ao longo do qual instalou comportas que forneciam a água necessária ao regadio das suas culturas agrícolas.

Aliás, no princípio da década de 1860, 10 anos após a chegada dos primeiros colonos, o distrito de Moçâmedes possuía 11 fazendas onde se cultivava algodão,   empregando entre trabalhadores  escravos e libertos o total de 350, a maior das quais pertencia a João Duarte de Almeida. A produção anual, nessa época, calculava-se em 1780 arrobas de algodão. Em 1890, João Duarte de Almeida possuía o maior empreendimento agrícola da Colónia de Angola, com 1300 hectares de terreno cultivados e com 400 serviçais a trabalharem para si. Os seus esforços tiveram notável eficiência, cabendo-lhe, por isso, a justa reputação de maior cultivador de algodão, cultivador de cana de açúcar para aguardente, e de activo descobridor da "almeidina", um produto com uma boa percentagem de  borracha, a partir de um suco leitoso, extraído por meio de incisões no tronco da caçoneira Euphorbea Thirucale (in Relatório da Alfandega de Benguela, relativa ao ano de 1915, pág 96, José Napoleão do Sacramento e Sousa, Angola). (1)  Duarte de Almeida descobriu-o em 1883, desenvolveu-o e comercializou-o com êxito. Foi introduzido no mercado europeu por Edwards Brothers de Liverpool  (correspondente). Duarte de Almeida e Alves de Bastos, eram à época os dois homens mais ricos da colónia de Angola. 


O distrito de Moçâmedes possuía uma rica flora nas terras humosas das margens do Bero e do Giraúl: leguminosas, figos roxos, variadas árvores de fruto, videiras, oliveiras, tamarindeiros, goiabeiras, tangerineiras, mulembas ou figueiras, etc. Era contudo nas margens do rio São Nicolau, especiamente na margem esquerda, que se cultivaram as melhores árvores de fruto de todo o sul do distrito.  Na margem esquerda cultivavam-se mamoeiros, diospiros, bananeiras, nespera-cereja-dendém,  palmeira de óleo palma, etc, etc. A razão é que na margem esquerda, dada a inclinação do terreno e a presença de uma lage a cerca 5 km, há curso de água permanente, enquanto à direita, apenas por infiltração. Na margem direita, foi necessário a Serafim Nunes de Figueiredo, accionista da "Companhia de Mossâmedes", proprietária da fazenda, abrir uns quantos poços para obter água que entretanto desaparecia, tendo que a aguardar de novo, que, por infiltração, as águas voltassem a ter o nível estático dos poços. Também a terramargem direita necessitava de mais qualidade de matéria orgânica e adubos químicos, e até os próprios animais diferenciavam o seu aspecto, porquanto nas margens esquerdas os corvos eram totalmente negros e menos brilhantes, e os da margem direita possuiam uma plumagem negra, luzidia e com uma gola branca no pescoço. Mesmo as rolas e piriquitos tinham aspecto, cor e tamanho diferentes. Estes pormenores vêm descritos no livro Memórias de Angra do Negro- Moçâmedes, de António A. M. Cristão.

Iremos abordar em seguida, uma outra faceta da vida de João Duarte de Almeida, esta ligada a aspectos de ordem cultural, que importa reter. O Cemitério de São Nicolau, de existência intimamente ligada à fazenda de S. João do Norte de que João  Duarte  de Almeida era proprietário, é, depois do Cemitério indígena de Moçâmedes, um dos locais mais interessantes para o estudo da arte Mbali ou Mbari, a arte tumular do povo "quimbar", sobretudo da obra de um dos mais afamados canteiros negros – Victor Jamba, escravo mandado especializar-se em Lisboa em estelas funerárias.

A arte Mbali ou Mbari, invulgar em África,   arte funerária do povo africano aportuguesado do distrito de Moçâmedes, o povo "quimbar", é referida por Gilberto Freyre como um caso de cultura afro-cristã, gerada em consequência do contacto cultural que se estabeleceu após a ocupação efectiva do Distrito, em 1849 e em 1850, entre os  colonos luso-brasileiros e a mão-de-obra negra. Era já, pois, uma cultura de fusão. Trata-se de uma arte que se traduz em cruzetas de pedra de filtro, ou pedra sabão, mas também em  madeira ou cimento armado trabalhados, que eram colocadas nas sepulturas um ano após a óbito, por ocasião da "festa da cruzeta", à qual  era atribuída a tríplice função de propiciação do espírito do morto, sua identificação e veneração.  Os canteiros inseriam nas cruzetas, trabalhados em relevo que descreviam o que as pessoas foram em vida, o que faziam, como eram fisicamente, os seus maiores interesses, acontecimentos marcantes, através da representação dos utensílios profissionais dos falecidos ou outros símbolos identificadores,  como a "mão cortada" (em representação dos manetas); o "cachimbo de cangonha" (em representação dos fumadores); "o leão"  (para os caçadores); "a bola"  (para o futebolista), e outros símbolos como "o chicote", "a palmatória", "o cajado do capitão", "a cobra do que foi mordido", o oficio, etc...  Infelizmente as historias que aí se contam são frágeis face às chuvas e ventos fortes e muitas cruzetas acabavam partidas. O que ficou a caracterizar a maior parte das esculturas de S. Nicolau  foi o facto de apresentarem uma acentuada europeização das feições, cabelos e trajos, o que se deve ao facto de Victor Jamba, o canteiro da região, ter-se deslocado a Lisboa, a mando de seu patrão, João Duarte de Almeida, para se especializar, tendo  a sua arte adquirido características europeizadas.  Da sua autoria, são as estelas do "túmulo dos leõezinhos", as que representam um tractorista, um tanoeiro, etc.. Sendo o canteiro mais célebre e mais perfeito,  Victor Jamba também foi o mais convencional,  se comparado com outros canteiros que imprimiram nos seus trabalhos um alto cunho de originalidade. A arte Mbali ou Mbari,  de rara expressão em África, tem no cemitério de S. Nicolau um dos seus melhores documentos que importa a todo o custo preservar.


João Duarte de Almeida concorreu a várias exposições agrícolas e industriais (de Paris, de Antuérpia, do Porto, etc), sendo-lhe conferidas medalhas de ouro pela boa apresentação dos seus produtos. Foi testemunha presencial, na sua qualidade de negociante e de proprietário, juntamente com o Dr. João Cabral Pereira Lapa, Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro (chefe da  1ª colónia ida de Pernambuco na Barca Tentativa Feliz, em 1849) e José Joaquim da Costa (chefe da 2ª colónia ida de Pernambudo na Barca Bracarense e chegada a Moçâmedes em 1850), da cerimonia da Escritura de Promessa e Voto , o acto solene do reconhecimento, manifestado pelos antigos colonos, na Escritura de Promessa e Voto, de 4 de Agosto de 1859, para que em todos os anos e no dia quatro de Agosto, se celebrasse, na Igreja Matriz de Moçâmedes, uma missa rezada e cantada com "Te Deum Laudamus" .  Era agraciado com as comendas das "Ordens de Cristo" e de "Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa". Nos cargos de juiz substituto e de presidente da Câmara Municipal, Duarte de Almeida muito ajudou os  colonos. 

Faleceu a 9 de Julho de 1898. Repousa como outros portugueses que se transferiram na primeira metade do século XIX, de Pernambuco para Moçâmedes,sob artístico mausoléu «aristocrático» de estilo luso-católico,  que ainda hoje se pode ver no Cemitério da cidade, apesar do estado de abandono a que aquele Cemitério, que faz parte integrante do património cultural e histórico do Namibe, tem sido votado. 



                        
 

    Mausoléu da esposa de  João  Duarte  de Almeida, Amélia Josefina da Costa Duarte de Almeida, filha do chefe da 2ª colónia


Pesquisa e texto de MariaNJardim



Em tempo: Seguem algumas informações sobre esses dois produtos comerciáveis e naturais que aliviaram bastante a  vida dos angolanos, e que em Moçâmedes foram explorados por Duarte d'Almeida: urzela e goma copal. A urzela é um liquen que medra nas pedras, do qual se obtem uma tinta azul arroxeada  de forte concentração usada em carimbos e cópias tornando-as impossíveis de falsificação. Existe em rochas à beira mar. Cabo Verde foi um grande produtor de urzela. A goma copal é uma resina especial mas as savanas oferecem outras resinas, de várias densidades e consistências.. Os produtos sintetizados vibraram-lhes um duro golpe.

                                                    
Costuma dizer-se que Angola não medrava porque foi sempre estrangulada pela Metrópole que nunca lhe conferiu a mínima autonomia. Eis o que escreveu Carlos Pacheco  no livro “Angola, um gigante com pés de barro” a propósito da urzela: O governador Xavier Bressane Leite  por ter permitido a exportação deste género para portos estrangeiros recebeu uma advertência do ministro da Marinha e Ultramar que lhe comunicou a sua desaprovação por tal concessão, ordenando que proibisse a exportação e remetesse para Lisboa o produto dos direitos cobrados. 

No mínimo, hilariante! Bressane Leite governou de 1842 e 1843. Morreu em Luanda.

Bibliografia consultada:
Manuel Júlio de Mendonça Torres  «Moçâmedes», 1º volume datado 1954
Exploração Geográfica e mineralógica do Distrito de Mossâmedes, 1894-1895" por J. Pereira do Nascimento, Médico da Armada Real.
Ver também: Os primeiros produtores na Exposição do Porto:
http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2010_03_24_archive.html


VER AQUI 
OU AQUI


Em GeneallNet encontrei as seguintes referencias que passo a transcrever: 

"Em relação aos Duartes de Almeida, de Moçâmedes, penso não errar em supô-los descendentes de
I – Bento Duarte de Almeida, de Mangualde, e de D. Antónia Rita, da Várzea de Candosa, onde residiram e onde nasceu o filho:
II – Dr. João Duarte de Almeida (Borges Belmiro Castelo Branco), médico em Mangualde, fidalgo de antiga linhagem (cfr. António Duarte de Almeida Veiga (seu neto), «Midões e o seu Velho Município», e J. M. Dias Ferrão, «João Brandão») cc (Midões 5 6 1821) D. Ana Emília Brandão, * Midões (prima co-irmã do célebre João Brandão, político caído em desgraça). 

Refere também uma escritora,  irmã mais nova de Duarte de Almeida

O Dr. João Duarte de Almeida faleceu cedo, deixando 5 filhos menores, dos quais os 3 varões que foram para Moçâmedes:
 
(III)  – João Duarte de Almeida * Midões 26 3 1822 + em Moçâmedes. Órfão de pai, partiu para o Brasil em 1838 em busca de fortuna. Daí passou, pouco depois, a Angola, acompanhando Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro, fundador da cidade de Moçâmedes. Foi grande produtor de algodão e cana-de-açúcar nas suas fazendas «S. João do Norte» e «S. João do Sul». Foi também armador, e descobriu uma borracha, por si denominada «Almedina», que desenvolveu e comercializou com êxito.

"...Presumo que os Duartes de Almeida, de Moçâmedes, sejam todos descendentes dos 3 irmãos de Midões (ou Mangualde). Cumprimentos, José Caldeira (in Genea)

"...Existe em Genea alguns elementos sobre outros Duartes de Almeida "... Edgard Duarte de Almeida, nascido em Moçâmedes, em 28.10.1903. Faria mais tarde em Lisboa o Curso de Arquitectura na Antiga Escola de Belas Artes e, segundo a GEPB, também teve uma carreira com algum relevo na época como artísta lírico, baixo, actuando no Teatro Nacional de São Carlos e noutros locais.

"..Eu já sabia entretanto da existência de uns nossos familiares de Moçâmedes, os Duarte de Almeida, mulatos. Dois deles constam da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, o pintor e ilustrador Álvaro de Figueiredo Duarte de Almeida (vol.v 9. págs. 322 e 323, vol.39 ( apêndice) pág. 494 e vol. 4 1ª actualização, pág. 260. Nasceu em M. a 20.01.1909, foi professor dos Cursos de Desenho da Sociedade Nacinal de Belas Artes. Foi o ilustrador da História da Tauromaquia, uma edição de luxo em dois grossos volumes, dirigida por Jaime Duarte de Almeida, que existe na casa do meu já falelecido avô, de quem além de primo era amigo.Tinha duas irmãs, que eu cheguei a conhecer , que tinham uma casa em Ranholas , Sintra , uma das quais também consta da dita Enciclopédia, cantora lírica, Maria Amélia Duarte de Almeida n. Moçamedes 26.08.1900 e + Lisboa, a 15.03.1979.

"... Olívia Simões Freire de Figueiredo, casada com um Eugénio Duarte de Almeida que tiveram uma filha Maria Adelaide Duarte de Almeida, n. em Moçâmedes a 19.11.1919 , casada e com geração, de quem nunca tinha ouvido falar. Terá alguma ligação com os Freires de Figueiredo? ass Luís Piçarra in GeneallNet

Esses Duartes de Almeida eram primos do meu avô, embora como disse, ignore como se establece a relação, mas julgo ser anterior à sua ida para Angola.
Os que eu refiro , tal como Maria Amélia, Álvaro , Edgard, já pertencem a uma geração nascida em Moçâmedes.

"...Pessoalmente só conheci essa prima Maria Amélia D.A. e a irmã ambas filhas de um casamento misto.
Quanto ao Álvaro Duarte de Almeida, também lá nascido, que iustrou a História da Tauromaquia , pintor e colaborador como ilustrador de revistas tauromáquicas nos anos 50 , era primo do meu avô, mas não estou certo se era irmão ou primo ou primos de Maria Amélia... ass. Luís Piçarra in GeneaNet.





Algumas fotos antigas de familiares do ramo Duarte de Almeida 








 




Miguel Duarte d'Almeida e Amélia Figueiredo Duarte d'Almeida

100º aniversário de Amélia Adelaide. Com as filhas em 1969.

(emendo 1899-1973)
 

 
 
Armando Duarte d' Almeida, esposa e filhos


.
 

Nota: recebi esta mensagem que deixo aqui, uma vez que me é impossível atender à rectificação solicitada por não poder fazer alterações no quadro acima,  que não foi feito por mim, mas que foi em tempos colocado na Net por um familiar de João Duarte d'Almeida:

"....Olá, boa tarde! O meu nome é Manuela Duarte d'Almeida Guerreiro e sou trisneta de , filho de João e de Anna Emilia Duarte d'Almeida. Gostaria que corrigissem alguns dados, uma vez que o meu trisavô estava casado ( naturalmente com a minha trisavó) MARIA AMÁLIA de OLIVEIRA LOUREIRO e não como escrito com Ana Máxima da Costa. Nunca ouvi falar dum filho José!!!! A irmã mais nova do meu trisavô chamava-se EMILIA e não Maria Cecilia, como escrito. A minha bisavó Constança Bensabat Lapa Valente- Duarte d'Almeida ( do1. casamento) nasceu, segundo certidão de baptismo, a 06.09.1874. Melhores Cumprimentos, Manuela em Pioneiros da colonização de Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe, Angola): João Duarte de Almeida, Amélia Duarte de Almeida. Alguma genealogia


sábado, 11 de agosto de 2007

O Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro, facultativo (Médico) em Mossãmedes (Angola) em meados do século XIX

 
O major-médico Dr. JOÃO CABRAL PEREIRA LAPA E FARO 
 

Na obra "Quarenta e Cinco Dias em Angola", de autor anónimo, publicada em 1862, podemos ler as seguintes referências ao Dr. João Cabral Pereira Lapa e Faro: 

...Sigamos para a quinta dos Cavalleiros. Vamos vêr esse campo de batalha, onde o gentio ainda ha pouco deu provas da sua estupidez e covardia. Teremos de dar uma pequena volta, mas não importa; proporciona-nos a occasião de vermos a propriedade do mais excêntrico dos facultativos. 

O cirurgião-medico de Mossamedes, além de sèr habilissimo na sua arte, é um excellente homem, estimado de toda a gente qiie tem a felicidade de o conhecer. Lapa e Faro é o seu nome, estudou quatro annos na escola do Porto, frequentou o quinto em Lisboa, entrou para o serviço da armada, e acha-se, não sei como, estabelecido em Mossamedes, onde gosa dos melhores créditos. Dotado de um génio independente, obsequeia a todos, mas não se torna importuno com pedidos. Qual outro Robinson, poderia o acaso lançal-o em aguma ilha deserta, que pouco se affligiria com isso : habilidoso em todos os officios, é elle que se veste, se calça, e faz os seus chapéos — mas tudo parece mais obra de um hábil mestre, que de um simples curioso. Para mais commodamente visitar os seus doentes, construiu um carro de novo género, tendo por motor um boi-cavallo guiado por um moleque. 

Não me era possível vêl-o mettido no seu carro, de chicote na mão, sem se me figurar que ia dentro de um andor dos que se usam nas aldeias do Minho. Preferindo Viver no campo, construiu, perto das Hortas, uma casa apalaçada de gosto exquisito, mas que produz magnifico effeito vista a certa distancia: no interior tem uma sala triangular, e conservou na sala de jantar uma grande arvore, que existia n'aquelle sitio. Apesar de casado em Portugal, parece estar no firme propósito de trocar Vizeu, sua terra natal, por Mossamedes, onde tenciona occupar-se da cultura do algodão.


Através da obra de Manuel Júlio de Mendonça Torres, O Distrito de Moçâmedes nas Fases de Origem e da Primeira Organização 1485 – 1859, Lisboa, Agência Geral do Ultramar, 1974, 1° Volume, ficámos a saber de outros nomes que não estando registados como fundadores do Distrito de Moçâmedes, são elevados a esse «Quadro de Honra». É o caso do popular facultativo da, alí colocado, onde exerceu clínica e passou quase toda a sua vida:

...Ainda que não pertencesse a nenhum dos grupos de 1849 ou de 1850, activa e dedicadamente prestara inovidáveis serviços ao Distrito e às suas gentes na fase da sua formação, pelo que a sua veneranda memória se tornara credora de singela, mas expressiva homenagem, que aqui deixamos reproduzida".

..Para mais commodamente visitar os seus doentes, construiu um carro de novo género, tendo por motor um boi-cavallo guiado por um moleque. Não me era possível vêl-o mettido no seu carro, de chicote na mão, sem se me figurar que ia dentro de um andor dos que se usam nas aldeias do Minho.
O caminho, ainda que em parte aberto de novo, é triste e fastidioso: são 13 kilometros de passeio forçado, qual se não respira senão pó, e em que o espirito do viajante cansa na contemplação de um monte árido, de côr monótona que se estende á direita, e continua ainda além do sitio que vamos visitar; á esquerda fica-nos o rio Béro,  que na  maior parte do anno está sêcco n'uma distancia de quinze léguas, apresentando sobre a areiado  seu leito uma leve crusta de lodo, que o sol faz gretar e arquear em forma de telha  pôde ser transitado, e é até uma sofrivel estrada. 

Ainda sobre o Dr Lapa e Faro, e no que concerne a caçadores que se distinguiram à época da formação do distrito de Moçâmedes,  num relatório da viagem de exploração efectuada pelo segundo tenente António Almeida Lima, de 1 de Janeiro de 1879 publicado no Boletim da Sociedade de Geografia, 2ª série, nº1 de 1880, pudemos colher a notícia de que o facultativo era possuidor de um veículo que havia mandado construir para transportar pelos areais de Moçâmedes as pessoas de sua casa nas caçadas que habitualmente costumavam empreender.  Tratava-se de um carro leve e cómodo, puxado por um boi-cavalo, orientado por um indígena da região, que além de conduzir passageiros, servia também para o transporte de pessoas doentes ou fragilizadas.

O Dr. Lapa e Faro, que passou quase toda a sua vida em Moçâmedes, onde exerceu clínica, comunicava em 22 de Maio desse ano de 1865 ter concluído a primeira fase do embalsamamento de um leão, que se remetia para o reino. Em cota lavrada sobre o documento determinava-se que este facultativo fosse louvado pelo trabalho realizado e iniciativa que tivera. (ass) BERNARDINO JOSÉ BROCHADO E JOÃO DUARTE DE ALMEIDA, NESTOR DA COSTA, JOSÉ ANCHIETA
                                                                        

A bela moradia do Dr. Lapa e Faro (1)


Ainda sobre o Dr. Lapa e Faro, no Livro de Manuel Júlio de Mendonça Torres, 2º volume, do Ciclo Aureo da Cultura do Algodão, vem uma referência a um ofício de Pinto Balsemão, datado de 23.03.1868, onde este descreve, entusiasmado, a casa do Dr. Lapa e Faro, médico na povoação, que estava à época a ser construída, revestida de fachada de grande gosto arquitectónico, que devia ser a melhor da vila. Possuía também dois jardins, um deles coberto de flores, arbustros, viveiros, quiosques, lagos, etc., outro a ser construído ainda:
 
 «Só quem vê aquele aquele areal estéril e pleno de monotonia em que está colocada a vila,  pode bem prever as dificuldades com que o Dr. Lapa e Faro tinha lutado para conseguir ter jardins no pé em que estão os que cercam a sua vivenda em Mossâmedes, dada a dificuldade de obtenção de tudo quanto é necessário, a terra para jardim vinda de grande distância,  as sementes e os arbustos de países remotos para aclimatar a Mossâmedes, grandes despesas».

"...Ficava situada na Rua das Hortas (?), época em que a moradora, sua proprietária, era Rosa Gonçalves Moreira, funcionando arrendado no jardim um campo de jogos de um grupo desportivo local.  Refere ainda Balsemão a existência de uma outra vivenda que também pertenceu ao Dr. Lapa e Faro,  próxima da Aguada, nos arrabaldes da vila, construida posteriormente, que nada tem a ver com esta situada em plena vila...
A casa romântica, revestida de fachada de grande gosto arquitectónico, que chegara a ser a melhor da vila, com dois jardins, cobertos de flores, arbustros, viveiros, quiosques, lagos, a casa da Desvia era propriedade de Rosa Gonçalves, e 

Quando Manuel Júlio de Mendonça Torres nasceu, a vivenda romântica em Arte Noveau, da Rua Calheiros que por engano é descrita como estando na Rua das Hortas, como ele mesmo refere,  já não pertencia ao Dr Lapa e Faro, que havia falecido há muito. Era entáo  conhecida como a "Casa da Desvia".
 
 No 2º volume do seu livro "Moçâmedes, no Ciclo Áureo da Cultura do Algodão", Mendonça Torres faz  referência a um Chalé igualmente mandados construir pelo Dr. Lapa e Faro,  que ficava próximo da Aguada, nos arrabaldes da vila, construído posteriormente, e que nada tinha a ver com aquela outra situada em plena vila.
 

 O "Chalé" da Horta da Nação

"Chalé da Horta da Nação", na margem esquerda do Rio Béro, que é também, sem dívida, uma belíssima construção, segundo Victor Mendonça Torres fizera parte da propriedade que vinha das salinas até à Horta do Torres (Benfica incluso)l mais tarde vendida, em lotes,  a seu tio Gaspar Madeira , tendo ainda mais tarde cabido em herança a seu irmão Prazeres Madeira, e a de Benfica passara para o Venâncio Guimaráes. Actualmente parece pertencer à Policia Nacional



Pesquisa e composição de texto de MariaNJardim 


Ajude a difundir este blog. Respeite o nosso trabalho. Se publicar algo retirado daqui, não se esqueça de dar os respectivos créditos a "Mossâmedes do Antigamente". E não esqueça também de citar outras fontes por sua vez aqui citadas.


quarta-feira, 13 de junho de 2007

Maria da Cruz Rolão, regedora de Porto-Alexandre






Com o escultor Fernando Marques, que foi igualmente o autot dos dos altos relevos que circundam as galerias de Cine Inacabado de Moçâmedes



Estátua de Maria da Cruz Rolão, (1) colocada à entrada de Porto Alexandre (actual Tombwa), nos inícios da década de 70, poucos anos antes da independência de Angola. Acabaria por ser demolida nesses tempos de nacionalismo exacerbado que se seguiram ao processo agitado de descolonização e à independência do território.

Esta mulher,
Maria da Cruz Rolão, era afinal uma mulher do povo que, pela sua energia, e por saber ler e escrever numa época em que a maioria do povo português era analfabeto, foi por consenso tácito do reduzido núcleo populacional de Porto Alexandre, eleita a sua Regedora.

Um facto ninguém jamais poderá negar, é que os destemidos algarvios deram, também eles, com a sua presença nas terras áridas e desérticas do sul de Angola, o seu contributo para que o território angolano se mantivesse íntegro, nos momentos cruciais que se seguiram à Conferência de Berlim, (1885-6), quando a imposição das potências estrangeiras era a ocupação, antes que o mesmo fosse cindido em proveito de outras potências interesseiras e interessadas, com era o caso da Alemanha que pretendia a anexação  pelo Sudoeste Africano (Namibia), da faixa territorial a sul de Benguela.

Esta estátua, sobre a qual se desconhece o destino, foi executada em cimento na cidade de Sá-da-Bandeira, pelo escultor Fernando Marques. Era composta por duas ou três peças e foi em seguida pintada na cor bronze. 


Maria da Cruz Rolão, a heróica Regedora de Porto Alexandre, nasceu em Olhão, em 1817, faleceu em Moçâmedes em 21 de Setembro de 1890, aos 73 anos, de paralisia geral por amolecimento do cérebro. Era filha de Domingos Cruz Rolão e de Maria do Rosário da Cruz (conf. Câmara Municipal de Moçâmedes, Livro 4 de Registo de Óbitos, 1883 a 1898, fl 95). Era casada com Manuel Tomé do Ó, porquanto no óbito de seu filho, José António Martins da Cruz, ocorrido em Moçâmedes, em 1 de Dezembro de 1905, motivado por tuberculose pulmonar, no estado de casado com 53 anos de idade - nascido em Olhão em 1852, registou-se a filiação: filho de Maria da Cruz Rolão e de Manuel Tomé do Ó (Idem, Livro 5 do Registo de Obitos 1898-1911) . Outro Registo de óbito deste filho diz que tal facto se verificou na residência do finado na Rua dos Pescadores em Moçâmedes, com os Sacramentos. Indica a sua profissão: Maritimo. O seu estado civil: casado com Catarina da Cruz, natural de Olhão. Confirma a sua filiação: de Manuel Tomé do Ó, maritimo, e de Maria da Cruz Rolão, natural e Olhão e esclarece: "o qual (José António Martins da Cruz, não dez testamento, deixou seis filhos..." Cartório Paroquial da Igreja de Santo Adrião, de Moçâmedes, Registo de Obitos de 1905).  Deparamos também com o óbito de João da Cruz Rolão, verificado em Moçâmedes, a 06 de Julho de 1902 com a indicação da idade: 70 anos, e do estado civil: casado, apenas com menção do nome da mãe: Maria da Cruz (Câmara Municipal de Moçâmedes Livro 52? Registo óbito 1898-1911. Há outros registos que referem dois filhos, João da Cruz Rolão e Francisco Pedro da Cruz.

Seguem algumas passagens que melhor nos podem esclarecer o perfil da Regedora Maria da Cruz Rolão:

Maria da Cruz Rolão


...A indústria piscatória em Março do mesmo ano [1861] foi fortalecida com a chegada de novos Algarvios : José Rolão, sua mulher Maria da Cruz Rolão e dois filhos, João da Cruz Rolão e Francisco Pedro da Cruz; Manuel Tomé do Ó, Manuel Galambas e José Mendonça Pretinho; em Julho, da mesma proveniência, de Olhão, no vapor D. António, João da Rosa Machado, José Martins Ganho, João Lourenço Galarão, João do Sacramento Pintassilgo, Lourenço de Sousa Farroba e Manuel Nunes de Carvalho, o quais trouxeram a primeira rede e se fizeram acompanhar de uma canoa.


”...Para intrépidos e valentes filhos de Olhão, a viagem em vapor, tendo barcos seus, não era coisa com que se conformassem; e, assim, Bernardino do Nascimento, O. Brancanes e Francisco Ferreira Nunes, societários do Caíque Flor de Maio, resolveram ir até Mossâmedes, arranjando para isso uma companhia em que entravam, além dos dois, Pedro Mendes. Pelo José (piloto), Manuel Ramos de Jesus Pereira, João da Encarnação Peleira, e um pequeno chamado Baptista.


“...O intento desses destemidos, porém, esbarrou contra a decisão das autoridades, que lhe proibiram a viagem, com fundamento nas poucas possibilidades do barco e do diminuto número de tripulantes. No entanto o travão não foi de carácter definitivo. A intervenção do Dr. Estêvão Afonso, junto de José Estêvão, então deputado por Aveiro, removeu a dificuldades encontradas, e os cotados algarvios chegaram a Mossâmedes em 3 de Agosto, daquele mesmo ano de 61.


“...Foi à corrente emigratória algarvia que Mossâmedes e baías próximas ficaram
devendo o empurrão que as transformou em apreciáveis centros piscatórios.”

Delgado, Ralph (2) vol. II pp. 60/61



“Elegeram, entre si, o seu próprio chefe. A escolha recaiu no colono Cruz Rolão, algarvio que deve ter indo da sua terra na primeira viagem do caíque «D. Ana», em 1860, com Francisco de Sousa Ganho, ou no caíque «Flor de Maio», que em 1863 fundeou na baía de Porto Alexandre.


“Cruz Rolão era homem humilde, mas sensato e sabedor. Houve-se muito bem nas funções em que foi investido. Após a sua morte, em data que ignoramos, sucedeu-lhe a viúva, Maria da Cruz Rolão. Esta sabia ler e escrever, tinha alguma cultura e, sobretudo, era possuidora duma coragem e decisão muito fora do vulgar. Impunha-se aos seus administradores e a todos pela sua energia e prestígio. Por várias vezes, Maria da Cruz tomou decisões importantíssimas para a comunidade que chefiava. Em dada altura, os hotentotes, vindos do Sudoeste, acossados pelos alemães, passaram ao nosso território e dedicavam-se à pilhagem e ao massacre. A povoação de Porto Alexandre estava nesta contingência. Porém, a regedora procurou estabelecer contacto com os chefes daquela gente, o que conseguiu, e teve com eles uma conferência, no local denominado por Arco do Carvalhão, a uns trinta e cinco quilómetros para Leste do aglomerado populacional, e este foi salvo.


“Igualmente, em data que não ficou registada ( mas deste facto nos fala o grande almirante Augusto Castilho), fundeou um navio de guerra inglês na baía, em frente à habitação de Maria da Cruz. Pouco depois, os súbditos de Sua Majestade, esquecendo-se que estavam em território duma nação que lhes devia merecer muito respeito, iniciaram exercícios de tiro para a restinga que forma a baía. Muitos dos projécteis iam cair do outro lado, no mar, onde andavam, calma e despreocupadamente, os nossos pescadores, nas suas actividades. Este acto arrogante levantou protestos das mulheres e crianças que estavam em terra, porquanto traziam no mar os maridos, pais e irmãos. Em pranto, dirigiram-se a casa da regedora e pediram-lhe que acabasse com aquele abuso do navio estrangeiro. Maria da Cruz mandou içar a Bandeira Nacional num tosco mastro que tinha à sua porta, meteu-se num bote e dirigiu-se para bordo do navio britânico. Saias arregaçadas, punhos cerrados, gesticulando e no seu fraseado de gente do mar, intimou o comandante inglês a acabar imediatamente com a perigosa brincadeira. Aquele, que apenas deve ter compreendido a indignação e o desassombro duma verdadeira mulher de armas, fez suspender o fogo, abandonando o fundeadouro no dia seguinte.”


Moreira (1) pp. 20/21


Eis um texto bastante elucidativo sobre a diáspora algarvia em terras do sul de Angola:


O TESTEMUNHO DE MR. GRUVEL

As armações à valenciana foram surgindo no distrito de Moçâmedes em grande número: na Lucira, no Mocuio, em Porto Alexandre, na Baía das Pipas, no Baba, etc., e até mais do que uma em cada uma dessas praias, e com elas o aumento da produção do pescado e do peixe seco que era comercializado nos portos de Angola, Congo Francês, Gabão e S. Tomé, levados pelos caíques olhanenses. O desenvolvimento tornou-se imparável e suscitou a admiração de portugueses e estrangeiros pela obra que se estava a realizar naquela zona de África.
Mr. Gruvel era um oficial da marinha francesa, que encarregado pelo seu governo de fazer um inquérito às pescarias da costa Ocidental de África em 1909 referiu-se a Angola, nestes termos:
"Não podemos deixar Angola sem falarmos da impressão extraordinária que nos deixaram dois dos principais centros de pesca: Porto Alexandre e Baía dos dos Tigres.
O que poderá ser a vida sedentária dum europeu numa região formada de areia pura, sem um traço de vegetação, estendendo-se tão longe quanto a vista pode alcançar? Um vento violento que sopra muitas vezes em verdadeiras tempestades, levanta quase todo o dia nuvens duma areia fina que penetra por toda a parte; bebe-se, come-se e ...sufoca-se!
É neste país de desolação, ao pé do qual Port-Etienne parece um verdadeiro paraíso, que vivem isolados do resto do mundo, bebendo água que vai de Moçâmedes, cerca de trezentos brancos em Porto Alexandre e cem na Baía dos Tigres."
"Não temos maneira de felicitar todos os portugueses que habitam este deserto, pela admirável coragem de que dão prova, vivendo assim nessas regiões de desolação".
A terminar:" Quando se vêm os milagres de energia que os portugueses têm tido que dispender para criar esta magnífica indústria de pesca em semelhantes regiões, pensa-se que temos de desesperar do nome francês se não conseguirmos fazer tão bem ou melhor que eles ...não apresentando nada de comparável ao que existe em Porto Alexandre e sobretudo na Baía dos Tigres."
Por portaria editada no Diário de Governo de 27 de Junho de 1925 o governo português louva o esforço colonizador no distrito de Moçâmedes, terminando nestes termos:

"Manda o Governo da República Portuguesa pelo Ministério das Colónias que seja dado público testemunho do muito apreço em que é tido o valioso trabalho realizado por estes colonos, que tanto honram a Pátria e por esse motivo sejam louvadas as populações de Moçâmedes e Porto Alexandre por serem os principais núcleos desta colonização.


Paços do Governo da República 27 de Junho de 1925"



Vai um texto que encontrei na Net:

Soberania Nacional Assegurada por mão forte ... de Mulher 
O episódio, com sabor naval, que nos propomos divulgar teve por cenário o que é hoje um dos mais importantes  centros piscatórios do espaço português e, para além disso, uma bonita e progressiva cidade, realidade bem visível de quanto vale o esforço e a tenacidade da raça lusíada. Trata-se de Porto Alexandre que, para além da simples menção de ter sido cenário da nossa história, bem merece mais algumas palavras. Ao percorrer o mar do litoral sul-angolano depara-se-nos a certa altura uma excelente e convidativa baía, orientada na direcção leste-oeste, de águas calmas, protegidas por uma extensa restinga de areia. Foi Diogo Cão quem dela deu notícias pela primeira vez, em 1485, designando-a por Angra das Aldeias, e com tal realce e entusiasmo o fez que esse recanto passou a constituir ponto de paragem apetecido para descanso dos navegantes portugueses em demanda de novas descobertas. Em flagrante contraste com a excelênciada baía e quietude hospitaleira das suas águas, surgia aos olhos dos nossos navegadores uma paisagem desoladora, de areias em redemoinho, batidas pelo vento, sem vegetação nem água, onde qualquer idéia de fixação e vida se afigurava impossível. É certo que decorreram 3 séculos desde que Diogo Cão descobriu a velha Angra das Aldeias até ao início da ocupação efectiva das terras desertas do sul de Angola; porém, chegado o momento da arrancada, todas as dificuldades foram vencidas, mercê da persistência e tenacidade tão características do povo português.
 
Foi em 1860 que, atraídos pela piscosidade das águas do Sul de Angola, grupos de decididos, tenazes e abnegados algarvios iniciaram a ocupação efectiva daquele rincão de Portugal e, em gesta que, sem exagero, podemos apelidar de heroica, venceram a dureza e a desolação do terreno, souberam dominar a fome, a sede e o isolamento e suportaram estoicamente a ausência total de um mínimo de conforto.
Nasceram rudimentares habitações, os ventos e areias foram sendo dominados. Rodaram os tempos e com estes se foi acentuando a vitória do homem sobre o deserto, em obra notável de que se destaca uma extensa cortina verde, iniciada há 37 anos e que conta actualmente com cerca de 300 000 casuarinas. Quebrada a violência dos ventos predominantes e sustidas as areias que tudo soterravam, a velha Angra das Aldeias, que desde 1835 passou a ser designada por Porto Alexandre, voltou-se para o futuro e cresceu. Cresceu em extensão e formosura e surge hoje aos nossos olhos como uma linda cidade dotada de todos os requisitos modernos, verdadeiro milagre de dinamismo e força de vontade, obra transcendente iniciada por portugueses de «antes quebrar que torcer», continuada por sucessivas gerações de igual têmpera que ainda hoje se mantêm, alardeando ao mundo as altas qualidades dum povo de vontade inquebrantável. Mas, feito este pequeno apanhado da história de Porto Alexandre, modesta homenagem aos seus fundadores e continuadores, voltemos ao nosso episódio. Passou-se ele poucos anos após a chegada dos pioneiros da colonização, em data exacta desconhecida, que se pode, sem receio de grande erro, situar no período 1865-1870. 
 
Foi a partir de 1860 que experimentados homens do mar, algarvios, utilizando os já desaparecidos caíques olhanenses - embarcações à vela, de  pano bastardo triangular, com cerca de 14 metros de comprimento e 4 metros de boca - decidiram deixar as suas terras e enfrentar o Oceano Atlântico com destino ao Sul de Angola, muitos deles acompanhados por velhos, mulheres e crianças, membros de suas famílias. Num desses caíques chegou a Porto Alexandre, em 1860, a fanúlia CRUZ ROLÃO, donde sairia a heroína da nossa história, MARIA DA CRUZ ROLÃO, que deixou bem vinculado àquela localidade o seu prestigioso nome. MARIA DA CRUZ ROLÃO era possuidora duma energia, determinação e coragem muito fora do vulgar e tinha alguma cultura, qualidades reconhecidas por todos os colonos que, por decisão unânime, a elegerem sua pri-  meira autoridade civil, nela depositando uma confiança que nunca desmereceu. Variadas foram as oportunidades em que MARIA DA CRUZ ROLÃO, sentindo a responsabilidade do cargo em que fora investida, defendeu com ardor a comunidade que chefiava, patenteando as suas altas qualidades. Foi numa destas ocasiões, em defesa da sua gente e da soberania nacional, que o carácter de MARIA DA CRUZ ROLÃO mais uma vez se envidenciou impondo a saída das nossas águas territoriais a um navio de guerra inglês. Em data que não ficou registada, fundeara na baía de Porto Alexandre uma unidade naval inglesa.Pouco depois da chegada, o seu comandante, esquecendo-se que estava em  águas duma nação estrangeira e das deferências devidas e inerentes a essa situação, deu início, inesperadamente, a exercícios de tiro, utilizando por alvo as areias da restinga. Muitos projécteis iam cair do outro lado, no mar, onde os nossos pescadores se encontravam na faina quotidiana. Cientes da situação, receosos que os projécteis atingissem os seus pais, maridos e filhos e indignadas contra tão grande falta de cortezia e respeito, as mulheres, em cortejo, acompanhadas das crianças, acorreram a casa da regedora e pediram-lhe que interviesse no sentido de acabar com tamanho abuso do navio estrangeiro. MARIA DA CRUZ ROLÃO não hesitou; mandou içar a Bandeira Nacional num tosco mastro que tinha à sua porta, meteu-se num bote e dirigiu-se para bordo do navio inglês. Ali chegada, punhos cerrados, gesticulando, intimou o comandante inglês a acabar imediatamente com o exercício e a abandonar as nossas águas. O oficial inglês não precisou compreender o fraseado de MARIA DA CRUZ ROLÃO. Perante atitude tão enérgica, desassombrada e demonstrativa de justa indignação mandou imediatamente interromper o tiro, e suspendeu, deixando as águas de Porto Alexandre. Fora mais uma vez assegurada, neste caso por mão forte de mulher, a soberania nacional. Já em tempos recuados a mulher portuguesa sabia impor a sua personalidade  e presença na defesa e construção do nosso ultramar, onde foi e continua a ser pedra basilar, merecedora de toda a admiração e respeito. Porto Alexandre, ao completar mais um ano da sua já mais que centenária existência, prestou justa homenagem a MARIA DA CRUZ ROLÃO, erigindo-lhe uma estátua.

AUTOR DESCONHECIDO


...........................................................................................................................................................................
Segue um texto por  Alberto Iria :  DESCENDENTES DA REGEDORA


«Em Moçâmedes, no dia de S. João em 1965, ainda me foi dado o prazer e a honra de visitar, em sua casa, um venerando homem do mar, natural de Olhão, já com 74 anos de idade, casado com D. Felicidade dos Santos Frota. Trata-se do senhor Januário Mendes Tendinha, nascido a 12 de Janeiro de 1891, na freguesia de N. Srª. do Rosário, filho de Januário António Tendinha e de Maria da Cruz Rolão Tendinha, prima-irmã da celebrada Regedora de Porto Alexandre Maria da Cruz Rolão. Veio para Moçâmedes a bordo no vapor Cazengo, apenas com 12 meses, na companhia de seus progenitores. Seu pai que chegou ser Regedor de Porto Alexandre, ali montou um estaleiro naval, contratado pelo mestre João Gregório Hungria, com mais dois calafates, e fez a travessia atlântica a bordo do caíque Harmonia. Este caíque, construído em Olhão nos estaleiros de mestre João da Carma, foi reparado e comprado em leilão, pelo pai do senhor Tendinha, e, mais tarde, vendido para o Lobito, onde foi transformado num barco motorizado com o nome de Nelson. O senhor Tendinha só depois de atingir os 21 anos é que teve licença oficial para governar o caíque Harmonia, durante cerca de 30 anos. É irmão do senhor Lourdino Fernandes Tendinha, industrial de pesca em Porto Alexandre e ali presidente da Câmara». Fim de citação.


De Claudio Frota, vai este testemunho:

"...chamava-se "Harmonia", nome do caíque que pertencera à família Tendinha, de origem olhanense, nas primeiras décadas do séc. XX. Em 1976 agravou-se a guerra civil que assolava todo o território de Angola, com a sequente fuga da população. A população portuguesa ou de origem portuguesa que ainda permanecia preparou-se para abandonar o território. Urgia por a salvo o que restava de pessoas e bens.  O "Harmonia" juntou-se a outras traineiras para rumarem ao porto da Namíbia Walwis Bay. Deste porto houve quem rumasse ao Brasil fazendo-se transportar nos seus barcos de pesca. Dezenas de traineiras e alguns pequenos atuneiros partiram com destino à cidade de Portimão, no Algarve. A meio do percurso juntou-se-lhes o "S. Gabriel", barco de carga da Marinha de Guerra Portuguesa,  com combustível e mantimentos. Três dessas traineiras não chegaram ao destino, começaram a meter água e foram abandonadas e afundadas. Duas chegaram a reboque com os motores avariados. No Funchal, Ilha da Madeira, ficaram alguns atuneiros. No Algarve, "O Harmonia" mudou de nome, puseram-lhe "Miragem" porque havia outro barco de pesca com aquele nome; pescou na costa do Algarve e nos mares de Marrocos. As políticas europeias levaram-no ao abate quando prestava serviço nas pescas e se encontrava completamente restaurado pronto a novos desafios, acabando os seus dias com o nome de "Iona". Pertenceu sempre à família Tendinha, fixada em Faro e Olhão." Fim de citação.


....................................................................................................................................................................
Em relação à família Tendinha, segue informação cedida por uma familiar :

O Januário António Mendes Tendinha era casado com Maria da Cruz Sousa Rolão e tiveram os filhos que disse, sendo a casada com o Correia de Freitas a Constatina.

O filho Januário, meu avô, era casado com Felicidade dos Santos Frota Tendinha, filha de Manuel Fernandes Frota e Carolina dos Santos Frota (9 filhos).

Os meus avós tiveram 7 filhos: Domicilia (cc Rogério Pompeu-5 filhos), Felicidade (cc Raul Trindade-1 filha), Mª Do Céu (cc Manuel Pimentel Teixeira-4 filhos),Januário (cc Lourdes Ilha-2 filhos), Fernando (cc Mª José Sousa, Zita-3filhos), Mário Romualdo (cc Mª Clotilde Monteiro Silva-3 filhos), José Helder (cc Mª Amélia de Sousa-2filhos).

Eu sou filha do Mário, que já é bisavô de 4 crianças do meu irmão mais velho, também Mário. A mais nova da familia nasceu há um mês e é a 6º geração nascida em Angola.
ps. a familia Frota é também muito grande, talvez maior e igualmente antiga.
 
Ana Clara Tendinha Rivera
........................................................................................................................................................................



Resposta:
 
Ana Clara , sou  a Maria Nidia Jardim,  nascida em Moçâmedes bisneta materna de Ana da Piedade Frota, irmã de Manuel Joaquim Frota, o pai do seu avô , e  dou trineta materna de Ana Maxima e Joaquim Pedro Frota. Nossa genalogia neste ramo é a mesma pois Manuel Fernandes Frota seu avô era filho de Joaquim Pedro Frota, este era como atrá referi , irmão da minha bisavõ materna, Ana da Piedade Frota. Aliás a minha avõquando sua mãe faleceu a Ana da Piedade Frota, foi  de Olhão para Moçâmedese fcou a viver até casar na casa dos primos, Manuel Fernandes Frota e Carolina dos Santos Frota.
 
http://memoriaseraizes.blogspot.com/2007/04/manuel-joaquim-frota-mandador-pioneiro.html