Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A petição de 13 de Julho de 1848 de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro
















A petição de 13 de Julho de 1848
llmo e Exm.º Snr.:

As divisões politicas da nossa Pátria me obrigaram a sahir d’ellla, e a vir em terra estranha procurar subsistência por meio do trabalho. Não me posso absolutamente queixar da sorte por ter vindo de Pernambuco, onde resido há nove anos, e tenho vivido, e tenho vivido, senão bem, ao menos soffrivelmente;  mas já há tempos desejava sahir em razão de observar que se promovia guerra acintosa aos Portugueses, oferecendo-os, como cavallos de batalha, os partidos, em que se acha dividida esta Província, para chegarem aos seus fins. Bem via eu o perigo que corriam todos os Portugueses, os quais  pela maior parte faziam chamar sobre sí as vistas ambiciosas d’aquelles que nada possuem, porque não empregam o trabalho e a indústria, fontes seguras da riqueza, mas os horrorosos acontecimentos do dia 26 e 28 do mez passado me fizeram tomar a resolução de sahir sem demora d’uma terra, em que na presença das auctoridades e da tropa se arrombam a machados as portas das habitações, se arrancam homens inermes e sem crimes do seio das suas famílias, e se assassinam a pancadas, chuçadas, golpes, facadas e baionetadas, arrastando seus cadáveres ensanguentados pelas ruas, roubando-se-lhes os seus haveres, sem que se dê uma outra razão sino o de terem o crime de merecerem em Portugal, o nome que por despreso denominaram marinheiros. Os gritos que retumbaram do meio das turbas que pelas nove horas da manhã do dia 28 começaram a inundar um dos bairros d’esta cidade, eram de –mata marinheiros—não escape um só--.      A perseguição se predispunha pelas folhas, planos infernaes se urdiam em nocturnos clubes, contra os Portugueses, e si não acontecesse uma rixa entre um estudante do lyceo e um caixeiro Portuguêz, o qual depois de dar uma bengalada atirou aquelle com um peso de 4 libras, não abortaria a perseguição, que se foi medonha, e mais que muito demonstrou quam bem dispostos estavam os ânimos contra nós, seria ainda mais temível, si aparecesse com a canalha regularmente armada: devo porem dizer, em abono da verdade, que, com poucas excepções, o grande numero de turbulentos e perpetradores dos horrendos crimes era gentalha e escravatura.

Tinha pois resolvido sahir com brevidade, mas deteve-me a consideração de que podia fazer um serviço aos meus Patrícios e à minha Pátria, procurando um meio de fazer sahir d’aqui um grande numero de Portugueses para as nossas possessões da Azia ou da Africa. D’accordo com o Consul, o Snr. Joaquim Baptista Moreira, que não fez mais em favor dos seus, porque desgraçadamente as nossas divisões, nos tem reduzido alem de pequenos a zero: a não termos o menor respeito; e andarmos pelo mundo, como judeos, que sofrem toda a quallidade de injurias, sem ninguém tomar d’ella satisfação, lembrei-me de fazer publicar, que representava ao Governo Portuguez, a nossa situação, e que se pediam providencias, entre as quaes o enviar transportes para serem conduzidos a um ponto das nossas possessões da Azia ou da Africa, como colonias, aquelles que ahi quisessem estabelecer-se. Todos ao principio repelliam esta idea, opondo a insalubridade do clima, argumentando com o facto de que já d’este império havia sahido para Africa no tempo da Administração do Exm.º Sá da Bandeira,  um grande número a convite dos Consules por ordem do Governo, e que todos haviam sido victimas de moléstias, que alli grassa. . Com geito se há rebatido a tal oposição, e hoje vejo os ânimos inclinados tendo muitos dado já o seu nome como prontos a seguir para qualquer ponto que o Governo determine, uma vez que envie com urgência transporte,  e empregue medidas de interesse e comodidade que chamem e atraião os colonizadores: e julgo de grande utilidade aproveitar a ocasiam, pois que sendo estes bem sucedidos, para o que deverám tomar medidas, não só irám outros d’aqui e de todo o imperio e com fundos, mas se mudara a mania de só virem os Portugueses procurar fortuna no Brasil.

Dar-se-ha direcção a essa grande emigração anual para as nossas possessões, e virám ellas em poucos anos a tornar-se proveitosas a metrópole, e a entreter um commercio nacional que tornara a elevar a nossa dechaida marinha.

O Snr. Consul remettera por copia a redacção dos que já deram o seu nome, os quaes sam o dos residentes na cidade, a quem particularmente se comunicou a medida que hia adoptar-se por quanto se julgou politico não dar porosa publicidade pellas folhas.

Eu que livre de orgulho afirmo poder seguir para onde me conviesse, sacrifiquei-me a esperar, e a ir compartilhar dos trabalhos e revezes que acompanham o estabelecimento de uma colonia, só porque vejo que comigo acarreto algum numero, mormente dos mais uteis, porque sam os que entendem do fabrico dos assucares, e plantações das canas, e mesmo do tabaco e café, pois que vivo em relação com muitos engenhos, tengo neles arranjado vários e me hei dedicado a conhecer como fundamento o modo mais profícuo de fazer o assucar, e de agricultar a cana com vantagem, segundo a natureza do terreno, e a tirar da matéria prima toda a possível utilidade, mormente em as distilações, que bem dirigidas sam de sumo interesse.

Nas considerações que a esta acompanham, não só explico a razão porque digo que os que entendem dos trabalhos agrícolas sam os mais uteis, mas exponho alguns alvitres que me ocurreram. V. Ex.ª me desculpara na certeza de que o não faço, porque não seja persuadido do seu profundo saber; mas porque muitas veses uma lembrança de um homem medíocre faz produzir medidas acertadas.

Approveito esta ocasião para offerecer a V. Ex.ª o meu diminuto prestimo.

Deos Guarde a V. Ex-ª por muitos anos – Recife de Pernambuco, 13 de Julho de 1848.

Lllmo e Exm.º Snr. Ministro e Secretario d´Estado dos Negocios  da Marinha e Ultramar da Nação Portuguesa. Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, cidadão portuguez.

À margem:  N.º  582 – A 848 /  5 8.º s
(1.ª suplica que veio dos Portugueses em Pernambuco).
(A lapis está a seguinte notação): Approvado este plano no seu ponto essencial em Concelho de Ministros no dia 30 d’Abril de 1848 redigir-se-há uma série de Instruções que serão cometidas conjuntamente ao Consul, e ao proponente no sentido que abaixo vai notado.

Convem principiar por lhes declarar que se ordenou ao Governador Geral de Angola ( e eu direi verbalmente os motivos desta preferência que é condicional) que pozesse à disposição da Colonia com as formalidades da Lei um ou mais treactos de terreno bem situado e salibre, e a mais próprias a produzir os géneros a cuja cultura vai acostumado segundo esta exposição.

N.B.—Seguem as notas no papel das considerações.

CONSIDERAÇÕES

Portuguezes mais habilitados pela sciencia do que eu, teem de há muito clamado contra o desleixo e a indiferença, com qua a nossa Administração hãm olhado para as nossas possessões. Temos na Azia e na Africa uma superfície de quatro cenras e settenta e tres mil milhas, donde podíamos tirar innumeras vantagês, e que so nos acarretam despezas, e fornecem provas da nossa incúria e ignorância

Ninguem há ahi que não saiba que a falta de braços inteligentes é a causa primaria de nenhuma vitalidade




sexta-feira, 31 de julho de 2015

Rainha Galinacho do Cuanhama, em Moçâmedes, 1938






Ao confrontar-me com estas fotos da rainha Galinacho do Cuanhama, tentei encontrar alguma literatura com esclarecimentos a seu respeito, dado tratar-se de uma figura que faz parte da História de Angola em geral, e da História de Moçâmedes em particular, porém acabou frustrada a minha busca, pelo muito pouco que encontrei. Pelo menos por ora. 

Assim, transcrevo dois textos, os únicos que consegui, sobre aquela que foi Rainha dos Cuanhamas, sendo o primeiro de Henrique Galvão (1895-1970), do livro "Outras Terras, Outras Gentes", 2.º volume, (1942?),  retirado ao um capítulo do livro "Para Aquém e para Além da Chela".   

Trata-se de literatura colonial e há que atender, pois, à percepção que se tinha do assunto, na época em questão.




http://www.mazungue.com/angola/index.php?page=Thread&threadID=1386&pageNo=7 
 http://literaturacolonialportuguesa.blogs.sapo.pt/tag/cuanhama
                       

Seguem algumas fotos, estas tiradas quando da visita a Moçâmedes do Presuente da República portuguesa General Carmona, em 1838:


Esta foto  mostra-nos no canto inferior  esquerdo, a rainha Galinacho, tendo à sua esq. uma tabuleta indicativa da tribo que representa, e á sua direita  a bandeira portuguesa. Galinacho aguarda o desembarque do Presidente da República de Portugal, General Óscar Fragoso Carmona, de visita a Moçâmedes, em 1938, no decurso de uma digressão por terras de África. Seguem algumas fotos da recepção ocorrida na Avenida da República, em Moçâmedes, na qual a rainha Galinacho participou, tendo subido à tribuna para cumprimentar o Presidente, render vassalagem.


 


 Na paragem em frente da tribuna, destaca-se a Rainha Galinacho que faz uma vénia ao Presidente Carmona...
A Rainha Galinacho à frente do desfile das várias etnias, realizado na Avenida da República, a sala de visitas da cidade: "...Assim foram passando cuanhamas, cuamatos, cacondas, ngivas, naulilas, evales, namacundes, quipungos, quilengues, muílas, muhembes …


Com esta visita, Portugal procurava legitimar a sua ideologia em relação às colónias de África, e definir as formas de relacionamento entre a Metrópole e as colónias, que passaram a denominar-se "Império Colonial Português". Procurava mostrar ao mundo que  o povo das colónias estavam com Portugal.
Eram os tempos do Império e da redefinição do orgulho nacional, época do Acto Colonial de 1930, anexo à Constituição de 1933, pedra angular da primeira época do Estado Novo e da visão de Portugal no mundo:
...É da essência orgânica da nação portuguesa desempenhar a função histórica de possuir e colonizar domínios ultramarinos e de civilizar as populações indígenas que nele se compreendam exercendo também a influência moral que lhe é adstrita pelo Padroado do Oriente.



Terminado o desfile, a rainha Galinacho, com o seu séquito e as mulheres dos principais sobas dirigiram-se à tribuna para cumprimentar o Presidente Carmona(na foto, à dt.) que comunicou por meio de um intérprete, e ofereceu à soberana cortes de seda, além de outros presentes, entregando aos chefes medalhas comemorativas da sua visita a Angola.  Ver AQUI

Galinacho e as suas "Damas de Honor"








quarta-feira, 29 de julho de 2015

Chilongos: habitações dos indígenas. Usos e costumes.

 



"...Vivem em habitações em forma circular ou chilongos, dentro de cada um dos quais, cercados de pau a pique, existe um número variável de cubatas, cada uma correspondente a cada mulher, com sala de visitas, celeiros arrecadados, ficando em volta os currais de gado, e tendo comunicações internas em complicado labirinto, propositadamente, para defesa da casa face possíveis assaltos de povos estranhos. São corredores estreitos onde só cabe uma pessoa de cada vez, e aquele que lá entra dificilmente consegue sair não, sendo possível o encontro entre pessoas que entram e pessoas que saem do chilongo, tal a disposição do corredor.

O Soba pode escolher as consortes que quizer, e como não existe a fase do namoro, utiliza um estratagema quando visita as povoações, ou seja, como todas as pessoas têm o dever de correr às portas das casas para o cumprimentar, ele vai com toda a atenção verificando à passagem quais as casas onde encontra uma ou outra rapariga que lhe agrada, cala-se, deixa passar um tempo, pede formações ao seu ministro confidente (o lenga) acerca dos donos das referidas casas, se ricos em gados, e após ter feito escolha que mais lhe convém comunica ao lenga para a transmitir ao pai da jovem o seu interesse e avisar que em tempo oportuno a levará a casa do soba para lhe falar, não tendo os pais nem os tios maternos o direito de escusar a proposta. Então o soba manda entregar aos pais da rapariga três ou quatro vacas a título de doação temporária, só para lhe aproveitar o leite. Se a rapariga for filha de pobres, então o soba antes de qualquer contacto manda oferecer à escolhida 10 a 12 vacas e faz o pedido só algum tempo depois.

O soba não se limitam a fazer apenas uma festa de noivado para uma única rapariga, mas sim para o grupo das raparigas suas escolhidas, realizando casamentos em série. O bem estar do soba e dos seus súbditos está dependente do maior número de mulheres possíveis pois são elas que cultivam as terras, asseguram os mantimentos para sustento de todos, e com elas pode ter os filhos em grande numero que constituem grande riqueza destes povos. Trata-se de uma poligamia organizada segundo costumes com força de lei, pois não só não destrói como fortifica a família, porque dá aos chefes maior abastança, maiores mantimentos e proventos, mais relações, mais alianças, mais autoridade. Mas nestas tribos há uma diferença entre a primeira mulher escolhida e as que se seguem, pois é ela a confidente dos seus segredos, nada resolve sem sua consulta, é quem dirige e olha pelos haveres do chilongo, e em caso de morte é ela que evita o desaparecimento dos elementos que constituem a riqueza que legalmente lhe pertençam. Apesar de disputas frequentes nestes lares múltiplos tudo se resolve bem dado o interesse do chefe que reconhece ser esta a melhor forma de viver tranquilo, dando até licença alternadamente às mulheres para visitar parentes e amigos, sendo curioso se a primeira mulher o exorta a procurar e trazer mais mulheres suas companheirasa só esta gosa de prestigio outras mulheres do marido procuram assim ser venerado pelo maior numero de companheiras, e ver diminuido o seu trabalho com entrada de novos obreiras. Para o chilongo, em tudo parecido com uma colmeia, sendo seus filhos para todos os efeitos os que dentro dela nascem. O soba passa o dia a fumar o cachimbo seu cachimbo e toma apenas alem do mata-bicho, uma refeição diária sendo á noite que esta tem lugar rodeando-se da mulher e filhos e de cuidados especiais para grantir a sua vida. Este chefe sai dos seus aposentos para a sala de visitas 8  (Olupal) serve também de casa da mesa, senta-se no lugar ocupa desde feito soba, entram a seguir os filhos dá boa noite e senta-se também Depois entram , uma após outra as mulheres trazendo cada uma cesta de pirão e a mais antiga das suas mulheres a panela com molho de carne.

Esta senta-se a seu lado, mais próximo dele que as outras, sobre troncos de árvores em semi-circulo. Então soba, rodeado da mulher e filhos, e tendo perto de si as cestas do pirão e a panela do molho tira um pouco de pirão, mistura bem formando uma bola com os dedos, ensopa no molho e dá um pouco a cada mulher, espera que comam (o seguro morreu de velho, pensa ele) e só depois de ter verificado que todas comeram é que faz a distribuição da comida, começando pela primeira mulher, em seguida serve-se a ele próprio, e depois serve cada uma das outras, e fica para o fim, os filhos e os cães, que são sempre em grande numero."



SOBA Costumes gentílicos in Cadernos Coloniais 02 António Lebre, 1939

terça-feira, 10 de março de 2015

Arsénio Pompílio Pompeu Carpo


 Arsénio Pompílio Pompeu Carpo


A História de Angola, desde o século XVII até bem dentro do século XIX,  foi marcada pelo tráfico de escravos para o Brasil e Américas ( o Novo Mundo), pela deportação ou degredo (1) de criminosos dos mais diversos graus, e pela projecção das famílias criolas, no seio das quais emergiram as famosas "donas",  Dona Ana Francisca Ferreira Ubertaly (2) e Dona Ana Joaquina dos Santos Silva, frequentemente referidas nos textos de George Tams, juntamente com outros grandes negreiros, tais como Arsénio Pompílio Pompeu Carpo, Pinto da Fonseca, Nicolau Tabana.  
 
 George Tams, médico alemão, homem dado às letras com preocupações abolicionistas, curioso de mundos exóticos, que em 1841-1842, após o fim oficial do tráfico de escravos, em 1836 esteve em Luanda integrado numa grande expedição organizada  por José Ribeiro dos Santos, (negociante português estabelecido em Hamburgo),  diz-nos na sua obra Visita às Possessões Portuguesas na Costa Ocidental de Africa": 
 
«Todos eram iguais, porque duvido que houvesse um só que não fosse negociante de escravatura e que recusasse entrar em qualquer transacção criminosa, contanto que por meio dela pudesse aumentar os seus lucros». 
 
Tams descreve pormenorizadamente a vida económica e social de cidades como Benguela, Luanda e Novo Redondo», referiu que após ter passado por Benguela e ter sido bem recebido em Luanda,  particiou de várias festas surpreendendo-se com o carácter "matizado” dos participantes. Numa festa realizada no Palácio do Governador,  "sobressaia entre uma multidão de brancos, pretos e mulatos, uma mulher ricamente adornada de ouro e jóias”, que, poucos anos antes, tinha sido escrava, mas conseguiu a sua liberdade e a sua riqueza, graças à sua beleza e astúcia."
 
De acordo com as suas observações, as movimentações dos núcleos litorâneos animavam-se a cada dia com a chegada de caravanas vindas do interior, carregadas de marfim, de cera e de urzela, mas também de escravos que entravam à noite em surdina, em razão das interdições que já se faziam sentir. Ao longo dos trajectos pela costa, entre o sul de Benguela e Ambriz,  para onde se deslocaram os embarques então na clandestinidade, deparava-se com situações características de um comércio considerado ilegal, marcado por uma dinâmica imposta pela presença do esquadrão britânico e pelas leis europeias antitráfico. Tams «localiza agentes, feitorias de várias nacionalidades e barracões improvisados que se espalhavam por praias ermas e pequenos ancoradouros em zonas quase despovoadas, “essas belas solidões” que, só eram atravessadas quando os apanhadores de escravos as atingiam». 
 
Os grandes negreiros Arsénio Carpo, Pinto da Fonseca, Nicolau Tabana e, ainda as negras Ana Francisca Ferreira Ubertaly  e Ana Joaquina dos Santos Silva, aparecem frequentemente nos textos de Tams, que escreve: «Todos eram iguais, porque duvido que houvesse um só que não fosse negociante de escravatura e que recusasse entrar em qualquer transação criminosa, contanto que por meio dela pudesse aumentar os seus lucros».

Os homens que a partir de 1820, na era abolicionista, dominaram o odioso comércio eram  na maioria, recém-chegados que até então não haviam tido tinham qualquer papel  relevante na época do tráfico legal. Eles trouxeram consigo novas condições de risco e de lucros desmesurados que levaram ao afastamento dos investidores tradicionais, e abriu a porta a aventureiros insensíveis à causa da humanidade e atraídos pela promessa de ganhos. Eles viviam instalados no Rio de Janeiro ou na Baía, em Havana ou Nova Iorque, praticavam o tráfico ilícito, construíram fortunas meteóricas, a partir de seus parcos haveres, e num curto intervalo de meia dúzia de anos, dispunham de plantações, riquezas, influência política, por vezes títulos de nobreza. Mas havia outros que seguiram trajectórias lentas e sinuosas,  iniciando-se pelos elos mais difíceis e penosos da cadeia, como capitães dos tumbeiros ou como agentes das casas escravistas na costa africana, e que subiam a pulso até à qualidade de líderes do tráfico transatlântico.  Havia os perdedores de quem ninguém falava. O tráfico ilícito recorria aos mais sofisticados  meios de comunicação e de financiamento, operava através de sociedades com accionistas espalhados por vários países, apoiado numa rede de participantes que se estendia da Europa à África e às Américas, cada uma das quais envolvia gente com funções e objectivos diferentes que, desde o soba negro, vendedor de escravos, até ao plantador americano que os utilizava, se constituía numa infinidade de intermediários e coniventes (mercadores, autoridades coloniais subornadas que permitiam a exportação ou importação de escravos, marinheiros que os transportavam através do Atlântico, etc, todos quantos actuavam no circuito).
E

Arsénio Pompílio Pompeu Carpo nasceu no Funchal em 1792, onde foi baptizado com o nome de Arsénio dos Santos. Seguiu a profissão de seu pai, trabalhando como pedreiro. Em 1817 encontrando-se em Lisboa, foi aprisionado no Castelo de S. Jorge, como protagonistas da conspiração de Gomes Freire. Diz-se que estava na hora errada no local errado. Algum tempo depois foi recambiado para a Madeira, e em Março de 1820 partiu para o Rio de Janeiro (Brasil), onde teria mudado os  sobrenomes para Pompilio Pompeu do Carpo. 

Regressado de novo à Madeira, envolveu-se em 1823 numa conspiração contra o governo central, e foi deportado para Angola para cumprir um pena de cinco anos,  onde como era habitual, foi obrigado a servir nas forças militares, que não impedia os deportados de desenvolver actividades paralelas como negociantes, incluindo o tráfico de escravos para o Brasil e Américas.  

No final da década de 1820, depois de ter cumprido a pena, voltou ao Brasil e fixou residência no Recife. Pensa-se que teria sido aí que começou a dedicar-se ao vil negócio, numa época em que já havia sido abolido (1836) no quadro da revolução setembrista, e  entrara na clandestinidade.  

Em meados da década de 1830, Arsénio Pompílio Pompeu Carpo era já proprietário de vários navios negreiros que frequentarem as rotas de Angola para o Brasil, Cuba e Uruguai. 

Em 1837 regressou a Luanda, Angola, onde foi considerado o maior negreiro em acção no território, e onde ganhou influência no meio político da capital, tendo contribuído, com uma missiva enviada às cortes, em 1839, para a demissão do almirante António de Noronha, que na época estava a pôr em prática a lei da abolição do tráfico, contra os traficantes locais, publicada por Sá da Bandeira.  

Em Luanda a sua influência estendeu-se a negociações com os ingleses que resultaram em acordos, que  possibilitavam um fim do tráfego de escravos demorado e por fases.  Foi presidente da Câmara Municipal de Luanda, e a 10 de Dezembro de 1842 foi nomeado coronel comandante dos distritos do Bié, Bailundo e Huambo. Títulos puramente honoríficos. 

Em 7 de Março de 1843 foi condecorado e nomeado comendador da Ordem Militar de Cristo.
Apesar de traficante foi considerado, diz-se, um activista setembrista, em oposição ao cabralismo  que o perseguia. 

Com a crescente pressão política internacional sobre o tráfico e sobre o governo português, sobretudo a partir de meados de 1845, foi a boa relação de Carpo com militares e negociantes ingleses da região que foi adiando a sua prisão, até que, com a tomada de posse do novo governador de Angola, Pedro Alexandrino da Cunha, foi preso acusado de ligações ao tráfego de escravos ilegal, a fraudes fiscais e a incumprimentos legais enquanto presidente da câmara de Luanda e como vereador. 

Transferido para Lisboa, amigos ligados aos negócios e à maçonaria, conseguiram criar  nos meios políticos, económicos, e na imprensa, um clima em sua defesa. Motivo, a forte ameaça de Arsénio Pompílio Pompeu Carpo de publicar os nomes de quem com ele tinha colaborado no negócio lucrativo.

A 20 de Março de 1846, o Supremo Tribunal declara ilegal prisão de Carpo e manda anular o processo. Dois juízes consideraram  a acusação  nula por falta de material apreendido, enquanto os outros decidiram que o tribunal lisboeta não era competente para o caso. Também a acusação de desobediência às ordens da rainha não foi provada pelo Conselho de Guerra. 

Depois de liberto  Carpo tentou voltar a Angola, procurando que lhe fosse concedida influência junto do  governo em Angola. 

Com a perda de todos meios económicos e com o alastrar da Guerra das Patuleias, refugiou-se nos Açores, em Fevereiro de 1847, onde tentou ganhar nova influência política e económica. 

Com o fim da guerra e o restauro do governo Cabral, muda-se para Londres, onde com os seus relacionamentos económicos com empresários portugueses, e buscando apoio junto do General Sá da Bandeira, cria a ideia de uma Companhia Africana Ocidental Portuguesa com sede em Luanda. 

Em 1848 procurou construir a primeira ligação ferroviária em Angola, plano que não foi concretizado, e que consistia em unir, por caminho de ferro, Luanda e Calumbo, na margem do Cuanza, utilizando locomotivas a vapor.

Teve ainda outros planos que não tiveram apoio oficial.

Com o fim do mandato de Pedro Alexandrino da Cunha como governador, voltou a Luanda em Março de 1849, onde depois de restabelecidos os seus velhos contactos e recuperado parte do seu património, partiu para o Brasil onde também recuperou os seus bens e ligações. Porém chegado ao Rio de Janeiro, em Junho de 1849, foi preso palas autoridades brasileiras, que após várias acusações, o extraditaram em Setembro de 1849, regressando a Luanda com a família, em Novembro de 1849.

 Em finais de 1851, estando falido, foi acusado por um negociante daquela cidade, de nome António Lopes da Silva, de falência culposa e fraudulenta, levantamento de fazendas alheias, escrituras simuladas, burla e estelionato. Julgado, foi condenado a dez anos de degredo em S. Tomé, tendo-lhe sido retiradas todas as graduações, patentes, honras e títulos honoríficos. Após um apelo a Lisboa, foi transferido de novo para o Castelo de São Jorge no final de 1852, mas novamente a sentença foi anulada por motivos processuais, sendo em Junho de 1853 libertado. 

Regressou a Luanda, mas nessa altura vivia-se a decadência total do comércio de escravos, e não conseguiu relançar-se nas suas actividades económicas, porém em final de 1853 conseguiu ser nomeado governador do presídio de Ambaca, no extremo leste de Angola, onde permaneceu pelo menos até Maio de 1854, data em que Livingston por lá passou. 

Carpo obteve ainda entre 1854 e 1857 a exploração de uma mina de cobre no distrito do Golungo Alto, e uma mina de prata no presídio do Duque de Bragança, porém com resultados muito aquém das expectativas, tendo caido numa situação precária que o obrigou a solicitar à Coroa «qualquer emprego civil». Valeu-lhe uma antiga relação familiar e comercial com os Oliveira Machado, que em Maio de 1857 o tornou administrador ou representante em Luanda da casa comercial de José Joaquim de Oliveira Machado, de Lisboa. Integrou ainda a comissão de onze membros que em meados de 1861 começava a organizar a representação de Angola à Exposição Internacional de Londres, realizada no ano seguinte. Mas sua actividade não para a aqui, e ainda conseguiu manter actividades como benemérito local em Luanda. Aliás Arsénio Pompílio Pompeu Carpo teria apoiado financeiramente muitos projectos de utilidade pública e culturais em Luanda, sobretudo na década de 1840, e continuava a desenvolver actividades beneméritas, tendo em 1858, juntamente com outros comerciantes de Luanda, promovido uma angariação de donativos em Lisboa, tendo em vista o combate a uma epidemia de febre amarela. Nos últimos anos da sua vida ainda investiu fortemente no comércio com o interior angolano. Faleceu em Luanda em 1869.



Para mais informação sobre Arsénio Pompílio Pompeu Carpo :

http://www.redalyc.org/pdf/770/77021122002.pdf

http://analisesocial.ics.ul.pt/…/1218728170D4mJR8cg0Tq46KK0…


http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-87752013000300003&script=sci_arttext


(1) A deportação e o degredo foram no decurso dos séculos, e ainda na 2ª metade do século XIX e princípio do século XX, uma poderosa arma ao serviço dos regimes políticos em todo o mundo. Uma forma de migração forçada, um  meio para impedir a acção dos opositores políticos, um lugar de castigo para condenados por delito comum, assassinos, etc, a escória que Portugal e o Brasil queriam fora dos seus territórios. A prática já vinha da Grécia e da Roma antiga, e a partir de 1797 é testemunhada com a ida dos opositores da Revolução Francesa para a Guiana, prática que os franceses mantinham a partir de 1852 com as chamadas ilhas presídio, como foi o caso das ilhas do Diabo, Caiena, e de Saint-Laurent-du-Maroni. Esteve ligada aos colonialismos. Em Portugal a conjuntura politica oitocentista post revolução liberal, e post independência do Brasil, provocou perseguições e migrações forçadas para as ilhas da Madeira, Açores, Cabo Verde e Angola, de políticos e militares não gratos aos diversos regimes políticos, que se serviram desses espaços de deportação . Angola tornou-se um lugar de castigo, chegando a receber centenas de deportados por ano. Era considerada a pena mais severa, remetê-los para espaços conflituosos e incertos, como era o caso de Angola, a nova «joia da corôa». Com a Conferência de Berlim (1884-5), a imposição do aumento da presença europeia e a conversão económica em que se insere a abolição do tráfico de escravos, explodiu o número de degredados em Angola. Impunha-se a Portugal a tarefa povoar, e as famílias portuguesas preferiam outras paragens menos doentias para emigrar. Mas os degredados não foram passivos, eles actuaram no território angolano, na politica portuguesa para Angola. Foram usados como grupo marginal, e como importantes instrumentos no processo de povoamento tomaram parte no processo de embate e diálogo cultural, intensificado na segunda metade do século XIX. No dia 6 de Maio de 1847 desembarcou na Angra do Negro, Moçâmedes, um importante degredado político. Era o conde do Bonfim, José Lúcio Travassos Valdez, que na batalha de Torres Vedras, em 22 de Dezembro de 1846, no decurso do governo de Costa Cabral, fora feito prisioneiro e enviado com outros deportados políticos para Angola. Ver aqui: "O Conde do Bomfim: noticia dos seus principaes feitos":

(2) Ana Francisca Ferreira Ubertaly, viúva de um médico natural da Sardenha, um degredado que se estabelecera em Luanda, «tinha nascido no interior da África e havia sido trazida como escrava para Luanda, onde vivia. Seria  uma das pessoas que maior negócio faria com escravos. Ana Joaquina dos Santos Silva, a «Rainha do Bengo» como era chamada pelos oficiais franceses que se hospedavam junto da sua casa, a sua riqueza teria resultado «não apenas dos benefícios alcançados através do tráfico, como da prática de comércio lícito e da exploração de terras que lhes pertenciam por herança ou por doação, recorrendo ao trabalho escravo» Ambas «possuíam plantações de açúcar na região do rio Bengo, ao Norte de Luanda e em Moçâmedes, e tanto uma como a outra subscreviam novos projectos. Ambas estabeleceram-se  em Moçâmedes no início da colonização, onde mantinham agentes de suas firmas luandenses, para tocarem propriedades, mas também "para gerenciarem a mercadoria recebida em barracões escondidos longe do mar" refere Tams, As Anas negreiras seriam, também, senhoras de roças em S. Tomé.  O viajante alemão George Tams,  em  Visita às possessões portuguesas na Costa Ocidental da África, p.111 refere a existência de 300 brancos em Benguela no início de 1840. A maioria desses indivíduos viveria em regiões próximas à cidade, como mostrado mais tarde por um censo, que listou 78 brancos em Benguela propriamente dita em 1860.


Ainda sobre Pompeu do Carpo...

Um Jornalismo de Combate pela Liberdade ­­e Autonomia


"...Pedro Alexandrino da Cunha tomou posse em 6 de Setembro de 1845 e no dia 13 do mesmo mês, era publicado o primeiro exemplar de um jornal em Angola. É evidente que o novo governador, que substituíra Lourenço Possolo, trazia ordens rigorosas para dar cumprimento ao despacho do ministro das Colónias. Mas em Luanda existia um prelo muito mais moderno, com tipos de excelente qualidade, servido por oficiais tipógrafos, com o armazém cheio de papel do melhor e tintas de fino pigmento, tudo importado de Londres, na época o centro mundial da Imprensa, onde se destacava o circunspecto Times. Essa tipografia particular estava nas mãos erradas de um libertário madeirense, deportado para Luanda “por crime revolucionário”. Era ele Arsénio Pompílio Pompeu de Carpo.
 
O deportado era um intelectual e homem de cultura. Assim que foi libertado das celas da fortaleza de S. Miguel logo dinamizou um grupo de teatro amador onde era actor principal. Ele acrescentou ao seu nome verdadeiro, Pompeu de Carpo, mais os nomes de Arsénio e Pompílio, nomes de personagens que ele havia representado como actor amador. A comunidade europeia, na época, era muito pequena e maioritariamente analfabeta. Até os oficiais das tropas de ocupação eram analfabetos, porque nas leis de então, só o sargento-mor era obrigado a saber ler e escrever. Os oficiais, muitos deles oriundos de famílias nobres, não precisavam de se submeter à aprendizagem da leitura e da escrita. Deportado mas longe da cela do presídio,
Arsénio Pompílio Pompeu do Carpo começou a trabalhar e em tempo de árvore das patacas fez fortuna rapidamente. Dominava perfeitamente o inglês e essa particularidade permitiu-lhe iniciar uma bem-sucedida carreira de agente comercial, representando as melhores casas de Londres. Foi esta relação que lhe permitiu adquirir um moderno prelo mecânico e excelentes tipos. De Portugal importou os mestres tipógrafos.

O prelo da Imprensa Nacional era de má qualidade e os tipos ainda piores. O Boletim Oficial ressentia-se dessa debilidade técnica. Pompeu do Carpo viu aí uma forma de adquirir a liberdade plena. E ofereceu a Pedro Alexandrino da Cunha a sua oficina completa e trespassou para o Governo-Geral os mestres e sabedores tipógrafos. Pedro Alexandrino da Cunha pagou-lhe, levantando a pena de degredo que impendia sobre o libertário madeirense. Para mostrar o seu patriotismo ao representante do rei de Portugal na terra, Pompeu do Carpo fez-se coronel de segunda linha e chegou a comandar as guarnições do Bailundo e do Bié. O Governo do Reino fez dele comendador. Mais livre para os negócios,
Arsénio Pompílio Pompeu Carpo em breve era um dos homens mais ricos de Luanda. E enquanto a sua maquinaria gráfica imprimia a folha oficial, ele já congeminava com outros libertários a importação de mais prelos mecânicos.

O governador mandou prender Pompeu do Carpo e o revolucionário fez o percurso inverso, seguiu a ferros para a Metrópole e chegado a Lisboa foi encarcerado no castelo de S. Jorge. O libertário estava de novo a conspirar e desta vez criando na sombra uma indústria gráfica para imprimir jornais que proclamavam a liberdade de Imprensa e a autonomia de Angola. Pompeu do Carpo tinha muito dinheiro e em breve comprou a sua liberdade. Em 1848, já estava em Londres a negociar com os seus parceiros ingleses a construção de uma via-férrea entre Luanda e Kalumbo. O comboio era na época um transporte moderno e revolucionário. No coração da sociedade industrial, Pompeu do Carpo também comprou máquinas a vapor para uma serração de madeiras, a instalar nas matas do rio Kwanza. E encomendou aos engenheiros ingleses um projecto arrojado para canalizar a água do Kwanza até Luanda. Os seus sonhos foram atirados por terra pelo poder instituído, que lhe moveu uma perseguição impiedosa até conseguir aniquilá-lo social e economicamente. Em 1854, a Junta de Justiça de Luanda dava Pompeu do Carpo como indigente. Mas enquanto não sucumbiu, ele escreveu e pôs a circular na cidade de Luanda panfletos ácidos, textos de fino recorte literário que demoliam o poder, o governador e a sua corte corrupta e analfabeta. Pompeu do Carpo foi, nesta época, o mais temido dos panfletários. Mas todos os intelectuais do seu tempo, europeus ou africanos, eram terríveis polemistas e panfletários. Foi assim que nasceu a Imprensa Angolana. Num clima panfletário e libertário.

O Boletim do Governo seguia os seus passos, distintamente impresso na tipografia oferecida por
Arsénio Pompílio Pompeu Carpo. Em 1845, a folha oficial dava uma notícia social. A Assembleia de Luanda, onde se juntava a alta burguesia europeia e africana, ia dar um baile em homenagem ao governador Pedro Alexandrino da Cunha. Mais tarde, publicava um anúncio comercial. O comerciante Valentim José Pereira dava nota pública de que era comprador de todas as folhas de tabaco que lhe aparecessem. Em 1846, o Boletim Oficial (em 13 de Setembro de 1845, mudou de nome) dava a sua primeira notícia cultural. O Teatro Providência, ali na Rua dos Mercadores, levava à cena a peça “O Fugitivo da Bastilha”. Desde então, o Boletim Oficial passou a ser um verdadeiro jornal mas controlado pelo Governo-Geral. Por isso, os intelectuais da época, decidiram criar a Imprensa Livre, em oposição à Imprensa Oficial. E não demorou muito tempo. Tirado DAQUI
 
http://jornalcultura.sapo.ao/eco-de-angola/um-jornalismo-de-combate-pela-liberdade-e-autonomia/fotos

https://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/7937/1/ulfl128699_tm.pdf

http://m.jornalcultura.sapo.ao/eco-de-angola/um-jornalismo-de-combate-pela-liberdade-e-autonomia/fotos
 

domingo, 4 de janeiro de 2015

Postal antigo da baía de Moçâmedes (Namibe) com poema de Joaquim Paço d'Arcos


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Joaquim Paço D' Arcos escreveu este poema sobre Moçâmedes. Assim a preto e branco Moçâmedes (Namibe) apresenta um aspecto muito triste, como aliás devia ser, e que já nada tem a ver com aquilo em que se foi transformando ao longo do tempo, sobretudo a partir de meados do século XX .

Eis o poema:

Moçâmedes, Beijada pelo Deserto

"A velha ponte-cais de traves carcomidas,
O morro triste, a antiga fortaleza...
O deserto a avançar sobre o mar
E a polvilhar a cidade pobre da sua poeira amarela...
O deserto a sepultar a cidade pobre..."

In"Poemas Imperfeitos" de Joaquim Paço D' Arcos

Mas Quem foi Joaquim Paço D´Arcos ?
Nasceu em Lisboa, em 1908 , seguindo em 1912 para Moçâmedes onde viveu de Setembro de 1912 a Fevereiro de 1914, devido à nomeação do pai para Governador do Distrito. Era neto do primeiro conde de Paço d'Arcos. Romancista, dramaturgo, ensaísta e poeta, foi premiado diversas vezes e muito lido nos anos 40 e 50 do século XX. Uma das suas obras mais conhecidas é o conjunto de seis romances Crónica da Vida Lisboeta sobre a qual Óscar Lopes disse: «Quando se quiser ver a nossa época [anos 40 - 60] num cosmorama literário, tal como hoje vemos a época da Regeneração através de Camilo, Júlio Dinis ou Eça de Queirós, será preciso recorrer a estes romances de Paço d'Arcos quanto a determinados sectores portugueses.» Na poesia, a sua obra encontra-se em Poemas Imperfeitos, de 1952

Clicar sobre o Postal. É panorâmico.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Fábrica Africana, a primeira fábrica de conservas de Moçâmedes, Namibe, Angola





Perspectiva da Fábrica Africana, primeira fábrica de conservas iniciada em Moçâmedes no ano de 1915 ,  de Figueiredo * e Almeida, Lda.  Repare-se, em cima, à esq, a então Avenida Felner já a entrar pela Torre do Tombo, com as poucas casas que nesta altura alí existiam e pertenciam, a da esq. à familia Grade, e as três da dt,. a Conceição e Manuel Paulo, à familia Velhinho e a António Paulo. Situo nos anos 1920/30  esta foto.



Outra perspectiva  que nos  permite ver os carris de ferro por onde passavam as vagonetas que levavam o peixe da ponte para o  interior da Fábrica, para onde entrava em linha recta. O pescado era então descarregado para ser escalado e cozido em grandes caldeirões. Em seguida vinha a fase do enlatamento. No seu início esta Fábrica recrutou de Olhão pessoal feminino para trabalhar no sector de enlatamento das conservas, sector que mais tarde passou a ser ocupado por enlatadeiras africanas.
foto livro de P. Salvador (1).


Srs. de chapéu e gravata à porta da entrada da Fábrica (proprietários e empregados?) Sabe-se que esta Fábrica recebeu a visita do Ministro das Colónias, Dr Armindo Monteiro, em 1932. Será que esta foto é dessa altura? Estariam ali, encostados, a aguardar a visita? 

 
 Perspectiva do interior da Fábrica com portão de ferro a dar para o exterior, por entre entram e saiem as "vagonetas" que transportavam o peixe a partir da ponte


Aqui também se secava peixe em giraus ou tarimbas...

A escalagem era uma das primeiras operações...
 
A seguir vinha a fase da cozedura em grandes caldeiras...




O peixe já cozido a aguardar a fase seguinte da laboração
O enlatamento e as enlatadeiras africanas

O encaixotamento
Como referi atrás a Fábrica também se dedicava ao peixe seco

Perpectivas: Uma vagoneta transportando o peixe seco já ensacado



Perspectivas : a rotina dos trabalhadores




 




Conforme o livro "Huila e Moçâmedes, Considerações sobre o Trabalho Indígena", de Afonso Medes, esta fábrica, a primeira de todo o Distrito, foi mandada edificar em 1914 pela firma Figueiredo & Almeida. Conforme Artur Moraes no seu Memórias de Angola, pg 73, Caleidoscópio-Edição e Artes Gráficas, 2001, a iniciativa da criação da fábrica de conservas "Africana" deve-se a Miguel Duarte de Almeida, casado com Amélia Figueiredo Duarte de Almeida, e tomou corpo com o apoio do grande colono Serafim Freire de Figueiredo, sogro do primeiro.

Do portal Memória Africa , Boletim Geral das Colónias ( Número especial dedicado à visita do Ministro das Colónias a S. Tomé e Príncipe e a Angola) Portugal. Agência Geral das Colónias , N.88 - vol VIII. 1932, pg 407, retirei estas fotos da visita do Ministro das Colónias, Dr Armindo Monteiro, em 1932, já no quadro do Estado Novo (Salazar), a esta fábrica. Através da leitura do mesmo Boletim, na parte que interessa, ficámos a saber que esta fábrica, nessa altura denominava-se "Fábrica Africana" e que o sector de legumes e de conservas de frutos se encontrava ainda fase de apetrechamento, estando empenhado neste projecto o Dr. Torres Garcia, na sua qualidade de administrador da Companhia de Mossâmedes.

Conforme consta do apontamento histórico «Pescas em Portugal-Ultramar», de António Martins Mendes (Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa), e de uma referência feita à obra do Dr. Carlos Carneiro, então Director dos Serviços Veterinários de Moçâmedes, a "Fábrica Africana" destinava-se de início a enlatados dos legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), carne de vaca ou de porco e de peixe em salmouras e escabeche ou mesmo algumas semi-conservas de charcutaria. Como se pode ver pela duas fotos acima, no topo das janelas da "Fábrica Africana" encontravam-se escritos os produtos enlatados que ali se produziam, ou se pensava viessem a ser ali produzidos na íntegra: conservas de carnes salgadas, conservas em azeite (de atum, sarrajão, cavala, merma), conservas de fruta, conservas de escabeche, peixe fumado, etc. Vê-se também o símbolo da Fábrica, uma águia.

A Fábrica, instalada em edifício propositadamente construido para esse fim, encontrava-se dividida em dois corpos, um dos quais comunicava directamente com o exterior, ou seja, com uma ponte pertença da mesma empresa, onde o pescado era descarregado e em seguida transportado para o interior da Fábrica, directamente, através de vagonetas que deslizavam sobre carris de ferro.

Há indicações que na década de 1920 e 1930 se exportavam da "Fábrica Africana" produtos de alta qualidade para o mercado italiano e para os Congos-Belga e Francês e Gabão, que rivalizavam com os de outras origens por serem mais baratos, o que levou ao surgimento de novas conserveiras.

Em 1932, o Ministro das Colónias visitou esta Fábrica, e visitou também, conforme o mesmo Boleim, uma outra empresa fabril de conservas de peixe pertencente a Manuel da Costa Santos. Na verdade, a poente da "Fábrica Africana" ficava uma outra fábrica, mais pequena, pertencente a Costa & Pestana (?).

Esta fábrica, mais adiante no tempo, foi propriedade da Companhia do Sul de Angola, tendo Josino da Costa como arrendatário. Olimpio Aquino era o então gerente. Nos anos 1950 era designada por "Sociedade Oceânica do Sul" (SOS). Há referência no livro de Paulo Salvador "Era uma vez Angola " a um indivíduo de nome Santana como proprietário da referida Fábrica (?).

A Fábrica possuia uma frota pesqueira que tratava das capturas para a laboração, quer para o sector conserveiro, quer para o sector de salga e seca, e farinação. Para a produção das conservas de peixe iam especiamente os tunídeos: atum, albacora, sarrajão, etc. Para a salga e seca iam essenciamente os peixes de escama, tais como corvina, taco-taco, tico-tico, merma, cachucho, carapau, etc. Para farinação iam as tainhas, sardinha, cavala, carapau, etc. As tainhas pelo seu alto teor de gordura possibilitavam umalto rendimento na produção de óleo de peixe. Como atrás referido, o pescado era descarregado através da ponte anexa à Fábrica, e dalí era transportado para o interior da mesma, através de «vagonetas» que deslizavam sobre carris de linha férrea, num trajecto em linha recta, para após descarregado ser escalado e cozido em grandes caldeirões, e proceder-se ao enlatamento. No início esta Fábrica recrutou de Olhão pessoal feminino para trabalhar nesse sector, porém mais tarde esta tarefa passou a ser desempenhada por pessoal africano feminino como podemos ver ( eram as enlatadeiras).

Em 1953. já a industria de pesca de Moçâmedes tinha em actividade 14 fábricas de conservas, 155 instalações de pesca e peixe seco, 40 de farinha e óleos de peixe, tudo avaliado em 225 355 contos. Estavam empregados 5904 indígenas contratados. ("Huila e Moçâmedes, Considerações sobre o Trabalho Indígena", de Afonso Medes)

Sabemos que na década de 60, após um período aureo de grande produção nesta Fábrica enquanto Sociedade Oceânica do Sul (SOS), a mesma deixou pura e simplesmente de produzir e foi vendida à Produtos de Angola Lda (PRODUANG) cujos societários eram Gaspar Gonçalo Madeira e seu filho, Ildeberto Serra Madeira. Acabou por se transformar num entreposto para exportação de peixe congelado para Moçambique, situação que se mantinha em 1975, quando da independência de Angola. Gaspar Gonçalo Madeira regressou a Portugal, mas seu filho, Ildeberto Serra Madeira mantém-se em Moçâmedes ainda hoje.

Esta fábrica foi testemunho de uma época na história na cidade do Namibe, e hoje em dia corre o risco de desaparecer. Esperemos que tal não aconteça e que as autoridades de hoje e de amanhã saibam preservá-la, enquanto repersentativa desta fase da conjuntura colonial, na região de Moçâmedes.


Pesquisa e texto de MariaNJardim

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* No livro Memórias de Angra do Negro- Moçâmedes, de António A. M. Cristão encontrei o nome do 1º colono que e instalou numa fazenda na margem dt. do rio Bero, de nome Serafim Nunes de Figueiredo, accionista da Companhia de Moçâmedes, proprietária da fazenda. Não sei se tem alguma relação com o 1º proprietário da Fábrica Africana.

Poderemos encontrar também referencias à Figueiredo & Almeida limitada que possuia em Moçâmedes, em tempos mais recuados, uma casa filial que negociava peixe com algarvios em troca géneros europeus:AQUI


** E ainda em Industria de Pesca e seus deriivados do Distrito de Mossâmedes, 1921-22, relatório de um inquérito de Afonso José Vilela, 1923.



Portugal em Africa: revista scientifica, Volume 5 1898
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Transcrevemos a seguir passagens de um apontamento histórico de António Martins Mendes da Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa, citando a obra do Dr. Carlos Carneiro, então Director dos Serviços Veterinários de Moçâmedes **, subordinada ao tema «Pescas em Portugal - Ultramar- onde o autor nos relata algumas passagens de um importante relatório do Carlos Carneiro, veterinário em Moçâmedes nas décadas de 20, e 30 do século passado:


«... Estava-se em 1931, quando foi publicado o seu primeiro relatório de serviço (Carneiro, 1931). Nesse trabalho começa por evocar o ano de 1921, ...

«...No seu importante trabalho o Dr. Carlos Carneiro aborda o estado da Industria de Conservas. Ficamos a saber que a construção da primeira fabrica fora iniciada em Moçâmedes no ano de 1915 e estava destinada aos legumes cultivados nos vales dos rios “Bero” e “Giraul” (as célebres “Hortas de Moçâmedes”), carne de vaca ou de porco e de peixe em salmouras e escabeche ou mesmo algumas semi-conservas de charcutaria. Preparavam também óleos de pescado que, depois de várias análises e melhoramento da técnica de fabrico, tinham colocação fácil nos mercados britânicos. A fábrica obedecia às exigências da época mas a I Grande-Guerra iria causar grandes dificuldades. A chaparia para o fabrico das embalagens, que era importada e litografada em Lisboa, faltou e a fábrica foi obrigada a fechar. A indústria viria a reanimar-se a partir de 1923, preparando conservas de atum, sarrajão, cavala, mermo, principalmente destinadas ao mercado italiano que tudo absorvia, mas exportava-se também para os Congos- Belga e Francês e o Gabão. Os produtos exportados eram de alta qualidade e rivalizavam com os de outras origens por serem mais baratos. Por isso fundaram-se outras conserveiras. »
(...)