Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












domingo, 3 de janeiro de 2016

Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, o fundador de Moçâmedes (Namibe) e a abolição da escravatura








Documento Nº 4 (*)

Opinião de Bernardino sobre “a melhor forma de extinguir a escravatura”

IIlmo e Exmo Snr. – Em cumprimento do officio que V. Excia se dignou mandar dirigir-me com data de 15 de desembro do anno passado, da repartição civil, sob o nº 1842, e recebi em dez do corrente, pela polaca “Esperança”, no qual me determina que exponha a minha oppinião sobre os meios possíveis de acabar por uma vez com o tráfico da escravatura nesta província, direi, sem flores de eloquência, o que as minhas fracas razões e intelligencia me ditam, e bem assim a experiencia de quasi oito annos dedicados a assíduos e árduos trabalhos agrícolas, lidando com escravos e gentio livre, me há demonstrado.
Dividirei a questão sob dois pontos de vista:

1º _ Acabar o tráfego da escravatura para fora das possessões portuguezas;
2ª _ Acabar a escravatura dentro das mesmas possessões.
Em quanto ao primeiro ponto, a rasão, a humanidade, e a própria conveniencia reclamam que o Governo Portugues, com as mais urgentes medidas ponha por uma vez termo a tam vil, dehumano, e degradante tráfico, que em vez de ser util as mesmas possessões, é a causa de seu completo, por não dizer vergonhoso atraso.
Sem me demorar em descrever os horrorosos delictos cometidos em um desembarque – delictos que fazem corar de vergonha a quem tem sentimentos de homem, e que mal se poderia acreditar que os mesmos homens os cometessem, se se não vissem tantas vezes repetidos:  sem me demorar a descrever o que soffrem os condenados a embarcar, sem saberem para onde,  mortos de fome e de sede, etc. _ somente direi que tal trafico, alem de ferrete e de ignominia e da barbaridade  que acarreta aos que nela tomam parte, é de nenhuma utilidade, senão de prejuízo para os que residem nas possessões: porquanto raras vezes recebem o producto dos infelises que uma louca ambição os fez sacrificar, e se algum recebem, é tam ceriado e moroso, que não remedeia quase nunca as suas necessidades.
Exemplificarei, a meu modo de ver, a cauza desta illusão. Costumados os habitadores europeus d’ Africa a enviarem para o Brazil um certo numero de escravos, com cuja remessa obtinham, com pouco trabalho, meios abundantes para passarem uma vida folgada, senão licenciosa, não attenderam a que taes circumstancias haviam mudado;  e animados pró correspondências, e ate por agentes daquelles que alli, depois de tal trafico se fazer por contrabando, eram os únicos que tiravam vatagem, e que algumas vezes os engordavam, remettendo exactamente o producto dos escravos embarcados, continuaram porque já tinha tal habito; e os que vieram vindo sem reflexão e “mere pecudam”, seguiram a mesma marcha.

As transições são sempre custozas, e é por isso que o que obtinha escravos, em vez de os educar para os trabalhos agriculas do que tiraria mais sólidas e seguras vantagens - como isso mandava diligencia, trabalho assíduo e estudado, paciência e alguma demora em colher resultados, preferia embarcal-os, o que apenas lhe custava escrever algumas cartas. 

A repetição dos atos constituiu o habito, e para o destruir é mister empregar meios.
Serão estes, porem, difíceis na actualidade?

Parece-me que não. A oppinião do mundo reprova o enfame e criminoso traficio: a situação e ordem das coizas o não favorece: o interesse das mesmas possessões o sygmatisa: e so tem a seu favor, para o aconselharem, promoverem e animarem, aqueles a quem se consignam os desgraçados: mas quem são estes? Que o digam os que tem cahido no laço de fazer taes consignações. Se não fora a verdade de que o numero dos loucos é infinito: se não fora a possibilidade dos negreiros de Havana enviarem dinheiro para fazerem os carregamentos -  como farão em ultimo recurso, pois que não se limita a venda de escravos so aquela ilha, mas dali se vendem muitos para o sul da America do norte, e por alto preço - eu diria que o trafico dos escravos para o exterior acabaria por sua mesma natureza; porem, em rasão destas duas considerações, é necessário ainda empregar meios, só lembro dois, que parecem por si so eficazes.
Primeiro:- Tornar responsáveis as auctoridades administrativas e policiais por qualquer embarque que se faça nas terras de suas jurisdições: mas que esta responsabilidade seja acompanhada  das mais severas penas, e não fique so escrita no papel, este so meio acabaria de uma so vez com tal trafico. Quem vive na Africa sabe o que é um embarque, e tem ouvido o retinido das correntes, o eco do pisar dos pés opprimidos com o peso dos ferros, o bulicio das lanchas e botes, o rápido andar de centos de hõmes, que, aceleradamente se dirigem as praias. Bem se ve que difícil é que a auctoridade deixe de o saber, e, portanto, que tal facto, se aconteceu, ou foi por conveniencia ou por tolerância. Admito, porem, ainda que possível, sem que auctoridade o soubesse, e em tal cazo lembro.
Segundo: - Que o Governo da província seja auctorisado a despender, alguns contos de reis com espiões, por anno, os quaes seja obrigados a dar parte as auctoridades administrativas e policiais do local, de qualquer embarque, que se pretenda fazer: penso que assim nenhuma terá logar.
Estes espiões devem ser locaes marcados nas costas: por exemplo, nesta província ter um a seu cargo dar parte do que ocorrer entre Mossamedes e a Lucira: outros entre esta e Benguela, entre Catumbela e a Anha: entre esta e Novo Redondo: entre este e Benguela a Velha, entre esta e rio Longa, entre este e a cidade de Loanda, entre esta e Dande: entre este e Ambriz, entre este e Cabinda. Por esta forma, com muito menos despezas que a que se faz com cruzeiros, que poir maiores que sejam e mais vigilantes, faram diminuir, mas não acabar o trafico para o exterior, se consegue o fim desejado.
Dificil é, e de gravíssimo peso, desenvolver o segundo ponto de vista, isto é, acabar na actualidade com a escravatura dentro das possessões portuguesas d’Africa. Há uma lucta do coração com a cabeça: porque, se aquelle diz que é bárbaro e inhumano, que  qualquer homem seja obrigado a servir outro,  e que não gose do mais sublime dote da natureza, o uso da sua liberdade; aquella grita, que é isso verdade, mas aponta-nos as consequências que dahi podem resultar na questão sujeita.
Sera actualmente conveniente que de todo e por uma vez acabe a escravatura dentro das possessões portuguezas d’Africa?
Consideremos:
1º  .O estado das possessões.
2º  .Uzos e costumes dos europeus que as habitam.
3º  .Estado de civilização dos indígenas, seus uzos e costumes.
4º  .Se para se conservarem as possessões, será bastante o commercio, ou se sam necessárias tãobem a cultura e a industria fabris.
5º .Se a cultura e industria fabris podem ser por braços importados da Europa, ou somente pelos indígenas.
Ninguem contestara que é mau o estado actual das possessões portuguezas d’Africa; porquanto o período de transição, que infalivelmente tem de atravessar, esta ainda morosamente passando, fez com que deve absolutamente acabar o trafico da escravatura para o exterior,  que era o seu ramo considerável de commercio, e requer que esta lacuna seja preenchida por outros meios de industria que é mister crear.
É bem sabido que Portugal exerce poder governativo somente nos pontos do litoral, e que no interior se conservam os uzos, costumes e governo do gentio, embora haja chefes que são para alli despachados, pois que estes se acommodam aos mesmos uzos e costumes por necessidade , e para fazerem o seu interesse, que é ordinariamente o que lá os leva. 

Chamando eu a Africa portugueza “um deserto de moralidade”, teria com duas palavras explicado quaes os uzos e costumes dos europeus que a habitam, salvas as devidas e honrosas excepções: porem, inda assim, dividirei estes em três classes: a de funcionários públicos; a de homes que vem procurar fortuna: a de degredados. A primeira classe que é a mais numerosa, bem sabido é que se compõe de pessoas, que não vem a Africa para tomar ares, mas para fazer seus interesses; pois que o amor da pátria, e do seu augmento, e o de conseguir gloria, constitui hoje limitada excepção a esta regra.
Há algumas que procuram fazer aquelles interesses por meios lícitos: para o maior numero todos o sam uma vez que consigam o seu fim.
Não parece que esta seja uma das cauzas porque as possessões não hão de melhorar, antes ir cada vez em maior decadência. As autctoridades para as possessões, são aquellas sobre que devia hacer mais apurada e escrupulosa escolha: porque se uma exorbita no reino, facile pronto pode ser o remédio; mas nas possessões, quando ele chega, que de males já se não tem causado?
A segunda classe é dos que vem procurar fortuna, e como esta se otinha por meio de desembarque de escravos, claro esta ser a ideia dominante ate há poucos annos: posso dizer, sem perigo de errar que o numero dos que não sam dela afectados não é o maior que se dirigem a cultura precisam luctar com quase insuperaveis dificuldades. Ter consciência mais que ordinária e vontade de ferro para não desanimar logo no principio. Ainda assim , tal qual o impulso se lhe tem dado, mormente em Mossamedes, em cujo porto já entram por annos dezenas de navios que vem procura produtos agiculas.
A terceira classe é a dos degredados, os quaes quasi todos sam soldados, e não é a menos útil pois que não servem mal, e melhor o fariam, se não tivessem tanta demora nas prisões do reino, cuja escola lhes ensina o que muitas vezes ainda não sabiam, e os torna de má saúde e de hábitos occiosos.
 
Costumes, religião e governo do gentio sam quasi geralmente os mesmos da primitiva. So com a diferença de que nada de bom lhes tem ensinado os europeus, antes communicado os nossos vícios. Não se diga que sou exagerado, poderia referir muitos factos que tenho presenciado, que demonstram a verdade do que afirmo. É preciso não ficar innativo nas terras do litoral, mas correr os sertões ver o que por la vae, e se faz, para bem avaliar o que dizemos. Não é possível referir aqui todos os costumes do gentio; seria isso matéria para uma obra volumosa: referirei somente alguns que tem relação com a matéria em questão.
Sabido é que a maior parte do gentio d’Africa tem o seu governo, sob uma ou outra denominação, sob uma ou outra forma de sucessão. O governo patriarchal indistinctamente a todos os que governam seus filhos, ou seus escravos.Dispoem, ouvindo a oppinião dos seus conselheiros (esta é a forma de governo mais seguida). Da vida e da propriedade de todos tomando  por pretexto este ou aquelle crime: por exemplo, o de olhar para o “Tembo”, a primeira amiga do chefe -porque passou por tal lugar, porque é feiticeiro. Este ultimo crime, que quase sempre recae sobre quem possue gados, é frequentemente imputado, e a pena é ser morto o feiticeiro, escravisada a gente que com ele residia, e tomados os gados e tudo o mais que possuíam. Muitas vezes a pena de morte do feiticeiro é comutada em degredo, para fora do estado, sendo vendidos com  escravos. Ora, sendo muitos os governos, porque quasi todos são menores em terreno e população do que uma das nossas províncias do reino, e sendo este o costume de todos já se vê o numero de escravos feiros por anno, por tal motivo. 
É honra e signal de nobreza entre o gentio, ser bêbado e ladrão, e aquelle que mais guerras faz e rouba maior quantidades de gado e pessoas, é o maior e mais fidalgo; sendo esta a rasão de tantas e tam repetidas correrias, a que chamam guerras. Todas as pessoas nelas agrarradas sam escravisadas  -velhas. moças e creanças - e os seus parentes as vam resgatar, ou sam vendidas ou mortas,  e daqui se pode concluir o numero de escravos que tal costume deve produzir. Em quasi todos os governos pode o chefe mandar vender um dos seus filhos, ou escravos, quando carecer de pólvora, d’armas, de vestidos, etc.., e assim daqui vem ainda o augmento do numero de escravos.
Os pretos, segundo os seus uzos,  não devem trabalhar na cultura nem nos serviços domésticos: sam as pretas: A profissão deles é caçar, pescar e carregar. Se um preto, por exemplo, tiver sua mulher doente, e for buscar uma cabaça d’agua, ou um feixe de lenha, comete maior crime e paga maior multa, do que se matasse outro preto.
Quem percorre os sertões, e com os olhos de investigação observa o que se passa entre o gentio, logo vê que nenhuma necessidade sofrem os pretos; porque as pretas sam os que cultivam, fazem a comida, preparam as bebidas, e ate o cachimbo com o tabaco para os pretos fumarem: tem estes, quasi todos, mais ou menos cabeças de gado, e basta o couro de um boi para vestir mais de uma dúzia. Uma correa na cintura, com um palmo de couro que lhes cubra as partes pudendas, e outro palmo que cubra por detrás, eis um preto vestido de ponto em branco.
Dois ou tres porrinhos, arcos, flechas e uma azagaia, o que ele tudo faz, ou – a parte que tem de ferro os seus ferreiros-, ei-lo armado e pronto a seguir por toda a parte, por onde come o que lhe dão, ou gafanhotos com quatro lagartos, que agarra, passa o dia. À vista, pois, dos costumes que venho a referir, já se vê que, para acabar com a escravatura no interior das possessões, é necessario, ou que o gentio obedeça e cumpra a lei que se lhe impuzer, e perca seus maus e inveterados uzos, por meio da força, ou que se empregue meios de o civilizar, incutindo-lhes os princípios da sã moral. O primeiro meio quase impossível porque demanda forças que não temos, ou de que não podemos dispor;  o segundo é o mais conveniente, e depende somente de espalhar entre eles, bons missionários. Com estes meios, em poucos annos, muito se conseguiria.

Ora, isto é quanto ao gentio: para acabar a escravidão entre os  súbditos portugueses há que considerar.
1º Que o commercio so por si não é sufficiente para manter as possessões.
2º Que sam necessárias a agricultura e a industrial fabril, e que estas não podem existir sem braços.
3º Que estes,  attentos aos uzps e costumes do gentio, não se obtem senão obrigando-os.
4.º Que segundo  a situação actual, e o poder que sobre os pretos exerce o governo, o único meio de os obrigar é comprando-os, porque entendem que logo sam vendidos, tem o dever de prestarem a quem os compra os serviços.
5. Que para acabar por uma vez com a escravatura dentro das possessões é de justiça que os que tem escravos, recebem o valor dos mesmos, parao que são necessários muitos centos de contos de reis.
Acresce ainda mais, e esta consideração é de grande peso, que se não comprarem os pretos que os costumes gentílicos fazem escravos em todos os annos, serão muitos deles mortos, porque os captivos nas guerras, e os condenados por feitiçarias, e por outros taes crimes, a não serem vendidos, serão assassinados, e por conseguinte, a medida de acabar por uma vez com a escravatura dentro das possessões, ditada pela civilização, pela justiça, e pela humanidade, é, nas actuaes circunstancias, não so prejudicial, mas talvez aniquile as mesmas possessões, leve em seus resultados, a que cometam crimes ainda mais inhumanos.
Quando as circunstancias me obrigaram a ir convocar uma guerra gentílica contra os Gambos, muitas forão as embaixadas que recebi, e em todas se me dizia que tal Soba estava pronto para o serviço do Rei, porem que este os queria prejudicar acabando com os escravos, que era o seu primeiro redito.  Combato, como em taes lances me foi possível, semelhante reclamação e talvez que ouvissem a este respeito o que ainda não tinham ouvido.  Combati esse bárbaro costume, e taes razões lhes dei, que não lhes ficando esperança de poderem continuar tam degradante uso, ainda assim obtive o que pretendi.. e foi d’ahi que tirei por conclusão que, com bons missionários fácil seria fazel-os mudar de seus maus costumes, sendo a primeira necessidade, incutir-lhes o amor ao trabalho; 
porquanto, a occiosidade que professam, lhes faz abraçar todos os uzos que a favorecem.
Os poucos pretos com que trabalho, podem hoje ser livres, porque continuarão a ser úteis e felizes pela sua agencia, que para eles já é habito. Eduquei-os antes com boas maneiras, do que com castigos bárbaros: não tem tido fome, nem falta do essencial, e por isso me não fogem, e vivem satisfeitos. Se em vez de trinta tivesse tido três mil, daria hoje a Africa outros tantos bons trabalhadores. Será porem possível fazer-se nas possessões d’Africa, com braços importados da Europa, a cultura?  

É facílimo resolver esta questão negativamente; porquanto, sem lembrar a difficuldade de os obter, e as enormes despezas para isso necessárias, direi não ser possível cultivar com os europeus, porque ficam logo iimpossibiltados do trabalho braçal, em rasão das moléstias de que são atacados, e, porque tão
bem não se pode obter o numero suficiente para a cultura e industria fabril; e assim o ultimo recurso é aproveitar os indígenas, e o medo é compral-os, pois assim se sujeitam sem o menor obstáculo e sem repugnância, e se depois fogem, é isso devida a maior parte das vezes, ao mau modo de os tratar. So no fim de tres ou quatro annos é que um preto gentio fica bom trabalhador, e neste período é necessário muita paciência em o ensinar, e em so o ir exigindo diariamente mais um pouco de serviço.
Não me agrada a distinção de escravos e livres, nem admito na minha fazenda. Todos sam agricultores com iguaes direitos e obrigações. So é distincto o que merece, pelo seu comportamento. Esta nomenclatura é causa de rivalidade, portanto, origem de desordens e fugas.
Entendo que bem podia legislar-se sobre os serviços que deviam prestar os pretos que a humanidade mesmo reclama se comprem nas nossas possessões segundo o estado actual, sem se uzarem os reprovados nomes de escravos e liberto.  Se o infeliz háde injustamente perecer, é mais humano comprar-lhe os seus serviços que tam úteis se podem tornar em mãos de homes e intelligentes, sendo taes serviços por enquanto essencialmente necessarios nas mesmas possessões. Era isso mais racional e justo uma vez que se fizessem regulamentos em respeito ao modo como deviam ser tratados os comprados – regulamentos, cuja exata execução fosse encarregada as auctoridades administrativas e policeais, com a mais severa responsabilidade; porem, repito ainda que esta responsabilidade não devia ficar somente escripta no papel , como acontece a quase todas as nossas leis.
Expendi francamente a minha opinião, e fui bastante extenso; mas ainda maior extensão podia a matéria, que julgo de toda a transcendencia.
Sou na província o menos entendido; porem dos que mais desejam o progresso, augmento e civilização das nossas possessões.
Deos Guarde a V. Exa. Por mui dilatados annos. - Mossamedes, 15 d’Abril de 1857. IIImo e Exmo. Snr. José Rodrigues Coelho do Amaral, Governador Geral da Provincia. – Bernardino F.F.A. e Castro.
(*) Boletim Oficial de Angola, n. 611, de 13 de Junho de 1857.





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Ainda sobre a repressão do tráfico de escravos... do Livro intitulado  "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro"  by  Vicente, Jose (Gil Duarte), pg 1959.





João Duarte de Almeida e Bernardino Abreu e Castro foram dois apóstolos da abolição da escravatura. João Duarte de Almeida faz, sobre o assunto, fez  diversas exposições ao ministro Sá da Bandeira, porém não lhe sobrando espaço em seu livro para transcrever as suas exposições ao Governo Central de Lisboa  o padre José Vicente detém-se sobre a que fez Bernardino em 15 de Abril de 1857 ao governador-geral da província,  José Rodrigues Coelho do Amaral, a pedido deste :

Temos sobre os olhos esse notável documento, glória de quem o escreveu. Escreve o fundador de Moçâmedes: 

"... Direi, sem flores de eloquência, o que as minhas fracas razões de inteligência me ditam, e bem assim o que a experiência de quase oito anos, dedicados a assíduos e árduos trabalhos agrícolas, lidando com escravos e gentio livre, me há demonstrado. Dividirei a questão sob dois pontos de vista:
 

1º.- Acabar o tráfico da escravatura para fora das possessões portuguesas;
2º.- Acabar a escravatura dentro das mesmas possessões.

Enquanto ao primeiro ponto, a razão, a humanidade, e a própria conveniência reclamam que o governo português, com as mais urgentes medidas, ponha por uma vez termo a tão vil, desumano e degradante tráfico, que, em vez de ser útil às mesmas possessões, é causa do seu completo, para não dizer vergonhoso atraso.
 

Sem me demorar em descrever os horrorosos delitos cometidos em um embarque – delitos que fazem corar de vergonha a quem tem sentimentos de homem, e que mal me poderia acreditar de que os mesmos homens os cometessem, se se não vissem tantas vezes repetidos: sem me demorar a descrever o que sofrem os condenados a embarcar, sem saberem para onde, empilhados, mortos de fome e de sede, etc. - somente direi que tal tráfico, além do ferrete da ignomínia e da barbaridade, que acarreta aos que nele tomam parte, é de nenhuma utilidade, se não é de prejuízo para os que residem nas possessões, porquanto, raras vezes recebem o produto dos infelizes que uma louca ambição os faz sacrificar, e, se algum recebem, é tão cerceado e moroso, que não remedeia quase nunca as suas necessidades."

Bernardino comprova a seguir as suas afirmações de forma irrefitável, denunciando os traficantes de escravos que obtinham, com pouco trabalho, meios abundantes para passarem uma vida folgada, senão licenciosa.

Continua: " A opinião do mundo reprova o infame e criminoso tráfico: a situação e ordem das coisas o não favorece: o interesse das mesmas possessões o estigmatiza: e só tem a seu favor, para o aconselharem, promoverem e animarem, aqueles a quem se consignam os desgraçados. Mas quem são estes? Que o digam aqueçes que têm caido no laço de fazer tais consignações. Se não fora a verdade de que o número de loucos é infinito, se não fora a possibilidade de os negreiros de Havana enviarem dinheiro para fazerem os carregamentos -- como farão em último recurso, pois  que não se limita a venda de escravos só àquela ilha, mas dalí se vendem muitos para o sul da América do Norte, e por alto preço -- eu diria que o tráfico de escravos para o exterior acabaria por sua mesma natureza, porém em razão dessas duas considerações, é necessário ainda empregar meios, só lembro dois que me parecem por si só eficazes.

Primeiro, tornar responsáveis as autoridades administrativas e policiais por qualquer embarque que se faça nas terras das suas jurisdições: mas que essa responsabilidade seja acompanhada das mais severas penas, e não fique só escrita no papel; este só meio acabaria de vez com tal tráfico Quem vive na África sabe o que é um embarque, e tem ouvido o ritinido das correntes, o eco do pisar dos pés oprimidos pelo peso dos ferros, o bulício de lanchas e botes, o rápido andar de centos de homens, que aceleradamente se dirigem às praias. Bem se vê que difícil é que as autoridades deixem de o saber, e, portanto, por tal facto, se aconteceu, ou foi por conveniência ou por tolerância. Admito, porém, ainda que fosse possível, sem que a autoridade o soubesse, em tal caso, lembro.



Segundo, que o Governador da Província seja autorizado a despender alguns contos de réis com espiões, por ano, os quais sejam obrigados a dar parte às autoridades administrativas e policiais do local, de qualquer embarque, que se pretende fazer: penso que assim nenhum terá lugar.



Estes espiões devem ter locais marcados nas costas: por exemplo, nesta província ter um a seu cargo dar parte do que ocorrer entre Mossamedes e a Lucira: outros, entre esta e Benguela, entre a Catumbela e a Anha: entre esta e Novo Redondo: entre este e Benguela Velha: entre esta e o rio Longa. entre esta e a cidade de Loanda: entre esta e o Dande: entre este e o Ambriz: entre este e Cabinda. Por esta forma, com muito menos despesa do que a que se faz com os cruzeiros, que por maiores que sejam e mais vigilantes, farão diminuir, mas não acabar com o tráfico para o exterior, se consegue o fim desejado."



Bernardino faz depois judiciosas considerações sobre o problema da abolição da escravatura dentro das possessões portuguesas de África, Diz que, neste capítulo, se trava uma luta entre o coração e a cabeça. Aquele --acentua-- diz que é bárbaro e unhumano, que qualquer homem seja obrigado a servir outro, e que não gose do mais sublime dote da natureza, o uso da sua liberdade, esta grita que isso é verdade, mas aponta-nos as consequências que daí podem resultar para a questão sujeita.



Considera o estado das possessões; os usos e costumes dos europeus que as habitam; o estado da civilização dos indígenas que as habitam; se para se conservarem as possessões será bastante o comércio, ou se são necessárias também a cultura e a indústria fabris; e se a cultura e indústria fabris podem ser feitas por braços importados da Europa, ou somente por indígenas.

Bernardino é abertamente contra a manutenção da escravatura em África, mas opina que, para tanto, devem os europeus esforçar-se por civilizar as populações indígenas, o que não se verifica. Com efeito, diz: "costumes, religião, e governo do gentio, são quase geralmente os mesmos da primitiva, só com a diferença de que nada de bom lhe têm ensinado, antes comunicado os nossos vícios. Não se diga que sou exagerado: podia referir muitos factos que tenho presenciado, que demonstram a verdade do que afirmo. É preciso não ficar inactivo nas terras do litoral, mas correr os sertões, ver o que por lá vai e o que se faz, para bem avaliar o que dizemos". 



Aceita o fundador de Moçâmedes que é preciso usar de alguma força para convencer os nativos que têm de trabalhar. E explica: "Os pretos, segundo os seus usos, não devem trabalhar na cultura nem nos serviços domésticos: são as pretas. A profissão deles é caçar, pescar e carregar, Se um preto, por exemplo, tiver uma mulher doente, e for buscar uma cabaça de água, ou uma feixe de lenha, comete maior crime e paga maior multa do que se matasse outro preto."



Continua: "Quem percorre os sertões, e com olhos de investigação observa o que se passa entre o gentio, logo vê que nenhuma necessidade sofrem os pretos, porque as pretas são as que cultivam, fazem comida, preparam as bebidas e até o cachimbo com o tabaco para os pretos fumarem: têm estes, quase todos,  mais ou menos cabeças de gado, e basta o couro de um boi para vestir mais de uma dúzia. Uma correia na cintura com um palmo de couro que lhe cubra as partes podendas, e outro palmo que lhe cubra as partes por detras, eis um preto vestido de ponto em branco. Dois ou três porrinhos, arcos, flechas e uma azagaia, o que ele tudo faz , -- ou a parte que tem ferro, os seus ferreiros --ei-lo armado e pronto a seguir para toda a parte, por onde come o que lhe dão, ou gafanhotos com quatro lagartos, que agarra, passa o dia."



Deduz, com verdade lógica Bernardino: "À vista, pois, dos costumes que venho de referir, já se vê que, para acabar com a escravatura no interior das possessões, é necessário, ou que o gentio obedeça e que cumpra a lei que se lhe impuser, e perca seus maus e inveterados usos por meio da força, ou que se empreguem meios de o civilizar, incitando-lhes os princípios da sã moral. O primeiro meio é quase impossível, porque demanda forças que não temos, ou de que não podemos dispor: o segundo é o mais conveniente, e depende somente de espelhar por entre os gentios bons missionários. Com este meio, em poucos anos muito se conseguiria."



Não restam dúvidas de que Bernardino é absolutamente contra a escravatura, Mas é preciso preparar, para tanto, os próprios gentios. Conta ele:

"Quando as circunstâncias me obrigaram a ir convocar uma guerra gentílica contra oa Gambos, muitas foram as embaixadas que recebi, e em todas se me dizia que tal soba estava pronto para o serviço do Rei, porém que este os queria prejudicar, acabando com os escravos, que era o seu primeiro rédito. Combati, como em tais lances me foi possível, semelhante reclamação, e talvez que ouvissem a esse respeito o que ainda não tinham ouvido.  Combato esse bárbaro costume, e tais razões lhes dei, que não lhes ficaram esperanças de poderem continuar tão degradante uso, assim tive o que pretendi, e foi daí que tirei por conclusão, que, com bons missionários, fácil seria fazê-los mudar de seus maus costumes, senso a primeira necessidade incutir-lhes amor ao trabalho; porquanto a ociosidade que professam, lhes faz abraçar todos os maus usos que a favorecem". 



Neste pormenor se revela a personalidade de colonizador e civilizador de Bernardino. "Os poucos pretos com quem trabalho, podem hoje ser livres porque continuarão a ser úteis, e felizes pela sua agência, que para eles já é hábito. Eduquei-os antes com boas maneiras do que com castigos bárbaros: não têm tido fome, nem falta do essencial, e por isso me não fogem, e vivem satisfeitos. Se, em vez de trinta, tivesse tido três mil, daria hoje à África outros tantos bons trabalhadores".



E mais adiante: " Não me agrada a distinção entre escravos e libertos, nem a admito na minha fazenda. Todos são agricultores, com iguais direitos e obrigações. Sé é distinto o que merece, pelo seu comportamento."



Bernardino conclui: "Entendo que bem podia legislar-se sobre os serviços que deviam prestar os pretos e a humanidade mesmo reclama se comprem nas nossas possessões, segundo o estado actual, sem se usarem os reprovados nomes de escravo e liberto. Se o infeliz há-de injustamente perecer, é mais humano comprar-lhe os seus serviços, que tão úteis se podem tornar em mãos de homens bons e inteligentes, sendo tais serviços, por enquanto, essencialmente necessários nas mesmas possessões. Era isso mais racional e mais justo que se fizesse, uma vez que se fizessem regulamentos em respeito ao modo como deviam ser comprados e tratados -- regulamentos cuja exacta execução fosse encarregada às autoridades administrativas e policiais, com a mais severa responsabilidade; porém , repito ainda,  que esta responsabilidade não deveria ficar somente escrita no papel, como acontece a quase todas as nossas leis. Sou, na província, o menos entendido; porém, dos que mais desejam o progresso, aumento e civilização das nossas possessões."

Bernardino escreveu estas palavras em 1857, como acima deixamos dito. Pois uma ano decorrido, em 1858, Portugal decretou que, passados vinte anos não poderia haver escravos; mas onze anos depois, isto é, em 1869, aboliu o estado de escravidão, pelo que passaram à condição de libertos todos os escravos, em todas as suas possessões.

Extraordinária vitória esta! Mas, para que a mesma fosse possível, decisiva influência tiveram João Duarte de Almeida e Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro.

Honra lhes seja! "
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Reacção em Angola (Benguela e Luanda) à abolição do tráfico. Alguns exemplos.

Com a independência do Brasil em 1822, Portugal correu o risco de Angola vir a ser anexada pelos brasileiros. E havia bons motivos para tal...

Durante mais de 300 anos, Brasil e Angola estiveram nas duas pontas do tráfico de escravos, que fez desembarcar nas terras de Santa Cruz quase 70% dos cerca de cinco milhões de africanos que iam de Angola e do Congo. E as relações, pelo menos desde o século XVII, iam além do tráfico negreiro, abrangiam laços mercantis, familiares e culturais. Daí que após a independência do Brasil, Portugal tivesse que enviar centenas de soldados para assegurar o controle de Angola e fosse adiado o regresso a Lisboa de um navio de guerra que se encontrava fundeado na baía de Luanda. Não foi por acaso que em 1826, no tratado de reconhecimento da independência do Brasil por Portugal, foi incluída uma cláusula proibindo a ex-colónia de incorporar qualquer colónia ou território luso no continente, que na altura englobava Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé, Guiné Bissau e o Forte de Ajudá, no Golfo do Benim. Essa medida foi uma imposição da Inglaterra, já então interessada na abolição do tráfico.


Em 1823 o governo brasileiro enviou três navios de guerra para Angola para proteger navios negreiros que operavam na área, e quase em simultâneo  foi inaugurado um consulado brasileiro em Luanda, sob o comando de Rui Germack Possolo. Era  uma espécie de governo paralelo, na medida em que o cônsul chegou a ameaçar emitir licenças de partida para navios, extrapolando as suas atribuições, na defesa de traficantes brasileiros detidos por disputas com comerciantes locais, entrando em choque com o governador de Angola, Nicolau de Abreu Castelo Branco. 

A verdade é que os brasileiros desde há muito tinham conseguido grande influência  junto do poder em Angola, e ocupavam cargos da administração civil e militar, muitos dos quais tinham sido enviados para África como degredados, acabaram por se estabelecer, e por ganhar poder e prestígio. Um exemplo foi o do baiano Joaquim José da Silva Menezes, enviado como degredado para Benguela, em finais do século XVIII, onde esteve preso durante quatro meses por ter solicitado um cargo ao governador de Angola, pedido considerado uma afronta por aquele governador, que travava então uma disputa de poder com a autoridade da capital. Chamado ao palácio do governo, Menezes recebeu do ajudante-de-ordens a seguinte resposta: "só podia servir para carniceiro, ou tambor, chamando-lhe também negro, filho-da-puta e outros mais convívios".  Menezes acabou por prosperar, de escriba tornou-se alferes das forças locais, e mais tarde foi administrador do contrato de sal, e tornou-se traficante de escravos e proprietário de um navio negreiro. Ele que na Bahia, tinha sido escravo.

O tráfico de escravos era a função da maioria dos brasileiros em Angola. Degredados, agentes de casas comerciais sediadas no Brasil e marinheiros, aventuravam-se pelos sertões em busca de bons negócios. Francisco Roque Souto é outro exemplo. Salvadorenho, ex-capitão de navios negreiros, foi tentar a sorte em Luanda, mas acabou por se radicar na  Kisama, fora do controle português, onde casou com a companheira de um dos sobas  locais. Estando o monopólio do comércio interno de escravos  sob a alçada dos reinos de Kasanje e Matamba,  Souto foi intermediário dos primeiros contactos entre Luanda e outro reino local, Holo, actividade que lhe rendeu altos lucros, beneficiou negociantes daquela cidade, mas enfureceu os outros dois reinos, tenso como resultado  uma guerra entre Matamba e os portugueses, em 1744, na qual Souto participou como um dos comandantes do exército português. Este conflito teve como resultado a destruição da capital do reino africano (Mbanza da Rainha) e o envio de centenas de escravos para o Brasil. Souto acabou preso em Luanda por alguns meses.


As relações de proximidade entre Angola e o Brasil  eram tais que levaram a que um carioca se tenha tornado governador de Benguela, em 1835. Trata-se de Justiniano José dos Reis, que foi  membro da junta do governo provisório daquela cidade no período agitado a seguir  à independência do Brasil, em que rumores surgiram de um movimento em Benguela  interessado na anexação à ex-colónia.   Teria participado da conspiração o carioca Francisco Ferreira Gomes, que vivia naquela cidade desde 1800, também ele um degredado que fora soldado no Batalhão de Henriques,  formada inteiramente por negros. Gomes acabou promovido a tenente e depois a tenente-coronel, e  rapidamente subiu vários escalões da burocracia de Benguela, tornando-se almoxarife e escrivão da Fazenda Real, proprietário de pelo menos dois navios negreiros e numerosas fazendas. Tal como Francisco Souto, também se casou com a filha do soba de uma região vizinha, o Dombe Grande. Após a independência do Brasil esteve ligado a uma conspiração, juntamente com outros negociantes que tinham como plano  prender o governador e em seguida  içarem alí a bandeira do Brasil. Dizia-se que Gomes pensou usar uma de suas embarcações para bombardear Benguela, e que o governador Joaquim Bento da Fonseca, por precaução colocou um dos seus próprios navios para se proteger de eventual ataque, e transferiu o seu quartel-general para uma embarcação ancorada na baía, tendo a partir dali comandado uma verdadeira ofensiva contra os revoltosos, deportando pelo menos um para o Brasil e manifestado a intenção matar outros três.  Nas visitas que fez a Francisco Gomes e seus  apaniguados, na prisão, chamou-os de “ladrões, bodes e negros”, o que mostra a tensão  política e  racial em que se vivia. De Benguela, os revoltosos foram enviados de navio para Luanda. Mas não termina aqui o que há por dizer sobre Francisco Gomes, que foi rapidamente reabilitado, tendo regressado ao comércio de escravos, e enriquecido ainda mais, aumentando o seu prestígio através de benfeitorias levadas a cabo em Benguela,  apoios para reformas ao nível da Igreja local, auxílio ao Hospital da cidade, etc, etc. 

Tal como outros negociantes de escravos,  enviou seu filho, José Ferreira Gomes, para o Rio de Janeiro a fim de ali ser educado, voltando a Benguela e aos negócios da família. Ao fim de mais de três décadas em África, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, passando a fazer visitas esporádicas a Benguela. O filho José acabou por retornar a Benguela, assumindo os negócios do pai, e tornou-se juiz de fora daquela cidade, sendo  um dos líderes de uma revolta contra os brancos, em 1835, em parte motivada por rumores de que Portugal ia abolir o tráfico de escravos. Mais tarde, serviria-se do soba da Catumbela, seu parente por parte de mãe, para fugir das autoridades que combatiam o tráfico.
Estas as trajectórias destes quatro homens  Joaquim Menezes, Francisco Souto, Francisco Gomes e seu filho José Gomes, mostram o quanto eram intensas as relações  entre angolanos e brasileiros, enquanto durou o tráfico negreiro. A partir de meados do século XIX, a administração de Luanda passou a registar todos os brasileiros que chegavam à cidade, e  a cadastrar os que ali moravam.
 

Com o fim definitivo do tráfico em 1869, alterou-se o tipo de relação entre estes povos. 
A Conferencia de Berlim, em 1884, obrigou  Portugal a enveredar decisivamente para um novo paradigma colonial, voltado para a fixação de familias portuguesas nas colónias,  para o desenvolvimento económico dos territórios, e para o aproveitamento da mão de obra dos nativos que algum tempo mais tarde passou ao regime de contratados.

Ora não podemos considerar  a colonização de Moçâmedes no quadro deste modelo que vigorou em Luanda e sobretudo em Benguela durante séculos. Quando o General Sá da Bandeira decretou em 10 de Dezembro de 1836 a abolição do tráfico, a uma velha Angra do Negro era ainda um ermo, e só veio a ser colonizada em 1849, portanto após o Decreto, nesse período critico entre 1836 e 1869, em que o tráfico passara a fazer-se na clandestinidade.  Foi graças ao envolvimento na luta contra o tráfico do visconde Sá da Bandeira, "apóstolo" da ideia abolicionista, viveu o suficiente para, em 1875, poucos meses antes de morrer, ter o ensejo de assistir à aprovação nas Cortes de um projecto de lei que emancipava os libertos das colónias. Tratava-se do culminar de um percurso de décadas que o então marquês percorrera com persistência e obstinação, ainda que muitas vezes isolado ou quase isolado. Em 1836 foi  promotor de uma proposta de lei abolicionista apresentada em vão às Cortes, que aproveitaria o período da ditadura Setembrista para fazer passar, em 10 de Dezembro de 1836, um decreto que abolia totalmente o tráfico de escravos português. Mas tratava-se de uma medida que não correspondia a algo de verdadeiramente assumido pelo país, e que não seria imediatamente aplicada, vindo mesmo a estar na base de uma crise política equivalente à do Ultimato. As resistências à supressão imediata do tráfico eram enormes, e terão levado Sá da Bandeira a enveredar por uma política dúplice que procurava, por um lado, promover a abolição, e por outro, resistia à conclusão de um tratado abolicionista com a Inglaterra, que Portugal se comprometera a assinar, e sem o qual o tráfico dificilmente seria suprimido. Essa política poderia ter tido  êxito se se apoiasse em sólidos interesses pela África e se obtivesse resultados práticos, mas os emigrantes e financeiros mantiveram-se arredados das praias africanas, e as autoridades continuaram a contemporizar com os negreiros. Pressionado pela Inglaterra, e manietado por um país que se recusava a segui-lo, Sá foi-se emaranhando num labirinto de argumentos e minúcias legais que viria a ser desfeito no Verão de 1839 quando o Parlamento britânico aprovou o chamado Bill Palmerston, concedendo à Royal Navy poderes para apresar quaisquer navios com bandeira portuguesa (ou sem bandeira) que transportassem escravos ou estivessem equipados para fazer esse transporte. Escudados nessa lei, os cruzadores britânicos apresaram ou meteram a pique muitas dezenas de navios protegidos pelo pavilhão português. A acção violenta da Inglaterra causou um forte abalo na honra nacional portuguesa e só cessou com a assinatura do tratado anglo-português de 3 de Julho de 1842.
Uma vez apaziguada a exaltação nacionalista suscitada pelo bill Palmerston, Sá começou de novo a levantar a questão da abolição da escravidão. Contudo, a oposição a tal medida era grande e, não obstante várias propostas legislativas, durante a década de 1840 não se fez qualquer avanço nesse sentido. Terá sido fundamentalmente por isso que, a partir de 1851, Sá da Bandeira optou por uma estratégia de fraccionamento, visando apenas pequenas vitórias, que cumulativa e lentamente lhe permitissem chegar à meta final. Tratava-se de uma política a que ele próprio chamaria de “actos progressivos” e foi com base nessa perspectiva fraccionada e ultra-cautelosa que os abolicionistas começaram a plantar aquilo que viria a transformar-se numa verdadeira floresta legislativa destinada a acabar com a escravidão de uma forma indolor.


A "Lei Palmerston", imposta por Londres sobre a "proibição do tráfico de escravos",  que concedia aos cruzadores britânicos, na primeira metade do século XIX – "à revelia de qualquer acordo com o governo português" – a faculdade de visitar e apresar os navios com bandeira portuguesa suspeitos de envolvimento no tráfico de escravos. Na verdade  para onde os ingleses levavam os escravos depois de apresarem os navios portugueses. Levavam-nos para as colónias que lhes restavam. Já não tinham a América mas tinham duas colónias de plantação: a Jamaica e a Serra Leoa. Este é um dos segredos que a História oculta”

 É neste quadro que devemos avaliar a posição de Bernardino Freire  de Figueiredo Abreu e Castro e de João Duarte de Almeida,  enquadrando estes dois homens no contexto da época em que viveram, e não à luz dos nossos dias.




Alguma biliografia consultada:

ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O Trato dos Viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul, séculos XVI e XVII (Companhia das Letras, 2000).

MARQUES, João Pedro. “Os Sons do Silêncio: O Portugal de Oitocentos e a Abolição do Tráfico de Escravos” (Instituto de Ciências Sociais, 1999)





trafico_escravatura_sa_da_bandeira.pdf
 Ver aqui


Capa

Documentos ácerca do trafico da escravatura extrahidos dos papeis relativos ...

sábado, 19 de dezembro de 2015

"Mossamedes 1914" : a marcha de regresso a Moçâmedes histórias sobre a guerra


O Tenente-Médico António Monteiro de Oliveira (à direita)
e um companheiro de armas, numa foto tirada em Moçâmedes, em 1915.



Sobre esses momentos históricos que ficaram a marcar a História da colonização de Angola,  encontrei no site http://antigamente1900.blogspot.pt/search/label/CEP Marco Oliveira,  material interessante colocado pelo autor, que procura deste modo dar a conhecer essa parte do espólio do seu avô, o Tenente-Médico António Monteiro de Oliveira, que participou nas marchas no Sul de Angola, e  nas trincheiras em França, e  deixou, entre outras recordações, postais, incluso de Moçâmedes,  que  são testemunhos silenciosos do mundo em que ele viveu. 

Procurando introduzir o tema, direi que , na Europa tinha estalado a I Grande Guerra (1914-18). As operações militares no sul de Angola (1914) tinham conduzido à acção indecisa de Naulila, que teve como consequência a inutilização da soberania no Cuam Mossamedes; ato, no Humbe e no Evale. Nova expedição metropolitana chegou a Angola em 1915, sob comando do General Pereira d’Eça e desta vez a ocupação atingira a actual fronteira a sul, abrangendo os territórios perdidos no ano anterior e o Cuanhama até então impenetrável.

Eis alguns aspectos retirados ao referido site, relacionados com os incidentes na fronteira sul de Angola, na fase final das Campanhas, em que o Tenente-Médico António Monteiro de Oliveira participou, e que passo a transcrever:

 ... O meu avô contava muitas histórias (na próxima semana espero publicar aqui algumas) e trouxe vários postais. Num envelope com a inscrição "Mossâmedes 1914", encontrei duas colecções de postais sobre esta cidade. Hoje fica aqui a primeira dessas colecções. http://antigamente1900.blogspot.pt/search/label/Angola

 ...Em 1915, com a rendição das forças alemãs do Sudeste Africano ao exército sul-africano e a destruição de vários aldeamentos cuanhamas no sul de Angola, a expedição comandada pelo general Pereira d’Eça devia agora iniciar o regresso ao ponto de embarque. Esgotadas pelas constantes movimentações, pelas condições do território (onde grassava uma seca há mais de quatro anos) e por alguns confrontos, o regresso foi uma longa e penosa marcha que as tropas tiveram de realizar em direcção a costa.

...Os dias do regresso sucederam-se monotonamente e sem grandes sobressaltos. Das memórias desses dias, o meu avô repetia com frequência o episódio em que se perdeu numa caçada. Foi durante a marcha de regresso a Moçâmedes que decidiu acompanhar um companheiro de armas numa caçada. Levando um cão que farejava possíveis presas, percorreram a savana devastada pela seca sem nada encontrarem. Ao fim de algumas horas, o meu avô – que não era caçador - desistiu da caminhada e regressou ao acampamento. O seu companheiro que persistia em incitar o cão a procurar alguma pista Caminhando sozinho pelo mato, percebeu ao fim de algumas horas que não encontrava vestígios do acampamento. Estava perdido no mato. Sem quaisquer referências resolveu parar. Talvez não estivesse longe do acampamento, mas caminhar ao acaso podia levá-lo a afastar-se cada vez mais. A sorte sorriu-lhe ao fim de algum tempo quando ouviu o ecoar de um clarim. Felizmente nos acampamentos militares tudo funciona a toque de clarim; e este ouve-se a grande distância. Correu na direcção do som enquanto o ouviu, e voltou a parar; pouco depois um novo toque, proporcionou-lhe uma nova corrida. Ao fim de várias corridas, foi-se apercebendo do tropear de milhares de homens e cavalos. Acabou por entrar no acampamento em passo acelerado. Tanto quanto sabemos, o meu avô não voltou a participar em mais caçadas.

...A chegada a Moçâmedes e o embarque para Lisboa não tiveram história. Regressando no mesmo navio que o general Pereira d’Eça, várias vezes lhe chamou a atenção para uma bronquite que se agravava. De nada adiantou, porque pouco depois de chegar a Lisboa, o general viria a falecer. Espero na próxima semana poder começar a publicar postais que o meu avô adquiriu durante a sua presença na frente ocidental (1916-1918).http://antigamente1900.blogspot.pt/search/label/Angola

.... Ele contava sempre as mesmas histórias sobre a guerra". É bem possível. Uma experiência tão intensa como uma guerra deve deixar muitas recordações bem gravadas na memória. O texto que se segue foi preparado com a preciosa colaboração do meu pai, que reuniu algumas dessas histórias repetidamente contadas pelo meu avô.

...Em 1915, depois de desembarcar em Moçâmedes, a expedição de Pereira d’Eça subiu ao planalto e prosseguiu para Leste, mantendo-se a alguns dias de marcha do Cunene, para evitar incidentes na preocupante fronteira com a colónia alemã do Sudoeste Africano. Nas deslocações de uma coluna militar, a cavalaria tinha por missão explorar o terreno na vanguarda e nos flancos, em constante movimentação, procurando evitar que a infantaria fosse surpreendida.


O tenente-médico Monteiro d'Oliveira, em Moçâmedes, 1915

...O tenente-médico Monteiro d’Oliveira, integrado num esquadrão de dragões, acompanhava as deambulações da cavalaria, mas naturalmente a um médico não se considerava necessário fornecer um bom cavalo. O médico deveria colocar-se na retaguarda, para acudir aos feridos que ficassem para trás, ao contrário do comandante, que deveria preceder todos os outros, para ter visibilidade que lhe permitisse avaliar a situação.

Naturalmente que cada cavaleiro teria que conhecer bem o seu cavalo, e o meu avô foi informado que o cavalo se recusava a saltar, além de uma certa tendência para tomar o freio nos dentes. Isto chegou a causar várias vezes uma situação caricata, em que o médico aparecia a galopar à frente de todos, para grande escândalo do comandante. Mas também foi motivo de um pequeno acidente, quando ao tentar contornar um obstáculo, o meu avô foi projectado da sela, porque o cavalo resolveu saltar a par dos outros. Apesar de ter recuperado trabalhosamente a sua posição na sela sem maiores problemas, sofreu uma fractura de um dedo que nunca pode ser bem tratada, e lhe deu uma maneira de escrever muito característica.

O itinerário da expedição tinha sido preparado pelo “serviço de etapas”, fixando os locais de abastecimento, em especial os cursos de água, onde homens e animais poderiam dessedentar-se. No entanto uma seca rigorosa gorou as expectativas, e depois de atravessarem vários leitos secos, houve que inflectir para o Cunene. Foi uma longa marcha, sempre a passo para evitar a transpiração, mas sem paragens, até porque nos últimos quilómetros nada detinha os animais, nem os fazia desviar do caminho do rio. Apesar de toda a sua fidelidade, os cavalos podiam virar a cabeça, apertados pelo freio dos cavaleiros, e tentavam acelerar o passo na direcção da água que já pressentiam, e a que conseguiram chegar nos limites da desidratação.

A cavalaria era uma arma fundamental nas vastidões africanas, mas seguindo o ditado português de que “quem não tem cão caça com gato”, quando não havia cavalos, os dragões montavam muares. Naquelas condições a sua segurança era dramaticamente reduzida, porque a vantagem da cavalaria era a rapidez. Com as mulas não se pode andar a “mata cavalos”, porque quando estão cansadas empinam-se, escoucinham, mas não avançam. Os dragões que só conseguiam mulas para as suas missões de patrulha despediam-se em grande pranto dos camaradas, porque dificilmente conseguiriam regressar.


Militares Portugueses no Lubango, Janeiro de 1915

.... Reagrupada e reabastecida a expedição, foi decidido que só uma progressão muito rápida sobre os objectivos conseguiria surpreender o inimigo, e concluir com sucesso a expedição. Rapidez significava naquelas circunstâncias, significava andar a mais de 30 quilómetros por dia, que era a velocidade de transmissão das mensagens dos “tantans” africanos. Assim os soldados, subalimentados e desidratados, foram obrigados a uma marcha forçada, que provocava frequentes desfalecimentos.

Certamente havia macas, mas não havia maqueiros, e o Dr. Monteiro d’Oliveira, movimentando-se na rectaguarda, recolhia os soldados desfalecidos, atravessava-os no cavalo, e levava-os até um carro de bagagem , onde ficavam estendidos o resto do dia. Como medicamentação recebiam um remédio precioso pela sua escassez: ¼ de água das pedras. A terapêutica era eficaz a 100% e no dia seguinte os soldados já marchavam ao lado dos camaradas.

A pronta recuperação de tantas baixas acabou por ser notada pelo general Pereira d’Eça, que mais tarde exarou um louvor ao tenente-médico António Monteiro d’Oliveira.

Finalmente a vila de N’giva (futura vila Pereira d’Eça) surgiu à vista da coluna. Era um dos principais objectivos da missão. Os dragões carregaram, a população fugiu, e quando a infantaria chegou a embala estava abandonada. A tomada de NGiva foi um sucesso, não só pelo reduzido número de baixas, mas também pela captura de documentação, nomeadamente uma curiosa carta de um missionário luterano, desaparecido na confusão do ataque, que comunicava aos seus superiores no Sudoeste Africano que a coluna portuguesa tinha sido totalmente derrotada...


Agradecimento da Câmara de Mossâmedes ao alferes Monteiro (21 de Dezembro de 1909)


© Família de António Aniceto Monteiro
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...Mais uma vez a Câmara da minha presidencia tem o prazer e honra de agradecer a V.Excia. a preciosa coadjuvação que tão gostosa e desinteressadamente de ha muito lhe vem dispensando, quer na elaboração da planta da cidade, trabalho proficiente e completissimo, que só por si representa um alto valor de progresso e melhoramento para este municipio, quer na elaboração da planta do mercado, quer ainda nas varias vezes[?] em que a tem illucidado em trabalhos de especialidade, alta competencia e capacidade de V.Excia.
Tudo isso, que tanto trabalho tem revelado a par de profundos conhecimentos tecnicos, muito calculo, muita ponderação e estudo aturado, esta Camara já mais o esquecerá, e faltaria aos mais sagrados dos deveres de gratidão se lhe não demonstrasse, como demonstra, o seu alto reconhecimento e mais profundo agradecimento.
É para esta Camara de bem intensa magua a retirada de V.Excia d'esta cidade; e fazendo votos por uma feliz viajem, deseja que a fortuna e felecidade o galardôem sempre tão grandemente,  quanto os predicados de V.Excia o exigem.

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Nota: A assinatura que se vê é, muito provavelmente, de Seraphim Simões Freire de Figueiredo, que seria, então, Presidente da Câmara (ver Fernando da Costa Leal, quinto governador de Mossâmedes (1854-1959)). Seraphim Simões Freire de Figueiredo e o alferes Monteiro foram padrinhos de casamento dos pais de Lídia Monteiro.
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(...)
No fim desse ano [1909], dá-se uma viragem na vida de António Ribeiro Monteiro e nunca mais regressou à construção dos caminhos de ferro. Em 27 de Dezembro de 1909, por opinião da junta de saúde, veio para Portugal. Desconheço se a família o acompanhou.
(...)
O relatório finaliza com o parágrafo seguinte:
“Tamanha é a gratidão dos habitantes de Mossamedes e tão profundas simpathias alli deixou que a pedido d’aquella cidade vae o alferes Monteiro, muito brevemente, desempenhar alli uma nova comissão de serviço publico”.
Ao ler estas quatro páginas manuscritas que elogiam o alferes Monteiro, é difícil não ver nos traços de carácter descritos, aqueles que viriam a ser os do seu filho, António Aniceto: a grande inteligência, a versatilidade e a amplidão das suas aptidões intelectuais, o sentido prático aliado à competência teórica, a capacidade de comunicação e transmissão dos seus conhecimentos, a simpatia e a coragem.
Em Dezembro de 1910, o recém promovido tenente Monteiro regressou a Angola, tendo embarcado no dia 2 e chegado a Luanda no dia 16.
(...)




Ver também aqui : http://mocamedesregistosefactos.blogspot.pt/2012/11/o-batalhao-de-marinha-expedicionario.html

 http://www.momentosdehistoria.com/MH_02_10_Marinha.htm

sábado, 12 de dezembro de 2015

Cuisses-Tua. Que povo é esse que acolheu no seu seio "o branco da casa de barro"?






 
Os Cuissi-Tua,  conhecidos também por Mu-tuas e o "branco da casa de barro"
 

Que povo é este? Que branco é este?


Em finais do século XIX,  as terras entre a Baía dos Tigres e Oncócua, onde as distâncias eram enormes e o acesso difícil, eram pouco conhecidas dos portugueses , e foi no primeiro quartel do século XX que a atracção pela caça levou até elas os primeiros brancos, num tempo em que o acesso se fazia através de picadas  improvisadas,  nos transportes existentes que exigiam do condutor grande perícia, já que cada digressão se transformava numa verdadeira aventura.  Água, gasolina, rancho, peças sobressalentes, prontos socorros, que incluíam quinino, soro antídoto, etc, eram condições sem as quais nenhuma viagem se podia fazer. E como não havia hipótese de, a partir do deserto, comunicar com as família, convinha não exceder o tempo programado para não as atormentar, se o regresso tardasse. E o mesmo em relação à durabilidade dos mantimentos. As dificuldades eram tantas que poucos caçadores  se aventuravam a penetrar em terras do Iona, excepto uma elite de verdadeiros profissionais, bem conhecida em Moçâmedes, que dispunham de tempo e possibilidades financeiras pata tal,  entre os quais, Vasco Ferreira, Teodósio Cabral, Tito Beires de Gouveia, Matos Mendes, e poucos mais. Por vezes aderiam à aventura um ou outro administrativo interessado em conhecer melhor a área da sua jurisdição, mas era raro que tal acontecesse.

O traçado da primeira picada para transportes rodoviários entre Moçâmedes, a foz do Cunene  e a Baía dos Tigres, atravessando terras do Iona, foi feito apenas em 1928, por uma missão chefiada por Bobela da Mota, mas o trabalho era dirigido apenas para o terreno mais aconselhável, e só mais tarde a referida picada foi seguida e corrigida, em parte, por uma outra missão chefiada pelo Administrador Cid, de Porto Alexandre, conforme consta em relatório nos Annais Pecuários de Angola, de 1930.






A sul e sudoeste do Iona (1) encontram-se vários maciços montanhosos. entre quais o Tchamalinde, um dos mais propalados pela imprensa na década de 1960 por terem sido observados fenómenos sísmicos naquela região. A imprensa chegou mesmo a difundir a ideia de um vulcão no Iona, mas acabou desmentindo. Aconteciam de facto desabamentos de rocha que se desprendiam das escarpas e dos picos e se despenhavam a centenas de metros nas gargantas e vales, seguidos de estrondoso ruído. A imprensa também noticiou a inacessibilidade do maciço de Tchamalinde, em alguns pontos extremamente perigosos, e noutros impossível de transpôr. Era pois difícil a penetração nestas regiões montanhosas, que apenas nas últimas décadas da colonização foram penetradas por uma ou outra autoridade, por algum caçador atraído pela abundância de elefantes, rinos e outras espécies.(2)

Mas para além destes fenómenos Tchamalinde foi de facto amplamente noticiado na imprensa, em Angola, pela inacessibilidade do maciço, tido como perigoso em alguns pontos, e noutros, por ser impossível de transpôr. Dizia-se também que os habitantes dessas serranias eram pigmeus, gente de pequena estatura, mas este dito acabou também desmentido.

Na verdade o povo negro que habitava as serranias de Tchamalinde, do sub-grupo dos Cuissi-Tua, era de estatura pouco desenvolvida dada as suas condições de suas vidas, pois viviam como se vivia na Idade da Pedra.


 

Caçador e Pigmeus
Cuisses (mucuisses, mucuíxes, owakwisis) no Deserto do Namibe e Huila. ICTT

 
 Cuisses eram por sua vez discriminados pelos próprios africanos  da zona


Desconhece-se a existência de quaisquer referências a este povo, em relatos efectuados por exploradores ou viajantes no decurso dos tempos, o que talvez encontre justificação no isolamento em que viviam, evitando todo o tipo de convívio com povos de outras etnias, e mais ainda com europeus. Encontra-se, nos Annaes do Município de Moçâmedes, transcritos nos do Conselho Ultramarino (1839/1849), a seguinte anotação:

«Na costa ao Norte e Sul desta Vila, diz o cronista, encontram-se os Mucuissos, que é uma raça de gentio nómada, que se supõe provir da nação mecuando, que demora ao sul de Dombe, num lugar chamado Munda dos Huambo. Vagueiam pelas pedras e rochedos da costa em pequeno número, sustentando-se de mariscos e de peixe que, industriosamente, colhem com pregos, ou qualquer bocado de ferro, à falta de anzol, não fazendo parada certa nem demorada em parte alguma, sendo bastante tratáveis.»

A ausência de referências aos Cuísses pode justificar-se também pela rejeição daquela denominação pelo grupo "Cuandos" ou "Cuambúndios", vocábulos etnonímicos que surgem referidos nos finais do século XVIII, num mapa de Pinheiro Furtado. Porém, é interessante notar que a designação "Mucuíxes" surge também, referindo um agregado etno-linguístico, no mesmo mapa.

Segundo o Pe. Carlos Estermann, in "Os Povos Bantos e do Grupo Étnico dos Ambós", eram Vátuas do sul de Angola, conhecidos também por Mu-tuas pelas tribos vizinhas, designação que eles próprios aceitavam, embora depreciativa. Eram os mais antigos habitantes de "raça" negra classificada no tempo colonial, faziam parte do sub-grupo não banto, dessas vastas regiões que se estendem ao distrito Moçâmedes, desde o Cunene à serra da Neve, já a entrar pelo Distrito de Benguela. Eles assistiram à chegada, há mais de 400 anos, de um povo vindo do norte, pastores criadores de gado, do grupo etnolinguístico banto, que ocupou todas as terras onde era possível a pastorícia para as suas manadas.

Redinha refere também que a designação Cuissi lhes é atribuída por povos vizinhos envolvendo uma conotação pejorativa, e que os próprios Cuissis atribuem a si mesmos a designação Ova-mbundia ou Ova-Kwandu, e teriam adoptado a língua dos Cuvales, do grupo Herero, de quem se tornaram escravos.

A generalidade dos autores situam os Cuísses como fazendo parte dos povos negros não banto que já se encontravam no território ocupado por Angola, quando os invasores banto o penetraram e avançaram para o Sul, onde chegaram no século XVI, estendendo-se até às proximidades do Cunene, tendo um número elevado atravessado a correnteza, fixando-se nas paragens áridas do Norte da Namíbia (antigo Sudoeste Africano, colónia alemã).

Entre esses povos invasores, contam-se os Chimbas, que obrigaram os Cuisses-Tua, para fugirem à escravidão, a se refugiarem nas serranias vizinhas, tal como acontecera aos seus irmãos de "raça",(3), em regiões mais a norte. Os Cuísses, que reconheciam essa superioridade, isolavam-se também das restantes etnias em zonas geográficas bem definidas, no interior do Deserto do Namibe, que constituíam o seu habitat e o limite para a sua vida errante e bem adaptada às condições climatéricas daquele deserto.

Os Chimbas eram um povo mais evoluído e poderoso, e tinham pelos Cuisses uma repugnância atroz. Quer os Chimbas quer os Cuissis-Tuas, viviam num lado e outro das margens do Cunene, mas com maior preponderância os primeiros. Os Chimbas viviam mais na anhara e na encosta da serrania. Os Cuissi-Tua viviam na montanha. São povos que não respeitavam nacionalidades, rejeitavam leis e conceitos como cidadania, que implicava o pagamento de impostos, desconheciam a identificação, desdenhavam a civilização ocidental, contavam o tempo pelas cheias dos rios, pelas luas e pelas chuvas, não conheciam o relógio, nem o calendário. Alguns Chimbas aproximavam-se dos europeus mas não abandonavam nunca seus usos e costumes. O homem da montanha vivia ainda em estado primitivo, e muitos nunca tinham visto um branco, desconheciam o dinheiro e o mais elementar principio da civilização. Foram sempre inacessíveis à acção dos missionários, adoravam a liberdade, gostavam de ter várias mulheres e de viver a seu modo.

O nome deste povo surge intimamente ligado ao Morro do Tchitundo-Hulo ou Tchidundulo, local por eles venerado.

Mas passemos a descrever a odisseia do homem branco que se refugiou no seio dos Cuissi-Tua, conhecidos também por Mu-tuas, o "branco da casa de barro".




 
 
             Chimbas no Deserto do Namibe. Foto de Elmano Cunha e Costa ICCT (1935-1939)


Foto:  Tito Beires de Gouveia (pai), pessoa muito conhecida e estimada em Moçâmedes, posa para a posteridade nos rochedos de Tchamalinde (?), tendo à sua esq. um autóctone da região

Tchamalinde.  Do livro Angola: Dever de Memória



"O fugitivo do Iona"



Cecílio Moreira relata no seu livro "Baía dos Tigres", Cap XIV, sob o título "O fugitivo do Iona", que em 1934 as autoridades tiveram conhecimento que ali, nos penhascos de Tchamalinde, vivia clandestinamente, um branco estrangeiro cuja identidade e actividades eram desconhecidas, e foram levadas a tomar as precauções necessárias, no posto administrativo do Parque Nacional de Caça Iona, para esclarecimento do que efectivamente a passava.







Por se tratar de uma região abundante em caça e espécies raras, a dada altura, naquele mesmo ano, um funcionário administrativo de nome Bartolomeu de Paiva, juntamente com o caçador Teodósio Cabral e mais dois europeus, enquanto exploravam junto do Cambeno, encontraram um estrangeiro clandestino que estava transformado num verdadeiro "homem da selva", com hábitos e costumes dos Mu-tuas, que haviam consentido que ele vivesse no seio da sua tribo, onde se manteve acompanhado de uma mestiça, que lhe dera uma menina de olhos azuis e cabelos louros. Seu nome era Daniel Dixon. Tinha fugido às leis do seu país para não ser condenado por uma falta que cometera, preferindo afastar-se da civilização e ali viver no seio daquela tribo, onde se manteve por longos 11 anos. Dixon fora funcionário no Sudoeste Africano, talvez súbdito britânico, e no decurso da sua vida em meio àquela tribo, tornara-se admirado e querido.


Bartolomeu de Paiva e o caçador Teodósio Cabral ficaram impressionados ao verem aquele homem levando o tipo de vida da selva, no seio daquela tribo primitiva, dispondo apenas de uma casa rudimentar, feita de pedra e barro , embrenhado numa agricultura rudimentar que não era mais que um ténue sinal de civilização. Era conhecido na tribo pelo "branco da casa de barro", e acabou por se naturalizar português com nome de Dixon Ferreira.

O conhecido caçador Vasco Ferreira, de Moçâmedes, que pertencia a uma família ligada a empresas agrícolas e comerciais, tornou-se amigo de Dixon, desde que ele fora descoberto, após ter descido a montanha. Teria sido essa amizade que levou Daniel Dixon a adoptar o nome e apelido Dixon Ferreira?

Cecilio Moreira procurou saber a verdade sobre o caso do "branco da casa de barro", o que o levara de facto a fugir para ali, palmilhando mais de 2.500 quilómetros por terras inóspitas, em busca de um lugar seguro, que veio encontrar naquele maciço. A que ficou a dever-se o sigilo da autoridade? Ele, Dixon, que tinha um filho e duas filhas, onde estavam? Quem eram? Porque não o repatriaram? O jornal havia dado a notícia mas nada esclarecera. Moreira contactou velhos amigos de Dixon, comerciantes isolados na selva, consultou livros de assentos em repartições, vasculhou velhos arquivos, consultou documentos oficiais, deslocou-se ao sudoeste africano, e acabou com um maior conhecimento sobre o " branco da casa de barro", das região montanhosa do maciço de Tchamalinde, mas mesmo assim nunca conseguiu saber a sua verdadeira naturalidade. Inglaterra, talvez, e não Cabo como consta dos assentos existentes no Tribunal Judicial da Comarca de Moçâmedes, onde sequer existe menção que Dixon tenha ido para a União Sul Africana em serviço oficial como funcionário.
Não soube ao certo a sua idade, mas soube que quando se acoitou junto dos Mu-tuas já não era muito novo. Quanto às motivações que o levaram para ali, Matos Mendes e Bartolomeu Paiva tinham a sua opinião: dada a situação, as autoridades portuguesas não fizeram grandes interrogatórios, aceitaram a versão que ele mesmo lhes deu da sua presença ali, mas estes dois companheiros afirmavam que Dixon, de viva voz, nunca lhes tinha revelado o seu segredo. Talvez porque eles também não o instaram para isso. Mas quando no mato sentados à volta da fogueira, nas longas noites de cacimbo, tiveram conhecimento que a sua fuga para Angola estava ligada a uma desavença entre ele e o chefe da repartição onde trabalhava, no Cabo, que teria dado lugar a uma luta violenta, falta que era severamente punida pelas leis inglesas, na sua antiga colónia. Punição que considerava injusta e que o teria levado a embrenhar-se na floresta até encontrar refúgio seguro. Dixon tinha trabalhado no Sudoeste, em Sesfontein e no Kookoveld, sabia portanto, quando abandonou o Cabo que encontraria refúgio fácil naquelas montanhas. Ele devia saber que as autoridades portuguesas não apareciam por ali, naquele maçiço, e naquelas regiões inexpugnáveis. Ele contactou depois a tribo dos Mu-tuas que o aceitou. E mais tempo teria ali ficado no seu secreto esconderijo, se não tivesse descido, naquele dia, do cimo das cerranias, para admirar as chanas verdejantes, os animais selvagens no seu pastar pachorrento, sem serem incomodados, afastando-se daqueles amigos que o acolheram em TCHAMALINDE, local onde podia viver e morrer em paz, ter sua familia e os Mu-tua.

O fino trato que os dois caçadores moçamedenses viram em Dixon impressionou-os, e deve ter impressionado a autoridade portuguesa quando falaram pela primeira vez. Os 11 anos com a tribo não tinham demolido a sua esmerada educação, a sua elegância de trato à boa maneira inglesa. Tudo isso teria levado ao silenciamento do facto e à concessão da nacionalidade portuguesa. Tudo isso se passou à margem da imprensa angolana, na época mais voltada para assuntos sociais da vida luandense. E o Iona estava a 1700 km distância...para sul. Os meios de comunicação ali não chegavam e praticamente não existiam.

Naturalizado português a partir 1934, Dixon Ferreira tornou-se um óptimo criador de gado, foi caçador guia-oficial para as várias entidades nacionais e estrangeiras que se deslocavam a Angola, a convite do governo da Província, ou do Governo Central. Dominava o português e a língua da sua pátria, era culto e possuía longa experiência, seu saber era tido em alta consideração. A vida selvagem não tinha para ele segredos.

Reconhecido a Portugal, por várias vezes manifestou seu apreço e seu orgulho em viver à sombra da bandeira lusa. Também os portugueses nunca o abandonaram até ao último minuto da sua vida. O Governo de Angola, em 13.03.1941, como forma de gratidão pelos serviços prestados na Província, fez-lhe a oferta de uma espingarda para a caça grossa, que era o sonho de todos os caçadores. E ainda de 200 cartuchos. Era uma Mauser em cuja coronha ostentava uma chapa de prata com uma inscrição dedicada ao homenageado. Foi-lhe entregue em Sá da Bandeira pelo tenente-coronel de infantaria José da Cunha Amaral Belo.

Quando Dixon abandonou Tchamalinde, teve de deixar a mulher Mu-Tua com quem viveu , que preferiu ficar na sua tribo com a linda menina loura, filha de ambos. Dixon viveu depois com Ema Wustron, filha de uma senhora mestiça e de um boer, que vivia nas terras do Otchinjau, de quem teve dois filhos, o Jaime e o Pedro. Não eram perfilhados. Foram-no após a morte dos pais, pelo Tribunal da Comarca de Moçâmedes, onde correram os autos de inventário orfanológico. Quanto à perfilhação dos dois orfãos, o Tribunal declarou: " E porque os pais se encontravam muito longe do local onde podiam efectuar o assento relativo ao registo civil, não os perfilharam..." . Ema Wustron tinha falecido no Otchinjau, em Dezembro de 1941, tendo as crianças ido para casa de um tio, boer, Ernesto Wustron, onde ficaram até ao falecimento de seu pai, Dixon Ferreira, por volta de 1945.

Depois do falecimento de Ema, a antiga mulher Mu-tua ainda chegou a estar com Dixon. Sabe-se que ele queria tirar a filha daquela tribo que vivia na Idade da Pedra, e pensou levá-la para Moçâmedes para ser criada e educada junto da família de Vasco Ferreira, seu bom amigo, então já falecido. Mas não conseguiu porque Mu-tua ao aperceberem-se da sua intenção, pegaram na menina e levaram-na para junto da sua gente, no maciço onde era impossível localizá-la. Mais tarde a "rapariga branca", filha de Dixon, como era conhecida pelos nativos, foi vista numa zona junto da margem esquerda do rio Cunene, para sudoeste, onde havia também zonas rochosas, mas à aproximação de qualquer europeu refugiava-se na montanha.

Cecílio Moreira que nos fornece todas estas informações, refere que nunca um branco conseguiu aproximar-se dela. E que quando em 20 de Setembro de 1945 Dixon faleceu, em casa do seu amigo administrador da Circunscrição do Coroca Norte, Nolasco da Silva, foi no Otchinjau que ficou sepultado. Conforme escreveu a esposa do Administrador, D. Marilia Aguiar Nolasco da Silva, nos últimos momentos da sua vida Dixon agarrou-se ao seu marido e pediu-lhe para criar e educar as suas crianças. Foi a extremosa D. Marília quem olhou pelas duas crianças, que as baptizou em 13 Setembro 1947, na Missão da Quihita, e que lhes ensinou a falar português e as primeiras letras, porque em casa dos tios apenas se falava boer. O Jaime e o Pedro ficaram dois anos com o casal Nolasco mas estes entenderam mandá-los para a Casa Pia em Lisboa, em 1948, para serem educados, uma vez que no mato, em Angola, não havia condições. Ali concluíram os cursos secundários.Ainda de acordo com Cecilio Moreira, o Jaime foi mais tarde funcionário da Fazenda, e nunca o conheceu, mas o Pedro escreveu-lhe uma carta para Nova Lisboa referente à reportagem do "Homem da Casa de Barro", e falou com ele em Luanda, onde era um conceituado comerciante da praça. Mostrou interesse em querer saber tudo sobre o pai por quem tinha admiração e respeito. Manifestou desgosto por não conhecer a irmã.

A Senhora Nolasco num escrito de que Cecilio Moreira possui cópia, manifestou pena por não ter conhecido Dixon, porque quando o inglês faleceu ela era ainda solteira. As referências que tinha de Dixon foram-lhe dadas pelo seu marido, quando já era casada. Por ele soube que se tratava de um velho inglês de carácter intensamente cortês, que veio a falecer na sua casa e na sua própria cama que a cedera, na doença, ao amigo e companheiro de trabalho no mato e nas estradas que ambos marcaram e fizeram abrir durante meses.

Daniel Ferreira, ainda viveu em terras do Namibe vários anos, após ter deixado a montanha, como criador de gado.

Cecilio Moreira refere ainda a mágoa dele próprio por não ter conseguido saber da "rapariga Branca", e lembra-nos que foi Dixon quem ensinou a Teodósio Cabral os segredos da caça. Os Mu-tuas mantiveram por ele extrema consideração, mesmo depois de ter ido viver junto dos brancos. Foi sempre lembrado com respeito, como o primeiro branco a fazer parte sua tribo. Ultimamente Dixon foi capataz na circunscrição do Curoca Norte, usufruindo de um útil vencimento.

Estas são historias reais de uma terra velha e sem idade, com recantos infinitos ainda por explorar, a que chamaram Namibe!

(1) As terras do Iona, que se estendem desde na margem direita do rio Cunene para norte, e formam a transição das grandes dunas do Namibe, para a encosta sul das regiões planálticas, compõem-se de várias planícies, interrompidas aqui e além por aglomerados rochosos e por uma vegetação arbustiva, raquítica e rara, que luta contra a secura da terra e contra o calor, especialmente nos meses de Novembro a Março, a época do Verão no hemisfério sul. Mas à medida que se vai avançando para a encosta da montanha até quase do topo, a vegetação vai-se tornando cada vez mais atraente e verdejante. Foi o reconhecimento das condições excepcionais de habitabilidade daquelas terras para da fauna africana, que levou a Administração Portuguesa a criar em 1944, o Parque Nacional do Iona, na região mais aconselhável, onde se encontrava uma equipa de pessoal técnico, que a partir 1966 passou a ser chefiada por um médico veterinário que o habitava permanentemente.

(2) Há três tipos de vegetação: anharas, dunas com arbustos e planície de savana com pequenos arbustros. Em substratos de cascalho abunda a welwitschia mirabilis, planta que pode atingir mais de mil anos de vida. Mas a vegetação vai-se tornando cada vez mais verdejante consoante se avança para o topo da serra.

(3) O antílope emblemático do Parque é a palanca negra gigante, praticamente extinta, mas existem outros mamíferos como o elefante, olongo, leão, rinoceronte negro, onça, hiena, guelengue e várias espécies de zebras.


(3) Na faixa semidesértica do Deserto do Namibe, entre o mar e os contrafortes da Serra da Chela, segundo o etnólogo José Redinha, viviam os Cuepes e Cuisses, povos "pré-banto ou Vátua", eram também conhecidos por Curocas (nome do rio que lhes cruza o território, ocupado por populações que a elas mesmo se chamaram mucurocas) embora conhecidos pelos demais como Cuissis. Cuepes seriam outros Curocas, considerados os "puros", por serem os primeiros a se estabelecerem às margens deste rio, e ter-se-iam misturado aos Cuissis. Redinha cita Estermann (1960) ao afirmar que por este motivo tem-se admitido uma dupla origem para os Cuepe – Khoisan e Cuissi. Este povo seria, pois, anterior à presença banto, e o grupo impreciso Vátua, define, do ponto de vista linguístico como Hotentote-Bosquímano (Khoisan), com alguns elementos bantos.

Os Mucubais (Ova-kuvale), do grupo etnolinguistico banto, povo vizinho, que ocupa a área que envolve o município do Virei, ao norte, são a população emblemática do sudoeste de Angola, juntamente com os Ova-himba e outros subgrupos Herero, de quem os Curocas desde há séculos incorporaram a língua, as vestes e uma cultura pastorilm de que são a principal referência, e que se expandiu para além das fronteiras territoriais e étnicas. As populações do Curoca muitas vezes reivindicam para si a identidade Mucubal, nas negam a identidade Cuissi, ressaltando o carácter pejorativo e discriminatório do termo. Também Redinha refere a origem desconhecida dos Cuisses, povo que teria passado por uma pesada dependência dos Hotentotes, de quem teriam adoptado a língua, antes de se terem submetido aos Cuvales. Detentores de uma cultura muito primária, viviam o ciclo da caça e da colheita. Quanto aos Cuepes, a sua origem é "extremamente confusa", já que ao contrário de toda a lógica em relação ao local que habitam, seu idioma não era o dos Hotentotes, mas outra variação das línguas do grupo khoisan. Redinha não se refere, contudo, ao facto de os Cuepes terem adoptado a lingua cuvale, há já cerca de quatro gerações. O termo Curoca é, pois, uma designação mais de ordem geográfica do que étnica, conforme Estermann (1960) e Cruz (1967), dado que todos os povos que se estabeleceram nas proximidades deste rio podem ser assim chamados. Refere ainda que na chegada ao Curoca, os




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Bibliografia consultada:


Alguma bibliografia:

-Moreira, Cecílio, Baia dos Tigres, Universidade Portucalense
-Annais do Clube Militar Naval Lisboa N. 86 Jan e Março 1956
-Annais Pecuários de Angola, de 1930.
- Redinha, José. “Etnias e Culturas de Angola”, de 1974.
-Estermann, Carlos (Padre) - Os Povos não Bantos e do Grupo Étnico dos Ambós"
- Seligman (1935). “Les races de l’Afrique”
- Deniker (1926) em “Les races et les peuple de la terre”,





Dos Anais do Clube Militar Naval Lisboa N. 86, segue outro texto que aborda um assunto interessante e fala de gente ligada à caça, que bem conhecemos ou de quem ouvimos falar, em Moçâmedes:

(3) O Morro de Tchitundu-Hulu, que traduzido para português se chama «Morro Sagrado do Céu», ou «gruta Sagrada dos Mucuísses», fica situado a cerca de 130 km a leste da cidade de Moçâmedes/actual Namibe, na região de Capolopopo-Deserto do Namibe, faixa semi-desértica da área do posto administrativo do Virei e nas fronteiras da concessão do Caraculo, um pouco ao Sul do Paralelo de Porto Alexandre. Trata-se de um fantástico conjunto arqueológico de gravuras rupestes infelizmente pouco ou nada estudado, e cujo estado de conservação já nos tempos da colonização portuguesa se encontrava bastante danificado, e tão pouco possuía a dimensão que actualmente se impõe. A importância de Tchitundu-Hulu para a História e a Cultura angolanas encontra-se no facto de nelas existirem gravuras rupestres talhadas a sílex na dura rocha granítica, no grande morro que dá acesso à chamada Casa Maior que se abre sobre a falésia em forma de anfiteatro. São, na maior parte círculos que se encontram, por vezes, ligados por um traço, existindo também figuras de animais e de astros como a do famoso Sol, representado em círculos concêntricos com seus raios estilizados e constelações, onde podemos distinguir Orion e o Cruzeiro do Sul. No interior das Covas surgem, contudo, pinturas rupestres que se afiguram mais recentes, apesar da semelhança do estilo com o das gravuras. Tchitundulo parece ser de facto a estação de arte rupestre de Angola com maior número de desenhos, apresentando representações de pequenos animais, como um chacal no início da vertente norte do Morro, figurações cruciformes, desenhos "radiográficos”, etc. Quanto à idade, os fragmentos das gravuras executadas sobre as placas de granito, atestam a existência de homens sobre o Tchitundulo anteriormente à clivagem da rocha, pelo que a história geológica da região e do Morro pode vir trazer dados concretos para a história dos primitivos homens das cavernas do Capolopopo. Dizem alguns especialistas que estas gravuras têm mais de 30.000 anos tratando-se valioso património de Angola e da Humanidade, em risco de desaparecer, ameçadas de degradação e desaparecimento dadas as amplitudes térmicas entre dia e noite que fazem estalar o interior das grutas, para além, é claro, da actividade humana. Desconhece-se qual foi o povo que imprimiu estas gravuras, pensam os antropologistas que terão sido, muito provavelmente, os ancestrais do povo Khoisan, conhecidos em Angola por Ovassekele ou Mukankalas (vulgo bosquímanes). Quanto à relação entre gravuras e Mucuisses, estes parecem não fazer a mais pequena ideia sobre a autoria das mesmas, embora persista neles uma certa veneração pelo local, identificando os círculos concêntricos gravados no Tchitundulo com os astros, principalmente, com o Sol. Existe um POEMA que passarei a transcrever, da autoria de Namibiano Ferreira, natural de Porto Alexandre:

Quando passei por Tchitundu-Hulu
tinham acabado de gravar as paredes.
terminados os rituais de consagração,
cá fora, o povo mágico dançava,
comemorando alegremente.

Depois, o povo mágico partiu
subindo o Kane-Wia*
– a montanha sagrada onde Deus dorme
– e não mais voltou.

Entretanto, diariamente,
sucederam aos dias o veludo negro das noites e,
anualmente, os cacimbos trouxeram as chuvas
e as chuvas devolveram os cacimbos...
sopraram ventos ventando
num dorido e constante lamento.

Houve chuvas ansiadas,
esperadas em vão
no desejo árido do umbigo dos deuses
e o Tempo, vento de nada, passou leve
e mangonheiro inspirando o Infinito...

expirando o Esquecimento sobre as gravuras
sagradas acabadas de gravar
quando por lá tinha passado naquele dia.

Tchitundu-Hulu rodopiou na bruma
esquecida no regaço do Tempo,
encoberto e misterioso...

Um dia, no espreguiçar sem depressas,
o Tempo acordou os Kwissis
e eles vieram
e sem entender ou perguntar o quer que fosse
acreditaram
e adoraram a Gruta do Morro Sagrado do Céu
fazendo de Tchitundu-Hulu o mistério de sua Fé.

Poema de Namibiano Ferreira (In No Vento e No Tempo)

Sobre o morro dos mucuisses e as gravuras pg 206/7 Rorison «Angola» por Mike Stead, Sean Ver também AQUI


Dixon Ferreira; fugitivo; Iona; Angola; Cuisses; Mucuisses; Mu- Tua; pré-banto; Vasco Ferreira; Teodósio Cabral; Tito Beires de Gouveia; Matos Mendes; Vasco Ferreira; Teodósio Cabral; caça; Deserto Namibe; Moçâmedes;

(2)



Os Cuísses (mucuisses, mucuíxes, owakwisis)



Tal como os cuvale ou mucubal, povo herero do grupo etnolinguístico banto, também os Cuísses são povos resistentes à integração. No tempo colonial, era conhecido por um povo monogâmico e monoteísta, organizava-se vivendo em grupos de um máximo de duas famílias, em céu aberto, resguardavam-se das chuvas e dos ventos enquanto podiam, sob formações rochosas, sendo o vestuário reduzido a duas pequenas peles de animais, sobretudo antílopes, para taparem os órgãos genitais, indumentária que nas mulheres era completada por pequenas fiadas de missangas de cor branca, após a festa da puberdade. Alimentam-se exclusivamente de frutos silvestres e da caça, em que são exímios, servindo-se para tal de arcos e flechas envenenadas. Chegavam a atacar animais de grande porte, como elefantes e rinocerontes, e dominavam como autênticos mestres o emprego de sistemas de armadilhas. Conta-se que em tempos mais atrás, quando o território era atravessado por um ribeiro, chegaram a praticar a agricultura, cultivando milho?.