Já cheirava a Natal!... O Natal estava a chegar e os gourmets da Rua
das Hortas sempre a aviar: o Gingubinha; o Brasileiro; o Jaime Cariongo e
ainda outros mais que a concorrência era grande e havia que aproveitar.
As lojas de brinquedos, essas então, punham os miúdos a delirar e a
sonhar: e era um martírio para os pais arrancá-los das montras dos
Armazéns do Minho, do Venâncio Guimarães e do Pires Correia. Mas a mais
espectacular de todas era, sem dúvida nenhuma, a montra do Pires
Correia.
Era tão apelativa, tão encantatória que alguns miúdos se
passavam de todo, sabendo de antemão que nenhum daqueles brinquedos
viria a ser seu. Por isso, o Tolentino extravasava as suas raivas
metendo pelo buraco das portadas das montras do Pires Correia um fino
caniço e com ele jogava o bilhar com os brinquedos, pondo num caos a
bonita montra feita com tanto desvelo.
E, então, numa das noites
antes do Natal, o velho Pires Correia apanhou o Tolentino em flagrante
delito e, furibundo, levantou-o do chão pelos fundilhos dos calções,
mas…, milagre de Natal!, fez-se luz... e veio a compaixão. Em vez de dar
duas galhetas ao Tolentino, o bom velho Pires Correia fez um trato com o
miúdo:
- Eu conheço-te, tu és filho da D. Máxima. Vamos
fazer o seguinte: eu dou-te um brinquedo de Natal à tua escolha e tu
prometes nunca mais desfazeres a minha montra. Combinado?
E o
Tolentino escolheu, então, o maior brinquedo que por lá havia: um carrão
dos bombeiros, todo ele feito de madeira, vermelho, vermelhão e com uma
dezena de bonitos bonequinhos armados de capacetes também vermelhos...
Depois havia os mucubais que, vindos do Giraul de Cima com os
últimos cabritos vivinhos da costa, batiam à porta das casas humildes
para vendê-los a preços da uva mijona.
E a avó Catarina perguntava:
- Quanto custa cada cabrito?
- Cinco angolares, Senhora, respondia o mucubal.
- Então, o ano passado era quatro angolares cada um, agora é mais caro 25%? Como é isso?
- E o mucubal volvia, então, com manifesta convicção: “É a inflação, Senhora, é a inflação que não pára”
- Vá lá, contemporizava, contrariada, a avó Catarina, não
convencida de todo, instruindo o mucubal: - Dá a volta e leva o cabrito
para o quintal.
No quintal, já estava a Maria Torresmo à espera,
de facão em riste, para a matança do pobre animal. E mal começava a
esquartejar o cabrito, dava logo início a um monólogo bem audível que
abria o apetite a quem a ouvia, mesmo aos próprios acamados, que eram
muitos nessa altura de transição. E ia fazendo o relato para si, alto e
em bom som, do destino a dar ao desgraçado do bicho: -
“estas pernas
assadas no forno, com umas batatinhas douradas e arroz de legumes
salteados, acompanhados de um fresquinho vinho branco do alentejo; estas
mãos, este peito, estas costeletas para a caldeirada, sem poupanças na
cebola e no tomate, alho e louro q.b. e com muito gindungo para puxar
pelo tintol, que maravilha!...”, dizia a Maria Torresmo, salivando e
babando-se já a olhos vistos. E continuava a esquartejar sem dó nem
piedade o pobre animal, membro a membro até às partes mais miúdas.
Mas a caldeirada de cabrito destinava-se apenas para o almoço do Natal,
pois que para a Consoada era o tradicional bacalhau cozido, com a
habitual couve portuguesa cobrindo as batatas e os ovos.
E para o
próprio dia de Natal havia sempre uma ou outra família do Bairro da
Facada que podia dar-se ao luxo de um almoço com mais requinte, como
era, por exemplo, a casa do Tó Lindas.
É que, quanto a isso, o
Tó Lindas tinha o seu segredo de Polichinelo bem guardado, supostamente
só do seu conhecimento e de alguns poucos amigos.
Na realidade
não devia ser bem assim, mas era assim que o Tó Lindas o concebia. Um
pouco mais além da velha ponte-cais da Praia das Miragens, a Mãe
Natureza tinha caprichosamente plantado no seu fundo arenoso uma vintena
de lages, formando autênticos gavetões onde as lagostas tinham fixado
residência.
Ninguém sabia ao certo quem tinha sido o seu
descobridor, mas a verdade é que os capitães de areia do Bairro da
Facada estavam de posse das suas coordenadas.
E era assim que o
Tó Lindas nas vésperas de Natal, pelas seis da matina, pegava num saco
de rede e nos óculos de caça submarina, vestia uma camisola velha de lã,
que as águas em Dezembro ainda eram frias, e, assim munido, lá ia ele
para a Praia das Miragens.
E ali chegado, mergulhava na parte
norte da velhinha ponte-cais, nadava uns trinta metros para lá do cabeço
da ponte e flectia, então, para a Praia do Cano, mas parando logo
defronte à Capitania.
Não devia ser difícil configurar as
coordenadas do lugar, porque qualquer pescador da Torre do Tombo o fazia
diariamente com as suas sacadas ou na pesca à linha, quer fossem
algarvios, madeirenses ou quimbares. Mas para os miúdos era obra.
Mas para o Tó Lindas, em particular, era canja; olhava para o Casino e
para a grande árvore do quintal do dr Soares Pinto, e já estava; a sul,
bastava olhar para o último canhão da Fortaleza de S. Fernando e para a
pedreira da Torre do Tombo e… voilà!
Era só mergulhar, ir directo
à capoeira das lagostas e escolher três das maiores. Apenas três, que o
Tó Lindas não era nada ganancioso.
Quando chegava a casa, era
recebido em festa. E havia almoço de Natal com requintes de gente fina;
lagosta cozida com maionese. Maravilha!... E a avó Catarina não
conseguia reter umas lágrimas que teimosamente lhe corriam pela face
roída pelo tempo e pelas agruras da vida.
- Então, e o Capitão do Porto? – perguntava por fim a avó Catarina.
- O quê que tem, avó, o mar é dele?
À tarde, era o cinema do Eurico que passava o filme do Tarzan e, como
habitualmente, os miúdos pobres tinham o seu presente com entrada livre
no dia de Natal. E lá estavam todos eles na fila de entrada, os capitães
de areia do Bairro da Facada, com o Tó Lindas à cabeça.
Começava
o filme e quando o Tarzan, numa luta feroz, matava o leão ou nadava
mais rápido do que o jacaré, a sala do cinema vinha quase abaixo com
tanta claque e algazarra dos miúdos do Bairro da Facada.
Depois
do filme terminado, iam todos a correr de alma cheia e coração ao alto,
com alguns tostões nas algibeiras, directos para o Quiosque do Fautino
para o lanche do Natal:
- Sr. Faustino, dois molhados para cada um.
- O que é isso de molhados, perguntava o Sr. Faustino.
- São panguengues – respondiam os miúdos.
- Falem português, seus palermas.
- Então, o Sr. Faustino não sabe? Molhados ou panguengues são
papo-secos só com o molho das bifanas - explicitava o Tó Lindas.
- Não, não temos cá disso, só temos sandes de carne assada na panela – respondia o Sr. Faustino.
- Então o Bar do Sporting tem panguengues e o Sr. Faustino não tem! Como é isso, então?
E lá iam eles, os capitães de areia do Bairro da Facada, cantando e
rindo, felizes e contentes, a caminho do Bar do Sporting em demanda dos
molhados ou panguengues, que Deus Nosso Senhor assim mesmo os fez como
são, por alguma boa razão que não conseguimos enxergar: pobretes… mas
alegretes!...
Porque era Natal… e foi em Belém!...
(ass) Arménio Jardim