Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quinta-feira, 18 de julho de 2019

MEMÓRIAS COM HISTÓRIA. MOÇÂMEDES, ALUNOS E ESCOLAS...

A escolinha particular do cabo Almeida na Torre do Tombo, nos finais dos anos 1940

 
A escolinha do cabo Almeida na Torre do Tombo, nos finais anos 1940. Miúdos do Bairro da Torre do Tombo em Moçâmedes, Angola, nos tempos em que se jogava à bola no meio da rua, não havia asfalto e corria-se em cima de terra batida.
 
 
 ESCOLA PRIMÁRIA, Nr 56 de Pinheiro Furtadi, na DA TORRE DO TOMBO, EM MOÇÂMEDES. Antigas e novas instalações...

 
 Escola 56 de Pinheiro Furtado,  na Torre do Tombo, Moçâmedes, antes e depois de desmobilizada em 1951, e  ocupada por famlias recentemente chegadas a Moçâmedes


A partir de fins da década de 1940, inicios da década de 1950, terminada a  "2ª Grande Guerra", e o período belicista europeu em que as fábricas de onde vinha o material importado, entre 1939-45, estiveram voltadas para material bélico, arranca finalmente o plano quinquenal que havia sido aprovado e se encontrava paralizado. O mesmo é dizer , na década de 1950 em Moçâmedes iriam teve lugar uma série de construções de entre as quais as escolas primárias n. 56 de Pinheiro Furtado, na Torre do Tombo , a escola 49, e arranca também o edificio do Palácio da Justiça, os CTT, a Escola Secundária Infante D. Henrique, a ponte sobre o rio Bero, a introdução da luz eléctrica e da água canalizada, etc., e nesta corrida a cidade de Moçâmedes também iria beneficiar de obras levadas a cabo por particulares, como o Casino ou Clube Náutico, as sedes do Atlético e do Sporting, e mais adiante também o Pavilhã do Sport Moçâmedes e Benfica. E a Câmara Muncipal de Moçâmedes e o Governo do Distrito levaram a cabo também a construção do novo Estádio Municipal  a substituir o velho cmpo de futebol de terra btidaa ao fundo da Avenida, junto da Estação dos CFM, e o edificio do Aeroporto da cidade, a substituir a velha e decadente Gare. Lá para os lados das "Furnas" de Santo António, aproveitando-se da fisionomia do local o Estádio Municipal. 
 
 
Meninas do meu tempo que frequentavam a Escola Nr. 56 de Pinheiro Furtado em Moçâmedes, na Torre do Tombo, 1950/51. São elas, da esq. para a dt, atrás: Maria Luísa Almeida Bagarrão, Maria da Conceição Góis Teles (Lili), Lidia, Vitória Rosa. Embaixo: Victória Franco, Maria do Rosário Almeida (Zázá) e Guida Franco e Augusta.

Escola 56 de Pinheiro Furtadol na Torre do Tombo, Moçâmedes. Deste grupo de alunos, no ano de 1949/50, reconheço, da esq. para a dt.:  Em cima: Lopes?, Fernando Matias, Maria do Carmo Domingues, ? e Eduarda Vicente  Embaixo: Carlos Ferreira (Miroides), Ferreira Silva, Miga Calão e Dudu Ferreira Silva
Escola 56 de Pinheiro Furtado, anos 1949/50. Outro grupo da mesma época e da mesma Escola da Torre do Tombo: São elas, em cima e da esq para a dt: Maria do Rosário Almeida (Zázá), Zelda Ferreira da Silva , Otília, Graciete Ilha Bagarrão, Guida Franco, Mª Elizabete Ilha Bagarrão e Madalena Seixal.  Embaixo;  ? Seixal, Augusta, Vitória Franco,  Georgete, Lidia, Vitória Rosa, Claudete e ?.   Fui vizinha da Vitória e da Guida Franco, as meninas africanas , filhas do engermeiro Franco e D. Júlia, passei muitas tardes em sua casa e deliciei-me com os doces de ginguba e com os suspiros feitos pela senhora propositadamente para o nosso lanche. Revi a Guida há dois anos atrás no Encontro dos moçamedenses em Caldas da Rainha.
 
 
 Com o professor Duarte nas novas instalações da Escola 56 de Pinheiro Furtado, na Torre do Tombo, anos 1950
 
 
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ESCOLA PORTUGAL OU NR 55 de Fernando Leal
 


A Escola Portugal era a escola das nossas aflições na altura dos exames nacionais. Era ali que os alunos de todas as outras escolas iam prestar provas de exame, não apenas do primário e de admissão para o secundário, mas por vezes e em determinada altura, também do secundário. Naquele tempo em as aulas e os exames decorriam segundo o modelo e o calendário metropolitano, isto quer dizer que não só os programas eram os mesmos, como os períodos das férias escolares de três meses coincidiam com os da Metrópole. Neste caso, as férias na Metrópole decorriam no Verão, e as férias em Angola e demais colónias, decorriam em pleno Inverno, uma vez que as aulas terminavam para todos em Junho. Éramos os eternos sacrificados do sistema! Numa terra de clima quente, em vez de estarmos na praia, estávamos encerrados no interior das salas de aulas, enquanto na mesma altura as crianças metropolitanas se divertiam e colhiam os benefícios do sol e da praia. O regime tinha destas coisas! As colónias deviam estar eternamente submetidas às directivas da Metrópole, e nem os Governadores Gerais possuíam a mínima  autonomia para legislar.

 

Escola 55. de Fernando Leal
 Nos anos 1950 era director da Escola Portugal Escola o Professor Marques. Foto Salvador.
 
Alunos da Escola n. 55 de Fernando Leal
Alunos da Escola n. 55 de Fernando Leal

A descer as escadarias da Escola Portugal, ou 55 de Fernando Leal,o Secretário Provincial (1964.71), Pinheiro da Silva, de visita a Moçâmedes, no periodo do Governador-Geral, Silvino Silvério Marques, coincidiu com a fase de expansão do parque escolar, cuja  população escolar, quase atingiu 600.000 estudantes, em 1973. Coube-lhe também a tomada de medidas que alteraram radicalmente conceitos, modelos e práticas em que o sistema educativo se baseava, articulando-o melhor com a realidade social, fruto da integração étnica da população estudantil. As Escolas de Habilitação de Professores de Posto, que espalhou pelo território com a finalidade de formar docentes para as escolas rurais, foram obrigadas a acolher alunos de diferentes partes e não apenas da área de implantação. Diz que a medida foi inspirada por um episódio revelador da aversão que existia entre cuamatos e ganguelas. Pô-los a viver uma vida comum, desde a infância, seria uma forma de atenuar o fenómeno. E assim aconteceu. É a época da criação e implantação de muitos novos liceus e escolas técnicas, preparatórias, institutos – todos dotados de instalações construídas de raiz; da criação de cantinas escolares e o apoio às escolas das missões; ou coisas mais simples como as campanhas de plantação de árvores nos pátios das escolas, a atribuição de nomes de extracção ultramarina como patronos de Escolas (Honório Barreto, Óscar Ribas, Barão de Puna, Luis Gomes Sambo) ou o “salto” que a Mocidade Portuguesa conheceu nos seus tempos, a ponto de ter passado a ser considerada como a mais bem organizada e activa dos corpo então existentes nas partes do país.
Na antiga Escola Nr 49, ao lado da Escola nr. 55, Escola Portugal, hoje Pioneiro Zeca. Miserável o aspecto desta Escola, como se pode ver pelo aspecto degradante e sujo dos vidros da janela, um deles partido .


UM POUCO DE HISTÓRIA...



 
 
" A ESCOLA PRIMÁRIA SUPERIOR "BARÃO DE MOSSÂMEDES"
  o edificio pintado de escuro, voltados para Avenida da República,  que preenchia toda a Rua transversal .


 «São autorizados os Governadores dos Distritos de Benguela, Mossâmedes e Huila, a criar em cada um dos seus distritos uma Escola Primária Superior, competindo às Câmaras e comissões municipais o encargo do pagamento das respectivas despesas».  
 

(Artº 1.0 da Portaria N. 269D, de 23 de Agosto de 1919, assinado pelo Governador Geral de Angola, Francisco Coelho do Amaral Reis, (Visconde de Penalva) e publicada no Boletim Oficial da Província de Angola, 1ª série n. 34, de 26 de Agosto de 1919)



 
A CAMINHO DO ENSINO SECUNDÁRIO EM MOÇÂMEDES...
 
 
Foi a 23 de Agosto de 1919, em plena 1ª República portuguesa  implantada em 1910, que foi criada na sequência da determinação de do visconde de Pedralva, Francisco Coelho do Amaral Reis, aos Governadores dos Distritos de Benguela, Moçâmedes e Huila,  foi autorizada a criação em cada um a das suas capitais de distrito, de uma Escola Primária Superior, competindo às Câmaras e comissões municipais o encargo do pagamento das respectivas despesas. 
 
Em Moçâmedes a medida foi aplicada, apenas em 30 de Março de 1925, sendo no dia 23 de Maio do mesmo ano, atribuído à Escola, como patrono, José de Almeida e Vasconcelos Soveral de Carvalho da Maia Soares de Albergaria - vulgarmente conhecido por "Barão de Mossâmedes" que aliás dera o no à cidade. 
 
Nascia assim a "ESCOLA PRIMÁRIA SUPERIOR "BARÃO DE MOSSÂMEDES" 
 


Em Moçâmedes demorou bastante tempo para que a medida fosse aplicada, e só em 30 de Março de 1925 foi decidido que a pretendida Escola entrasse em funcionamento, e que o seu regulamento fosse aprovado e publicado, sendo no dia 23 de Maio do mesmo ano, atribuído à Escola, como patrono, o conhecido e prestigioso governador-geral de Angola, cujo nome a cidade já ostentava - José de Almeida e Vasconcelos Soveral de Carvalho da Maia Soares de Albergaria - vulgarmente conhecido por "Barão de Mossâmedes". 

 
A Escola Primária Superior «Barão de Mossâmedes» embora ostentasse a designação depreciativa de "Escola Primária Superior", dada a carga literária do seu curriculo, era um pronúncio de um ensino secundário que a demarcava de um ensino quer profissional quer primário, e a colocava a par de um liceu, situação que caia no desânimo de uma parte da população e dos  respectivos professores que persistentemente insistiam que a referida escola assim deveria ser considerada. De início administrada pela Câmara Municipal por portaria de 17 de Junho de 1927, mais tarde  passou a ser directamente administrada pelo Estado, visto que a Câmara não reunia recursos monetários para a mantêr, e os seus professores estavam sem receber os vencimentos desde Novembro do ano anterior.  Em 10 de Julho de 1930, a "Escola Primária Superior Barão de Mossâmedes" passou a adoptar períodos lectivos idênticos aos dos liceus, e as férias passaram a coincidir com as destes estabelecimentos de ensino, porém mantendo  inalterada a situação anterior.  Apesar da luta travada por pais e professores para que à  semelhança daquilo que se passou na cidade de Sá da Bandeira onde a Escola Primária Superior deu lugar ao Liceu Diogo Cão, em Moçâmedes a Escola Barão de Mossâmedes acabou extinta pelo decreto de 30 de Novembro de 1936, que tinha em vista organizar em moldes novos o orçamento dos territórios ultramarinos, de acordo com princípios já experimentados em Portugal. 
 
Em sua substituição foi criada a "Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes", cujo regulamento foi aprovado em 3 de Abril de 1937.
   
 
 
Manuel Júlio de Mendonça Torres
 
 
Manuel Júlio de Mendonça Torres, descendente de colonos de Pernambuco, Brasil, chegados a Moçâmedes em 1849, foi um ardente apóstolo da causa que levou à inauguração da solene da «Escola Primária Superior Barão de Mossâmedes» (in “O Mossamedense”, (vidé nº. 46, de 31.05.1925 - 4ª. Série Director: Alberto Trindade-Editor: Joaquim Augusto Monteiro). Foi professor de Português e História nesta Escola que ficava situada nuns prédios voltados para Avenida da República, paralela ao mar, e preenchia toda a Rua transversal até à Rua dos Pescadores, onde leccionou desde princípios dos anos 20 até princípios dos anos 40(?), quando resolveu fixar-se em Lisboa, onde passou a escrever para os jornais e revistas oficiais, e dedicou.se a escrever os dois volumes sobre a História da sua terra, e onde veio a falecer nos anos 50.


Em 10 de Julho de 1930, a "Escola Primária Superior Barão de Mossâmedes" passou a adoptar períodos lectivos idênticos aos dos liceus, e as férias passaram a coincidir com as destes estabelecimentos de ensino, porém mantendo  inalterada a situação anterior.  Apesar da luta travada, a Escola acabou extinta pelo decreto de 30 de Novembro de 1936 que tinha em vista organizar em moldes novos o orçamento dos territórios ultramarinos, de acordo com princípios já experimentados em Portugal. Em sua substituição foi criada  "Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes", cujo regulamento foi aprovado em 3 de Abril de 1937.

A mesma situação de descontentamento se tinha verificado na vizinha Sá da Bandeira, onde população e docentes sonhavam persistentemente com a promoção e transformação da Escola Primária Superior Artur de Paiva em instituição Liceal, o que veio a tornar-se realidade em 6 de Abril de 1929 , por ocasião da visita à cidade do governador-geral e alto-comissário, Filomeno da Câmara Melo Cabral, que extinguiu a Escola Primária Superior Artur de Paiva, e criou em sua substituição, o Liceu Nacional da Huíla, o Diogo Cão. 

Em Moçâmedes, e conforme se pode lêr pelo Boletim Geral das Colónias. VIII - 088 - apenso de Legislação Colonial Nº 088A - Vol. VIII, 1932, 20 págs, que contempla a visita do Ministro das Colónias, Armindo Monteiro a Moçâmedes, as «forças vivas» do Distrito tinham apresentado ao Ministro uma exposição em que chamam a sua atenção  para questões, cuja solução consideram de grande importância, entre as quais:

(...)
Instrução Pública:

1. Um número suficiente de edifícios escolares e de professores;

2. Uma escola de artes e ofícios adequada às características industriais e agrícolas do distrito;

3. A transformação da Escola Primária Superior «Barão de Mossâmedes» num sentido mais prático e mais desenvolvido.
4. A criação, na colónia, de uma escola de preparação para o preenchimento de quaisquer lugares do funcionalismo público e moldada com as características e com os mesmos fins da Escola Colonial existente na Metrópole, sendo dada a preferências aos seus alunos no preenchimento das vagas ou lugares a criar. 
 
O que pedia Moçâmedes, em 1932, ao Ministro das Colónias,  não era um Liceu, mas uma Escola que ministrasse um tipo de ensino mais prático e mais de acordo com as actividades do Distrito. A nova escola deveria, pois, relacionar-se com as actividades marítimas e o sector piscatório. Mantinha-se assim a velha ideia de que o ensino público deveria estar ligado às actividades inerentes ao local em que os alunos residissem, partindo-se do pressuposto que não haveria a mobilidade territorial entre as pessoas.  Aliás, havia um texto legal que defendia que o ensino ministrado em cada meio social fosse o mais adaptado possível ao seu ambiente e às suas necessidades. Por isso entendeu-se que, sendo Moçâmedes uma terra essencialmente dedicada às coisas do mar, não deveria ter um Liceu que ministrasse um ensino de cariz literário, mas sim uma Escola profissional que se considerava então que melhor serviria as aspirações das suas gentes.
 
 
«Escola Marítima de Mossâmedes», depois «Escola Industrial Marítima de Mossâmedes»

 
 
Recuando no tempo, convém referir que já em  18 de Abril de 1918 houve uma primeira e fugaz tentativa de criação da «Escola Marítima de Mossâmedes», depois «Escola Industrial Marítima de Mossâmedes»,  pelo  governador-geral Jaime Alberto de Castro Morais, estabelecimento de ensino que não deixou tradição e conduziu a um impasse com relação à "Escola Primária Superior Barão de Mossâmedes", que, sendo criada em 1919,  acabou por ser posta a funcionar apenas em 30 de Março de 1925.
 
 O curso preparatório  da "Escola Industrial Marítima de Mossâmedes" tinha a duração de dois anos, pretendia ministrar aos alunos o ensino primário complementar,  e exigia que os mesmos soubessem já ler e escrever correntemente e efectuar as operações aritméticas. Estava previsto que, para além da parte literária propriamente dita, aprenderiam outras coisas, tais como ginástica educativa, exercícios paramilitares, natação, remo, trabalhos de velame, cordoaria e calafate. Deveriam estudar também os acidentes geográficos litorais de Angola, sobretudo os da costa do distrito de Mossâmedes, a influência e orientação predominante dos ventos, correntes, etc, bem como noções relacionadas com a História da Colonização do Sul de Angola. O curso especial, que durava também dois anos, consistia no estudo de Aritmética e Geometria, Físico-Química, Ciências Histórico-Naturais, Legislação, Contabilidade, Escrituração Comercial, Desenho, Indústrias Marítimas, Construções Navais, etc.. A parte prática do curso obrigava a aprender a fazer sondagens, medir a força das correntes, treino na caça à baleia, fabricação de óleos, guanos e colas, curtume de peles. etc.
 
 
 
"Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes
 

E assim chegamos ao 3 de Abril de 1937, à data em que foi aprovado o Regulamento da "Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes", cujo ensino teria a organização seguinte:

Sexo masculino
—Mestre de pesca e carpinteiro-calafate;
Sexo feminino
—Costura e bordados;
Os dois sexos
—Curso geral do comércio.
No curso de mestre de pesca, os alunos estudariam Português, Francês, Ciências Geográfico-Naturais, Matemática, Desenho e Trabalhos Manuais, e Educação Moral e Cívica.

Tomariam contacto com os trabalhos de construção e reparação de barcos; treinariam nas actividades da navegação e pilotagem; atenderiam aos trabalhos da pesca e conserva do peixe; seriam iniciados na reparação dos instrumentos de bordo e outras tarefas afins. Os alunos do curso de carpinteiro-calafate estudariam as mesmas disciplinas e ainda Desenho de Projecções, Desenho Profissional e Estilos, e Tecnologia; nas oficinas, aprenderiam o que dizia respeito à construção e reparação de barcos.  As alunas de costura e bordados estudavam as mesmas disciplinas e tinham trabalhos práticos, de cuja amplitude não podemos aperceber-nos, pois o texto legal não é suficientemente claro.

No curso comercial, estudavam-se as mesmas matérias acrescidas de Inglês, Elementos de Direito Comercial, Economia Política, Noções Gerais de Comércio, Contabilidade e Escrituração Comercial, Caligrafia, Dactilografia e Estenografia. Continuava a prestar-se atenção a tudo o que dizia respeito à pesca e conserva de peixe, construção e reparação de barcos. 

A "Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes"  era considerada no seu aspecto burocrático e estrutural, como uma escola de ensino técnico secundário, pois havia em Angola na altura, pelo menos uma escola de ensino técnico elementar, criada em 5 de Junho de 1930.  Todavia, não chegou a criar tradição que a prestigiasse, e por natural evolução foi convertida,  em 17 de Março de 1952, na Escola Comercial de Moçâmedes, tendo no dia 4 de Junho do mesmo ano sido determinado que entrasse em funcionamento o primeiro ano do ciclo preparatório elementar do ensino profissional, industrial e comercial. A zona de influência de cada estabelecimento ficou assim definida:—Escola Industrial e Comercial de Sá da Bandeira — distritos de Huíla e Moçâmedes, sendo neste apenas para o ensino profissional industrial;—Escola Comercial de Moçâmedes — distrito de Moçâmedes. Estava-se em maré de alargar os cursos técnicos por essa Angola fora.

Em 13 de Agosto de 1960, a  "Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes" passou a designar-se "Escola Industrial e Comercial Infante D. Henrique", passando a ocupar novas e modernas instalações, e tendo o Infante de Sagres, o Navegador, um apaixonado pelas ciências náuticas, por Patrono. Por isso se dizia ser a Escola Secundária de Moçâmedes a mais antiga de Angola, no seu grau. A sua inauguração integrou-se nas comemorações centenárias da morte do Infante, a célebre personagem que tão importante papel desempenhou na expansão ultramarina e na gesta dos Descobrimentos.

Quanto à instituição Liceal, foi criado o Liceu Almirante Américo Tomás em 21 de Outubro de 1961, por ocasião da visita do Ministro do Ultramar, Professor Adriano Moreira  a Moçâmedes, numa época bastante grave para Portugal e para as Colónia, em que tinham acontecido os massacres perpretados pela UPA (União dos Povos de Angola) de Holden Roberto, de populações indefesas que trabalhavam em plantações no norte de Angola, que levaram ao inicio da luta armada contra os movimentos independentistas. Os jovens de Moçâmedes que pretendiam progredir para estudos superiores podiam finalmente deixar de se deslocar para a cidade vizinha de Sá da Bandeira, para frequentar o Liceu Diogo Cão. No dia 29 de Agosto de 1964, foi criado o terceiro ciclo no liceu de Moçâmedes, dizendo-se que viria a funcionar a partir do ano lectivo que estava prestes a iniciar-se, o de 1964-1965. 


Podemos dizer que em boa parte o ensino secundário nasceu em Moçâmedes com a  " Escola Primária Superior Barão de Moçâmedes", criada em 23 de Agosto de 1919, mas posta a funcionar apenas em 1925,  que veio em 30 de Novembro de 1936 a  ser extinta para dar lugar à  "Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes",  Escola de cariz técnico, e que  esta, por natural evolução passou a ser denominada "Escola Comercial de Moçâmedes" em 1952, passando mais tarde a "Escola Industrial e Comercial Infante D. Henrique" em edificio própria.



Bibliografia consultada:

-Boletim Geral das Colónias . VIII - 088 - apenso de Legislação Colonial Nº 088A - Vol. VIII, 1932, 20 pgs.
MARTINS DOS SANTOS



 
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à então  Escola Industrial e Comercial de Moçâmedes, cujas instalações conhecemos já com algum especto de laxismo e degradação, nos anos 1950... e que acabou substituida, nessa década, pela Escola Industrial e Comercial Infante D. Henrique...   Mas convém antes saber que foi em

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Escola Prática de Pesca e Comércio do Distrito de Moçâmedes
 
 
 No topo da Rua das Hortas, as instalações
 Escola Prática de Pesca e Comércio do Distrito de Moçâmedes

 

  Alunos e professores da Escola Pratica de Pesca e Comércio do Distrito de Moçâmedes em 1944/5, no decurso de uma visita de estudo ao "Padrão do Cabo Negro". 1946? Reconheço à frente, da esq para a dt:  Maio Lisboa Frota (Mariúca) Amadeu Pereira, Carriço, Velhinho, Guilherme, ?,?, ?, rFerreira,  ???, à dt com a bola na mão, Arménio. Na 2ª fila apenas reconheço Jesus, mais ou menos a meio, de capacete., e o Mário Guedes à sua frente. Quanto à raparigas, as irmãs Manuela e Leonor Bajouca.

Alunos e alunas da Escola Prática de Pesca e Comércio do Distrito de Moçâmedes, em 1948. Este era o quintal interior para onde desembocava, as salas de aula da dita Escola, já em péssimas condições de conservação como se pode ver. Clicar sobre a foto para aumentar. É grande.

Esta interessantíssima foto, gentilmente cedida por Antonieta Bagarrão Lisboa, permite-nos ver o conjunto de alunos/as que frequentavam esta escola do 1º ao 5º ano, nesse ano lectivo de 1948/49. Actualmente já na casa dos 70 anos e mais , felizmente a maioria ainda vivos e cheios de vitalidade, talvez reflexo da boa alimentação que tiveram na infância em Moçâmedes /Angola), terra do bom peixe rico em omega3 etc etc. Vêem-se alguns dos professores que na altura leccionavam nesta Escola, a única escola secundária do distrito. Reconheço, entre outros, de baixo para cima, e da esq. para a dt: 1. Albino Aquino (Bio), Carlos Pinho Gomes, ?, Manuel Dias Monteiro (Neca), ?, Amilcar de Sousa Almeida, José Patrício, Arnaldo Van der Keller (Nado)?, Carlos Manuel Guedes Lisboa (Lolita, Nito Abreu, Bajouca, José Duarte (Zézinho), Manuel Rodrigues Araújo, António José de Carvalho Minas (Tó Zé) e Norberto Edgar Neves de Almeida (Nor). 2. Carlos Vieira Calão, ??????, Fernando Morais (7º de camisa escura), ???, Licas Freitas (de pé, ao centro), Dito Abano, Jaime Custódio, Zezo Freitas de Sousa, Carequeja,?, Elisio Soares, ???, Beto de Sousa, ??, Albertino Gomes, e?. 3. Antonieta Almeida Bagarrão (Dédé), Mimi Carvalho (5ª) Maximina Teixeira (8º),???. 4. Fátima Abrantes, ?, Nélinha Costa Santos, Salete Leitão, Fátima Duarte, Melanie Sacramento, Carolina Mangericão,?, Lucia Brazão Reis, ???, Raquel Martins Nunes, Mª Orbela Gomes Guedes da Silva, ???, Fernanda Vieira,... 5. Francelina da Costa Gomes, ???, Augusto Martins (func. da Escola), ??, Padre Guilhermino Galhano, Dr Domingos Borges (Director da Escola), ??, Professor Carrilho (Dact/Caligraf/Estenograf.), Luzete Sousa,  e mais à dt, Bernardete Diogo, ?, e Fernandina Peyroteu.
 
Estudantes à entrada da Escola Prática de Pesca 
e Comércio de Moçâmedes. 1948
 

Alunos da antiga Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, Aula prática de Construção Naval e regresso da aula, junto das velhas pescarias da Torre do Tombo (subida da S.O.S), em 1946, com o mestre Cecilio Moreira após uma aula prática de Construção Naval, junto dos estaleiros da cidade. Reconheço Sereeiro, à esq  de Cecilio Moreira (mestre), e à sua esq, Cecilia Victor,Maria Emilia Ramos, Edith Frota, Carriço e Humberto Pinho Gomes.
 
Estudantes  da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, em 1948 com corpo docente, vendo/se ao fundo, de entre outros  mestre Cecílio Moreira, o Dr Domingos da Ressurreição Borges, director, o Padre Guilhermino Galhano e a dt o prof Carrilho. Os alunos são ; Leonor Bajouca, Lucia Brazão, ?, Fátima Duarte, Salete Leitão. Mais à frente apenas reconheço Carlitos Oliveira
 
Estudantes  da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, em 1948, com mestre Cecilio Moreira.  São Cecilia Vitor, Maria Emilia Ramos,  Edith Frota, Carriço, Humberto Gomes, etc
Estudantes  da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, em 1948
 

Estudantes  da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, em 1948 no decurso de uma aula prática de Construcao Naval com o mestre Cecilio Moreira. São Humberto Pinho Gomes, Carriço, Edith Frota e Sereeiro e Maria Emilia Ramos.

Estudantes  da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, em 1948. São Humberto Pinho Gomes, Cecilia Victor, Edth Frota, Maria Emilia Ramos e Sereeiro. Atrás Orlando Salvador e Carriço.



Estudantes  da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, em 1948, junto a umbarco em construção nos estaleiros da cidade. São  Carriço, Humberto e Sereeiro. Atras Cecilia Victor, Edith Frota e Maria Emilia Ramos

Estudantes  da Escola Prática de Pesca e Comércio de Moçâmedes, em 1948. São Humberto Pinho Gomes e Salvador


Cerimónia de despedida do Director da Escola  Pratica de Pesca e Comércio de Moçâmedes, Domingos da Ressurreição Borges, e passagem do lugar ao Dr. Olimpio Nunes. De entre os presentes reconheço : Profs Carrrilho, Cecilio Moreira, Augusto Martins (Continuo) , Egidio Robalo e Prof Marques, de entre outros
 
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E para terminar, de ARMÉNIO JARDIM vai um texto que junta um pouco da ironia, que lhe é particular, na descrição que faz da  “Escola de Pesca e Comércio de Moçâmedes”...
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E no princípio era o verbo, só o verbo…, e escolas não havia. Não havia na Lucira, nem na Vissonga; não havia escolas no Baba, nem na Mariquita; não havia no Mucuio, nem na Baía das Pipas. Nem sequer havia escolas na Praia Amélia ou no Saco do Giraul.

Mas havia três escolas primárias em Moçâmedes, o que eram muitas na percepção dos mucubais, para os quais, práticos como eram, só havia o um, dois e … muitos. Havia, pois, em Moçâmedes a Escola nº. 49; a Escola Portugal nº. 55, de Fernando Leal, mesmo ali ao lado, com um baldio de cerca de 100 metros a separá-las e um equidistante chafariz, em redor do qual existiam umas bonitas e frondosas árvores de castanhas do Pará. Havia, por último, a Escola Primária nº. 56, de Pinheiro Furtado, situada no Bairro Feio da Torre Tombo, construída sobre pilares à guisa de palafitas em terra seca e sob a qual a miudagem se aliviava das suas necessidades mais básicas, que as carochas e os rebola-caca acabavam por tratar delas.

A Escola nº. 49 era, no entanto, a mais pequena e humilde das três, com apenas duas salas de aulas. E tinha mesmo à sua frente, a não mais de 40 metros, a cadeia civil, ali construída não inocentemente mas sim para mostrar às inocentes criancinhas que o paraíso na terra não existe e que a vida e o futuro não eram coisas fáceis. Para o resto, estava lá o professor Canedo, de triste memória, sem paciência alguma para aturar miúdos e que se passava de tal modo que chegava ao cúmulo de atirar os tinteiros e as próprias réguas de cinco olhos contra os alunos, alguns dos quais acabaram por ser levados para o hospital. Mas não era só ele; também por lá andava a professora Berta, grande e macrocéfala, má e azeda, que debitava galhetas a torto e direito nas aulas em que as crianças tinham que cantar a tabuada a ritmo certo, mas que desgraçadamente havia muitas delas que só sabiam a música e nunca se lembravam das letras. E ademais, quem é que se atrevia, naquele tempo, a ir para casa fazer queixinhas aos pais? Era pior a emenda do que o soneto, pois acabava por levar dos dois lados; do professor, na escola; e dos pais, em casa.

Houve, entretanto, por volta de 1925, um pequeno salto qualitativo com a criação da Escola Primária Superior “Barão de Moçâmedes”, título pomposo e pretensioso, uma vez que o curso ministrado não ia além de três anos lectivos após a 4ª. classe, o que configurava já uma caricata projecção virtual daquilo que viria a ser, muitíssimos anos mais tarde, o malfadado Tratado de Bolonha. O seu programa curricular, ambicioso na sua matriz, era, contudo, anacrónico e desfasado do mundo real. Daí a não ter passado de um triste epifenómeno, sem ter conseguido criar nem raiz, nem tronco; nem folhas, nem flor. E acabou tristemente por se finar sem ter dado fruto algum.
As personalidades mais esclarecidas e empenhadas de Moçâmedes nada podiam contra este estado de coisas. O Poder estava centralizado em Lisboa, e a implantação da república com as subsequentes guerrilhas partidárias e interesses pessoais conduziram as possessões ultramarinas a um estado de estagnação miserável.

Contudo, no decurso de 1937, com o Estado Novo já consolidado, viria a ser criada a “Escola de Pesca e Comércio de Moçâmedes”, implementando um curso com a duração de 5 anos, o que acrescentados os 4 anos da primária lhe conferia uma escolaridade total de 9 anos. Conforme o seu próprio nome indicava, era uma escola criada com a finalidade de habilitar os seus estudantes com os conhecimentos tidos como suficientes no quadro das actividades ligadas ao comércio, à indústria piscatoria e à função pública. Faziam, no entanto, parte do seu programa curricular, disciplinas tão díspares como: “Salga e Seca” , sobre a qual os miúdos de 13 ou 14 anos aprenderiam muito mais em 2 dias passados numa pescaria da Torre do Tombo ou do Canjeque, do que durante todo o curso; com a “Construção Naval” pretendia-se que os alunos aprendessem a fazer projectos, com base em desenhos cotados e escala, de canoas, baleeiras e até de traineiras; da “Estenografia”, não me lembro de nenhum aluno se ter servido dela, em termos práticos. No entanto, a disciplina tinha o seu lado positivo na disputa de quem conseguia escrever mais palavras por minuto. Se bem me lembro, a vencedora era sempre a Fátima Latinhas, que parecia uma autêntica metralhadora a debitar caracteres. De resto, na vida prática acabou por não ter prática nenhuma; No que toca à “Construção Naval”, que eu saiba, só a Maria Emília Ramos, que morava no Bairro Feio, da Torre do Tombo , se afirmou como projectora de barcos, e com nível muito elevado. Quanto à “Salga e Seca”, até a avó Catarina, que até era analfabeta, sabia muito mais sobre peixe seco e meia-cura do que qualquer estudante que acabava o seu curso e arrumava a correr os seus livros de estudo.

Mas havia, obviamente, umas quantas disciplinas adequadas e bem enquadradas com relação à época, embora no seu todo acabassem por ser à volta de 12 cadeiras, só no último ano.

Mas o curso da Escola de Pesca sofria de três males, qual deles o pior, que levavam a grande maioria a não concluir os seus estudos. O primeiro, desde logo, prendia-se com a indisciplina reinante de alguns alunos mais matulões, verdadeiros “mavericks” que praticavam o booling a torto e a direito contra os mais novinhos, de entre os quais avultavam: o Tó Coribeca, o Mário Bagarrão, o Helder Cabordé, o Romualdo Parreira, o Caparula, o Turra, o Quito Costa Santos, o Adriano Parreira, e mais um ou outro que agora não me ocorre. Era uma autêntica quadrilha sempre pronta a dar porrada aos mais miúdos. Nem o dr. Borges, director da Escola, que tinha fama de grande disciplinador, conseguiu dar-lhes a volta. E nenhum deles, obviamente, concluiu o curso. Mas o padre Galhano, santo homem, fazia verdadeiros milagres. E conseguiu trazer à superfície a bondade que existia dentro daquelas almas. O segundo mal tinha a ver com o facto de, no 5º. ano, isto é, no último ano do curso, os alunos serem obrigados a fazer exames de 12 cadeiras, o que era manifestamente um exagero. E com a agravante de só poderem reprovar numa única disciplina, sob pena de terem de repetir todas elas no ano lectivo seguinte. Finalmente, havia a questão do perfil e das mentalidades dos professores, alguns dos quais se compraziam em humilhar e reprovar os alunos com requintes de malvadez.

Ainda recordo, com profunda mágoa, uma cena que assisti num exame de geografia, cujo professor era um tal dr. Lameirão, do Porto, que devia pesar à volta dos 120 kgs, e tinha uma cara de poucos amigos que não enganava ninguém:

Foi num ano em que, por imperativos das suas carreiras profissionais, apareceram a exame, em regime de autopropositura, adultos já casados que tentavam por essa via terminar um curso que em devido tempo e por razões várias não o tinham conseguido. Um deles, natural de Moçâmedes, casado e pai de filhos, tinha vindo do Huambo com esse propósito, e encontrava-se agora ali no meio da garotada, a aguardar a chamada. Ao iniciar o exame, o dr. Lameirão, sem bom dia, nem boa tarde, pergunta-lhe secamente:
- Diga-me lá onde fica o rio Amarelo?
- O rio Amarelo…, não sei, sr. dr.
- Então, e onde fica o rio Vístula?
- O rio Vístula, sr. dr…? Não me lembro..
O dr. Lameirão, vermelhudo, passa-se, e começa aos berros: - Então, você, vai à minha casa, à noite, meter cunhas, e nem sequer sabe onde fica o rio Amarelo, nem o rio Vístula!? Está à espera que lhe pergunte onde fica o rio Bero ou o rio Curoca? Pode sentar-se.
Sr. Albertino Gomes – chama o dr Lameirão pelo seguinte adulto, também já casado e pai de filhos.
Albertino Gomes levanta-se e diz em tom forte e bem silabado: - DESISTO.
E a miudagem desatou toda em altas gargalhadas.
E contra isto nada havia a fazer!


ass. Arménio Aires Jardim (Outubro de 1916)

Pode consultar também_:
https://princesa-do-namibe.blogspot.com/2009/04/escola-nr-55-de-fernando-leai-vulgo.html?zx=8a0b6808c3bbe741




sábado, 25 de maio de 2019

TORRE DO TOMBO, MINHA PAIXÃO

Clube "O Luso" dos meninos da Torre do Tombo, no início da década de 1950: Juju, Monteiro, Amilcar, Antonio Joaquim,? e Carlitos Miroides
A pesca à sacada era a principal actividade até aos anos 1950, quando surgem em força as traineiras...

 Amílcar tendo por fundo a pescarias…
Que foram mandadas abater na década de 1950, para a construção da marginal e do cais comercial…
Uma foto deste local no inicio do séc XX… O morro sempre presente, hoje em dia bastante desgastado pela erosão do tempo e pela intervenção do homem...
Um grupo unido naquele tempo (inicio dos anos 1950) na Torre do Tombo. Aqui na Praia do Mexilhão, lã para os lados da Ponta do Pau do Sul ou Noronha…
Aqui estão eles de novo…
A subir a falésia que leva ao farol da Ponta do Pau do Sul…
Na juventude a caminho no  Deserto, rumo às pescarias do Canjeque e Praia Amélia, num tempo em que se andava muito a pé...
Na Praia do Cano, junto aos estaleiros...
O Amílcar e  Zequinha Esteves...

O Ginásio Clube da Torre do Tombo, no início dos anos 1950… Nasceu em 1919 e foi o clube pioneiro de Moçâmedes...
O Ginásio Clube de Moçâmedes, no inicio doa anos 1950.  Aqui com o Padre Galhano…
 


 


Alunas da Escola n 56 de Pinheiro Furtado, na Torre do Tombo, anos 1950.
Alunas da Escola n 56 de Pinheiro Furtado, na Torre do Tombo, anos 1950.
Alunas da Escola n 56 de Pinheiro Furtado, na Torre do Tombo, anos 1950.
A primitiva Escola n. 56 de Pinheiro Furtado, na Torre do Tombo em Moçâmedes anos 1940?, uma construção do tipo palafita colonial interessante, que mais tarde abandonado foi ocupado por uma família antes de ser demolido..

A Escola enquanto abandonada chegou a ser a morada de uma família, antes de ser demolida
Alunos e alunas da Escoa N 56 de Pinheiro Furtado, no inicio da década de 1950
Meninos da Torre do Tombo (Bairro Feio) no aniversário de uma amiguinha, junto a uma dessas bonecas enormes, de Las Palmas, que se comprava a bordo dos navios de passageiros que escalavam Moçâmedes...
Ginásio Clube da Torre do Tombo, equipa de basquetebol feminino em 1954, Moçâmedes. Dizem que foi esta equipa que ao formar-se, veio dar um pouco de alento a um clube já então agónico, e que não tardaria a se extinguir. O velho e pioneiro Ginásio… A Torre do Tombo, praticamente posta de lado pela autoridade competente, começou a ficar para trás. A centro da cidade expandira-se com o  surgimento da Sociedade Cooperativa de Habitação "O Lar do Namibe", situação que levou a maioria das suas gentes â aquisição de habitação própria e a mudarem a sua residência para zonas mais agradáveis e modernas...

Em meados dos anos 1950, nos jardins da Avenida de Moçâmedes...

Hoje em dia o que resta do Bairro da Torre d Tombo, agora completamente cercado de casotas humildes,  em adobe, construídas pela população mais debilitada que ali se fixou, após a debandada dos portugueses em 1975, Deste grupo de casario salienta-se a 1ª Fábrica de conservas de Moçâmedes,  a Fábrica Africana, e o importante conjunto habitacional de João Duarte, o proprietário da pescaria da Praia Amélia. De genuína traça colonial portuguesa. muito apreciado por quem percebe da História dos movimentos de arquitectura, e pelos visitantes, este conjunto único, que inclui um casarão também ele de estilo único e insubstituível, a cair aos pedaços...



TORRE DO TOMBO, bairro onde nasci, cresci e me fiz homem. Que trago na minha memória e no fundo do coração.
Torre do Tombo, terra de pescadores, de homens do mar .Gente de trabalho duro De mãos" gretadas" pela linhas de pesca. De muitas madrugadas a caminho do mar. Das baleeiras de pesca à vela e só depois a motor. Das traineiras que chegaram no final dos anos quarenta vindas de Portimão.Trouxeram novos amigos para a Escola e para o futebol. 
A CASA DOS MEUS PAIS, ao lado a casa do meu tio Aníbal e do "casarão" do João Duarte e da D.ª Micas. 
DOS COMPANHEIROS DE INFÂNCIA Necas, primo Juju, Zézinho e Miróides. 

DA LOJA DO MONTEIRO, pai do amigo Necas, com o forte cheiro dos barris de vinho. Das baleeiras carregadas até mais não de cachuchos e choupas. Cachucho a 50 centavos cada. Dos trabalhadores negros- os contratados - de Caconda, Ganguelas e do Baixo Cunene, " a escalar" e "fazer secar" o peixe nas tarimbas.Por um salário miserável.Das MOCUBAIS, bem giras, com os seus trajes reduzidos e pulseiras com argolas nos braços e pernas. 
DOS JOGOS DE FUTEBOL no" descampado " em frente da casa do João Duarte. "Meia-linha" e já está , futebol até ao anoitecer. Faz-se hora de jantar. Torre do Tombo do CHAFARIZ ao centro, onde se enchiam os barris de água para haver água em nossas casas.Dos jogos às escondidas no casarão do Reis. DA ESCOLINHA DO CABO ALMEIDA onde muitos aprenderam as primeiras letras. Cabo Almeida que ajudava as pessoas do Bairro a escrever cartas e requerimentos. e fazia "outras coisas" que não veêm para o efeito.
DO BAIRRO FEIO que para nós era mesmo bonito. Ali vamos nós de BATA BRANCA vestida, a caminho da velha Escola de madeira. Nela fiz "com distinção" a 1ª. 2ª, 3ª e 4ª classes. Das "caniçadas" na cabeça dos cabulões. 
Do LUSO ,meu clube de palmeiras e bordões, campeões de futebol da rua. Do cheiro a peixe seco nas tarimbas e do "guano" da SOS. Do cheiro a pó das "garroas" que vinham do deserto. Das "armadilhas" aos "papaareias".na serra. Das partidas "aos neófitos" com a caça aos gambuzinos.
Da Casa do Amigo Lisboa, a casa do Brás, e subir as escadinhas até ao Ginásio. 
DAS FESTAS DO GINÁSIO nos Santos Populares com as saborosas "iscas" no pão e os bolos confeccionados pelas nossas simpatizantes. Das "malas de peixe seco"oferecidas pelos pescadores ao Ginásio para o Clube poder sobreviver.Ginásio ostracizado como estava pelo Pode" colonial "da Vila Dos "BAILES DA PINHATA" onde se faziam amizades que davam em casamento. 
Do FUTEBOL , equipas de honra e de reservas, com o dragão ao peito. G.C.C.T. ! G,C.C.T.! Ginásio campeão de Moçâmedes em 1946 ! Cabouco, Eugenio Estrela, Baraço, Cabral Vieira, Artur Estrela, Lumelino, Eduardo Braz, Abilio, Pombinha, João Ilha e Sopapo, os nossos campeões.Ginásio visita o Lubango em 1953 com a minha equipa. GINÃSIO DO BASKET FEMININO, um grupo de meninas habilidosas e decididas. Convidadas para jogar em Benguela.Fizeram figura. Fazem frente ao Benfica campeão a modalidade.Francelina, Celisia, Helena, Eduarda, Nidia,Paulita e Ricardina, as nossas jovens basquetebolistas. GCTT!GCTT!
Dos amigos e companheiros da adolescência Carlos Lisboa, Zézinho e Calão, também jogadores na equipe de futebol do Ginásio. 
Dos CACILHEIROS sulcando o Tejo, para lá e para cá, num caminho de espuma. 
Da estrada de "areia" para a Praia Amélia e Canjeque, onde as rodas dos carros se enterravam e tinhamos um trabalhão para as safar. 
DOS GRANDES BANHOS aos Domingos na Praia Amélia, a mergulhar com valentia na forte ondulação. DAS PESCARIAS às garoupas vermelhas com pintinhas no mar das Barreiras, 
Do enfermeiro negro Franco do Grémio , que sucedeu por bem ao malogrado Coelho , terror dos "rabinhos" dos meninos e meninas com as injeções de quinino. Dos passeios com os amigos até à PONTA DO PAU DE SUL. Cacau e bolos. Hora de "pescar moreias" nos buracos das rochas, As mais pequenas, fritas , eram uma delícia. Dos bons banhos nas "prainhas" do Pau de Sul. Há que subir a falésia sem medos. 
DA PESCARIA DO MEU PAI nas " pedras ", com as suas baleeiras "Laura" e "Maravilha", fundeadas em frente. A "Laura" campeã das regatas à vela. Muito me honrou. Hora de nadar até às baleeiras.De subir a bordo para mergulhos valentes. De nadar para a praia e ali "caçar" tremelgas, chocos e polvos com um arpão. 
Da caminhada diária para a ESCOLA DE PESCA,livros e cadernos na sacola, passando pelo casarão azul do João Pereira, pelo velho Hospital de Madeira, pela Igreja e Palácio, até à ESCOLA DE PESCA. Dos nossos mestres Dr.Borges ( Contabilidade ), Tenente Faustino ( Matemática), Drª Brigite ( Português e Inglês), dos Profs, Carrilho ( Caligrafia,Dactilografia e Estenografia) e Cecilio Moreira ( Educação F´isica ). 
Da PADARIA DO ESTEVES e dos amigos da bola Nélinho, Trovão e Zequinha. Que fiz a desfeita de marcar um golo de cabeça ao Nélinho pelos Infantis do Sporting.Do Zéquinha que jogou no Sporting de Portugal, ao lado do Travassos. Do cheiro a pó das " garroas" e do cheiro a "guano" da S.O.S. 
Da Casa ao cimo da rua da minha querida Avó. Dos afamados "bolos de folha" que ela fazia no Natal e Ano Novo. 
Das longas corridas na minha "Raleigh" de casa até à HORTA DO TORRES, com "sacola" para carregar de mangas que "surripávamos" das mangueiras.
DA IGREJA DO PADRE GALHANO com as suas longas barbas e batina " arregaçada" para os jogos de futebol com a malta do catecismo. 14 anos, adeus Igreja, adeus Padre Galhano, é a hora dos jogos de futebol aos Domingos na saudosa Praia do Cano. Que o progresso fez desaparecer com o cais acostável. 
PADRE GALHANO que à noite jogava à sueca e socopas no Ginásio com os pescadores, sem "cobrar" O Pai Nosso de cada dia. 
A FÁBRICA DA SOS, de atum em conserva, onde o meu Pai entregava o atum que pescava e em troca recebia "vales" que eu ia cobrar no fim de cada mês. Da FALÉSIA que dominava a paisagem da Torre do Tombo onde "os navegantes" que por ali passavam deixavam mensagens a admirar a nossa" Angra do Negro"... 
Torre do Tombo do SINDICATO, depois Grémio, com a azáfama das suas duas pontes e o forte odor das "malas de peixe seco" nos Armazéns para exportar , onde trabalhava o meu Avô Manuel Paulo.
TORRE DO TOMBO da " riqueza" da pesca mas TÃO ABANDONADA pelo poder "colonial" da Vila. Treinem-se na rua se quiserem ! TORRE DO TOMBO que deixei em Março de 1956 para vir para Lisboa. Parti com o coração apertado. Adeus baía de Moçâmedes, adeus Ponta do Pau do Sul, adeus Rio Bero, adeus Farol, cá vou pela vida fora. 
Para voltar com muita alegria para visitas curtas em 1958, em 1960, 1965 e por último em Março de 2005.TORRE DO TOMBO, O MEU ADEUS ETERNO

Amilcar Sousa Almeida


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Origem do Nome. Escreve-se MOcuio ou MUcuio?



Origem do Nome. Escreve-se MOcuio ou MUcuio?


Conf informação de João Carlos Robalo (neto do fundador do Mocuio) a quem muito agradecemos.

Considera-se que a denominação Mocuio tenha provindo do facto de no local, existir árvores do Género Ficus sp. Conforme Raul D’ Oliveira Feijão - autor do Elucidário Fitopatológico - ed. do Instituto Botânico de Lisboa, o nome vulgar daquele género botânico é Mocuio. O Dicionário Cândido de Figueiredo, ed. 1913 refere Mucuio, como “árvore angolense”.

É exacto que, em vários dialectos de Angola, a dita árvore denomina-se “Mucuio”. Como os termos escritos em dialecto ou com natureza de dialecto, não passam de uma mera locução estabelecida naquele local e, por definição e determinação filológica, não desfruta de regra transponível para as normas e formas da Língua portuguesa, um Idioma distinto, independente e soberano.

Aliás, em português, os nomes próprios, apenas são traduzíveis ou modificados, quando provêm de idioma para idioma - exemplo: [Lisbon (em idioma inglês) para Lisboa (idioma português) ou vice-versa], e jamais de dialecto para idioma [Mucuio (dialecto do sul de Angola) para Mocuio (idioma português)]. Se ocorrer tradução advém uma grosseira corruptela, por modificação e adulteração inapropriada dos vocábulos, tanto mais que linguisticamente, qualquer dialecto não tem, nem preceitos, nem ordem, apenas semântica e a Língua portuguesa tem-nos bastante consistentes, estáveis e inflexíveis.

Relembro que a 1ª menção, que se conhece a “ Mocuio” (região) consta de 7 de Outubro de 1785 e, já na época, era assim documentadamente redigido. Averiguemos até, confiramos ainda e confirmemos também que escrituras, diplomas, declarações e demais documentos oficiais, bem como textos literais em português figurar Mocuio. Perante o exposto inferir-se-á que em português não se deverá escrever Mucuio, mas sim Mocuio.

Na foto, o prato de loiça de um dos serviços do Chalet onde se pode ver gravado MOCUIO com “O” e não “U”. Todas as peças de loiça detinham esta estampagem de personalização com a nomenclatura Mocuio ou então, com um entrelaçado com as iniciais do seu nome JTF. 

Vejamos em seguida a posição sobre o mesmo assunto de um outro neto do mesmo fundador, João Thomás da Fonseca:

"...Não quero ser polémico nem contestar ninguém mas pela experiência que tive da minha vivência de Àfrica, embora não sendo filólogo ou especialista em línguas, faz-me mais sentido que se escreva com “Mu”, pela simples razão que é um prefixo usado para definir o nome de uma raça humana no sul de Angola ou o nome de árvores. 
Dou alguns exemplos.
Àrvores:- Mucuio (figueira brava), Mulemba, Mucua, Muthiati e por aí além.
Raças humanas:-
Mucubal,
MuMhuíla, Mudimba,
Mucuanhama,
Mukancala, etc.
Possivelmente o meu avô João Thomaz tenha usado a forma aportuguesada, pois realmente toda a louça do nosso chalet está com o nome MOCUIO.
Obrigado pela oportunidade de poder dar a minha opinião.
Um abraço.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

O conde de Almoster

Foto do Conde de Almoster publicada em  Portugal em Africa: revista scientifica, Volume 5

Antes de darmos inicio à publicação integral do texto  publicado em "Portugal em África", revista scientifica, Volume 5, pgs 218 a 221, dedicado ao Conde de Almoster, convém saber que o mesmo texto se integra no contexto da resistência africana em face da partilha de África, numa época em que uma epidemia, um fenómeno da natureza ou qualquer outra catástrofe, poderia ser atribuida à presença do colonizador, aquele estranho ser que levara para África todas as suas mazelas, incluindo as  epidemias que dizimaram o gado, uma maldição advinda dos brancos, fossem portugueses ou alemães. 

Por volta de 1897 a região sul de Angola foi atingida por uma epidemia proveniente da África do Sul que rapidamente atingiu as regiões da Damaralândia e Ovampo, e se espalhou pelo sul de Angola,  devastando o gado bovino que era a principal actividade económica dos autóctones. Em face do acontecido, os administradores coloniais resolveram-se por uma campanha de vacinação nos rebanhos, sendo para tal convocada a Companhia dos Dragões do Planalto de Moçâmedes sob o comando de José Eugénio da Silva e do tenente Almoster. E como de entre os colonos portugueses José António Lopes dominava a técnica da vacinação de bois, este foi convidado a integrar aquela Companhia conforme refere  A. A da Silva Guardado in "O Massacre dos dragões do Conde de Almoster, in Cadernos Colonias, n.34, 1939, publicação que nos ajuda a compreender o ocorrido. A vacinação dos bois era efectuada através de uma técnica que consistia em injectar nos animais sãos as bílis dos bois ligeiramente atacados, processo que dava como média de 50 a 60% de animais salvos. Desconhecia-se ainda a vacinação com soro obtido do sangue de bois imunes à peste, processo que levaria à salvação de animais na ordem dos 90%, e possibilitava vacinar animais já atingidos pela doença, salvando alguns. A equipa foi convencer o soba de uma aldeia para essa necessidade de vacinar os rebanhos parecendo à primeira vista que o soba concordara com a ideia e até teriam manifestado contentamento. Porém no dia seguinte quando iam proceder à vacinação puderam verificar um grande ajuntamento de anciãos que se apresentavam com pequenos barretes feitos de fibra de embondeiro na cabela, quais solidéus cardinalícios, simbolo da autoridade. Eram secúlos ou sobetas da região que representavam o soba nas povoações mais impostantes. Depois de reunidos em assembleia e de terem debatido seus pontos de vista sobre a vacinação, entrou em cena o soba que veio dizer à autoridade que não podia cumprir e combinado da véspera com os oficiais porque o seu povo reunido se opunha, uma vez que o gado era pertença ou bens do sobado e não do soba que apenas podia usufruir do seu rendimento. E que eles sabiam que do outro lado do rio tinham posto remédio no gado e este morria. Não foi possível convencer o soba por mais esforços que fizessem. Resumindo toda essa tentativa que fizeram avançando mato a dentro, acabou num falhanço porque a maioria dos nativos, desconfiados não aceitava e como resultado a epidemia acabara por devastar seus rebanhos.  Foi no regresso que o drama do massacre das tropas portuguesas aconteceu, e morreu. ALMOSTER. Para mais informações consultar o artigo "A Revolta da Vacina- Made in Africa-  Mossâmedes
, Sankofa. Revista da História da África e de Estudos da Diáspora Africana, 1897. José Bento Rosa da Silva. Vai o link:
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http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:reIX4AKhJGcJ:www.revistas.usp.br/sankofa/article/download/88815/91696/+&cd=10&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pt&client=firefox-b

De Portugal em Africa: revista scientifica, Volume 5, transcrevemos  na íntegra as pgs 218 a 221, o texto dedicado ao


 CONDE DE ALMOSTER.



"....João Carlos de Saldanha Oliveira. e Daun, segundo conde de Almoster, nasceu em Barcellos no dia 11 de agosto de 1858.

Era neto do heroico marechal duque de Saldanha e filho do segundo duque e da actual duqueza.

Assentou praça no regimento de cavallaria n.° 2, lanceiros da Rainha, no dia 2 de outubro de 1878. Foi promovido a alferes em 7 de janeiro de 1881, a tenente em 30 de junho de 1890 e a capitão em 11 de novembro de 1897.

Em 23 de janeiro de 1896 embarcou para Angola com destino ao esquadrão de dragões do planalto de Mossamedes, em cujo servico manteve os creditos de official disciplinador e como tal erajustamente considerado por toda a população portugueza do planalto. Ás brilhantes qualidades de bravura, patriotismo, nobreza de caracter e a verdadeira affeição aos seus soldados, que o adoravam, alliava a mais perfeita comprehensão dos deveres militares, mantendo com inquebrantavel firmeza as boas tradições deixadas no esquadrão pelo bravo e illustrado official de artilheria, o capitão Mascarenhas Gaivão, seu organisador e primeiro commandante.

Era o conde de Almoster um sincero admirador da acção civilisadora das missões catholicas sobre os indígenas africanos, sendo um dedicado amigo dos missionarios, aos quaes sempre dispensou as mais respeitosas attenções, merecendo-lhes elogiosas referencias pelas suas idéas generosas em favor da regeneração da raça negra.

A sua attitude benevola para os indígenas era conhecida em todo o planalto, citando-se, como exemplo digno de ser imitado, a generosidade com que conduzia os prisioneiros de guerra, a quem tratava com brandura, dispensava commodidades, procurando por todo os meios ao seu alcance suavisar-lhes as armaguras da prisão e separação violenta dos seus lares. Sob este ponto de vista poucos officiaes conhecemos na Africa tão generosos e pacientes para os soffrimentos dos pretos, como o conde, a ponto de privar-se de artigos do seu uniforme para abrigar os prisioneiros dos rigores do frio! ao contrario do que vimos fazer, que é amarral-os com grossas cadêas de ferro e obrigal-os a marchar ãs coronhadas, á. chuva, ao frio, mal dormidos e peor alimentados, sem consideração pela sua posição hierarchica, nem pela edade. Regulos ou os mais desprezíveis bandidos, velhos ou novos, todps marcham acorrentados para o exílio no meio das vaias, encontrões e pancadas da soldadesca, quando não ficam extenuados pela fadiga, fome e frio. 

É do domínio público o lamentável desastre que enlutou a familia militar portuguesa com o massacre da força do esquadrão de Mossâmedes, sob o comendo do conde em terras do Humbe, em que foram trucidados pelos indígenas revoltados o valente oficial e 23 soldados.  A fim de auxiliar os serviços sanitários para obstar à propagação da peste bovina que ameaçava invadir as populações creadoras de gado estabelecidas nas bacias do Rio Cunene e Caculovar, foi enviado para a fronteira do Humbe o esquadrão de dragões que pouco depois era mandado  retirar do Humbe por efeito de desintelligências e conflictos havidos entre o seu commandante e o chefe do concelho. A retirada do esquadrão  fez-se por pelotões que partiram separados , uns dos outros, com intervalos de três a quatro dias. O último 'pelotão, sob o comando do conde de Almoster seguia quatro dias depois da partida do passo das forças formado pelos 2º e 3º pelotões sob a direcção do commandante do esquadrão, o sr. capitão Silva.

O pelotão do conde era formado por 30 praças,  das quaes 19 eram doentes dos outros pelotões, deixados em tratamento na enfermaria da fortaleza e cuja conducção fora confiada ao conde, que para esse serviço apenas contava com 11 homens válidos , capazes de pegar em armas. Alguns doentes seguiam a cavallo por não poderem marchar a pé, outros, mais gravemente atacados de febres, nem mesmo a cavallo podiam seguir, eram levados aos ombros dos companheiros. A força seguia lentamente, sendo preciso fazer frequentes altas em attenção ao estado dos doentes.

Chegada ao sitio Catequere, na fronteira noroeste do Humbe, acampou a força, sendo enviados dois soldados à procura de água para o rancho, Os indígenas, em represália por extorsões soffridas por parte dos pelotões anteriores, acolheram hostilmente os soldados, perseguindo-os à zagaia e à flecha; estes clamaram por socorro sendo defendidos da sanha dos selvagens por um pequeno grupo dos nossos,  formado pelo conde e quatro soldados.
Chegados ao local do acampamento e vendo a impossibilidade de ali demorar-se perante a atitude hostil dos indígenas, resolveu seguir para o próximo acampamento  no Chicusse sobre o rio Caculouvar onde devia encontrar os outros pelotões sob o commando do capitão Silva. 

Metidos os doentes no centro da pequena força, seguia ela para a frente, quando pouco depois vê-se cercada por todos os lados por numerosos bandos de gentios que a perseguiam a tiro, zagaia e flecha. Sem perder o ânimo perante a força numérica do inimigo, mandou o bravo official  fazer três descargas a fim de abrir caminho na direcção do Chicusse e avançou com toda a ordem debaixo de fogo do inimigo.  Durante duas horas marchou a nossa diminuta força  sob  fuzilaria do gentio, sendo preciso três vezes formar quadrado para varrer as hordas de selvagens que tentavam esmagar a ferro frio os nossos bravos  soldados. Durante o primeiro quadrado ficou ligeiramente ferida uma praça num dedo.  Durante o segundo recebeu um grave ferimento no joelho o sargento, e o conde foi attingido por uma bala n'uma perna.  Vendo o bravo official que o gentio era cada vez mais numeroso, e que começavam a escassear as munições de guerra, resolveu mandar avisar o capitão Silva no Chicusse,  de que o seu pelotão corria imminente perigo de ser trucidado pelo gentio. Offereceu-se para levar o aviso o sargento Rocha que, apesar de gravemente ferido num joelho, montou no cavallo do conde e pôde a galope cerrado passar por entre as hostes inimigas. O gentio comprehendendo que aquelle cavaleiro ia em busca de socorro urgente das forças acampadas no Chicusse, resolveu cair sobre o pelotão e acabar de vez com os nossos heroicos soldados.

Recrudesceu a fusilaria do inimigo sendo o conde gravemente ferido no ventre. Um soldado preto tomou-o sobre os hombros, enquanto  enquanto a nossa força seguia rapidamente pelo centro de uma floresta queimando os últimos cartuchos. Às 6 horas da tarde, consumidas todas as munições de guerra, mandou o conde formar quadrado e callar bayoneta, e n'uma lucta homérica  de um contra cem, foram os nossos bravos soldados esmagados pelos indígenas. Ficaram estendidos no campo da honra o  heróico conde Almoster, e vinte e três dos seus valentes companheiros, escapando os restantes mercê do escuro da noite. 

Morreu o bravo militar combatendo gloriosamente pelo prestígio da nossa bandeira no cumprimento rigoroso do seu dever militar.

O elogio d'este glorioso feito de armas do neto do Marechal Saldanha , foi celebrado em toda a imprensa e ecoou nas dias casas do parlamento em termos de consagração à memória dos nossos heroicos vencidos.

Por iniciativa do illustre par do reino, o brioso general D. Luis da Câmara Leme, em sessão da câmara dos Pares, de 7 de Janeiro do corrente anno, foi apresentado um projecto de lei concedendo a cada um dos filhos do bravo conde de Almoster a pensão annual de 120$000 reis, e por proposta do mesmo digno Par foi lançado na acta, foi lançado na acta da sessão de 4 do mesmo mêsum voto de profundo sentimento pela morte dos nossos soldados  trucidados no Humbe, e referindo-se à morte do Conde lamentou que ainda não se tivesse erguido um monumento ao Duque de Saldanha, avô do illustre extincto.  No discurso da Corôa, por occasião da abertura do parlamento , o Augusto Chefe do Estado referindo-se ao desastre do Humbe, expressou-se nos seguintes termos: "A notícia de um desastre no Humbe, cujos pormenores não são todavia conhecidos, causou, como era natural dolorosa impressão, mas resta-nos a convicção de que os valentes alli victimados cumpriram o seu dever, e que dentro em pouco as nossas armas saberão castigar os rebeldes."

Terminamos este breve esboço biográphico do illustre conde de Almoster, transcrevendo as apreciações dos principais dos peincipais orgãos da imprensa periódica sobre a morte heroica do bravo official e dos seus companheiros.

Do Tempo:
"Depois d'um grande e aturado combate, exgotadas todas as munições de guerra que o esuqdrão levava, o valente official lembrando-se do nome do seu heroico avô, e não querendo offuscar o nome e título que tinha,  preferiu morrer a aviltar-se, entregando-se ao inimigo ou fugindo com os seus soldados.
Podemos imaginar as terríveis agonias do seu coração., lembrando-se que deixava na orphandade cinco filhos, todos creanças, e na viuvez sua infeliz e saudosa esposa. Mas entendeu aquelle descendente  do marechal Saldanha que a honra do seu nome e do seu país se opunham a uma cobardia. e por isso preferiu morrer combatendo. Paz è sua Alma.

Do Correio da Noite:

"Não pode haver consolação para um tal desastre. Entretanto deve registar-se com orgulho como foi intemerata a attitude desses bravos, como a sua coragem e o seu amor à bandeira  que defendiam falou mais alto do que o natural humano amor à vida. Sabiam que luctavam contra o inimigo que os havia de esmagar, mas isso não os entibiou. Enquanto tiveram munições empregaram-nas contra os inimigos da sua nação, e quando ellas faltaram formaram quadrado, armaram bayonetas para deterem o arranco dos adversários, que continuaram a victimál-os a tiros e a zagaias, e esperaram heroicamente a morte, dando serenamente a vida pelo dever.

Os soldados portugueses eram commandados pelo conde de Almoster, Este nome resume uma epopeia de heroicidades. Foi em Almoster que o duque de Saldanha ganhou o maior título de glória de toda a sua carreira militar. o neto do grande soldado soube honrar o nome histórico que herdara. Que a sua memória e a dos seus infelizes companheiros viva eternamente na saudade e na gratidão dos que prestam culto à honra do nosso exército e que se orgulham por ver que elle continua a manter honradamente as tradições do velho e destemido Portugal."

Do Diário da Manhã:

"Vinte e três victimas do dever ficaram, pois, no campo incluindo o heroico neto do marechal Saldanha. miserável e cobardemente azagaiado pelos negros! Triste sina a d'esses bravos certamente predestinados a mais gloriosos feitos ! Malbaratada valentia.
Cumpriram, porém religiosamente o seu dever, de militares briosos na defesa da pátria, e isso basta para que nos sintamos orgulhosos da sua heroicidade, qualidade, por assim dizer innata do nosso soldado, e tenhamos pela sua saudosa memória a mesma veneração e respeito que sempre tributamos pelas victórias de outros mais felizes que tem conseguido sobreviver para glória e renome do exército português."

Do Universal:

Curvamo-nos reverentes perante a sepultura desses bravos heroes mártires da pátria que tão conscientemente emmolaram  as próprias vidas para mais uma vez honrarem  as brilhantes tradições do exército portuguêz.

Vinte e três incencíveis morreram no seu posto de honra, levantando com esse assombroso sacrificio ao seu auge a glória da patria.

Foram muito alem do dever. Excederam tudo o que o brio nacional  e o amor da patria pode impor aos servidores do pais.
Immortalisaram-se morrendo!
N'este triste desmanchar da feira , em que o egoismo falla mais alto do que todos os deveres civicos, consola poder registar-se ainda feitos tão nobres e levantados.
Com o conde Almoster termina a linhagem masculina do primeiro soldado portuguez d'este seculo. O ultimo representante do nome do immortal marechal Saldanha acaba de levantar sobre o seu proprio cadaver o maior monumento que se poderia consagrar ao glorioso vencedor de Almoster.

Faz orgulho poder registar semelhantes provas de abnegação, valor e civismo»


Do Reporter :


«Este telegramma lança já. alguma luz sobre os acontecimentos, de que resultou ser victimada uma pequena força portugueza no Humbe Vê-se por elle que o neto do vencedor de Almoster soube honrar brilhantemente as tradições gloriosas de sua familia, e que devido ao seu arroio e valentia é que perdeu a vida com os seus heroicos companheiros...


Do Jornal do Comércio:

-Se alguma cousa nos pode consolar n'esta desgraça. é a valentia. a heroicidade com que se bateram os nossos, ficando materialmente derrotados, mas moralmente gloriosos. Honra mais uma vez aos nossos valentes soldados` que sabem morrer heroicamente, e honra a esse nobre moço o sr. conde de Almoster, que foi fiel as suas gloriosas tradições de familia e que era digno de usar o nome que recordava a primeira batalha ganha por seu immortal avô, o duque de Saldanha!

J.P.N

Fim de citação

Ver tb AQUI: https://docplayer.com.br/60831726-Ii-angola-e-a-resistencia-colonial-o-caso-do-massa-cre-dos-dragoes-do-conde-de-almoster-armando-augusto-siqueira-1.html