Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












terça-feira, 13 de abril de 2010

História de Mossâmedes (Moçâmedes, Namibe, Angola) in O Panorama, Viagens Na Africa E Na America. XIX.


Gravura do meu arquivo pessoal



Viagens Na Africa E Na America. XIX. 1854

(Clicar sobre o livro para abrir)



Velejemos para Mossamedes. Fique pela pôpa o Sombreiro, a enseada de Monos,  a bahia Farta, as Salinas, ponto bem conhecido, mas de difficil desembarque, a bahia da Torre, a angra de Santa Maria, e suas altissimas montanhas ao longo do mar, o rio Padrão e o ilhéu do Pina, dous elevados picos, que destacam da terra baixa, que corre para o sul até á angra do Negro; fmalmente eis-nos em Mossamedes, o lille fish bay dos inglezes. 

Se o leitor não quer fazer por mar este trajecto de Benguella a Mossamedes, acompanhe-nos por terra, que temos para guia da viagem do major Garcia pelo sertão, de que eu tomei apontamentos nas conversações que com elie tive. Crêmos que será isto mais agradavel ao leitor do que um relatorio official, que quando não é mentiroso, é, pelo menos, quasi sempre exagerado. Depois diremos algumas palavras acerca d'esta nova colonia, do estado em que a conhecemos, e dos progressos que tem feito em treze annos.

XX.


Partindo de Benguella com direcção a Huila, percorrem-se quinze ou dezesseis leguas de terreno arido, sem vegetação nem agua. São dous dias de marcha em rêde, ou mais de tres a pé. Depois encontra-se o rio de S. Francisco (os negros chumam-lhe cuporólo) cujas margens são cobertas de arvoredo, e o terreno começa a ser vegetal até ao nosso prezidio de Quilengues. Antes porém de chegar a este logar, encontra-se outro rio, o Nimbo, que, juntando-se ao de S. Francisco, vem confundido com elle desaguar nas Salinas ao sul de Benguella. No tempo das cheias torna-se difficil a communicação entre as suas margens, e por falta de barcos, atravessam-n'o os negros agarrados ás caudas dos bois. Seguindo a riba esquerda do rio Quitouco, chega-se com sete dias de jornada ao prezidio de Quilengues. Este paiz é sadio, em geral, o que os europeus não suppõem; são apenas vulgares ali as inflammações de olhos, e é tal a fertilidade do seu clima que produz todos os generos da America, como pequenas experiencias tem mostrado. A cultura porém está em total abandono, a provincia de Quilengues participa da sorte geral de todas as nossas colonias. O prezidio está situado sobre uma montanha, entre dous rios, tem uma fortaleza de madeira, com quatro baluartes de entulho e quatro fortins exteriores, que communicam com a praça; foi concluida em 1835. Um chefe portuguez, com 30 soldados de linha, uma companhia movel, e 4 bocas de fogo, eis toda a defeza daquella posição sertaneja. Entre os habitantes encontram-se alguns homens brancos.

De Quilengues a Huila ha cinco dias de marcha (quarenta leguas), quasi tudo deserto; porém, ao cabo d'esta penosa viagem, encontra-se um paiz saudavel, temperado, cortado de riachos de excedente agua, aonde até, na estação invernosa, chega a nevar. D'aqui ao Jau são tres leguas de terreno fertil; e o caminho que até ahi fôra, proximamente, ao SSE., começa a declinar para o SSO. até Faiôna, e de lá para Mossamedes segue quasi a oeste. Saindo do Jau, desce se o grande despenhadeiro de Quiácuto, todo matizado de arvoredo, com muita urzella, depois estende-se uma grande planicie, fertil e amena, aonde, por muitos dias de caminho, se encontram rios, arvores de fructo, e innumero gado, até chegar  a Faiôna, que é uma povoação importante d'aquelles sertões. D'ahi para o poente o terreno torna a ser arido, e apenas se encontra arvoredo ao aproximar de um rio, que vae lançar se na bahia de Mossamedes. Ao sul d'este ponto estende-sc um mar d'areia.

XXI.


O clima de Mossamedes, isto é, do logar em que está a residencia do governador, a fortaleza e a igreja (incompletas) e algumas barracas de moradores, é saudavel, e até pouco quente, porque quotidianamente sopra ahi uma viração agradavel, mas logo na extremidade da bahia, para o norte, se encontram sitios doentios nas margens do rio dos Mortos.

Por fins do anno de 1840 aportei eu a Mossamedes. Haviam apenas ali algumas palhoças, em uma das quaes morava o commandante do prezidio, e estava começada a fortaleza de S. Fernando. Foi a guarnição do nosso brigue que levantou a primeira casa de pedra e cal n'aquelles areaes, e que cultivou com successo uma pequena horta, perto do rio, a qual todavia foi fatal a mui tus dos agricultores. Hoje é difterente. Com a chegada dos colonos de Pernambuco em 1849, e ulteriores providencias do governo da melropole, tem não só crescido consideravelmente o numero de habitações, e o commercio de marfim, gado, urzella, rêra, e gomma copal com o interior, mas as communicações com o sertão tera-se tornado mais frequentes, e os proprios colonos avançam as suas plantações de assucar, algodão e mandioca até 35 leguas distante de Mossamedes com feliz resultado; o café é que não produz bem n'este terreno.

Crêmos que, com algum sacrificio da parte da metropole, para se desenvolver em maior escala a colonisação, e prudencia nos meios de a encaminhar, por parte do governador dodistricto, se tornaria este ponto de grande importancia agricola e commercial, util a si e a nós todos.
Não e aqui logar de desenvolver as idéas de colonisação com brancos não degradados, porque seria longo, e provavelmente não passaria de uma repetição do muito que já se tem dito sobre o objecto; é porém de absoluta necessidade que, entre as oppostas opiniões de tantos que tem visitado Mossamedes, se escolha a que merecer preferencia; e se essa for favoravel ao progresso da colonisação, o governo empregue a maior energia em fazer desenvolver na maxima escala possivel a agricultura d'aquelles ferteis sertões, por onde se chega ao Jau e á Huila, e aos nossos saudaveis prezidios de Quilengues e Cacunda, muito mais depressa e por melhores terrenos, do que partindo de Benguella, que era até agora o centro do commercio daquellas paragens.
E este um objecto digno da maior attenção dos governantes.

 XXII.

Vou terminar estas noticias de Africa, reminiscencias dos tres annos, que por ali vagueei. Grande parte d'esse tempo estive em Loanda, porém fui cinco vezes a Benguella, duas a Mossamedes, duas a Novo Redondo, e uma ao Ambriz, afora os cruzeiros na costa, durante um dos quaes aprezamos o patacho Nereyda, que se destinava ao trafico da escravatura. O capitão e o piloto deste navio, tendo sido encarcerados na fortaleza de S. Miguel, d'ahi fugiram com a sentinella da prizão e o cabo da guarda!

Fóra de Loanda não ha diversões. No resto da provincia, ha apenas os grandes jantares e ceias, tantas vezes fataes aos convivas! Na capital ha algumas reuniões, e se não fòra a intriga que reina sempre entre os bandos rivaes de commerciantes, podia ser um logar de agradavel residencia. São poucas, é verdade, as mulheres, tanto europeas como nativas, que ahi se encontram, e que se possam chamar de boa sociedade, e a falta d'este elemento civilisador não deixa amaciar a grosseria dos costumes africanos, e torna menos attrahente para o europeu esta bonita cidade; porém, se não fora a intriga, e quasi sempre a prepotencia das auctoridades, ainda assim Loanda seria um logar de grata recordação para o forasteiro.

Agora, vamos collocar toda a largura do oceano entre estas paragens e as que vamos demandar. A America nos convida a encetar debaixo de seu gigantesco arvoredo a segunda parte deste trabalho, tão humilde, quanto despido de pretenções. Se a alguem agradou o que escrevemos acerca da Africa, não lhe desagradará por certo este novo passeio pelas margens do rio da Prata, pelo imperio do Brazil, e ilhas dos Açores; se porém não merecemos a complacencia dos leitores só nos resta lamentar a nossa gauchinie, o papel que inutilizámos ao Panorama.

In O Panorama: semanario de litteratura e instruccão, Volume 11 Por Sociedade Propagadora dos Conhecimentos

sexta-feira, 9 de abril de 2010

O districto de Mossamedes (1892), de J. Pereira do Nascimento


























Mossamedes A capital do districto e cabeca do concelho, denominada a Cintra d' Africa pela amenidade do seu clima, está situada em bella prespectiva no fundo de uma ampla e bem abrigada bahia em forma de ferradura na latitude do parallelo















Foi fundada em 1845 por um grupo de corajosos colonos que imigraram do Brazil e se estabeleceram na bahia da Angra do Negro, onde apenas havia uma feitoria iniciada em 1840. 


Possue ruas espacosas, compridas, bem alinhadas e divididas em quarteirões simetricos, todas calçadas e illuminadas a petróleo. Nota-se n'ellas extremo aceio e limpeza, que rivalisam com a regular disposição e óptima divisão. Possue uma bella avenida arborisada que se prolonga com a praia e dá lindo aspecto ás suas casas, que se destacam por entre renques de palmeiras. 

As casas são lindas construcções modernas, em que asboas condições hygienicas andam a par com o bom gosto e solidez. Quasi todas são assoalhadas e forradas com boas madeiras da Europa.


São bem divididas, bem orientadas e aceiadas. Os seus tectos são chatos e as frontarias, pintadas com gosto, são dispostas com arte e belleza. Quasi todas possuem jardim e quintal, que fornece excellentes hortaliças e tem uma ranmha d'onde se extrae a agua para os usos ordinários. 
















 





Existem largos e jardins publicos bem situados, com tanques d'agua para uso do publico. A leste da villa encontra-se um largo gradeado, em cujo centro foi erigido por subscripção publica um monumento em honra do benemérito governador Leal, que iniciou os grandes melhora mentos que tornam Mossamedes a mais formosa cidade europea da costa occidental da Africa e na única que pode compelir em aceio, regularidade e hygiene com as cidades da Europa.











Palacio, Igreja e Hospital D. Amélia -
colecção Bilhetes Postais de João Loureiro


Os seus principaes edifícios públicos são : o palácio do governo, o melhor das nossas possessões, bella obra de architectura montada com luxo e grandeza; n'elle estão installadas as principaes repartições publicas: a fortaleza de S. Fernando, construída sobre um rochedo, que domina formosa bahia; serve de quartel ao 4.o batalhão de caçadores: a alfandega, lindo edifício situado a meio da rua  principal, próximo á praia; possue vastos armazéns e boas sallas; communica por meio de carris de ferro com a ponte-caes, boa construcção em ferro e madeira: o hospital em corpos separados formados de barracões, systema Tolhít: a igreja: o matadouro situado optimamente á beira mar: o cemitério, bastante afastado da villa: repartição do correio e das obras publicas, etc.


Mossamedes: Fortaleza, Hospital, 
Igreja

 










Entre os edifícios particulares encontram-se bellos e elegantes primeiros andares e rez-do-chão, que fariam honra a qualquer cidade europêa, destacando-se d'entre elles pela sua elegância, situação e commodidade o chalet da companhia telegraphica.

http://www.mazungue.co.uk/photos/namibe/cabo_submarino_mocamedes.jpg
 
A natureza nao foi prodiga na distribuicao dos seus beneficios a Mossamedes. O terreno sobre que assenta a villa é secco, arenoso e anmo-calcareo ; a vegetação expontânea é rachitica: pois apesar de tão pouco favorecida, Mossamedes revela a que ponto chega o esforço da raça branca, que em 40 annos de trabalho persistente conseguiu transformar aquelle arejai em uma formosa villa com jardins e hortas, onde os recursos são abundantes, a alimentação excellente,
barata e variada,com lojas onde se encontram todos õs géneros europeos e um mercado bem sortido.




















Tudo quanto ali ha é devido á iniciativa e trabalho do europeu que se aclimou e produziu gerações sadias e robustas em 3. e 4. grau, que ali vivem e se desenvolvem sem manifestações apparentes que revellem resistências orgânicas á adaptação ao novo meio. A raça branca ali procreada progride de um modo evidente ; as creancas coradas, robustas e alegres nao manifestam o menor vestigio de intoxicacao palustre.

O clima e salubre e a temperatura e baixa e refrescada pelas brisas dominantes do mar e pela corrente maritima fria, que partindo do Cabo da Boa Esperanca banha a costa africana, correndo paralela a ella, ate ao Cabo de Santa Martha.O regimen nozologico abrange as doencas palustres que se manifestam na epoca, das enchentes do Bero, conservando todavia um caracter benigno. As formas graves da intoxicacao sao raras e so acommettem os individuos vindos de regioes insalubres, cujo organismo esteja depauperado pelo agente marematico.P ara Mossamedes concorre anualmente grande numero de doentes de diversas prodedencias da costa africana, que ali vao convalescer e retemperar o organismo enfraquecido pelo impaludismo.

 











Ha em Mossamedes duas fabricas de tecidos d'algodáo, uma movida a vapor e outra á mão; n'ellas preparam-se mantas, barretes, camisolas e panno cru riscado. Ha uma fabrica de conservas alimentícias que fornece latas de carne, peixe, fructas e legumes, que teem sido   recebidos com favor pelo publico. Existem fabricas de telha, tijollo e vários productos cerâmicos e diversos fornos de cal no  (giraul e praia Amélia. Existe um bem montado collegio
para educação de meninas, uma escola publica e muitas officinas d'artes e officios.

A 3 kilometros ao norte da villa de Mossamedes encontra-se a povoação das Hortas, dilicioso oásis, que pela abundância e frescura da sua viçosa arborisação, cuidadosamente cultivada em alamedas de refrigerantes sombras e parques de odoríferas flores e saborosos fructos, forma um ameno sitio de villegiatura com bellos chalets e optimas casas de campo, banhadas pelas frescas brisas do mar onde se abriga a elite da sociedade de Mossamedes durante a estação calmosa.

Esta povoação com vastos terrenos agricultados assenta sobre o valle do rio Bero, cujo fértil solo seacha occupado por 40 propriedades agrícolas que abastecem Mossamedes de fructos, legumes e hortaliças.

Os terrenos doeste valle occupam extensas várzeas cultivadas sendo as principaes: as Hortas, Cavalleiros, S. António, Boa Esperança, Boa Vista, e Bem fica, por entre as quaes passam boas estradas carreteiras.

As principaes culturas são: cana saecharina, que fornece boa aguardente, o cará, que constitue a principal alimentação dos serviçaes, o algodão, muitas variedades de legumes, hortaliças e cereaes e grande numero de arvores fructiferas da Europa, como: larangeiras, limoeiros, figueiras, macieiras, pereiras, alfarrobeiras, cidreiras, oliveiras, videiras, etc.

A sua producção annual em aguardente é de 500 pipas
..."

Esta é uma cópia digital de um livro que foi preservado por gerações em prateleiras de biblitecas até ser cuidadosamente digitalizado pelo Google, como parte de um projeto que visa disponibilizar livros do mundo todo na Internet.O livro sobreviveu tempo suficiente para que os direitos autorais expirassem e ele se tornasse então parte do domínio público. Um livro de domínio público é aquele que nunca esteve sujeito a direitos autorais ou cujos direitos autorais expiraram. A condição de domínio público de um livro pode variar de país para país. Os livros de domínio público são as nossas portas de acesso ao passado e representam uma grande riqueza histórica, cultural e de conhecimentos, normalmente difíceis de serem  descobertos. As marcas, observações e outras notas nas margens do volume original aparecerão neste arquivo um reflexo da longa jornada pela qual o livro passou: do editor à biblioteca, e finalmente até você. Continua...


[IMG_6797.jpg]

Do livro: O districto de Mossamedes (1892), de J. Pererira do Nascimento

quarta-feira, 24 de março de 2010

OS PRIMEIROS PRODUCTORES DO DISTRITO DE MOSSÃMEDES NA EXPOSIÇÃO DO PORTO EM 1865

Front Cover
João Duarte de Almeida 
João Duarte d'Almeida
Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro  
Bernardino Freiré de Figueiredo Abreu e Castro
Joaquim Paiva Ferreira

Joaquim Paiva Ferreira

[1ªcolonia+Bumbo.png]
José Leite de Albuquerque


A cultura do algodão  iniciada pelos colonos de 49 e 50, assumiiu no sul de Angola um tão acentuado desenvolvimento, que o porto de Moss
ãmedes chegou a ser, de todos os portos da província, aquele por onde se fazia mais larga exportação daquela preciosa malvácea. E a cultura da cana, tentada simultaneamente no distrito, que iria medrar, com notável pujança, nos vales do Giraúl, do Bero e do Curoca, merecera, de igual modo, a atenção e os vigilantes cuidados aos antigos colonos.
Carta do Brasão de Armas do Município de Moçâmedes encontra-se registada no livro nº. 50 do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.»

PRODUCTOS DO DISTRITO DE MOSSAMEDES
DA RELAÇÂO DOS PRODUCTOS DA PROVINCIA DE ANGOLA ENVIADOS PARA A EXPOSIÇAO DO PORTO

PRIMEIRA DIVISÄO.
307. Bernardino Freir de Figueiredo Abreu
e Castro, Mossamedes. Gesso em pedra.
369. Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Mossamedes. Gesso em camadas.
376. O mesmo: - Cobre
377. O mesmo :-Bumbo -braceletede Cobre
395. Nogueira Souza e Comp., Mossamedes - Cafe
401. Affonso Lage - Mossamedes - feijao Quiburi
406. Conselho Ultramarino, Mossamedes  -Massambala branca
A Comnissao da Provincia (Mossamedes - Massango
407- Massambala branca
408 - Massambala rubra
409-Conselho Ultramarino, Mossamedes -Massango
410- A Comissao da Provincia Mossamedes - Massango
414- Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro (Mossamedes) -Fruto  de Umpeque
415- A Comnissao da Provincia (Mossamedes) -Mendhoin

CLASSE 4.a 
Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro (Mossamedes)
488. Assucar mascavado.
489. Assucar branco
CLASSE 6."
520. Conselho ultramarino, Mossamedes. Urzela de arvore.
Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro (.Mossamcdcs)
525. Urzella do arvore.
536. Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Mossainedcs. — Sal amargo
550. Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Mossamedes.Óleo de uuaueque
557. Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro. Mossamedes. Aguardente de cana.
558. José Joaquim Costa, Mossamedes Aguardente de cana.
559. José Leite de Albuquerque, Mossamedes.— Aguardente de cana.
560. Augusto Guedes Cuchicho Garrido, Mossamedes.Aguardente de cana.
Joaquim de Paiva Ferreira (Mossamedes)
561. Aguardente de 24 graus
668. Álcool de 36 grau
TERCEIRA DIVISÃO.
CLASSE 21.a
João Duarte d'Almeida (Mossamedes)
565. Capulhos de algodão arbóreo.
666. Capulhos de algodão rasteiro.
567. Conselho ultramarino, Mossamedes. Algodão com caroço.
570. Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Mossamedes.— Algodão com caroço.
578. Affonso Lage, Mossamedes. Algodão com caroço.
575. O mesmo, Mossamedes.— Algodão amarello com caroço.
579. Affonso Lage, Mossamedes.—Algodão amarello com caroço.
Luiz .José de Oliveira (Hossamedes)
580. Fio de algodão.
581. Grosseria d'algodão.
583. Sarja de algodão.
583. Panno tecido com algodão amarello.
584. Cotim de algodão.
585. Cobertor de algodão.
587. Manoel dos Santos Ferrão, Huilla. — Pelle de bezerro.
588. Conselho ultramarino, Huilla.Solla.

Inclui Fotos de 4 proprietarios concorrentes a esta exposição, incluidos na lista. Tenha-se em conta que esta exposição realizou-se em 1865, ou seja, 16 anos apos a chegada dos primeiros colonos que idos de Pernambuco fundaram em 1849 a povoação de Mossamedes

Sobre José Leite de Albuquerque, ver referencias elogiosas por  Francisco Travassos Valdez Jornal do Commércio publicado periodico "O PORTUGUES" 1862 , artigo intitulado Ultramar "O Triunpho" , em como chegado de Pernambuco, Brasil a Mossamedes em 1849, após 13 anos de trabalho arrendara a sua Fazenda no Bumbo (cana de açucar e aguardente) e passou a viver na Metrópole de rendimentos. Ver mais ou menos a meio da página:AQUI

Sobre João Duarte de Almeida
A viver no Brasil desde 1838, em 1849,  por força da onda de antilusitanismo que grassava em Pernambuco, viajou para Angola na barca Tentativa Feliz, integrado na 1. colónia de emigrantes chefiada por Bernardino Freire de Figueiredo de Abreu e Castro, que vinha dar inicio a povoamento de Mossãmedes.

Em1859 era proprietário de três fazendas em via de desenvolvimento, uma, situada na Várzea dos Casados, outra em S. Nicolau, e a terceira no Coroca.  Foi o maior cultivador de algodão do distrito de Mossãmedes, e cultivou tambem a cana de açúcar para aguardente. No decénio de 1849-1859  também se dedicou  a outros ramos de actividade, como o da indústria de charqueação e o da colheita da urzela. Em 1890 possuía o maior empreendimento agrícola da Colónia de Angola, com 1300 hectares de terreno cultivados e com 400 serviçais a trabalharem para si. Duarte de Almeida e Alves de Bastos, eram à época os dois homens mais ricos da colónia de Angola. Concorreu a várias exposições agrícolas e industriais (de Paris, de Antuérpia, do Porto, etc), sendo-lhe conferidas medalhas de ouro pela boa apresentação dos seus produtos.
Lutou ao lado de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro pela abolição  da escravatura em Angola (do Livro intitulado "Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro" by Vicente, Jose (Gil Duarte), pg 1959, e sobre a repressão do tráfico de escravos, correspondia-se com o Ministro Sá da Bandeira que, em carta que lhe dirigira, o considerava o braço direito da abolição da escravatura. Era agraciado com as comendas das ordens de Cristo e de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa. Exerceu em Mossãmedes os cargos de juiz substituto e de Presidente da Câmara Municipal.

Testemunhou, com o doutor Lapa e Faro, o acto solene do reconhecimento, manifestado pelos antigos colonos, na Escritura de Promessa e Voto, de 4 de Agosto de 1859.

Casou com D. Amélia Josefina da Costa (foto acima), filha de Jose Joaquim da Costa, chefe da 2 colonia ida de Pernambuco para mossamedes, em 1850, seu companheiro de colonização, e tiveram 6 filhos: Alfredo, Amélia, Laurentino, Adelaide, Albertina e Elisa Duarte de Almeida. Alfredo. Faleceu a 9 de Julho de 1898. Repousa, sob artístico mausoléu «aristocrático» que ainda hoje e pode ver no Cemitério de Mossãmedes, como tantos outros portuguêses que se transferiram na primeira metade do século XIX de Pernambuco para Mossãmedes, em túmulos de estilo luso-Católico.
Nota: No principio da decada de 1860 Mossamedes possuia 11 fazendas onde se cultivava algodao,  empregando 350 escravos e libertos, sendo o total de 350, a maior parte das quais pertenca de Duarte de Almeida. Da producao anual nessa epoca calculava-se em 1780 arrobas de algodao.
 .

Fontes:
in «Moçâmedes», 1º volume de Manuel Júlio de Mendonça Torres
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É já admiravel este desenvolvimento da cultura da preciosa planta textil em Mossãmedes, mas não é tudo: no primeiro semestre do anno de 1866, a exportação subiu a 105:239 kilogrammas, na importancia de 67:5385918 réis, isto é, foi superior em 5:5435518 réis ã exportação de todo o anno de 1865.

E não só melhorou em quantidade, como vemos, mas tambem em qualidade; pois, segundo informações hem fundadas, o algodão em Mossamedes já é mui considerado nas fabricas de Portugal pela sua excellente qualidade, e goza egualmente de hom credito em Inglaterra, pelo que tem mais valor no mercado que o de outras procedencias. A importância da nossa producção colonial, sobre tudo em Inglaterra, onde as industrias sahem o que lhes convem e sõ apreciam o que é hom e util, lisonjeia-nos, na verdade, e póde servir de estimulo e incitamento para os futuros povoadores da Africa Occidental, tão desprezada, tão esquecida, e, principalmente, tão desconhecida c tão mal apreciada.
Em 1865, a importação pela alfandega de Mossamedes foi de 86:0675606 réis.
A exportação foi de 148:8315485 réis   CONT...



"... Grupo de gente boa e menos boa e até má, que, com todas as suas contradições, iniciou a construção de uma cidade de que toda a gente que nela viveu ou vive se orgulha.

"...No futuro, o neo-colonialismo obedecerá a esquemas de Estados, subordinados a programas das multinacionais. A colonização portuguesa foi feita ao sabor do espírito aventureiro de um povo que se sentia mal-tratado na sua própria terra. O Estado só apareceu para estragar."

    In "Os colonos"

de Antonio Trabulo

***



Cântico

Bendito seja quem te visionou
Aquém do grande mar,
E, escorraçando medos te encontrou
E sorriu ao teu virgem despertar!

Bendito seja quem te abriu o seio
E nele fecundou o gosto pela vida!
E misturou o trigo e o centeio
Com o maná da terra prometida!

E quem te deu a vida incondicionalmente,
Só pelo gosto puro de ser teu;
E quem por ti lutou e o sangue quente
Por ti feliz verteu!
E mais sincerasmente:
BENDITO SEJA QUEM POR TI MORREU!


Bendito seja quem te pôs a água
No seio do deserto a arder em mágoa!
Bendito quem te deu cravos e rosas
E carnes sãs e frutas saborosas!


Bendito quem te deu as velas brancas,
Os risos claros e as almas francas!
 

Bendito seja quem te abriu as ruas
E que te fez linda como virgens nuas!
Benditos sejam todos os que lutam,
Os que aqui vivem, sofrem e labutam,
Pioneiros do Sonho e da Verdade!
Benditos sejam todos! Que o meu grito
Repercuta sonoro no infinito
E faça eco em Deus na eternidade!

(Angelino da Silva Jardim, poeta moçamedense)

sexta-feira, 19 de março de 2010

Mossamedes Antiga na pena de José Pereira do Nascimento In «O districto de Mossamedes: 1892

 


Fotografias: Moraes, J.A. da Cunha, Álbum photographico e descriptivo, África Occidental. David Corazzi Editor, Lisboa, sem data.
 
 
 


A Villa de Mossâmedes
 
Trancreve-se na íntegra:
 
 
«A capital do districto e cabeça do concelho, denominada a Cintra d' Africa pela amenidade do seu clima, está situada em bella prespectiva no fundo de uma ampla e bem  abrigada bahia em forma de ferradura na latitude do parallelo 15º.
 


Foi fundada em 1845 por um grupo de corajosos colonos que imigraram do Brazil e se estabeleceram na bahia da Angra do Negro, onde apenas havia uma feitoria iniciada em 1840. 
 
 
 
«...Possue ruas espaçosas, compridas, bem alinhadas e divididas em quarteirões simétricos, todas calçadas e illuminadas a petróleo. Nota-se n'ellas extremo aceio e limpeza, que rivalisam com a regular disposição e óptima divisão. Possue uma bella avenida arborisada que se prolonga com a praia e dá lindo aspecto ás suas casas, que se destacam por entre renques de palmeiras.

As casas são lindas construcções modernas, em que as boas condições hygienicas andam a par com o bom gosto e solidez. Quasi todas são assoalhadas e forradas com boas madeiras da Europa. São bem divididas, bem orientadas e aceadas. Os seus tectos são chatos e as frontarias, pintadas com gosto, são dispostas com arte e belleza. Quasi todas possuem jardim e quintal, que fornece excellentes hortaliças e tem uma ranma d'onde se extrae a agua para os usos ordinários.

Existem largos e jardins publicos bem situados, com tanques d'agua para uso do publico.



Os seus principaes edifícios públicos são : o palácio do governo, o melhor das nossas possessões, bella obra de architectura montada com luxo e grandeza; n'elle estão installadas as principaes repartições publicas: a fortaleza de S. Fernando, construída sobre um rochedo, que domina a formosa bahia; serve de quartel ao 4º batalhão de caçadores: a alfandega, lindo edifício situado a meio da rua principal, próximo á praia; possue vastos armazéns e boas sallas; communica por meio de carris de ferro com a ponte-caes, boa construcção em ferro e madeira: o hospital em corpos separados formados de barracões, systema Tollet: a igreja, o matadouro situado optimamente á beira mar, o cemitério, bastante afastado da villa, a repartição do correio e das obras publicas, etc.  
 
A leste da villa encontra-se um largo gradeado, em cujo centro foi erigido por subscripção publica um monumento em honra do benemérito governador Leal, que  iniciou os grandes melhoramentos que tornam Mossamedes a mais  formosa cidade europea da costa occidental da Africa e a única que pode compelir em aceio, regularidade e hygiene com as cidades da Europa.

A Praça Leal

Entre os edifícios particulares encontram-se bellos e elegantes primeiros andares e rez-do-chão, que fariam honra a qualquer cidade europêa, destacando-se d'entre elles pela sua elegância, situação e commodidade o chalet da companhia telegraphica. 
 
O Chalet da Companhia Telegraphica
 
 

Entre os edifícios particulares encontram-se bellos e elegantes primeiros andares e rez-do-chão, que fariam honra a qualquer cidade europêa, destacando-se d'entre elles pela sua elegância, situação e commodidade o chalet da companhia telegraphica. 

A natureza não foi pródiga na distribuição dos seus benefícios a Mossamedes. O terreno sobre que assenta a villa é secco, arenoso e areno-calcareo ; a vegetação expontânea é rachitica: pois apesar de tão pouco favorecida, Mossamedes revela a que ponto chega o esforço da raça, que em 40 annos de trabalho persistente conseguiu transformar aquelle areal em uma formosa villa com jardins e hortas, onde os recursos são abundantes, a alimentação é excellente, barata e variada, com lojas onde se encontram todos õs géneros europeos e um mercado bem sortido. 


Tudo quanto ali ha é devido á iniciativa e trabalho do europeu que se aclimou e produziu gerações sadias e robustas em 3º e 4º grau, que ali vivem e se desenvolvem sem manifestações apparentes que revellem resistências orgânicas á adaptação ao novo meio. A raça branca ali procreada progride de um modo evidente ; as creanças coradas, robustas e alegres não manifestam o menor vestígio da intoxicarão palustre.

Continua....
 

In «O districto de Mossamedes» , de José Pereira do Nascimento
0 Críticas. Typographia do jornal As Colonias Portuguezas, 1892 - 172 páginas
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 A Praça Sá da Bandeira

"A leste da villa encontra-se um largo gradeado, em cujo centro foi erigido por subscripção publica um monumento em honra do benemérito governador Leal, que  iniciou os grandes melhoramentos que tornam Mossamedes a mais  formosa cidade europea da costa occidental da Africa e a única que pode compelir em aceio, regularidade e hygiene com as cidades da Europa."
 
Nota: 
 
O texto acima, de José Pereira do Nascimento, que agora repetimos refere a existència de um largo a leste da villa, em honra do benemérito governador Leal.  Ora o texto parece não referir um outro largo ,  bastante maior de que temos notícia, desde a década de 1930 ocupado pela ESCOLA PORTUGAL (Escola 55), hoje "Pioneiro Zeca", iniciada ainda no quadro da 1ª Republica (1910.1926) e terminada já no Etado Novo. O  largo apresenta ao centro um  OBELISCO à memória do General de Sá da Bandeira, o político do liberalismo português que após a queda definitiva do absolutismo em 1834, e no quadro da  revolução setembrista, não perdeu tempo, e tomou importantes medidas legislativas  mandando publicar, em 12 de Dezembro de 1836, o Decreto da abolição do tráfico de escravos.  O OBELIsCO ali colocado em 1869, foi dali transferido  na década de 1930, para a Avenida da República, em local próximo  do edificio das Alfândega no local onde na década seguinte foi erguido um quiosque,  quando mai uma vez o OBELISCO foi transferido para a Praça onde hoje ainda se encontra, para os lados do Bairro da Facada.
 
Ainda com relação a este OBELIsCO, Manuel Júlio de Mendonça Torres no Boletim Geral do Ultramar XXX - 348 e 349, de Junho-Julho de 1954, págs. 125 a 129, na parte dedicada aos edifícios e obras municipais existentes neste ciclo, sob a designação "Conspecto imobiliário do Distrito de Moçâmedes no ciclo de 1850 a 1879", refere o seguinte:

...Consta no Relatório do governador Costa Cabral, de 19 de Junho de 1877, que num dos ângulos da Praça Sá da Bandeira se erguia um pequeno prédio, já concluido, "servindo de Casa da Câmara". Supomos que a casa a que se refere Costa Cabral é aquela em que hoje está instalada a Administração do Concelho. Só muito mais tarde é que a Câmara Municipal fora definitivamente instalada no edifício em que funciona hoje os serviços dos Paços do Concelho. Devia ter ficado pronto e a funcionar, segundo o Graça, de 13 de Julho de 1869, no dia 1 de Janeiro de 1870. Outro ângulo da Praça estava ocupado pela casa, já em paredes e telhado, destinada a "Casa do Tribunal". 

...Observava Costa Cabral que esta casa, cuja conclusão já pouco importaria era indispensável, por ser Moçâmedes sede de comarca. Informava também que as dimensões desta casa eram acanhadas para ter o destino que lhe estava dado; faltavam divisórias, como sala para julgamento, gabinete para juiz e delegado, dois cartórios, sala para réus e outra para testemunhas; para tudo isto não tinha capacidade. Desconhecemos se foi nesta casa que funcionou o primeiro tribunal da comarca. No terceiro ângulo, alvitrava o governador seria construida uma casa com condições de "Escola para o sexo masculino", mas nada se fez. Sobre o assunto, refere, já expusemos o que bastava no capítulo "Os serviços de instrução". E continua: no quarto ângulo tinha sido construida uma casa, que já estava em paredes, destinada a "Cadeia". Era impróprio o lugar porque nessa casa se haviam de aglomerar indivíduos de hábitos desmoralizadores, sendo, portanto, inconvenientíssima a vizinhança, se na mesma praça fosse construida a Escola, como se pensou.

 ...Segundo o relatório do governador Graça, de 13 de Julho de 1869, a "Praça de Sá da Bandeira" media 14.000 metros quadrados. Parece-nos exagerada tal área. Presumimos que esta praça tivesse sido limitada pelo gradeamento colocado tempo depois, ficando, por este motivo, situados fora dela os edifícios construidos em cada um dos seus ângulos.

 ...A Praça Sá da Bandeira, de vastas dimensões e confinada pelo seu aparatoso gradeamento, fora aberta no local onde hoje se erguem a "Escola Portugal" e algumas outras edificações. No centro via-se, erecto, um obelisco dedicado à memória do estrénuo libertador dos escravos nos nossos domínios ultramarinos. Há muitos anos, mas ainda nos nossos tempos, efectuara-se definitivamente a retirada dos gradeamentos e fora, outro ssim, transladado o obelisco para a Avenida da República. próximo do sítio quase fronteiro ao antigo edifício dos Correios. E, ultimamente, há bem poucos anos, determinou a Câmara a deslocação daquele monumento para uma praça que havia sido aberta a Nascente da cidade, entre as ruas Calheiros, Hortas e Mendes Leal. 
 
 
 
 
 
 
  http://mocamedesregistosefactos.blogspot.com/2020/02/a-praca-sa-da-bandeira-em-mocamedes-e-o.html
 
 

 
 
 
 
 
que  iniciou os grandes melhoramentos que tornam Mossamedes a mais  formosa cidade europea da costa occidental da Africa...." e a  ........................

quinta-feira, 18 de março de 2010

António Aniceto Monteiro, um ilustre filho de Mossamedes ( a ex-Mocamedes, actual Namibe - Angola)


Em meados dos anos 40 e durante a sabática

Digitalização de Jorge Rezende
Agradecimentos a Edgar Ataíde
© Família de António Aniceto Monteiro
António Aniceto Monteiro é o primeiro investigador moderno português em Matemática. Foi um dos impulsionadores do Movimento Matemático que, entre 1936 e 1947, a partir de Lisboa, lançou os fundamentos do que foi na altura, e que poderia ter continuado a ser, uma verdadeira Escola de Investigação, de Divulgação e de Ensino daquela Ciência em Portugal. No que diz respeito à investigação científica foi ele, sem dúvida, a figura central do Movimento Matemático.  Há três nomes maiores do Movimento Matemático (1936-1947): Bento de Jesus Caraça, Ruy Luís Gomes e António Aniceto Monteiro. Não se pode dizer que este último tivesse uma envergadura menor do que os outros dois. É o menos conhecido porque foi obrigado a exilar-se em 18 de Fevereiro de 1945, nunca tendo sido professor de uma escola portuguesa.
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Os pais de António Aniceto Monteiro

Reprodução por meios fotográficos de Elza Amaral
© Família de António Aniceto Monteiro
Ver:
Angola e António Aniceto Monteiro
Maria Joana Lino Figueiredo da Silva
António Ribeiro Monteiro (1880-1915)

Intervenção no "Colloquium António Aniceto Monteiro", 4 de Junho de 2007

Angola e António Aniceto Monteiro
Jorge Rezende (*)



Reprodução por meios fotográficos de Elza Amaral
© Família de António Aniceto Monteiro

Estas fotografias dizem respeito à segunda estadia (depois de 16 de Dezembro de 1910) do tenente Monteiro em Angola. Devem ser datadas já de 1911 a 1915. Ver: Angola e António Aniceto Monteiro.



                   António Aniceto Monteiro – O matemático que olhava Portugal de longe

António Aniceto Monteiro nasceu em 1907, em Moçâmedes, filho de um oficial do Exército que viria a desaparecer quando cumpria uma comissão de serviço em Angola. Tal como tem acontecido com muitos jovens desde 1803, ano da fundação do Colégio Militar, a sua Mãe recorreu aos serviços do nosso Colégio e Aniceto Monteiro ingressou nele a 1 de Novembro de 1917 com o nº78.

Decorria o ano de 1917 e em Portugal anunciava-se o milagre de Fátima e apelava-se à oração pela Paz, pois na Europa ela era uma utopia. Na Europa Ocidental assistia-se à 1ª Grande Guerra, 1914-18, onde o desprezo pelos direitos humanos levou ao massacre de dezenas de milhões de civis inocentes. Entretanto, na Europa Oriental, dava-se a revolução bolchevique na Rússia que viria a ter grandes reflexos na futura conjuntura política europeia e mundial. Em contraponto na Inglaterra, livre do flagelo da guerra, a paz, a democracia, o respeito pelos direitos humanos e os desenvolvimentos económico e social eram uma realidade. Longe estaria Aniceto Monteiro de pensar, nesse momento, que algumas consequências destes acontecimentos políticos iriam afectar decisivamente o seu futuro.

Mas, voltemos a Aniceto que vai frequentar o Colégio até 1925 onde se revela um aluno mediano, nada fazendo crer que mais tarde se tornaria num ilustre matemático, internacionalmente reconhecido. Aniceto Monteiro possuía uma formação cívica sólida e foi, ao longo da sua actividade colegial, distinguido com três louvores, designadamente, dois pelo seu “procedimento moral”; no entanto, jovem e irrequieto que era, também sofreu castigos um dos quais no último ano por fumar, hábito que não o largou a vida inteira. Terminou o Curso Complementar de Ciências no Colégio Militar com a média geral de 12 valores e 14 valores a Matemática tendo, contudo, na generalidade melhores classificações em Física.

No ano seguinte Aniceto matricula-se no Curso de Ciências Matemáticas da Faculdade de Ciências de Lisboa, concluindo a sua licenciatura em 1930 com a média de 15 valores. De 1931 a 1936, é bolseiro do Instituto para a Alta Cultura, em Paris, tendo, em 1936, obtido o grau de Doutor em Ciências Matemáticas pela Universidade de Paris com a menção distintíssima de “très honorable”. O seu doutoramento foi orientado por Maurice Fréchet, professor da Sorbonne, e mereceu do júri, para além da mais alta classificação, a seguinte referência: “agradecemos ao Instituto para a Alta Cultura por nos ter enviado um candidato que revelou grande entusiasmo e aptidões excepcionais para a investigação” Destaquei apenas esta frase de vários parágrafos da carta, elogiosa, que foi dirigida ao Instituto para a Alta Cultura.. Em França, Aniceto contacta com a investigação Matemática e com os moldes da sua organização e aí ganhou incentivo para o prosseguimento das suas investigações. Regressa a Portugal com o entusiasmo de um jovem que sempre teve “uma atitude rica perante a vida” que, como um cidadão exemplar, entende que tendo sido bolseiro, deverá retribuir ao País os frutos do seu trabalho e da sua capacidade.



Reprodução por meios fotográficos de Elza Amaral
© Família de António Aniceto Monteiro




Mas se, em 1917, ano em que se torna “menino da luz”, os tempos não são fáceis para a Europa, em 1936, ano em que regressa a Portugal, a conjuntura política Europeia adensa-se e adivinham-se novos e terríveis conflitos cada vez mais desumanos. A Europa continua a não encontrar a Paz e a retardar os caminhos da democracia quer através de novos conflitos regionais étnicos, quer através de regimes ditatoriais. Os desenvolvimentos económico e social de alguns países, alicerçados numa democracia com respeito pelos direitos humanos, continua a não ser um exemplo para muitos dirigentes políticos europeus. À criação do regime comunista implantado na Rússia, com a revolução bolchevique, respondem alguns países da Europa Ocidental e Mediterrânica, entre os quais Portugal, com regimes ditatoriais de direita, cerceando as liberdades civicas de muitos cidadaos, impedindo-os ate de exercer actividades profissionais no seu pais.
Digitalização de Jose Marcilese© Família de António Aniceto Monteiro
António Aniceto Monteiro, Lídia Monteiro e filhos no Porto
(22 de Março de 1944)

Foi exactamente isto que aconteceu com Aniceto Monteiro quando chegou a Portugal. Nesse tempo, era obrigatório assinar um compromisso de fidelidade (estabelecido pela Constituição Política de 1933) para ter acesso à função pública. Aniceto recusa-se a assinar tal compromisso, mesmo depois de pressionado por vários amigos, alguns deles meninos da luz como ele, porque, apesar de não ter qualquer actividade de carácter político, Aniceto considerava o dito compromisso “um insulto à sua inteligência”. Entretanto, os apelos da comunidade matemática repetiam-se e o Regime continuava a negar-lhe o ingresso na carreira universitária. Apesar de consciente que, enquanto se mantivesse o Regime do Estado Novo, seria marginalizado no seu país, Aniceto Monteiro não era homem para desistir e, por isso, não podia deixar de fazer o que sabia e o que mais gostava – exercer funções docentes e de investigação – o que fez mesmo sem auferir qualquer remuneração.

A crise de desenvolvimento da cultura matemática portuguesa era uma realidade. Até Fernando Pessoa através de Álvaro de Campos se referiu ao fraco reconhecimento, que no país, se atribuía ao conhecimento científico afirmando “o binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso”. Para inverter esta situação, Aniceto Monteiro, apesar de não ser professor no ensino oficial, fez parte de um movimento pela renovação da cultura matemática portuguesa, para a modernização do ensino e da investigação científica, tendo uma participação associativa muito activa no seio da sociedade civil, conjugando vontades e articulando esforços. Neste âmbito foi um dos três impulsionadores do Movimento Matemático em Portugal, com Bento de Jesus Caraça e Ruy Luís Gomes. Associando-se a estes e a outros eméritos cientistas portugueses participou também na criação da Junta de Investigação Matemática, do Centro de Estudos Matemáticos de Lisboa, da Fundação da Sociedade Portuguesa de Matemática, da qual foi o seu primeiro Secretário-Geral e das revistas científicas da área: Portugaliae Mathematica e Gazeta Matemática. A Portugaliae Mathematica veio colmatar uma brecha nas publicações de nível universitário que se verificou com o desaparecimento, no início do século, da primeira revista portuguesa da especialidade e passou a constituir um local privilegiado para a publicação de trabalhos portugueses inéditos. A Gazeta Matemática era dirigida aos professores de Matemática e aos estudantes universitários para melhor informação sobre o movimento matemático nacional e aos pré-universitários para prepararem devidamente o seu ingresso no ensino superior. Para Aniceto Monteiro, já nesta altura, os jovens, ainda no ensino secundário, já representavam o futuro cientifico em Portugal.

Finalmente, a 2ª Guerra Mundial, 1939-45, está a terminar mas, os ventos de mudança não parecem querer chegar a Portugal tão cedo e o Regime, apesar da vitória dos aliados, irá continuar a não tolerar espíritos livres nem movimentos modernizadores. A repressão aumenta e torna-se imperioso silenciar os intelectuais. O Regime prepara a depuração, a nível universitário, mesmo daqueles que assinaram o compromisso político recusado por Aniceto Monteiro.

Sobrevivendo em condições económicas precárias, Aniceto Monteiro aceita, em 1945, um contrato como professor de Álgebra Superior na Faculdade Nacional de Filosofia do Rio de Janeiro, tendo sido recomendado nada mais, nada menos por: Albert Einstein, John von Neumann e Guido Beck. Aí irá, durante quatro anos, organizar o ensino e promover a investigação em Matemática junto dos jovens universitários brasileiros, colaborar na criação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas do Rio de Janeiro e influenciar um grande número de futuros matemáticos desse país.

Enquanto outros países tudo faziam para importar cérebros Portugal bania-os. Como foi possível a um país como Portugal não aproveitar o saber de um Matemático recomendado nomeadamente, por Einstein , “apenas” Prémio Nobel da Física em 1921, e John von Neumann que para além de Físico Nuclear, realizou trabalhos muito importantes em Física Quântica, foi especialista na Teoria de Jogos (Matemática/Economia) e criador do ENIAC o primeiro computador da nova geração!

Apesar do modo como foi tratado pelas autoridades portuguesas, Aniceto Monteiro estabeleceu, sempre, relações científicas com o país continuando a orientar teses de doutoramento e a constituir um marco de referência para os jovens Matemáticos Portugueses. Mas o Governo Português continuava a não lhe perdoar a sua verticalidade e generosidade e mais uma vez, através da Embaixada Portuguesa no Brasil, o perseguiu influenciando a decisão da não renovação do seu contrato por parte da Faculdade Brasileira. Lá teve, em 1950, Aniceto Monteiro de procurar novo país de acolhimento.

Esse país foi a Argentina onde, para além de ter leccionado em três Universidades, desfrutou, a partir de 1957, da grande oportunidade de criar um projecto cientifico de raiz, fazendo do Instituto de Matemática de Bahía Blanca um dos centros de Matemática mais importantes da América Latina, associado a uma Biblioteca, de nível internacional, adequada à realização de trabalhos de investigação, à qual em sua homenagem foi dado o seu nome. É designado «Professor Emérito da Universidade Nacional del Sur» na Argentina e jubila-se em 1975.

Em 1977, regressa a Portugal, passados trinta e dois anos de exílio e aqui permanece, como investigador do Instituto Nacional de Investigação Científica, até 1979. Em 1978, é distinguido com o Prémio Gulbenkian de Ciência e Tecnologia tendo a Revista da Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar feito uma referência dessa atribuição ao “bom e querido Aniceto”. Que manifestação de afecto e de camaradagem por parte dos outros meninos da luz. Regressa à Argentina continuando a trabalhar até aos seus últimos dias, pois a sua paixão pela matemática não tinha limites. Vem a falecer em Bahía Blanca, em 1980. Em 2000, o então Presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio, concede-lhe a título póstumo, e no âmbito das comemorações do Ano Internacional da Matemática, a Grã-Cruz da Ordem Militar de Santiago da Espada. Mais uma vez o nosso país, deixa partir um daqueles que se afirmaram como uma referência, homenageando-o e à sua obra de forma tardia.

Com a sua energia, visão e persistência Aniceto Monteiro dinamizou, por onde passou, a criação de Centros de Investigação e Bibliotecas que deixaram uma marca muito precisa do seu pensamento científico de que a Ciência era para ser partilhada por todos e não apenas por alguns. Foi, sem dúvida alguma, um percursor da globalização dos conhecimentos a nível do ensino, da investigação e da divulgação científica.

Fez parte de uma geração que tudo fez para que Portugal entrasse na modernidade mas, muitos deles, como Aniceto Monteiro foram impedidos de realizar, no nosso País, a sua ambição científica.

O seu comportamento cívico exemplar e o seu carácter, com certeza muito enraizados na sua personalidade pela educação colegial, foram determinantes para as suas actividades profissional e social granjeando de todos que com ele trabalharam e privaram o respeito, a estima e uma amizade duradoura.

Referi, apenas, alguns aspectos da vida de um dos maiores matemáticos portugueses do século XX , de reconhecido mérito internacional, que foi António Aniceto Monteiro aluno 78 de 1917-25 e que será mais uma das grandes referências do nosso Colégio no Âmbito da Matemática juntamente com Fernando Vasconcelos aluno 56 de 1887 e Luís Albuquerque aluno 89 de 1929.

Muito obrigado pela vossa atenção

Vasco Lynce de Faria

Referências: Ana Gerschenfeld “António Aniceto Monteiro - O matemático que olhava Lisboa de longe” - PÚBLICO Comunicação Social SA (Maio 2007).

António M. Fernandes “António Aniceto Monteiro” Educação e Matemática –Revista da Associação de Professores de Matemática (Junho 2007).

José Manuel Sena Neves “António Aniceto Ribeiro Monteiro – Centenário do nascimento de um notável matemático (ex-aluno 78 / 1917-25 do CM) – Revista O COLÉGIO MILITAR (Julho 2007).

Sociedade Portuguesa de Matemática

“António Aniceto Monteiro – Uma fotobiografia a várias vozes” Coordenadores: Jorge Rezende, Luíz Monteiro e Elza Amaral (Maio 2007).

1958
“Ele fundou tudo quanto havia a fundar, participou em tudo quanto havia a participar”
Jorge Rezende
FONTE 

António Aniceto Monteiro: um testemunho sobre o impacto recente da sua obra em Álgebras da Lógica

Seminário de Álgebra
"António Aniceto Monteiro: um testemunho sobre o impacto recente da sua obra em Álgebras da Lógica"Isabel Ferreirim (Universidade de Lisboa, Portugal)
Sexta-feira, 09 de Novembro de 2007, 14h30, Anfiteatro


Complexo Interdisciplinar da Universidade de Lisboa
Av. Prof. Gama Pinto, 2
1649-003 Lisboa




António Aniceto Monteiro tem uma rua com o seu nome em Bahía Blanca, Argentina.
António Aniceto Monteiro não tem qualquer escola ou rua com o seu nome em Portugal ou em Angola, onde nasceu!

Seria de máxima justiça que, pelo menos, fosse dado o seu nome a ruas de Namibe, de Lisboa e do Porto.

O seu amor à terra onde nasceu (Mossâmedes, actualmente Namibe) justificam-no plenamente. Que António Aniceto Monteiro tenha nascido em Angola deve ser motivo de orgulho para os angolanos e também um incentivo para a juventude de Angola.

Todo o trabalho que realizou em Portugal com relevo para Lisboa e para o Porto não está reconhecido ao nível da toponímia das duas cidades. Muito se proclama a necessidade de promover a Matemática em Portugal, mas nenhuma escola portuguesa tem o nome de um dos seus maiores promotores no século XX.
Ver CRONOLOGIA

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CERTEZAS

Vejo as nuvens do céu
os sonhos da minha infância
claridades azuladas
na infinita distância.

Vejo no céu estas nuvens
Brancas, negras, azuladas
que se esfuman num momento
e deformam sem cessar.

Os sonhos da minha infância
Mortos no céu para sempre?

Na infinita distância
Os vazios transparentes.
Azuis, roxos, encarnados
que se turvam num instante
e deformam sem cessar.

Claridades azuladas
Vivas no céu
desde sempre.

Tenho os pés postos no chão
e firmados com vigor
Nos sonhos da minha infância.
Não são sonhos são certezas
que só encontro na Terra!

Claridades azuladas
de transparente constância.
Não estou parado no tempo
Não tenho os olhos fechados!
Na infinita distância
Claridades azuladas
Não são sonhos são certezas
Que só encontro na Terra.

[António Monteiro, 1959]

FONTE
 http://antonioanicetomonteiro.blogspot.pt/search/label/Angola%201884-1915