Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 1 de fevereiro de 2014

Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, sobre a melhor forma de extinguir a escravatura







Para a História de Moçâmedes/Namibe
Correspondência de 15 deAbril de 1857.com o Governador Geral da Provincia, Snr. José Rodrigues Coelho do Amaral



 Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, opinião sobre “a melhor forma de extinguir a escravatura”( doct. de 15 d’Abril de 1857)

Imagem: o busto de Bernardino, chefe da 1ª colonia que em 1849 fundou Moçâmedes, e que presentemente se encontra no Museu Etnográfico do Namibe.



Documento Nº 4


IIlmo e Exmo Snr. – Em cumprimento do officio que V. Excia se dignou mandar dirigir-me com data de 15 de Dezembro do anno passado, da repartição civil, sob o nº 1842, e recebi em dez do corrente, pela polaca “Esperança”, no qual me determina que exponha a minha oppinião sobre os meios possíveis de acabar por uma vez com o tráfico da escravatura nesta província, direi, sem flores de eloquência, o que as minhas fracas razões e intelligencia me ditam, e bem assim a experiencia de quasi oito annos dedicados a assíduos e árduos trabalhos agrícolas, lidando com escravos e gentio livre, me há demonstrado. Dividirei a questão sob dois pontos de vista:
1º - Acabar o tráfego da escravatura para fora das possessões portuguezas;
2ª - Acabar a escravatura dentro das mesmas possessões.
Em quanto ao primeiro ponto, a rasão, a humanidade, e a própria conveniencia reclamam que o Governo Portugues, com as mais urgentes medidas ponha por uma vez termo a tam vil, dehumano, e degradante tráfico, que em vez de ser util as mesmas possessões, é a causa de seu completo, por não dizer vergonhoso atraso.
Sem me demorar em descrever os horrorosos delictos cometidos em um desembarque – delictos que fazem corar de vergonha a quem tem sentimentos de homem, e que mal se poderia acreditar que os mesmos homens os cometessem, se se não vissem tantas vezes repetidos: sem me demorar a descrever o que soffrem os condenados a embarcar, sem saberem para onde, mortos de fome e de sede, etc. - somente direi que tal trafico, alem de ferrete e de ignominia e da barbaridade que acarreta aos que nela tomam parte, é de nenhuma utilidade, senão de prejuízo para os que residem nas possessões: porquanto raras vezes recebem o producto dos infelises que uma louca ambição os fez sacrificar, e se algum recebem, é tam ceriado e moroso, que não remedeia quase nunca as suas necessidades.
Exemplificarei, a meu modo de ver, a cauza desta illusão.
Costumados os habitadores europeus d’ Africa a enviarem para o Brazil um certo numero de escravos, com cuja remessa obtinham, com pouco trabalho, meios abundantes para passarem uma vida folgada, senão licenciosa, não attenderam a que taes circumstancias haviam mudado; e animados pró correspondências, e ate por agentes daquelles que alli, depois de tal trafico se fazer por contrabando, eram os únicos que tiravam vatage, e que algumas vezes os engordavam, remettendo exactamente o producto dos escravos embarcados, continuaram porque já tinha tal habito; e os que vieram vindo sem reflexão e “mere pedudam”, seguiram a mesma marcha.

As transições são sempre custozas, e é por isso que o que obtinha escravos, em vez de os educar para os trabalhos agriculas _ do que tiraria mais sólidas e seguras vantagens _ como isso mandava diligencia, trabalho assíduo e estudado, paciência e alguma demora em colher resultados, preferia embarca-los, o que apenas lhe custava escrever algumas cartas. A repetição dos atos constituiu o habito, e para o destruie é mister empregar meios.
Serão estes, porem, difíceis na actualidade?

Parece-me que não. A oppinião do mundo reprova o enfame e criminos traficio: a situação e ordem das coizas o não favorece: o interesse das mesmas possessões o sygmatisa: e so tem a dseu favor, para o aconselharem, promoverem e animarem, aqueles a quem se consignam os desgraçados: mas quem são estes? Que o digam os que tem cahido no laço de fazer taes consignações. Se não fora a verdade de que o numero dos loucos é infinito: se não fora a possibilidade dos negreiros de Havana enviarem dinheiro para fazerem os carregamentos _ como farão em ultimo recurso, pois que não se limita a venda de escravos so aquela ilha, mas dali se vendem muitos para o sul da America do norte, e por alto preço - eu diria que o trafico dos escravos para o exterior acabaria por sua mesma natureza; porem, em rasão destas duas considerações, é necessário ainda empregar meios, só lembro dois, que parecem por si so eficazes.

Primeiro:- Tornar responsáveis as auctoridades administrativas e policiais por qualquer embarque que se faça nas terras de suas jurisdições: mas que esta responsabilidade seja acompanhada das mais severas penas, e não fique so escrita no papel, este so meio acabaria de uma so vez com tal trafico. Quem vive na Africa sabe o que é um embarque, e tem ouvido o retinido das correntes, o eco do pisar dos pés opprimidos com o peso dos ferros, o bulicio das lanchas e botes, o rápido andar de centos de hõmes, que, aceleradamente se dirigem as praias. Bem se ve que difícil é que a auctoridade deixe de o saber, e, portanto, que tal facto, se aconteceu, ou foi por conveniencia ou por tolerância. Admito, porem, ainda que possível, sem que auctoridade o soubesse, e em tal cazo lembro.

Segundo:- Que o Governo da província seja auctorisado a despender, alguns contos de reis com espiões, por anno, os quaes seja obrigados a dar parte as auctoridades administrativas e policiais do local, de qualquer embarque, que se pretenda fazer: penso que assim nenhuma terá logar.

Estes espiões devem ser locaes marcados nas costas: por exemplo, nesta província ter um a seu cargo dar parte do que ocorrer entre Mossamedes e a Lucira: outros entre esta e Benguela, entre Catumbela e a Anha: entre esta e Novo Redondo: entre este e Bengueloe Velha, entre esta e rio Longa, entre este e a cidade de Loanda, entre esta e Dande: entre este e Ambriz, entre este e Cabinda. Por esta forma, com muito menos despezas que a que se faz com cruzeiros, que poir maiores que sejam e mais vigilantes, faram diminuir, mas não acabar o trafico para o exterior, se consegue o fim desejado.

Dificil é, e de gravíssimo peso, desenvolver o segundo ponto de vista, isto é, acabar na actualidade com a escravatura dentro das possessões portuguesas d’Africa. Há uma lucta do coração com a cabeça: porque, se aquelle diz que é bárbaro e inhumano, que qualquer homem seja obrigado a servir outro, e que não gose do mais sublime dote da natureza, o uso da sua liberdade; aquella grita, que é isso verdade, mas aponta-nos as consequências que dahi podem resultar na questão sujeita.

Sera actualmente conveniente que de todo e por uma vez acabe a escravatura dentro das possessões portuguezas d’Africa?
Consideremos:

1º . O estado das possessões.
2º . Uzos e costumes dos europeus que as habitam.
3º .Estado de civilização dos indígenas, seus uzos e costumes.
4º .Se para se conservarem as possessões, será bastante o commercio, ou se sam necessárias tãobem a cultura e a industria fabris.
5º . Se a cultura e industria fabris podem ser por braços importados da Europa, ou somente pelos indígenas.

Ninguem contestara que é mau o estado actual das possessões portuguezas d’Africa; porquanto o período de transição, que infalivelmente tem de atravessar, esta ainda morosamente passando, fez com que deve absolutamente acabar o trafico da escravatura para o exterior, que era o seu ramo considerável de commercio, e requer que esta lacuna seja preenchida por outros meios de industria que é mister crear.

É bem sabido que Portugal exerce poder governativo somente nos pontos do litoral, e que no interior se conservam os uzos, costumes e governo do gentio, embora haja chefes que são para alli despachados, pois que estes se acommodam aos mesmos uzos e costumes por necessidade , e para fazerem o seu interesse, que é ordinariamente o que lá os leva. Chamando eu a Africa portugueza “um deserto de moralidade”, teria com duas palavras explicado quaes os uzos e costumes dos europeus que a habitam, salvas as devidas e honrosas excepções: porem, inda assim, dividirei estes em três classes: a de funcionários públicos; a de homes que vem procurar fortuna: a de degredados. A primeira classe que é a mais numerosa, bem sabido é que se compõe de pessoas, que não vem a Africa para tomar ares, mas para fazer seus interesses; pois que o amor da pátria, e do seu augmento, e o de conseguir gloria, constitui hoje limitada excepção a esta regra.

Há algumas que procuram fazer aquelles interesses por meios lícitos: para o maior numero todos o sam uma vez que consigam o seu fim.
Não parece que esta seja uma das cauzas porque as possessões não hão de melhorar, antes ir cada vez em maior decadência. As auctoridades para as possessões, são aquellas sobre que devia haver mais apurada e escrupulosa escolha: porque se uma exorbita no reino, facile pronto pode ser o remédio; mas nas possessões, quando ele chega, que de males já se não tem causado?

A segunda classe é dos que vem procurar fortuna, e como esta se tinha por meio de desembarque de escravos, claro esta ser a ideia dominante ate há poucos annos: posso dizer, sem perigo de errar que o numero dos que não sam dela afectados não é o maior que se dirigem a cultura presisam luctar com quase isuervs dificuldades. Ter consciência mais que ordinária e vontade de ferro para não desanimar logo no principio. Ainda assim , tal qual o impulso se lhe tem dado, mormente em Mossamedes, em cujo porto já entram por annos dezenas de navios que vem procura produtos agicolas.
A terceira classe é a dos degredados, os quaes quasi todos sam soldados, e não é a menos útil pois que não servem mal, e melhor o fariam, se não tivessem tanta demora nas prisões do reino, cuja escola lhes ensina o que muitas vezes ainda não sabiam, e os torna de má saúde e de hábitos occiosos.

Costumes, religião e governo do gentio sam quasi geralmente os mesmos da primitiva. So com a diferença de que nada de bom lhes tem ensinado os europeus, antes communicado os nossos vícios. Não se diga que sou exagerado, poderia referir muitos factos que tenho presenciado, que demonstram a verdade do que afirmo. É preciso não ficar innativo nas terras do litoral, mas correr os sertões ver o que por la vae, e se faz, para bem avaliar o que dizemos.
Não é possível referir aqui todos os costumes do gentio; seria isso matéria para uma obra volumosa: referirei somente alguns que tem relação com a matéria em questão.

Sabido é que a maior parte do gentio d’Africa tem o seu governo, sob uma ou outra denominação, sob uma ou outra forma de sucessão. O governo patriarchal indistinctamente a todos os que governam seus filhos, ou seus escravos. Dispoem, ouvindo a oppinião dos seus conselheiros (esta é a forma de governo mais seguida). Da vida e da propriedade de todos tomando por pretexto este ou aquelle crime: por exemplo, o de olhar para o “Tembo”, a primeira amiga do chefe porque passou por tal lugar, porque é feiticeiro. Este ultimo crime, que quase sempre recae sobre quem possue gados, é frequentemente imputado, e a pena é ser morto o feiticeiro, escravisada a gente que com ele residia, e tomados os gados e tudo o mais que possuíam. Muitas vezes a pena de morte do feiticeiro é comutada em degredo, para fora do estado, sendo vendidos com escravos. Ora, sendo muitos os governos, porque quasi todos são menores em terreno e população do que uma das nossas províncias do reino, e sendo este o costume de todos já se vê o numero de escravos feitos por anno, por tal motivo.

É honra e signal de nobreza entre o gentio, ser bêbado e ladrão, e aquelle que mais guerras faz e rouba maior quantidades de gado e pessoas, é o maior e mais fidalgo; sendo esta a rasão de tantas e tam repetidas correrias, a que chamam guerras. Todas as pessoas nelas agrarradas sam escravisadas velhas, moças e creanças e os seus parentes as vam resgatar, ou sam vendidas ou mortas, e daqui se pode concluir o numero de escravos que tal costume deve produzir. Em quasi todos os governos pode o chefe mandar vender um dos seus filhos., ou escravos, quando carecer de pólvora, d’armas, de vestidos, etc.., e assim daqui vem ainda o augmento do numero de escravos.

Os pretos, segundo os seus uzos, não devem trabalhar na cultura nem nos serviços domésticos: sam as pretas: A profissão deles é caçar, pescar e carregar. Se um preto, por exemplo, tiver sua mulher doente, e for buscar uma cabaça d’agua, ou um feixe de lenha, comete maior crime e paga maior multa, do que se matasse outro preto.

Quem percorre os sertões, e com os olhos de investigação observa o que se passa entre o gentio, logo vê que nenhuma necessidade sofrem os pretos; porque as pretas sam os que cultivam, fazem a comida, preparam as bebidas, e ate o cachimbo com o tabaco para os pretos fumarem: tem estes, quasi todos, mais ou menos cabeças de gado, e basta o couro de um boi para vestir mais de uma dúzia. Uma correa na cintura, com um palmo de couro que lhes cubra as partes pudendas, e outro palmo que cubra por detrás, eis um preto vestido de ponto em branco.

Dois ou prés porrinhos, arcos, flechas e uma azagaia, o que ele tudo faz, ou – a parte que tem de ferro os seus ferreiros . Ei-lo armado e pronto a seguir por toda a parte, por onde come o que lhe dão, ou gafanhotos com quatro lagartos, que agarra, passa o dia. À vista, pois, dos costumes que venho a referir, já se vê que, para acabar com a escravatura no interior das possessões, é necessásrio, ou que o gentio obedeça e cumpra a lei que se lhe impuzer, e perca seus maus e inveterados uzos, por meio da força, ou que se empregue meios de o civilizar, incutindo-les os princípios da sã moral. O primeiro meio quase impossível porque demanda forças que não temos, ou de que não podemos dispor; o segundo é o mais conveniente, e depende somente de espalhar entre eles, bons missionários. Com estes meios, em poucos annos, muito se conseguiria.

Ora, isto é quanto ao gentio: para acabar a escravidão entre os súbditos portugueses há que considerar.

1º Que o commercio so por si não é sufficiente para manter as possessões.
2º Que sam necessárias a agricultura e a industrial fabril, e que estas não podem existir sem braços.
3º Que estes, attentos aos uzos e costumes do gentio, não se obtem senão obrigando-os.
4.º Que segundo situação actual, e o poder que sobre os pretos exerce o governo, o único meio de os obrigar é comprando-os, porque entendem que logo sam vendidos, tem o dever de prestarem a quem os compra os serviços.
5. Que para acabar por uma vez com a escravatura dentro das possessões é de justiça que os que tem escravos, recebem o valor dos mesmos, para o que são necessários muitos centos de contos de reis.

Acresce ainda mais, e esta consideração é de grande peso, que se comprarem os pretos que os costumes gentílicos fazem escravos em todos os annos, serão muitos deles mortos, porque os captivos nas guerras, e os condenados por feitiçarias, e por outros taes crimes, a não serem vendidos, serão assassinados, e por conseguinte, a medida de acabar por uma vez com a escravatura dentro das possessões, ditada pela civilização, pela justiça, e pela humanidade, é, nas actuaes circunstancias, não so prejudicial, mas talvez aniquile as mesmas possessões, leve em seus resultados, a que cometam crimes ainda mais inhumanos.

Quando as circunstancias me obrigaram a ir convocar uma guerra gentílica contra os Gambos, muitas forão as embaixadas que recebi, e em todas se me dizia que tal Soba estava pronto para o serviço do Rei, porem que este os queria prejudicar acabando com os escravos, que era o seu primeiro redito. Combato, como em taes lances me foi possível, semelhante reclamação e talvez que ouvissem a este respeito o que ainda não tinham ouvido. Combati esse bárbaro costume, e taes razões lhes dei, que não lhes ficando esperança de poderem continuar tam degradante uso, ainda assim obtive o que pretendi e foi d’ahi que tirei por conclusão que, com bons missionários fácil seria fazel-os mudar de seus maus costumes, sendo a primeira necessidade, incutir-lhes o amor ao trabalho; porquanto, a occiosidade que professam, lhes faz abraçar todos os uzos que a favorecem.

Os poucos pretos com que trabalho, podem hoje ser livres, porque continuarão a ser úteis e felizes pela sua agencia, que para eles já é habito. Eduquei-os antes com boas maneiras, do que com castigos bárbaros: não tem tido fome, nem falta do essencial, e por isso me não fogem, e vivem satisfeitos. SE em vez de trinta tivesse tido três mil, daria hoje a Africa outroa tantos bons trabalhadores. Será porem possível fazer-se nas possessões d’Africa, com braços importados da Europa, a cultura?

É facílimo resolver esta questão negativamente; porquanto, sem lembrar a difficuldade de os obter, e as enormes despezas para isso necessárias, direi não ser possível cultivar com os europeus, porque ficam logo iimpossibiltados do trabalho braçal, em rasao das moléstias de que são atacados, e, porque tãobem não se pode obter o numero suficiente para a cultura e industria fabril; e assim o ultimo recurso é aproveitar os indígenas, e o medo é compral-os, pois assim se sujeitam sem o menor obstáculo e sem repugnância, e se depois fogem, é isso devida a maior parte das vezes, ao mau modo de os tratar. So no fim de tres ou quatro annos é que um preto gentio fica bom trabalhador, e neste período é necessário muita paciência em o ensinar, e em so o ir exigindo diariamente mais um pouco de serviço.

Não me agrada a distinção de escravos e livres, nem admito na minha fazenda. Todos sam agricultores com iguaes direitos e obrigações. So é distincto o que merece, pelo seu comportamento. Esta nomenclatura é causa de rivalidade, portanto, origem de desordens e fugas.

Entendo que bem podia legislar-se dobre os serviços que deviam prestar os pretos que a humanidade mesmo reclama se comprem nas nossas possessões segundo o estado actual, sem se uzarem os reprovados nomes de escravos e liberto. Se o infeliz háde injustamente perecer, é mais humano comprar-lhe os seus serviços que tam úteis se podem tornar em mãos de homes e intelligentes, sendo taes serviços por enquanto essencialmente necessarios nas mesmas possessões. Era isso mais racional e justo uma vez que se fizessem regulamentos em respeito ao modo como deviam ser tratados os comprados – regulamentos, cuja exata execução fosse encarregada as auctoridade3s administrativas e policiaies, com a mais severa responsabilidade; porem, repito ainda que esta responsabilidade não devia ficar somente escripta no papel , como acontece a quase todas as nossas leis.

Expendi francamente a minha opinião, e fui gastante extenso; mas ainda maior extensão podia a matéria, que julgo de toda a transcendencia.

Sou na província o menos entendido; porem dos que mais desejam o progresso, augmento e civilização das nossas possessões.



Deos Guarde a V. Exa. Por mui dilatados annos. Mossamedes, 15 d’Abril de 1857. IIImo e Exmo. Snr. José Rodrigues Coelho do Amaral, Governador Geral da Provincia. – Bernardino F.F.A. e Castro.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Pinto da França, Zuzarte de Mendonça e Teixeira Pinto. Saga de 3 famílias na pacificação e colonização do sul de Angola


Honorato Zuzarte de Mendonça
General de brigada, ajudante de campo do rei D. Luis
 e Chefe da Casa Militar do rei D. Carlos
 Imagem: Genealnet



José Júlio Zuzarte de Mendonça
Imagem: Genealnet


Pinto da França, Zuzarte de Mendonça e Teixeira Pinto.
 Saga de 3 famílias na pacificação e colonização do sul de Angola.



No longo e difícil processo de consolidação territorial da colónia de Angola, os Portugueses enfrentavam, a meio do século XIX, a cobiça de potências estrangeiras, desejosas de os substituirem naquelas paragens. A efectiva ocupação do território imposta pela Conferência de Berlim (1884-5) passou a ser para as potências europeias, o principal factor para reivindicar os seus os ricos territórios africanos, ao contrário da visão colonial portuguesa da altura que assentava ainda nos direitos históricos.

Mais de três séculos depois de as caravelas de Diogo Cão terem chegado à embocadura do rio Zaire e se estabelecerem relações com os povos locais, a ocupação do território  com a respectiva delimitação de fronteiras estava ainda muito longe de estar consolidada. A zona de Moçâmedes era vital para os Portugueses. Foi então que em 1840 foi decidida a instalação de uma colónia em Moçâmedes, na ampla e abrigada baía, encravada entre as águas do oceano e o vasto e árido deserto.  A Moçâmedes chegaram  alguns comerciantes oriundos sobretudo de Benguela e de Luanda, e ali nasceram as primeiras feitorias em plena praia. Nesse ano decidiu-se a construção da fortaleza de S. Fernando e por coincidência, anos depois, de Pernambuco no Brasil chegou uma petição às autoridades lusitanas enviada por um grupo de portugueses perseguidos , após a independência, solicitando que fosse providenciada a sua retirada para qualquer ponto do império onde tremulasse a bandeira portuguesa. O Governo ofereceu-lhes o embarque para a longínqua baía, onde deveriam fundar uma colónia agrícola. No dia 23 de Maio de 1849, saiu do Recife rumo às costas de África, a barca Tentativa Feliz escoltada pelo brigue Douro com 174 refugiados, a quem tinha sido prometido um paraíso na terra. Ao fim de 2 meses e meio de navegação em difíceis condições, os passageiros têm enfim à vista a desmaiada vegetação da foz do rio Bero, a mo­notonia dos areais sem fim e a de­solação dos seus novos lares: meia dúzia de choupanas com coberturas de palha. Foram calamitosos os primeiros anos dos colonos, devido a um período de 3 anos de calores sufocantes e águas escassas, que levou a que a colónia vacilasse. Águas abundantes chegaram de um dia para o outro e das águas brotou a ressurreição de Moçâmedes. A eles se juntaram um novo grupo de pernambucanos, e a partir de 1861 grupos de familias algarvias de Olhão. Mais tarde, e precisamente nos anos em que decorria a Conferência de Berlim (1884-5), que resultou na "Partilha de África" entre potências europeias, chegaram a Moçâmedes duas "levas" de madeirenses, e com o decorrer do tempo Moçâmedes passou a ser um importante entreposto comercial com o interior, com os navios nacionais e estrangeiros que a necessitar de aprovisionamento.

Segue uma interessante publicação de Nuno Pinto da França Craveiro Lopes que encontrei na Net relacionada com a colonização de Moçâmedes, na parte que tocou a elementos da sua familia:

"...O relato que segue é da vida de 3 famílias, na saga de pacificação e colonização de Moçâmedes: João Teixeira Pinto (1810-1896), meu tetra-avô, José Júlio Zuzarte de Mendonça (1847-1911), meu trisavô, e António da França Pinto de Oliveira (1872-1917), meu bisavô materno. José Júlio Zuzarte de Mendonça era filho ilegítimo. Seu pai Honorato José Zuzarte de Mendonça, general de brigada, ajudante de campo do rei D. Luis e Chefe da Casa Militar do rei D. Carlos, receando a hostilidade da família em Portugal contra seu filho, na altura com 10 anos de idade, pede a sua transferência e parte em 1857 no brigue Velloz levando-o consigo para Moçâmedes.

Aí assume o comando da companhia de linha de Moçâmedes, exercendo mais tarde o cargo de Secretário do Governo, de chefe da secção militar da secretaria do Governo Geral da Província e finalmente de Governador de Moçâmedes. José Júlio licenciou-se em Direito e foi aí Juiz de Paz, Administrador da Alfândega e Comandante do Porto de Moçâmedes. Veio a desposar com Maria Rosa de Oliveira Teixeira Pinto, filha de João Teixeira Pinto, General de Infantaria, pacificador de Moçâmedes e herói de Angola nas campanhas do Cuamato em 1907, onde, comandando um corpo de tropas auxiliares constituído por voluntários boers, europeus e autóctones, derrotou e ocupou o território dos Cuamatos perto do rio Cunene, que em 1904 tinham provocado um massacre de tropas Portuguesas apanhadas de surpresa numa emboscada no vale do Pembe, deixando no local 250 mortos. Os indígenas pacificados chamavam-no "Kurika" que significava "leão". Segundo constava, era tão bravo no campo de batalha como fecundo em sucessivos leitos conjugais, tendo tido 2 filhos e 16 filhas. Como a campanha de pacificação se prolongou e Moçâmedes se mostrasse uma terra pacífica chamou para junto de si a mulher e as filhas mais velhas, uma das quais, Maria Rosa, veio a casar com José Júlio.
 
  João Teixeira Pinto "O Kurika"

Maria Rosa, de boa cepa, gerou ano após ano, pontualmente, 7 filhas e um filho. Cedo se finou, segundo então se pensou, devorada pelas febres, exangue pela sua fertilidade explosiva, mas rumores houve de que uma negra enciumada a envenenara ou lhe fizera mortal feitiço. Na verdade José Júlio deixou também descendência de uma nativa local (três filhos e duas filhas). Pequeno burguez honrado, legitimou-os e juntamente com seus filhos e filhas legítimas, brincavam e estudavam todos num colégio de freiras francesas existente em Moçâmedes. As "virgens de Moçâmedes" como eram chamadas, cantavam, tocavam piano e contavam os meses que separavam a passagem das fragatas inglesas que levavam uma nova guarnição para a ilha de Santa Helena no atlântico sul. Quando as fragatas chegavam, era sempre um acontecimento! Havia baile no palácio e ficavam sempre no ar vagos amores, esboçados ao de leve e todavia tão vividos e tão sofridos.


 
  António da França Pinto de Oliveira, 
foi Ajudante de campo do Governador João de Mascarenhas Gaivão
Imagem: Genealnet



Em 1895, quando o velho governador de Moçâmedes, Honorato Zuzarte de Mendonça (1) faleceu, foi substituido por João de Mascarenhas Gaivão, que trouxe consigo como ajudante de campo, António da França Pinto de Oliveira, filho de família de “sangue azul”, capitão de cavalaria. Era suave, loiro de olhos verdes, parecia um dos oficiais ingleses da ilha de Santa Helena que costumavam passar por Moçâmedes. Logo conheceu uma das filha de José Júlio, Maria Clara de Oliveira Teixeira Pinto Zuzarte de Mendonça e enamoraram-se para toda a vida. Casaram na igreja de Santo Adrião em Moçâmedes e no palácio lhes nasceu o primeiro filho, Bento, antes de regressarem a Portugal. António da França Pinto de Oliveira veio a ser comandante do Forte de S. Miguel e da Fortaleza de S. Pedro da Barra em Luanda, exerceu varias comissões de serviço em Macau, Africa Oriental e Ocidental, tendo sido agraciado e louvado repetidas vezes. Veio a falecer em Lisboa em 1917 aos 45 anos de idade de doença cardiaca aguda. A sua esposa sobreviveu-lhe 57 anos, vindo a falecer também em Lisboa, com 90 anos de idade em 1964.  Fim de citação.

MariaNJardim


Retirado daqui:Publicada por Nuno Pinto da França Craveiro LopesPublicada por Nuno Pinto da França Craveiro Lopes

 Para mais informações, visitar esta página:
(1)  http://mossamedes-do-antigamente.blogspot.pt/2010/07/mocamedenses-ilustres-honorato-jose.html

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Mossâmedes, Moçâmedes, Namibe, sua evolução até aos anos 1930: o contributo do capitão Sr. José Maria de Mendonça e da Câmara da cidade. A Fortaleza e a Avenida.da Republica

                                                

 
"...Um dos monumentos que impressionam a vista a quem de bordo de um navio ancorado na baía, contempla Moçâmedes, é a Fortaleza de São Fernando. Edificada no extremo leste da planura da Torre do Tombo, no morro São Fernando, ela nasceu como a atalaia vigilante dos possíveis ataques que daquele lado viessem. Parece que dela já havia alguma construção quando à velha Angra do Negro, aproou a primeira Colónia de emigrantes vinda de Pernambuco, Brasil, em 04 de Agosto de 1849, trazida pela Barca brasileira "Tentativa Feliz" capitaneada pelo Brigue português "Douro". 
 
Miguel Coelho
 


 
Mas falemos do assunto que nos trás aqui: a evolução até aos anos 1930 da Avenida de Moçâmedes, e o contributo do capitão Sr. José Maria de Mendonça 
 
  
 
Esta foto mostra-nos parte do morro de areia que à época ocupava o topo da Avenida de Moçâmedes, ou seja, toda a zona entre a Rua Bastos e a da Praia do Bonfim,  a subir até ao Palácio do Governador e que foi   objecto de desterro.
 
Miguel Coelho no “Semanário Mossâmedes”, de Janeiro de 1934,  faz uma referência notável  à acção do seu actual comandante, o capitão José Maria de Mendonça, o homem que transformou (palavras textuais)  aquele pardieiro infecto, que causava repugnância a quem o visitava, transformando-o num edifício de aparência agradável á vista, e, interiormente uma estância habitável, onde a higiene o aceio se dão as mãos. Estava a referir-se à Fortaleza de Moçâmedes.   
 
As obras da "continuação da Avenida da Répública", referiu também, foram disso um exemplo. O morro sobre o qual assenta a Fortaleza, também conhecido por Ponta Negra, prolongava-se na época pela parte cimeira da Avenida da República, desde o Palácio indo a morrer até ao edifício da Capitania do Porto, e teve que ser desaterrado a pá e picareta, sendo a terra transportada, através de vagonetas, para preenchimento de uma depressão que existia ao fundo da mesma Avenida,  dando lugar ao Estádio Municipal.  Até então a prática deste desporto fazia-se no terreno em frente da Estação do Caminho de Ferro. 

No mesmo “Semanário Mossâmedes”, de Janeiro de 1934, Miguel Coelho publicava o seguinte artigo:  


Não é nosso intento fazer a narrativa histórica deste edifício e sim apenas registar a sua actual aplicação.Serve de quartel a uma Companhia Disciplinar, para punição de delitos militares. Nada de notável isto ofereceria, se não tivéssemos que focar a notável acção do seu actual comandante, o capitão Sr. José Maria de Mendonça. São bem dignos de registo os efeitos da zelosa e acertada actividade deste ilustre militar. Ao entrar no comando da Companhia Disciplinar, que, ao tempo era também depósito de degradados, encontrou um pardieiro infecto, um aglomerado de construções cujo aspecto, causava tristeza a quem o via de fora, e repugnância a quem o visitava. Os correccionais nele agrupados passavam uma vida ociosa e os castigos registavam-se por muitas centenas. O seu actual comandante, com um bom senso invulgar, enfrentou a questão e concebeu o plano de, pelo trabalho, restaurar o edifício e, o que é mais, regenerar os reclusos. O seu intento foi coroado do melhor êxito, e presentemente, a Fortaleza de S. Fernando é, exteriormente, um edifício de aparência agradável á vista, e, interiormente uma estância habitável, onde a higiene o aceio se dão as mãos.


A sua população tem hoje no trabalho bem orientado o meio de evitar os castigos, que as suas taras provocavam, e, esses castigos desceram em número a indicadores dignos de nota. Ainda seguindo um plano acertadamente estabelecido, a actividade dêsses correccionais tem sido aplicada na construção de obras de interesse geral. Para indicarmos a mais importante, citaremos a continuação da Avenida da República, obra que está concluída e que, se fôsse executada pelos meios usuais, teria custado milhares de contos.
 

Tudo isto se fez, tudo isto se conseguiu sem dispêndio para o Estado, com pequeno dispêndio para o Município, e com um grande título de glória para o sr Comandante da Fortaleza de S. Fernando.
Está nisto uma prova do muito que se pode conseguir, na causa publica, quando os homens, numa nítida compreensão dos seus deveres, procuram ser úteis à sociedade.
 
Que o exemplo frutifique e que haja sempre motivo para grato registo de factos desta natureza, são os votos do “ Mossâmedes”.

(ass) Miguel Coelho"


Segue um texto assinado por J.A.M.,  publicado no “Semanário Mossâmedes”  em Janeiro de 1934:
 
...Sendo o nosso número de hoje dedicado a “esta nobre e querida cidade” não podíamos deixar de dizer alguma coisa sôbre a Câmara Municipal de Mossâmedes. Há 6 anos que meia dúzia de homens eleitos pelo povo para defenderem os interesses do Município. Há 6 anos que esses homens, com uma fôrça de vontade e persistência notáveis, teem desenvolvido uma actividade que a todos satisfaz. Não descansam. Ontem foi a construção de passeios e marcos fontenários, arborização dos bairros da Torre do Tombo e Aguada, os dois extremos da cidade; abertura de novas ruas e nivelamento de largos. Hoje temos a continuação da formosa Avenida da República que o carinho e inteligência de Fernando Pestana tem transformado na mais bela avenida da Província. Outras pessôas ha que muito teem concorrido também para a efectiva realização de algumas das obras de maior vulto na cidade e que seria injusto não mencioná-las. São esses bons Amigos de Mossâmedes S. Exª o sr. Governador do Distrito José Pereira Sabrosa, e os Ex.mºs srs. Capitão José Maria de Mendonça, Comandante da Companhia Disciplinar e Engenheiro Mello Vieira, Director dos Portos e Caminhos de Ferro do Sul, semo auxílio de quem não seriam possíveis o desmoronamento do morro que cercava a Fortaleza de S. Fernando e o aterro do largo destinado ao Stadium Municipal.
 
Fazem parte da Câmara os srs. António Monteiro Portela, Fernando Pestana, Bernardo de Figueiredo, Joaquim Afonso Salavisa, Oscar Duarte de Almeida, Herculano Morgado, José Augusto Vilela e J.A. Monteiro.

O programa da Câmara é grande: Nele está indicada a montagem da luz eléctrica para fornecimento a particulares, esgôtos e canalização de água, pelo que, muito se tem interessado o vereador do respectivo pelouro, sr. Bernardo Figueiredo. Estes melhoramentos sendo de fácil realização tornam-se, contudo, difíceis pela exiguidade do orçamento que não comporta tais despezas.
 

Tem a Câmara dirigido ao Govêrno muitas exposições pedindo um empréstimo de 3000 contos. Esse empréstimo, muito embora tivesse sido autorizado pelo conselho de ministros, ainda não foi efectivado.
Os 3000 contos seriam aplicados, como em cima dizemos, na montagem da luz eléctrica com todos os requisitos modernos, e na higiene da cidade. Quando será? Oxalá que seja breve para que possamos dizer: Mossâmedes! A “nobre e querida cidade” é também a mais bela e confortável cidade!
 Mossâmedes – A Cintra de Africa pela amenidade do seu clima – será em tudo digna dêsse nome! 
 
“Semanário Mossâmedes” Janeiro de 1934
 
 



Pesquisa de MariaNJardim
 
Nota:
 
Este texto contem várias transcrições devidamente identificadas quanto à dua proveniência, Respeite por favor o nosso trabalho. Não plagie os nossos textos. Pode retirar daqui o quanto entender necessário para a sua própria pesquisa, mas não se esqueça de referenciar a proveniência do blogue e do seu autor, conferindo os respectivos e legais créditos. Bem como a referência a outros autores aqui citados.

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Seguem algumas fotos que ilustram bem esse trabalho levado a cabo  a pá e picareta por militares aquartelados na Fortaleza de Moçâmedes, e com a ajuda de vagonetas deslizando sobre carris de ferro.



Esta foto mostra-nos a elevação que teve que ser terraplanada. A rua que se desenha na direção do Deserto do Namibe, perpendicular à Rua da Praia do Bonfim, é a Rua Costa 
 

Aqui já se vê alguns resultados dos desaterros e terraplanagens...


 Aspecto da Avenida da República nos anos 30, quando se dá o início dos desaterros e terraplanagens. Como se pode ver ainda não existiam os edifícios do Cine Moçâmedes nem da Capitania do Porto. Vê-se ao fundo o edifício da Alfândega a ocupar todo um quarteirão e a convergir lateralmente com  o Jardim da Colónia, onde aquele Cine iria ser construido nos anos 1940, bem como o terreno vazio onde também nessa década  iria ser construido o da Capitania. No edifício pintado de escuro , à dt. ficava a Escola Primária Superior "Barão de Mossâmedes".
 
                      A terra foi retirada com a ajuda de vagonetas deslizando sobre carris...
As obras de terraplanagem da elevação que nesta altura cobria a parte cimeira da Avenida da República, na continuação do morro da"Ponta Negra" ou morro de D. Fernando, onde assenta a Fortaleza. Estas obras decorreram na década de 1930, conforme o “Semanário Mossâmedes”  publicava em 1934, num artigo assinado por Miguel Coelho. As areias foram levadas em vagonetas deslizando sobre carris de ferro, para um local próximo da Estação do CFM, onde surgiu o Estádio Municipal. Até aí a prática do futebol decorria no terreno em frente da Estação do Caminho de Ferro de Moçâmedes.
 
 


As obras na Avenida: Terraplanagem do morro. Aqui iria  nascer o topo da Avenida da República e as ameias da Fortaleza

 
A arborização da Avenida nos anos 1930, após os trabalhos da terraplanagem do morro... Como se pode ver ainda não havia nem edificio da Capitania do Porto, nem o Cine Moçâmedes, estes iriam ser erguidos na década seguinte. Também não havia nem os actuais CTT, nem o edificio do Grámio da Pesca, nem  a vivenda de Raúl Radich Jr., este já concluidos no início dos anos 1950.

Outra perspectiva. As árvores foram crescendo...

 

Perspectiva da Fortaleza, após a conclusão das obras, em foto tirada  da Rua dos Pescadores


Página de Caderno publicado anos mais tarde, versando sobre o assunto.


Nesses  anos 1930, a Câmara resolveu transladar para a Avenida de Moçâmedes o OBELISCO que havia sido erguido em 1869, por subscrição pública levada a cabo pela Câmara Municipal de Moçâmedes,  à memória do Marquês de Sá da Bandeira, o paladino da abolição do tráfico de escravos, por decreto de 12 de Dezembro de 1836, portanto, sem perda de tempo, dois anos após a queda do absolutismo e o triunfo do liberalismo em Portugal. O ano de 1869 seria o ano da abolição definitiva do tráfico, que entretanto passara a fazer-se à mesma, mas na clandestinidade (2).  Esta Praça ocupava todo um quarteirão  onde nessa mesma década foi erguida a Escola Portugal, hoje Escola Pioneiro Zeca. Mais tarde o Obelisco foi de novo transladado para uma Praceta onde hoje se encontra , perto do Bairro da Facada. .


Aqui vê-se melhor o enquadramento do OBELISCO na Avenida. Mais tarde, nos anos 40 foi  levado para uma praça perto do Bairro da Facada, onde ainda hoje se encontra, e no lugar do Obelisco nasceu o Quiosque do Faustino.  Podemos ver ainda a par do OBELISCO um pequeno QUIOSQUE em ferro que existia então, onde os homens da terra podiam adquirir tabaco, revistas, jornais e até beber um café ou uma aguardente, confraternizar com amigos, e ao mesmo tempo ouvir as notícias da BBC sobre a guerra de 1914-18, quando raras eram as famílias que possuíam um  rádio em casa, desses a bateria que no pós guerra se generalizaram.  A não esquecer que  em 1918 para defender as colónias de Africa, Portugal entrou na guerra enviando para França um contingente militar impreparado, que incluia africanos, e que foi massacrado nas trincheiras pelo exército alemão, em La Lys, derrota « que levou  à divulgação do «mito» de La Lys, que atravessou três regimes políticos (I República, Ditadura Militar e Estado Novo), em que a imprensa teve um papel crucial, em particular nos anos que medeiam entre o final da guerra e o início da década de 40 do século XX.


O Coreto que nos anos 150 ainda era o polo de onde irradiavam as festas qu se faziam na cidade e que inclluiam concertos de bandas musicais comm a Sebastião Del Canno,
 
Segue um conjunto de fotos que permitem fazer uma ideia de como a Avenida de Moçâmedes se foi transformado  no decurso do tempo... Estas são ainda dos anos 1930.


                                                                             Anos 1930
                                                                                Anos 1930
Anos 1930- Aqui podemos ver, à esq. o terreno em frente da Estação do CFM onde ficava o primitivo campo de futebol, bem como o terreno mais à esq. ainda onde nasceu, fruto dos aterros, o Estádio Municipal que permaneceu activo até quase ao final da colonização quando o novo Estádio foi erguido  lá para os lados da "furnas de S. António"  a caminho do deserto, aproveitando uma depressão do terrno existente.

 Anos 1930. à dt do edificio da Alfândega,  o "Jardim da Colónia", onde nos anos 1940 foi  erguido o Cine Moçâmedes. À esq. o OBELISCO, e um pouco mais ao centro, já próximo da Alfândega o Quiosque de ferro.
 
 

 
Colecção do Centenário: 04 Agosto de 1949. Aqui já havia o Edificio da Capitania do Porto. e o Cine Moçâmedes, ambos exemplares genuinos do impressionante estilo arquitectónico Arte Déco, que veio lançar as bases da arquitectura moderna, opondo-se ao Art Noveau e ao Clássico. Edificios que valorizam sobremaneira esta cidade e que seriam de preservar a todo o custo.




Seguem outros postais da colecção do Centenário, em 1949

Mas as obras prosseguiram em finais dos anos 1940, inícios dos anos 1950... O troço sul da Avenida de Moçâmedes que sobe na direcção do Palácio-residência do Governador foi alvo de novos melhoramentos. O topo da Avenida veio a beneficiar de um um imponente edifício, o Palácio da Justiça. E surgiu também a bela vivenda de Raúl Radich Jr.. E ao fundo, lá para os lados dos CFM, s edifício dos CTT, um exemplar em estilo Estado Novo. Por essa altura Salazar aceita as teses do Lusotropicalismo, de Gilberto Freire que antes refutava, e que elogiava o carácter do povo português, a sua capacidade de se miscigenar com os povos dos trópicos...A politica do Estado Novo para as colónias estava a ser condenada pela ONU, OUA, etc Começava a era das independências...  Seguem mais algumas fotos.

 

 
A vivenda de Raúl Radich Júnior e outro edíficio de pertença daquele moçamedense, pessoa de valor reconhecido, que integrou as "forças vivas da cidade", despachante oficial, que algumas vezes teve que se confrontar com críticas ao poder central, instalado no Terreiro do Paço. Ocupou vários cargos de destaque.
O imponente Palácio da Justiça (Tribunal). Foi um dos edifícios que nasceram do plano quinquenal que havia sido adiado por força da 2ª Grande Guerra (1939-45). Um tempo em que as fábricas europeias estiveram ao serviço do material bélico e as importações de toda uma série de materiais de construção, e não só,  da Metrópole e do estrangeiro ficaram suspensas. Isso atrasou o avanço da cidade .

Idem
        A Avenida já com os novos candeeiros, muito bem escolhidos, de linhas simpes e que se adaptavam a ela perfeitamente... Aqui ainda não tinham plantado as palmeiras...



E surgiram o Espelho de água e as gazelas...

Outra perspectiva..
E outra...
MariaNJardim



 
Estas fotos contem várias legendas da autoria da autora .  Respeite por favor o nosso trabalho. Não plagie os nossos textos. Pode retirar daqui o quanto entender necessário para a sua própria pesquisa, mas não se esqueça de referenciar a proveniência do blogue e do seu autor, conferindo os respectivos e legais créditos. Bem como a referência a outros autores aqui citados.

Plágio é a apropriação indevida de um produto intelectual (texto, obra artística, imagem, etc.) de uma pessoa sem lhe atribuir o devido crédito.