Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Pioneiros da colonização de Porto Alexandre (actual Tombwa), distrito de Moçâmedes, Namibe: Francisco de Sousa Ganho, Francisco de Sousa Ganho Junior, António Fernandes Peixe e José Carne Viva



Francisco de Sousa Ganho (pai)

(Reprodução de uma fotografia amavelmente cedida pelo neto do fotografado, Dr. Tolentino de Sousa Ganho (in Boletim Geral do Ultramar . XXVII - Nº 322 - Vol. XXVII, 1952, pg.40) .




Francisco de Sousa Ganho era natural de Olhão,  e nasceu no ano de 1830.  tendo falecido em Moçâmedes (a actual cidade do Namibe), em 13/7/1895. Era filho de Francisco de Sousa Ganho e de Teresa de Jesus Ganho, e foi componente do primeiro grupo de colonos algarvios que, em 1859 partiu para Moçâmedes, a bordo da barca «D. Ana».



   
Francisco de Sousa Ganho Júnior  (filho)



Seu filho Francisco de Sousa Ganho Júnior (que fez a viagem na barca D. Ana com o seu pai e tios, com 9 anos de idade), era natural da freguesia de Stª. Isabel, Lisboa, nasceu a 11/11/1850, e faleceu nesta cidade a 13 de Junho de 1895. 
Ambos os Ganho estavam dispostos a ir para Moçâmedes na sua canoa de pesca, mas conseguiram entrar na barca D. Ana, que fazia parte da Empresa "Lusitana",  comandada por José Guerreiro de Mendonça e pilotada por José Guerreiro Nuno, ambos naturais de Olhão, integrando esse primeiro grupo  de colonos algarvios, do qual fizeram parte:
Francisco Sousa Ganho (pai)
Maria Catarina Peixe (esposa)
Francisco de Sousa Ganho (filho) de 9 anos de idade 
António de Jesus Ganho (irmão do primeiro)
António Fernandes Peixe
Lourenço Fernandes Peixe
e José Carne Viva, cujo verdadeiro nome era José Martins

Levaram consigo a primeira canoa de pesca do alto que ali apareceu. 

Foram eles, pois que abriram caminho à corrente migratória de Olhão para Moçâmedes nos idos anos de 1860, (vêr post "OS OLHANENSES A SUL DE BENGUELA"), conforme nos conta o Dr. Alberto Iria. 

Os Ganho estiveram na Baía das Salinas,  na ponta sul do rio Bentiaba, onde se dedicaram à pesca à linha e à extração de óleo de fígado cação. Rumaram depois para P. Alexandre (a actual cidade de Tômbua) e Baía dos Tigres, sendo dos primeiros a fixarem-se nessas praias, onde montaram a sua primeira pescaria. 
O Júnior teve a sua primeira pescaria na Baía dos Tigres. Possuíam o caíque "Restaurador" que fazia o comércio de cabotagem na costa até S. Tomé, Gabão e Congo Francês. Estiveram no Mocuio, Baía das Pipas, e Baba, onde possuiam uma "armação à valenciana", (a terceira que foi instalada no distrito)  destinada à pesca da sardinha.

Francisco de Sousa Ganho foi também o primeiro olhanense a construir uma casa em Moçâmedes. 




In "Os caíques do Algarve no Sul de Angola" de Alberto Iria, conta-se o seguinte episódio muito curioso de  Sousa Ganho, e  retrata igualmente a luta pela sobrevivência daqueles homens, com um grande realismo, quando escreve:


"Em 3 de Fevereiro de 1871 o olhanense Francisco de Sousa Ganho indemnizou Maria da Cruz Rolão por ter lançado ao mar as madeiras para construção duma casa e mais utensílios de pesca que Maria da Cruz Rolão desembarcava na Praia do Sal ao norte da Vila de Moçâmedes".

 E a seguir "declarou perante testemunhas que promete sob palavra de honra viver bem com os seus visinhos residentes na Praia do Sal ou em qualquer parte deste distrito".(Maria da Cruz Rolão foi mais tarde heroína de Porto Alexandre e regedora). Pensa-se que sucederam alguns descontentamentos na fixação das populações em certas praias. Há ainda um registo de 1921 em que foi concedido passaporte de Mossâmedes para Lisboa a Tolentino de Sousa Ganho, médico, casado com uma brasileira do Rio de Janeiro D. Adelina Salvatério Santos e a 2 filhas, Maria e Suzana, respectivamente de 7 anos e 14 meses. Tolentino era filho do Júnior. 

"Começaram por viver quase como os indígenas, em toscas cabanas de pau a pique com varas de mangue e cobertas de capim. Foi nessas primitivas cubatas onde a princípio viveram, numa incómoda promiscuidade de homens, mulheres e crianças."  

"A alimentação destes primeiros colonos era deficiente e cem por cento de peixe, temperado quase sempre pelo óleo de palma, e comendo o pão de mandioca do serviçal negro." "Por isso é que mais tarde, quando de Moçâmedes caciques começaram a levar para o Sul, diziam eles com certo orgulho e justificada vaidade aos que para lá foram estabelecer-se depois: Ai!... Vocês já vieram no tempo do pão fresco!"

Maria da Cruz Rolão é a histórica Regedora de Porto Alexandre que se evidenciou pela coragem e mereceu ser refereciada pelos políticos da época. Segundo o autor reataram a amizade que sempre uniu as gentes de Olhão. Tornaram-se elementos integrantes da população de Porto Alexandre, possivelmente vizinhos porque a população era escassa. 
Foram os primeiros brancos que se estabeleceram naquelas paragens para se dedicaram, eles próprios à pesca substituido os indígenas substituido os indígenas que trabalhavam nas 16 pseudo-pescarias dos luso-brasileiros vindos de Pernambuco, Brasil, em 1849, para darem início à colonização de Moçâmedes.

E assim se deu inicio a uma verdadeira revolução na actividade piscatória nos mares ao sul de Benguela. Foi o sucesso desta experiência que permitiu que fossem criadas as condições para que se estabelecesse a forte corrente migratória de algarvios  que não apenas veio revigorar a colónia, como consolidar a industria pesqueira em todo o distrito. E assim  começou a verdadeira colonização do sul de Angola. 
  
É a experiência deste punhado de pioneiros que, a expensas suas, tudo fizeram: aquisição de barcos ou pagamento de passagens para a viagem; casas, utensílios para a pesca! E, sem delegação de quem quer que fosse, constituíram-se garantes da soberania de Portugal nas áreas mais inóspitas do Pinda à Baía dos Tigres.


No "Livro de Registos de Passaportes de 1921" encontra o Dr. Iria a seguinte descrição:

 «Foi concedido passaporte de Moçâmedes para Lisboa a Tolentino de Sousa Ganho, médico, casado com D. Adelina Salvatério Santos, natural do Rio de Janeiro, Brasil, e a duas filhas Maria e Suzana, respectivamente de 7 anos e 14 meses». Recentemente o senhor Pedro Ganho corrige esta informação num comentário no post "OLHÃO-TERRA DE PESCADORES/NAVEGADORES, A MAIOR DIÁSPORA COLONIZADORA A SUL DE BENGUELA :«Permitem-me duas correcções: Tolentino de Sousa Ganho tinha uma filha Suzana e um filho Mário, meu avô. A minha avó era Adelina Salvatori Santos. Mário Ganho casou em Coimbra com D. Gracinda, tem hoje 96 anos, 23 netos e 6 bisnetos. Cumprimentos de Coimbra, Pedro Ganho "




António Fernandes Peixe foi outro dos componentes da barca D. Ana, na companhia de Lourenço Fernandes  Peixe e fixou-se em Porto Alexandre





Outras informações:
De Anuário de Portugal do ano de 1909, cito:


- JOSÉ MARTINS GAGO - Armação de Pesca na Bahia dos Tigres em 1909
- JOÃO MARTINS NUNES - Delegado da Repartição de Fazenda de Bahia dos Tigres e Porto Alexandre em 1909
- FRANCISCO JOSÉ de SOUSA PEIXE - Juiz Popular de Porto Alexandre em 1909
- FRANCISCO de SOUSA GANHO - Armação de Pesca em Mossamedes,1909


Porto Alexandre A sede de Concelho deste nome abrange a costa maritima desde o Cabo Negro até á Foz do rio Cunene ao N. de cabo Frio. - Foi elevada á categoria de Concelho em 1895.Era uma delegação do Concelho de Mossamedes,creada em 1894.


Foi em 1860 que se estabeleceram os primeiros Europeus na Bahia de Porto Alexandre. - A sua população actualmente é de 1786 habitantes,sendo 371 Europeus,na sua maioria oriundos do Algarve.

A emigração dos olhanenses começou muito antes da elevação da povoação de OLHÃO à categoria de Vila (1808), mas apenas para Lisboa, Oeiras, Barreiro, Aldeia Galega e Caparica, onde se foram fixando, aos poucos, e onde a maioria exercia a actividade marítima. Ao aproximar-se a 2ª metade do século XIX, a actividade dos maritimos olhanenses estendeu-se ao Mediterrâneo Oriental, através de relações comerciais que levam os maritimos a navegar até ao Mar Negro e Odessa (Russia) onde compram cereais, e a outras terras distantes como Oram, Nemours, Philippoville, Sardenha... É a época em que tem início as chamadas "Carreira de Gibraltar" e "Carreira de Marrocos", e a emigração olhanense deriva para o Norte de África, onde se dedica, à arte da pesca, ao comércio, ou actuando como uma espécie de agentes contrabandistas da terra natal. Em meados do século XIX a emigração dos filhos de Olhão intensifica-se rapidamente rumo às colónias portuguesas, especialmente no Distrito de Moçâmedes, em Angola, e tem início a fixação algarvia da região, de onde outros vão mandando para as familias, na terra natal, parte do produto do seu duro e porfiado trabalho, muito poucos regressam definitivamente ao fim de uns anos, levando consigo pecúlios mais ou menos avultados, contribuindo para a prosperidade de Olhão, mas onde a maioria se fixa para sempre realizando uma notável obra de colonização.

Para acabar, vai um poema alusivo ao assunto:

  


Veio trazido nos braços das miragens
de oiro sobre azul,
de oiro qu sol punha nas paisagens
do desertos do Sul...

Troxe- um sonho lindo que ficou
nas botas de suor com que regou
a terra esbraseada.

Arrastou-o a trágica ilusão
que um dia lhe pôs em cada mão
a foice e a enxada.

Veio e ficou...

Foi cavaleiro andante nas anharas
irmãs gémeas das searas
da terra que o gerou.

Pôs em cada semente que lançou
uma oração
e em cada sulco que abriu no chão
foi semeando a esmo
farrapos d'alma, pedaços de si mesmo
como quem se coloca a sí mesmo num caixão

E mesmo assim ficou...

Comeu o pão que o diabo amassou
com lágrimas e fel
e febre, e gritos
contra o calor cruel,
o sol e a sede
e a fome que passou
pelos atalhos malditos
das florestas virgens
e as vertigens
que Leste lhe soprou
na face envelhecida.

E mesmo assim, ficou...

E um dia a terra esquiva abriu-lhe os braços
e do seio ruim,
num milagre de amor,
a virgem possuída
brotou em caule, rebentou em flor
e concebeu em milheirais sem fim.

Ele ficou então p'ra toda a vida...

(Helder Duarte de Almeida - filho de Moçâmedes


1 comentário:

  1. José Carne Viva é um familiar que sei pouco dele.
    Ficava feliz se alguém tivesse alguma informação para me dar.

    Gilberto Carvalho
    susana.vieira007@gmail.com

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