MULHERES EMBIOCADAS NAS RUAS DE MOÇÂMEDES...
Interessante foto, tirada entre finais do século XIX, inícios do século XX numa rua de Moçâmedes, em Angola.
Trata-se de três senhoras vestidas com o tradicional "bioco", como era na época tradição em Olhão (Algarve), uma peça de vestuário em forma de capa
destinada a cobrir inteiramente o corpo da mulher que a usava, sendo a cabeça
ocultada pelo próprio cabeção, ou por um rebuço feito por qualquer
xaile, lenço ou mantilha. As mulheres embiocadas, dizia-se, pareciam
"ursos com cabeça de elefante".
Como sabemos, a Moçâmedes a partir de 1861, começaram a chegar em caíques, palhabotes e outros barcos à vela, navegando por sua
conta e risco, grupos de famílias algarvias que ali
se fixaram, ou em praias desérticas próxima, como Porto Alexandre, Baía dos Tigres,
Baía das Pipas, Catára, etc, entregando-se à faina da pesca. Olhão
teria sido naturalmente a terra da proveniência destas três senhoras
(anónimas), que levaram para os confins de África este
costume algarvio que sugere e influência árabe na Península Ibérica. Alias, no Algarve, acredita-se que o "biôco" ficou a dever-se à
influência dos mouros e ao legado de cinco séculos de ocupação árabe,
que se encontra presente incluso na arquitectura, para além de usos e costumes como
este. Autores defendem a origem árabe do "biôco", e que a utilização desta indumentária abrangia a quase totalidade do território nacional,
essencialmente o Alto Algarve, o Alentejo e Ilha Terceira, nos Açores, onde adquiria outras designações. Não eram precisamente iguais, no entanto, apesar da distância
geográfica,
existem muitas semelhanças.
Em 1822, Raul Brandão escreveu a propósito desta indumentária, no seu livro "Os Pescadores":
" Ainda há pouco tempo todas as mulheres de Olhão usavam cloques e
biôco ou biuco. O capote, muito amplo e atirado com elegância sobre a
cabeça, tornava-as impenetráveis. É um trajo misterioso e atraente .
Quando saem, de negro envoltas nos biocos, parecem fantasmas. Passam,
olham-nos e não as vemos. Mas o lume do olhar, mais vivo no rebuço, tem
outro realce... Desaparecem e deixam-nos cismáticos. Ao longe, no lajedo
da rua ouve-se ainda o cloque-cloque do calçado - e já o fantasma se
esvaiu, deixando-nos uma impressão de mistério e sonho. é uma mulher
esplêndida que vai para uma aventura de amor? De quem são aqueles olhos
que ferem lume?... Fitou-nos, sumiu-se, e ainda - perdida para sempre a
figura -, ainda o som chama por nós baixinho, muito ao longe-cloque..."
O bioco era
uma peça de vestuário feminino, que era usado em 1649, no
reinado de D. João IV, segundo alguns autores. Como data oficial da sua
extinção, sabe-se que em 1892 e por ordem do então Governador Civil do
Algarve, foi proibido nas ruas e templos,
embora continuasse a ser usado em Olhão até ao início do séc. XX. Hoje,
apenas alguns ranchos folclóricos do concelho, como o Rancho
Etnográfico de Quelfes, exibem o BIOCO em festas e romarias.
Mulheres embiocadas em Olhão
"Isto é surpreendente e obriga-nos a compreender a mentalidade daquele
tempo", acrescentou o Governador, recordando que enquanto o bioco era usado as
mulheres tinham liberdade para sair a qualquer hora sem companhia e
quando foi proibido passaram a ter de sair sempre acompanhadas
No Alto Alentejo este tipo de indumentária
era conhecida por "côca", e teria começado por ser um traje de noiva na segunda metade do século XIX, tendo a dimensão e
colocação do véu a ver com três posições distintas, consoante a classe a
que pertencia a nubente. A "côca" como traje de noiva acabou por
rapidamente cair em desuso, e passou a ser moda apenas no seio das
mulheres aristocratas ou da alta burguesia quando
assistiam a actos religiosos, obras de caridade, ou nas visitas a amigas, entre finais do século XIX e princípios do XX. Elas usavam
essa espécie de "biôcos" cobertos no cimo por uma renda larga que caía
sobre as
costas, agregados a uma capa curta. À frente era armado em papelão, ou
tarlatana, para se
manter aberto. Em alguns casos a renda era colocada caindo do alto da
cabeça sobre as costas, em outros era posta em sentido contrário, isto
é, cobrindo o rosto. Completava o trajo uma saia de merino. José Leite
de Vasconcellos observa que este seria o "trajo clássico de se ir à
festa do Sacramento, que durava de quinta-feira do Corpo de Deus até à
segunda-feira seguinte". O investigador apresenta uma testemunha ocular
que, entre os anos de 1862 e 1866 terá visto as mulheres assim
embiocadas, e explica que este processo só era possível mediante a
utilização de "um papelão curvo que encobria a cabeça, como as mantilhas
de Mondim, coberto de preto e com pano nas costas".
Em 1920, a revista Ilustração
Portugueza publicou uma reportagem intitulada “Algarve: Jardim da
Europa”, onde o autor, por entre relatos idílicos de uma vida campestre
hoje estranha àquela região, fala do biôco como uma realidade a
desaparecer, mas ainda presente. ...A camponesa algarvia (…) não conhece
o garridismo das cores hilariantes, e na cabeça, sobre o lenço escuro,
estendido em ponta, põe a tampa androgina de um chapeu de homem. E em
alguns pontos, como em Olhão, usa ainda o seu trajo antigo, a capa e o
biôco que lhe imprimem agourentas aparências de esfinge”, lê-se.

Nos Açores a mulher usava como agasalho, uma espécie de capa idêntica
ao "bioco" algarvio. Era um capote preto com capelo armado, diferindo o
seu feitio de ilha para ilha. Leite de Vasconcelos visitou o
arquipélago em 1924 e pôde ver como elas na Ilha Terceira e no Faial
usavam mantos e capotes, um costume que chegou até meados do século XX
nos meios citadino. O manto era uma saia comprida e rodada de cor preta,
o capote era uma espécie de capa ampla, mais farta lateralmente que nas
costas. Quando utilizavam o manto, o capelo era armado com cartão e
atado pela cintura, e a mulher segurava-o com as mãos de modo a encobrir
o rosto. Com o capote, o capelo era utilizado sobre os ombros. Neste
caso traduzia-se num amplo capuz suportado por um arco de osso de
baleia, sendo a sua rigidez conferida pelo forro de cânhamo. Dos três
trajes apenas o dos Açores é ainda hoje identificado pelo
público em geral, já que se tornou num símbolo dessa região e é
amplamente divulgado pelos ranchos folclóricos. Quanto aos restantes,
correm o risco de cair no esquecimento já não são mostrados pelos grupos
das suas regiões de origem.

Estamos perante um tipo de indumentária feminina que, para além da sua
função de abafo,
promove um certo
apagamento da mulher na esfera pública, e aponta mesmo para a total
exclusão do elemento feminino da sociedade, uma vez
que completamente coberta, dificilmente se descobre a sua identidade.
Com o
"biôco" ela não
sendo identificável, podia movimentar-se livremente ocultada dos olhos
castradores da moralidade alheia.
Não
serão o "bioco" algarvio, a "côca" alentejana, e o "capelo" da Ilha
Terceira (Açores), algo parecido com a tão criticada "burca" que ainda
hoje é imposta às mulheres no mundo muçulmano fundamentalista,
destinando-se a sua utilização a impedir o seu contacto com os
transeuntes que com ela se cruzassem na rua, ocultando a sua
identidade? É que o nosso patriarcado , o patriarcado português
prolongou-se no tempo, e manifestava "fumos" se fundamentalismo ainda na 1ª metade do séc xx, tendo perdido importância com o movimento feminista e a independencia das mulheres conseguida oela educação e o ingresso no mundo do trabalho.
Seria ainda essa a função do "Bioco" neste tempo em Moçâmedes? A verdade é que usos e costumes são difíceis de mudar e por vezes a lei tem que actuar. antecipando-se. Não foi apenas na Idade Média
europeia que o facto da mulher enfeitar-se, maquilhar-se, exibir-se, era
visto como subversão das regras sociais. Tudo pesou ao nível das mentalidades. Houve um tempo em que as mulheres eram olhadas ou como ou virgens ou pecadoras. E já no sec xix, com a ascensão da burguesia e a industrialização , em países avançados como a Inglaterra reinou uma onda de puritanismo que reduziu o papel da mulher no como jamais havia sido antes, à esfera do privado e ao papel tradicional de dona de casa,
esposa e mãe. Ao mesmo tempo que a industrialização na Europa arrancava a mulher do povo e as suas crianças para a fábrica e para o mundo trabalho assalariado nas cidades poluidas, os campos, em crise, esvasiavam-se de gentes, e a vida endurecia.
É
claro a foto das mulheres embiocadas nas ruas de Moçâmedes
retratam já uma outra época, de finais do séc xix, inícios do século XX. Em Portugal o processo de laicização da sociedade
estava em marcha sob o impeto do liberalismo e dos ideais iluministas de liberdade, fraternidade, e com a subida ao poder do republicanismo, em 1910, veio promover a separação de poderes Igreja e Estado, algumas modificações na velha ordem persistente, e um rude golpe em alguns aspectos da subjugação secular a que a mulher estivera sujeita. Mas tudo muito lentamente, porque as mentalidades custam a mudar..,
Durante muito tempo as restrições de liberdade cairam sobre o ser feminino, essencialmente nos países católicos, aqueles que
mais restringiram o papel o papel da mulher na sociedade.
Oficialmente a extinção do uso desta peça de vestuário feminina ocorreu
em 1892, por ordem de Júlio Lourenço Pinto, então Governador Civil do
Algarve.
"Faço saber que pelo regulamento policial
d’este Governo Civil, de 6 do corrente mes, com execução permanente,
aprovado pelo governo, determino o seguinte:
Artigo
32º – É proibido nas ruas e templos de todas as povoações deste distrito
o uso dos chamados rebuços ou biôcos de que as mulheres se servem
escondendo o rosto.
Artigo 33º – As mulheres que,
nesta cidade, forem encontradas transgredindo o disposto no precedente
artigo serão, pelas vezes primeira e segunda, conduzidas ao comissário
de polícia ou posto policial mais próximo, e nas outras povoações à
presença das respectivas autoridades administrativas ou aonde estas
designarem, a fim de serem reconhecidas; o que nunca terá lugar nas ruas
ou fora dos locais determinados; e pela terceira ou mais vezes serão
detidas e entregues ao poder judicial, por desobediência.
Parágrafo
único – Esta última disposição será sempre aplicável a qualquer
indivíduo do sexo masculino, quando for encontrado em disfarce com
vestes próprias do outro sexo e como este cobrindo o rosto.
Artigo
34º – O estabelecido nos dois precedentes artigos não terá lugar para
com pessoas mascaradas durante a época do Carnaval, que deverá contar-se
de 20 de Janeiro ao Entrudo; subsistirão, porém, as mesmas disposições
durante a referida época, em relação às pessoas que não trouxerem
máscara usando biôco ou rebuço.
Artigo 41º – O
presente regulamento começa a vigorar, conforme o disposto no artigo
403º do código administrativo, três dias depois da sua publicação por
editais – Governo Civil de Faro, 28 de Setembro de 1892. – Júlio
Lourenço Pinto."
O "biôco" foi proibido nas ruas e templos, mas atenção, ele continuou a ser usado
em Olhão até aos anos 30 do século XX, quando foram vistos os últimos
biocos. Dois anos volvidos, o mesmo governador
assinava as palavras que abrem este artigo e parecia lamentar a
regulação. ..."E o biôco, indestructivel como as pyramides do Egypto que
medem a sua existencia pela dos séculos, foi sacrilegamente banido dos
costumes algarvios”, atirando a responsabilidade da proibição
para a “influencia da opinião publica”.
A proibição, contudo, parecia
desnecessária, pois já havia uma regulação que proibia as mulheres de
andarem com a cara tapada. E essa lei tinha sido produzida mais de 200
anos antes, como explica Joaquim José Caetano Pereira e Sousa em 1827 na
obra “Esboço de hum diccionario juridico, theoretico, e practico
remissivo às leis compiladas, e extravagantes”: Pelo Decreto de 11 de
Agosto de 1649, e Alvará de 20 do mesmo mes, e anno se prohibirão os
rebuços das mulheres; e pelo outro Alvará de 6 de Outubro do mesmo anno
se declarou que as mulheres devião andar com a cara descoberta, ou,
havendo de trazer biôco, devião trazer o manto cahido até aos peitos”. A
verdade é que o decreto parece ter sido letra morta.
Na
realidade não
se sabe ao certo quando este tipo de indumentária feminina foi
introduzido em Portugal, apenas que há registos da sua utilização desde
1609, no reinado de
Filipe II, e que há quem defenda que teria entrado em uso em 1649, no
reinado
de D. João IV.
Recorde se
que o Gharb al-Ândalus era a parte mais ocidental do al-Ândalus, que
corresponde a parte do actual território português. Em 711, os
muçulmanas atravessaram o estreito de Gibraltar e deram início à
conquista da Península Ibérica, o al-Ândalus. O Ocidente peninsular de
influência mediterrânica, o Gharb al-Ândalus — corresponde
aproximadamente aos limites da antiga Lusitânia — embora intensamente
islamizado, não assumiu o protagonismo de outras regiões do al-Ândalus,
resistindo sempre aos processos de centralização do califado de Córdova
(Cordoba), ou posteriormente de Sevilha. O Gharb incluía cinco
territórios principais correspondentes ao termo de Coimbra, ao estuário
do Tejo, ao Alto Alentejo, ao Baixo Alentejo e ao Algarve. Estes
territórios estendiam-se ainda para as actuais Estremadura espanhola e
Andaluzia Ocidental. Destacavam-se as cidades de Coimbra, Lisboa,
Santarém, Silves, Mértola, Faro, Mérida e Badajoz. O Gharb começou a
perder terreno aquando da Reconquista, na qual os reis cristãos do norte
da península, nomeadamente D. Afonso Henriques, começaram a conquistar o
território para Sul. O fim do Gharb foi assinalado com a conquista do
Algarve pelo rei D. Afonso III, que quando ocupou o trono, já parte do Algarve tinha caído em poder dos cristãos. E assim durante
mais de cinco séculos esteve sob o domínio dos povos islâmicos, árabes,
berberes e populações nativas convertidas ao islamismo, embora o
cristianismo também tenha permanecido entre a população do Algarve nessa
época (moçárabes –cristãos que viviam sob governo muçulmano. Terminada a
conquista da região o antigo Al-Gharb mourisco incluído
no reino
cristão de Portugal, entra em decadência até ao século XV com a
odisseia da exploração da costa africana e da conquista das praças
marroquinas, sob o comando do Infante D. Henrique. O território do
Algarve, devido às condições favoráveis à navegação, foi uma das
primeiras bases da expansão marítima portuguesa nos séculos XV e XVI, do qual partiram algumas expedições, sendo
o porto de Lagos um dos mais importantes dessa época.
Sabemos
hoje que os etruscos e os gregos vestiam o "himation", ou seja, um
manto, com o qual cobriam a cabeça, e que talvez eles próprios imitassem
um costuma mais antigo. E que o Cristianismo adoptou para a imagem da
Virgem o uso do manto sobre a cabeça, à moda etrusca. Sabemos também
que S. Paulo introduziu o costume de as mulheres sérias cobrirem a
cabeça para que se distinguissem das mulheres descobertas ou meretrizes,
daí que entrar numa Igreja com a cabeça descoberta, fosse até há
bastante pouco tempo, um sinal de desrespeito, insubmissão e falta de
humildade perante Deus. E que por toda a Europa (França, Alemanha,
Dinamarca, Itália, Espanha e Portugal), surgiram diversas peças de
vestuário que cobriam por inteiro a sua utilizadora.
Pesquisa e texto de MariaNJardim
Nota:
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Bibliografia consultada:
Braz Teixeira, Madalena, Trajes Míticos da Cultura Regional Portuguesa, 1994, Museu Nacional do Traje.
Ormonde, Helena, in O Traje do Litoral Português, Museu Etnográfico e Arqueológico Dr. Joaquim Manso, Câmara Municipal da Nazaré
PITA, António, Côca ou Mantilha - Século XIX - Uma Traje de Festa e de Solenidade do Alto Alentejo – Câmara Municipal de Castelo de Vide, Secção de Arqueologia, Maio1999
Ajudou valeu bgd n estava percebendo nada da matéria agr percebi !! '-'
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