Insubordinação na Fortaleza de S. Fernando
Quando em 1849, após a perda da colónia do Brasil, independente em 1822, Portugal finalmente começou a olhar para as colónias de África, essencialmente para a nova "joia da corôa", Angola, território potencialmente rico e promissor, secularmente preterido e transformado num reservatório para tráfico de escravos destinados ao Novo Mundo, Moçâmedes foi a região eleita para as primeiras experiências de povoamento com famílias idas de Pernambuco, Brasil que ali se estabeleceram e que na sua maioria, graças ao clima ameno, ali ficaram para sempre. Até então e ao longo de 3 séculos para Angola, terra de febres para onde se ia por obrigação ou por castigo, onde em pouco tempo europeus perdiam a vida, iam aventureiros em busca de riqueza fácil, traficantes de escravos na maioria idos do Brasil, degredados a cumprir as mais diversas penas, de delitos comuns a assassinatos, e de quando em quando inimigos políticos que se pretendia afastar. Era com degredados que se formavam exércitos onde a indisciplina reinava e as revoltas eram uma constante.
Em 1869 estava aquartelado na Fortaleza de S. Fernando um contingente
de 100 praças pertencentes ao Batalhão de Caçadores 3, na sua quase
totalidade criminosos de delitos graves, que ali cumpriam as suas penas. Na noite de 14 de
Novembro daquele mesmo ano, essas praças amotinaram-se para protestarem,
segundo afirmavam, contra os serviços violentos a que eram obrigados,
contra os castigos rigorosos que sofriam, e contra os descontos
excessivos que eram feitos nos seus prés. Acusavam o capitão Miranda
como responsável de toda aquela situação. Avisado o chefe do
Concelho, Major Joaquim José da Graça do que se estava a passar, este
dirigiu-se à Fortaleza, onde, perante o seu espanto, os soldados já
pegavam em armas. O Major Graça foi alvejado pelos amotinados, com um
tiro de pistola, mas sem consequências. Contudo o oficial em causa
conseguiu dissuadi-los dos seus intentos, e prometeu, recebê-los no
dia seguinte, na secretaria do Concelho, a fim de apresentarem as suas
queixas. Após o diálogo apaziguador, o Major Graça retirou-se,
parecendo tudo estar debelado. Porém os soldados voltaram mais tarde a
sublevar-se e convenceram-se que os habitantes da vila se preparavam
para os dominar pela força. Assim, armados de novo, carregaram as peças,
e apontaram-nas para a vila, prontas a fazer fogo. Afirmavam a sua
intenção de destruir a povoação e incendiar as casas de seguida. Os
moradores apavorados, receando toda a espécie de atrocidades,
abandonaram as suas habitações e procuraram refúgio nas Hortas, que
ficavam a três quilómetros do aglomerado populacional. No meio
de tão dramática situação, e quando parecia estar tudo perdido, a Sra D.
Maria do Carmo Lobo de Ávila, esposa do chefe do Concelho, saiu
resolutamente da sua casa, encaminhou-se ligeira para a Fortaleza, e
confiada, corajosa, varonil, aparece de improviso perante a turba
arrogante e impetuosa dos revoltados. A gentileza senhorial do seu porte
e o excesso prestigio das suas virtudes, contiveram-lhes os rancorosos
impulsos. Tomados do espanto que o imprevisto lhes causara, e
confundidos pela severidade que resumbrava do nublado rosto da dama,
receberam-na com todo o respeito, formando fileiras, e apresentando-lhe
armas. Perante a atitude de acatamento das praças, a Senhora Dona Maria
do Carmo pôde plenamente desempenhar a nobre missão que se impusera: a
de os vencer pelo sentimento. Para o conseguir, mostrou-lhes, dominada
por irreprimível eloquência, a hidiondez do crime que iam cometer, e
dirigiu-lhes, numa inflexão de voz, tocantemente angustiosa, suplicas
ardentes e afervoradas. Comoveram-se. Os revoltosos, em cujos olhos
borbulhavam lágrimas de arrependimento, protestaram, em seguida, inteira
obediência. O Chefe do Concelho, que durante a alocução estivera sempre
junto da sua esposa, ordenou-lhes então, como lhe cumpria, que
descarregassem as peças e as espingardas e recolhessem a pólvora.
Tinham-se entregado. A vila estava salva. O espírito de rancor, de
violência e de rebeldia que desorientara as praças, que por pouco as
não levou à destruição da mesma vila, fora inteiramente subjugado pela
palavra enternecedora duma dama fraca e delicada.
MariaNJardim.
(1)Torres obra cit 2 vol pp. 201 a 206
Separata n.8 da Revista Africana Universidade Portucalense, Porto, 1991.Cecilio Moreira : "Fortalezas, Fortes, Fortins e Fazendas de Moçâmedes
no Sul de Angola". Subsidios para a História de Portugal em Angola. Ver aqui: Portugal século XIX http://comum.rcaap.pt/bitstream/123456789/3551/1/NeD03PedroCardoso.pdf

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