
Por volta de finais do século XIX. inícios do século XX, na região de Moçâmedes, para atravessar a região árida do Deserto do Namibe, e não só, o
camelo, ou melhor o dromedário, era o meio de transporte mais solicitado, o preferido, mesmo em substituição dos
carregadores, (1) por levar mais carga, por ser de menor preço, e por estar
disponível, sem sujeitar o comércio e a agricultura a
contingências da vontade e relações humanas, de que resultavam prejuízos
e despesas. E sobretudo porque estes animais comem pouco,
bebem pouco,` andam bem. 3 a 4
camelos transportam a carga de um Wagon com economia de tempo e
dinheiro. Adquiridos
nas Canárias, eles aclimatavam-se facilmente à região de Moçâmedes, reproduzindo uma variedade da
raça primitiva do norte
de Africa, que conseguia atravessar o Deserto do Namibe sob um sol escaldante, galgava terrenos arenosos e montanhosos, subia a Chela até
à Chibia, transportava uma carga de até 450 kg com resultados satisfatório, enquanto um
carregador em
viagem demorada não levava mais de 30 k. Eles tornaram-se imprescindíveis quando das campanhas do Sul de Angola , desde finais do séc XIX.
Conforme «Anais do Muncípio de Moçâmedes», o camelo oriundo das Canárias foi introduzido no Distrito por Joaquim de Paiva Ferreira, componente da 1ª colónia vinda do Brasil em 1849.
Com a Fortaleza de S. Fernando ao fundo, à dt, numa época em que já existiam alguns postes de luz nas ruas, alimentados a óleo de peixe, e que se pressupõe no início do século XX, este postal mostra-nos dois dromedários daqueles aqui referidos, que foram uma mais valia em tempos de campanhas militares e desembarques de munições no porto de Moçâmedes, rumo à fronteira sul.

Esta foto de 1915, no Lubango, mostra-nos a descarga dos camelos que transportaram o material militar e viveres desde o seu desembarque em Moçâmedes, para as forças do Batalhão Expedicionário de Marinha que avançam sobre o Sul de Angola. (Foto de Alberto de Castro)
In Exploração geográfica e mineralógica no Districto de Mossâmedes em 1894-1895, de J. Pereira do Nascimento In: Portugal em África. - Vol. 5, nº 55 (1898), podemos ler:
"..
"...Os camelos são de fácil tratamento, sobretudo se vierem das ilhas Canárias acompanhados por pessoas habilitadas a tratal-os; comem pouco, bebem pouco` andam bem, transportam cada um meia tonelada de carga e o seu apparelho, chamado cangalha, é de facil manejo e construcção; 3 a 4 camelos transportam a carga de um Wagon com economia de tempo e dinheiro. O preço de um camelo (dromedario) originario das Canarias regula por 455000 a 60$OO0 réis. Tal foi o preço por' que elles vieram para o agricultor que os introduziu em Mossâmedes. Accresce ainda que este animal é um excellente meio de transporte para passageiros, podendo conduzir até 4 pessoas em sellas especiaes, de que existem modelos em Mossâmedes. Melhor seria que em vez dos dromedarios (de uma só bossa) se adoptassem os verdadeiros camelos de duas bossas que podem transportar quasi uma tonelada, escolhendo-se para passageiros os pequenos, chamados vnelzaris, que foram adoptados pelo exercito francez para o transporte de tropas no Sudan. Com estes ligeiros animaes fazem-se viagens longas, rápidas e económicas com vantagem sobre os cavallos, bois-cavallos e tipoias.
"...O ensaio feito em Mossâmedes com os camelos oriundos das Canárias tem dado bom resultado; os animaes acclimaram-se reproduzindo uma raça robusta, em que não encontrei o menor vestígio de degeneração. Tem-se dito que o camelo não serve para os terrenos pedregosos e planálticos abundantes de vegetação, águas e dotados de clima frio` por ser originário dos países arenosos, baixos, aridos e quentes e por não ter os cascos apropriados ao terreno duro. Estas considerações serão verdadeiras para os camelos originários do Sahara, mas não o são com certeza para os das Canárias, variedade da raça primitiva do norte d”Africa, longamente modificada pelo clima temperado do archipelago e habituada a trilhar terrenos montanhosos. Posto que em Mossâmedes os empreguem habitualmente em viagens na zona baixa, as experiencias no planalto, feitas por mim e pelo negociante da Chibia, o sr. Antonio d'Almeida, deram resultado satisfactorio. "
Com excepção do distrito de
Moçâmedes, onde o estabelecimento da colónia boer veio facilitar as
transacções comerciais com o transporte das mercadorias nos seus wagons,
a elevados preços, se exceptuarmos a linha férrea de Luanda a
Cazengo, e a carreira fluvial do Quanza, de Luanda ao Dondo, feita com
dois pequenos vapores, em quase toda a província de Angola o comércio e a
agricultura estavam sob a dependência das caravanas de "carregadores" e
sujeitos as mais variadas contingências, como a versatilidade e
deligências dos indígenas, o capricho dos sobas, a rivalidade das casas
comerciais monopolizadoras do negócio, as guerras gentílicas dos
conflitos entre autoridades e os potentados que fechavam os caminhos,
proibiam o negócio nas suas terras, assaltavam, aprisionam, saqueavam as
comitivas estranhas e desviavam as correntes comerciaes, etc.
MarianJardimt
Coberto pelas Leis Copyright, sendo plágio a cópia sem menção do seu autor.
(1)
"Carregadores" eram povos exclusivamente dedicados ao transporte de mercadorias, de entre os quais se evidenciavam os bangalas nos sertões de Luanda, os bienos e os bailundos nos sertões de Benguela e os mondombes, em Moçâmedes. Eles monopolizaram os transportes pelas vias comerciais que cruzavam os seus países, em detrimento de quaisquer outras comitivas, impunham-se como únicos intermediários entre os centros comerciais da costa e os centros produtores indígenas; é o que, por imprevidência nossa, está sucedendo em maior escala na Lunda, onde os bangalas, ciosos das suas prerrogativas de intermediários do comercio e senhores dos portos do Kuango, não permitem a passagem para oeste aos undas e kiokos, nem para leste aos comerciantes. Esse meio de transporte humano foi crucial nas colónias de África e não só, naqueles tempos de carências totais, em que a falta de transportes e de vias de comunicação entravavam o desenvolvimento das regiões.
Outro transporte utilizado no início foi o boi-cavalo, a maxila, a tipoia, o riquexó,
Outro transporte utilizado no início foi o boi-cavalo, a maxila, a tipoia, o riquexó,



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