Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 14 de dezembro de 2024

O OBELISCO "AO DEFENSOR DA LIBERDADE 1869 . ATAQUE AO ALTO DA BANDEIRA (1) EM 8 DE SETEMBRO DE 1832. AO PROTECTOR DAS COLÓNIAS O GENERAL SÁ DA BANDEIRA "

 

A Primitiva "Praça Sá da Bandeira" , em Moçâmedes


 
 
 O OBELISCO "AO DEFENSOR DA LIBERDADE 1869 . ATAQUE AO ALTO DA BANDEIRA (1)  EM 8 DE SETEMBRO DE 1832. AO PROTECTOR DAS COLÓNIAS O GENERAL SÁ DA BANDEIRA " 
 
A "Praça Sá da Bandeira" era no início uma enorme Praça que ocupava todo um quarteirão, onde na década de 1930 foi erguida a Escola Portugal. Embora nos faltem elementos quanto ao mês e ao dia em que se deu em Moçâmedes a cerimónia da inauguração desta Praça e do seu famoso OBELISCO, mandado erguer pela edilidade no epicentro da mesma, à época rodeada de um aparatoso gradeamento, estamos em crêr que teria sido no dia 23 de Fevereiro de 1869, data em que foi decretada a extinção definitiva da escravatura em Portugal e em todos os seus domínios, uma vez que a mesma já existia à data do relatório do governador Graça de 13 de Julho de 1869 que a referência. (1)
  
Num artigo publicado por Manuel Júlio de Mendonça Torres, no Boletim Geral do Ultramar XXX - 348 e 349, de Junho-Julho de 1954, págs. 125 a 129, na parte dedicada aos edifícios e obras municipais existentes neste ciclo, sob a designação "Conspecto imobiliário do Distrito de Moçâmedes no ciclo de 1850 a 1879", podemos ler o seguinte:
 
"Segundo o relatório do governador Graça, de 13 de Julho de 1869, a "Praça de Sá da Bandeira" media 14.000 metros quadrados. Parece-nos exagerada tal área. Presume-se que esta primitiva praça tivesse sido limitada pelo gradeamento colocado tempo depois, ficando, por este motivo, situados fora dela os edifícios construidos em cada um dos seus ângulos.
 
Consta no Relatório do governador Costa Cabral, de 19 de Junho de 1877, que num dos ângulos da Praça Sá da Bandeira se erguia um pequeno prédio, já concluido, "servindo de Casa da Câmara". Supomos que a casa a que se refere Costa Cabral é aquela em que hoje está instalada a Administração do Concelho. Só muito mais tarde é que a Câmara Municipal fora definitivamente instalada no edifício em que funciona hoje os serviços dos Paços do Concelho. Devia ter ficado pronto e a funcionar, segundo o  governador Graça,  em 13 de Julho de 1869, no dia 1 de Janeiro de 1870. Outro ângulo da "Praça Sá da Bandeira"  estava ocupado pela casa, já em paredes e telhado, destinada a "Casa do Tribunal".
 
 

 O Obelisco na Avenida


 
 
O Obelisco na Avenida- Anos 30
 
 
Na década de 1930 efectuou-se a retirada dos gradeamentos que rodeavam a referida Praça, onde foi erguida a Escola Portugal, e o OBELISCO foi transferido para a então denominada Avenida da República, a grande Avenida paralela ao mar, e sala de visita da cidade, em lugar próximo do edifício da Alfândega. Tinha por companheiro um primitivo Quiosque em ferro, desses que entretanto caíram em desuso, e que por toda a parte foram retirados, mas que hoje em dia estão regressando em força às ruas de cidades como Lisboa e não só.  
  



 Fernanda Costa Santos (Corado) junto do Obelisco, enquanto ainda se encontrava na Avenida
 
 
 
Compõe-se de uma coluna quadrangular de pedra adelgaçada na extremidade, assente sobre um pedestal, também de pedra, em cujas faces, até 1975 se podiam ler as inscrições seguintes: AO DEFENSOR DA LIBERDADE 1869 . ATAQUE AO ALTO DA BANDEIRA EM 8 DE SETEMBRO DE 1832.1 AO PROTECTOR DAS COLÓNIAS O GENERAL SÁ DA BANDEIRA "(1)
 
Mas o OBELISCO também não iria ficar ali muito tempo, e em finais da década de 1940, com  ditadura  Salazarista já bem enraizado no poder em Portugal, por determinação da Câmara Municipal de Moçâmedes este foi mais uma vez deslocado, agora da Avenida para o centro da Praça próxima do Bairro da Facada, onde ainda hoje se encontra. Na Avenida já sem o pequeno quiosque de ferro e sem o Obelisco foi então erguido o novo e definitivo quiosque, o "Quiosque do Faustino". A deslocação para esse local foi efectuada com os máximos cuidados, sobre vagonetas que deslizavam sobre carris (linhas férreas), que para o efeito se estenderam, temporariamente, pelas ruas da cidade, para fazer a ligação entre os dois locais.  
 
 

 
O monumento ainda hoje lá se encontra,  em local mais longe das vistas, já sem as inscrições visíveis.  Teria sido vandalizado no pós 1975. Naturalmente por ignorância completa dos valores que representava.
 
Sá da Bandeira foi uma personalidade incontornável do século XIX português, num momento complexo que caracterizou o país, entre as guerras napoleónicas e as convulsões que levaram ao triunfo do liberalismo e da monarquia parlamentar, e ao fim da velha ordem absolutista, luta em que esteve empenhado, num tempo em que o destino de Portugal se jogava na Europa, mas também em África. 
 
Quanto à questão africana, Sá da Bandeira defendia que, para uma acção colonial bem-sucedida, era urgente a extinção do tráfico de escravos e a reforma da adminístração ultramarina, tarefa em que empenhou a sua vida, e que o levou a salientar, já perto do seu fim, que se empenhou para que «muitos milhares de súbditos da corôa de Portugal obtivessem o gozo das garantias que a carta constitucional da Monarquia Portuguesa lhes concedera». No cerne do seu pensamento, estava a abolição da escravatura e da condição servil nas colónias portuguesas, a firme convicção de que a mão-de-obra livre era mais eficiente que o trabalho escravo. Esta foi uma das frentes de luta que o celebrizaram e que muito exigiram dos seus dotes políticos e diplomáticos. 
 
Portugal estava então dividido entre as pressões inglesas para acabar com a escravatura, e os interesses económicos centrados numa burguesia saída da miscigenação entre brancos e negros com sede em Luanda e Benguela, sustentados pela mão-de-obra africana, cujo fornecimento a partir de sobados do inferior, era igualmente para sobas, régulos , etc, fonte de enriquecimento, incluso de prestígio.
 
Mas Sá da Bandeira também se preocupou com a educação procurando impulsionar a alfabetização de uma população pobre, inculta, destroçada por guerras e por vagas de pobreza cíclicas, em consequência de uma fraca organização estrutural, e de práticas ancestrais resultantes da passividade das classes dirigentes.
 
A construção de OBELISCOS vem sendo uma tradição cultural da própria humanidade que remonta a milhares de anos, desde os sumérios, hebreus, egípcios, etc., e tem estado associada às mais diversas situações, seja de carácter religioso, místico, histórico, etc. Eles apresentam uma forma geométrica, quadrangular, mais afunilada no seu pico, formando uma pirâmide, e têm sido utilizados nestes milhares como símbolos de superioridade, defesa e protecção, ou para lembrar os indivíduos sobre um grande evento ou acontecimento. O Obelisco mais antigo entre os egípcios remonta há cerca de 4 mil anos, foi erguido em honra de Rá, deus sol, e representava protecção.Os obeliscos tinham de ser bastante altos para poderem destruir as coisas ruins que se manifestavam em forma de tempestades. Há vários obeliscos em todo o mundo. O maior deles é o Obelisco de Washington, com cerca de 170 metros de altura, foi construído em homenagem ao primeiro presidente dos Estados Unidos (George Washington). 
 
Fica aqui esta pequena história para os interessados na História do OBELISCO de Moçâmedes, na História de Moçâmedes e na História de Angola.
 
MariaNJardim / Maria Nídia Jardim
 
 
 
 
 
(1)  O Alto da Bandeira, em Vila Nova de Gaia, foi um local estratégico durante o Cerco do Porto (1832-1833), episódio de importância basilar das Guerras Liberais que tiveram seu desfecho em 1834 com triunfo do Liberalismo.
 
Durante o Cerco do Porto, a 8 de Setembro de 1832, os miguelistas procuraram com um duro ataque apoderar-se do reduto da Serra do Pilar, na margem do sul do Douro. Bernardo de Sá Nogueira de à frente das tropas que defenderam energicamente as posições de Vila Nova de Gaia, Sá Nogueira foi ferido com uma bala no braço direito no Alto da Bandeira, mas continuou a resistência durante o resto do dia, até que o braço, entretanto, gangrenara, e acabou por lhe ser amputado.  Pela heroicidade demonstrada, ganharia foi a 4 de Abril de 1833, agraciado com o título de 1.º Barão de Sá da Bandeira, logo de seguida, a 1 de Dezembro de 1834, 1.º Visconde de Sá da Bandeira e, mais tarde, a 3 de Fevereiro de 1864, 1.º Marquês de Sá da Bandeira, em lembrança do fatídico Alto da Bandeira.

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