Aqui procurarei depositar retalhos de Estórias e da História de Mossâmedes (Moçâmedes, actual Namibe), uns, resgatados às páginas de antigos livros e documentos retirados das prateleiras de alfarrabistas, ou rebuscados no interior de bibliotecas, reais e virtuais... e ainda outros, fundados em testemunhos de vivos e experiências vividas. Porque é nas estórias e na História, naquilo que de melhor ou pior aconteceu, que devemos, todos, portugueses e angolanos, europeus e africanos, buscar ensinamentos, para que, não repetindo os erros do passado, sejamos capazes de nos relançar e progredir no futuro, enquanto pessoas e cidadãos. Citando o Padre Ruela Pombo (*): "Os mortos guiam os vivos!... É verdade: sem freio nem chicote...O passado impõe-se ao presente, e garante o futuro.O homem egoísta é inimigo do verdadeiro Progresso e prejudicial à Sociedade. É esta a minha ...ilusão!"



(*) in
“Paulo Dias de Novais e a Fundação de Luanda – 350 anos depois...”, 2 de Dezembro de 1926 – Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal












sábado, 14 de dezembro de 2024

O OBELISCO "AO DEFENSOR DA LIBERDADE 1869 . ATAQUE AO ALTO DA BANDEIRA (1) EM 8 DE SETEMBRO DE 1832. AO PROTECTOR DAS COLÓNIAS O GENERAL SÁ DA BANDEIRA "

 

A Primitiva "Praça Sá da Bandeira" , em Moçâmedes


 
 
 O OBELISCO "AO DEFENSOR DA LIBERDADE 1869 . ATAQUE AO ALTO DA BANDEIRA (1)  EM 8 DE SETEMBRO DE 1832. AO PROTECTOR DAS COLÓNIAS O GENERAL SÁ DA BANDEIRA " 
 
A "Praça Sá da Bandeira" era no início uma enorme Praça que ocupava todo um quarteirão, onde na década de 1930 foi erguida a Escola Portugal. Embora nos faltem elementos quanto ao mês e ao dia em que se deu em Moçâmedes a cerimónia da inauguração desta Praça e do seu famoso OBELISCO, mandado erguer pela edilidade no epicentro da mesma, à época rodeada de um aparatoso gradeamento, estamos em crêr que teria sido no dia 23 de Fevereiro de 1869, data em que foi decretada a extinção definitiva da escravatura em Portugal e em todos os seus domínios, uma vez que a mesma já existia à data do relatório do governador Graça de 13 de Julho de 1869 que a referência. (1)
  
Num artigo publicado por Manuel Júlio de Mendonça Torres, no Boletim Geral do Ultramar XXX - 348 e 349, de Junho-Julho de 1954, págs. 125 a 129, na parte dedicada aos edifícios e obras municipais existentes neste ciclo, sob a designação "Conspecto imobiliário do Distrito de Moçâmedes no ciclo de 1850 a 1879", podemos ler o seguinte:
 
"Segundo o relatório do governador Graça, de 13 de Julho de 1869, a "Praça de Sá da Bandeira" media 14.000 metros quadrados. Parece-nos exagerada tal área. Presume-se que esta primitiva praça tivesse sido limitada pelo gradeamento colocado tempo depois, ficando, por este motivo, situados fora dela os edifícios construidos em cada um dos seus ângulos.
 
Consta no Relatório do governador Costa Cabral, de 19 de Junho de 1877, que num dos ângulos da Praça Sá da Bandeira se erguia um pequeno prédio, já concluido, "servindo de Casa da Câmara". Supomos que a casa a que se refere Costa Cabral é aquela em que hoje está instalada a Administração do Concelho. Só muito mais tarde é que a Câmara Municipal fora definitivamente instalada no edifício em que funciona hoje os serviços dos Paços do Concelho. Devia ter ficado pronto e a funcionar, segundo o  governador Graça,  em 13 de Julho de 1869, no dia 1 de Janeiro de 1870. Outro ângulo da "Praça Sá da Bandeira"  estava ocupado pela casa, já em paredes e telhado, destinada a "Casa do Tribunal".
 
 

 O Obelisco na Avenida


 
 
O Obelisco na Avenida- Anos 30
 
 
Na década de 1930 efectuou-se a retirada dos gradeamentos que rodeavam a referida Praça, onde foi erguida a Escola Portugal, e o OBELISCO foi transferido para a então denominada Avenida da República, a grande Avenida paralela ao mar, e sala de visita da cidade, em lugar próximo do edifício da Alfândega. Tinha por companheiro um primitivo Quiosque em ferro, desses que entretanto caíram em desuso, e que por toda a parte foram retirados, mas que hoje em dia estão regressando em força às ruas de cidades como Lisboa e não só.  
  



 Fernanda Costa Santos (Corado) junto do Obelisco, enquanto ainda se encontrava na Avenida
 
 
 
Compõe-se de uma coluna quadrangular de pedra adelgaçada na extremidade, assente sobre um pedestal, também de pedra, em cujas faces, até 1975 se podiam ler as inscrições seguintes: AO DEFENSOR DA LIBERDADE 1869 . ATAQUE AO ALTO DA BANDEIRA EM 8 DE SETEMBRO DE 1832.1 AO PROTECTOR DAS COLÓNIAS O GENERAL SÁ DA BANDEIRA "(1)
 
Mas o OBELISCO também não iria ficar ali muito tempo, e em finais da década de 1940, com  ditadura  Salazarista já bem enraizado no poder em Portugal, por determinação da Câmara Municipal de Moçâmedes este foi mais uma vez deslocado, agora da Avenida para o centro da Praça próxima do Bairro da Facada, onde ainda hoje se encontra. Na Avenida já sem o pequeno quiosque de ferro e sem o Obelisco foi então erguido o novo e definitivo quiosque, o "Quiosque do Faustino". A deslocação para esse local foi efectuada com os máximos cuidados, sobre vagonetas que deslizavam sobre carris (linhas férreas), que para o efeito se estenderam, temporariamente, pelas ruas da cidade, para fazer a ligação entre os dois locais.  
 
 

 
O monumento ainda hoje lá se encontra,  em local mais longe das vistas, já sem as inscrições visíveis.  Teria sido vandalizado no pós 1975. Naturalmente por ignorância completa dos valores que representava.
 
Sá da Bandeira foi uma personalidade incontornável do século XIX português, num momento complexo que caracterizou o país, entre as guerras napoleónicas e as convulsões que levaram ao triunfo do liberalismo e da monarquia parlamentar, e ao fim da velha ordem absolutista, luta em que esteve empenhado, num tempo em que o destino de Portugal se jogava na Europa, mas também em África. 
 
Quanto à questão africana, Sá da Bandeira defendia que, para uma acção colonial bem-sucedida, era urgente a extinção do tráfico de escravos e a reforma da adminístração ultramarina, tarefa em que empenhou a sua vida, e que o levou a salientar, já perto do seu fim, que se empenhou para que «muitos milhares de súbditos da corôa de Portugal obtivessem o gozo das garantias que a carta constitucional da Monarquia Portuguesa lhes concedera». No cerne do seu pensamento, estava a abolição da escravatura e da condição servil nas colónias portuguesas, a firme convicção de que a mão-de-obra livre era mais eficiente que o trabalho escravo. Esta foi uma das frentes de luta que o celebrizaram e que muito exigiram dos seus dotes políticos e diplomáticos. 
 
Portugal estava então dividido entre as pressões inglesas para acabar com a escravatura, e os interesses económicos centrados numa burguesia saída da miscigenação entre brancos e negros com sede em Luanda e Benguela, sustentados pela mão-de-obra africana, cujo fornecimento a partir de sobados do inferior, era igualmente para sobas, régulos , etc, fonte de enriquecimento, incluso de prestígio.
 
Mas Sá da Bandeira também se preocupou com a educação procurando impulsionar a alfabetização de uma população pobre, inculta, destroçada por guerras e por vagas de pobreza cíclicas, em consequência de uma fraca organização estrutural, e de práticas ancestrais resultantes da passividade das classes dirigentes.
 
A construção de OBELISCOS vem sendo uma tradição cultural da própria humanidade que remonta a milhares de anos, desde os sumérios, hebreus, egípcios, etc., e tem estado associada às mais diversas situações, seja de carácter religioso, místico, histórico, etc. Eles apresentam uma forma geométrica, quadrangular, mais afunilada no seu pico, formando uma pirâmide, e têm sido utilizados nestes milhares como símbolos de superioridade, defesa e protecção, ou para lembrar os indivíduos sobre um grande evento ou acontecimento. O Obelisco mais antigo entre os egípcios remonta há cerca de 4 mil anos, foi erguido em honra de Rá, deus sol, e representava protecção.Os obeliscos tinham de ser bastante altos para poderem destruir as coisas ruins que se manifestavam em forma de tempestades. Há vários obeliscos em todo o mundo. O maior deles é o Obelisco de Washington, com cerca de 170 metros de altura, foi construído em homenagem ao primeiro presidente dos Estados Unidos (George Washington). 
 
Fica aqui esta pequena história para os interessados na História do OBELISCO de Moçâmedes, na História de Moçâmedes e na História de Angola.
 
MariaNJardim / Maria Nídia Jardim
 
 
 
 
 
(1)  O Alto da Bandeira, em Vila Nova de Gaia, foi um local estratégico durante o Cerco do Porto (1832-1833), episódio de importância basilar das Guerras Liberais que tiveram seu desfecho em 1834 com triunfo do Liberalismo.
 
Durante o Cerco do Porto, a 8 de Setembro de 1832, os miguelistas procuraram com um duro ataque apoderar-se do reduto da Serra do Pilar, na margem do sul do Douro. Bernardo de Sá Nogueira de à frente das tropas que defenderam energicamente as posições de Vila Nova de Gaia, Sá Nogueira foi ferido com uma bala no braço direito no Alto da Bandeira, mas continuou a resistência durante o resto do dia, até que o braço, entretanto, gangrenara, e acabou por lhe ser amputado.  Pela heroicidade demonstrada, ganharia foi a 4 de Abril de 1833, agraciado com o título de 1.º Barão de Sá da Bandeira, logo de seguida, a 1 de Dezembro de 1834, 1.º Visconde de Sá da Bandeira e, mais tarde, a 3 de Fevereiro de 1864, 1.º Marquês de Sá da Bandeira, em lembrança do fatídico Alto da Bandeira.

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segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Visita do Presidente da Republica, Francisco Higino Craveiro Lopes a Moçâmedes: 24 de Julho de 1954

Foto 1: Multidão que do topo da falésia da Torre do Tombo, junto da ponta do Pau do Sul (Ponta do Noronha), observa a chegada do Presidente Craveiro Lopes a Moçâmedes e bandeiras portuguesas desfraldadas ao vento. Fotos do álbum pessoal de Sousa Almeida.
 
 
A visita a Moçâmedes do Presidente da República, Francisco Higino Craveiro Lopes 
 
Com esta visita e a presença do Presidente da República Portuguesa, Francisco Higino Craveiro Lopes, em 24 de Julho de 1954 foi dado início às obras do cais do porto de Moçâmedes.  
 


Foto 2: Multidão dirigindo-se para o local da inauguração. Na baía, uma profusão de barcos de pesca e não só, entre os quais podemos ver traineiras, rapas, baleeeiras de sacadas, batelões, chatas, canôas, palhabotes, etc. etc.Fotos do álbum pessoal de Sousa Almeida.


Foto 3: Multidão junto do palanque montado à beira mar,  por ocasião da cerimónia da inauguração das obras do porto de cais e da avenida marginal. Ao fundo na baía podemos ver, em fila,  a profusão de traineiras que alí se encontravam a saudar o visitante.  Fotos do álbum pessoal de Sousa Almeida.
 

Foto 4: O Presidente da República é efusivamente aclamado pela população que em massa veio para a rua, e que  rodeia e  acompanha o automóvel presidencial  que, terminada a cerimónia do lançamento da 1ª pedra para a construção do cais acistável, dirige-se para a baixa da cidade onde iriam decorrer outras cerimónias públicas. Fotos do álbum pessoal de Sousa Almeida.

Finda a cerimónia, o regresso a casa. Trata-se de uma das ruas da Torre do Tombo que dá acesso à Praia Amélia,  Com colchas á janela podemos ver a casa de que era proprietário João Duarte, e ao fundo e a meio, a casa e a padaria de Assunção Esteves. Mais ao fundo o casario da Torre do Tombo. Ampliando a foto podemos ver, um pouco mais á dt., o velho chafariz que ali ainda se encontrava  existia, e onde a gente do bairro se fornecia de água desde há alguns anos atrás. Fotos do álbum pessoal de Sousa Almeida.

O Presidente da República e comitiva, passam entre alas constituidas por estudantes fardados da Mocidade Portuguesa, desportistas de todas as modalidades e povo em geral, muitos deles empunhando cartazes e bandeiras. Entre os desportistas, destacam-se em primeiro plano algumas basquetebolistas do Atlético Clube de Moçâmedes e do Ginásio Clube da Torre do Tombo vestidas com a indumentária dos clubes, entre as quais reconheço, da esq. para a dt.: Leonilde Sousa (Nide) do Atlético, um pouco atrás, Helena Santos (Ginásio), ?, Esmeralda Freiras (Atlético) o treinador José Inácio dos Santos segurando a bandeira azul e branca e com o dragão reprentativo do Ginásio Clube da Torre do Tombo), Helena Gomes (Ginásio), Pieter Van-der-Keller (atleta do Benfica, segurando a bandeira), Celísia Calão (Ginásio), América Pisoeiro (Ginásio). Seguem-se alguns estudantes fardados da Mocidade Portuguesa, e um pouco mais atrás e mais à dt. em relação ao centro, parece-me ver Aníbal Nunes de Almeida e Julia de Almeida, e á dt. Zéquinha Esteves. Na metade esq. da foto e um pouco atrás parecem-me Roberto Martins (Latinhas), Pinto relojoeiro e Rita Seixal. Repare-se nos muitos cartazes ostentados por elementos da população (brancos, pretos e mestiços) onde se pode lêr: «Viva o Governador Geral», «Viva o Ministro do Ultramar», «Viva Portugal», «Nativos católicos de Moçâmedes saudam-vos». Fotos do álbum pessoal de Sousa Almeida.

No largo em frente ao edifício dos Caminhos de Ferro de Moçâmdedes, os alunos das Escolas de Moçâmedes filiados da Mocidade Portuguesa fazem a guarda de honra à passagem do Presidente da República Craveiro Lopes e comitiva. Destacam-se Nito Abreu e João António Guedes. Ao fundo, o edifício dos Correios.Fotos do álbum pessoal de Sousa Almeida.

O Presidente Craveiro Lopes e comitiva assistem ao desfile em sua honra no cimo de um estrado montado para o efeito. À dt. representantes das forças vivas da cidade, entre os quais Raul Radich Júnior, Rui Torres e Mário Moreira de Almeida (médico). Segurando cestos com pétalas de rosas para atirar á passagem do PR, Dina Ascenso, Teresa Van-der-Keller e Carolina Mangericão. Fotos do álbum pessoal de Sousa Almeida.

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O mesmo desfile, agora com militares brancos de capacetes e cipaios africanos. Foto do álbum pessoal de Sousa Almeida.
  Desfile da Marinha no mesmo largo em frente ao edifício dos Caminhos de Ferro. À esq., parte do edifício dos Correios.
Fotos do álbum pessoal de Sousa Almeida.


 
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Nenhuma descrição de foto disponível.


A visita teve início às 10,30 da manhã, quando descendo a Chela numa grazine, o Presidente Craveiro Lopes e Comitiva fizeram a sua entrada no distrito de Moçâmedes, parando em Vila Arriaga (Bibala), onde foi inaugurada a nova linha dos Caminhos de Ferro, num primeiro troço de 90 quilómetros de linha alargada, facto que se traduziu num melhoramento de grandes vantagens para as actividades económicas do sul de Angola, com o aumento da tonelagem e consequentemente do escoamento de produtos, uma vez que as novas locomotivas «Garrat's» passaram a rebocar comboios de 800 a 1000 toneladas, enquanto as primitivas de início construidas para fins militares (1905), rebocavam apenas composições da ordem das 120 toneladas, não respondia já ao escoamento de mercadorias, e sequer possuía condições mínimas para o transporte de passageiros,~
 
 
À chegada à Estação de Moçâmedes inúmero povo esperava o Presidente, tendo a locomotiva no momento em que entrou na estação dos Caminhos apitado várias vezes, enquanto eram lançados 30 morteiros, e clarins começaram a executar a marcha da continência, sendo a guarda de honra constituida por um batalhão da Marinha desembarcado dos três navios de guerra da escolta persidencial, sob o comando do capitão-tenente Machado de Sousa ancorados na baía; por um pelotão de caçadores comandado pelo tenente José Relvas, comandante do destacamento Militar de Moçâmedes, e por uma bandeira da Mocidade Portuguesa comandada por Trindade Abreu, e ainda por um contingente de Bombeiros Voluntários da cidade. Na tribuna erguida para a recepção do Chefe do Estado estavam as principais autoridades da terra: os presidente da Câmara Municipal Dr. Mário Moreira de Almeida, os vereadores Raul Radich Júnior, Rui Torres, Virgílio Carvalho Gomes da Silva , acompanhados do Secretario Municipal Artur Trindade que entregou ao Presidente da República as chaves da cidade. Formou-se um cortejo que atravessou as ruas da cidade rumo ao Salão Nobre dos Paços do Concelho,  onde se realizou a sessão solene de boas vinda, na qual o Chefe do Estado deu a direita aos Ministro do Ultramar, Governador da Huila e Engº Raimundo Serrão, e a esquerda ao Governador Geral Comodoro Sousa Uva e ao Engº Melo Vieira. Tomou então a palavra o presidente da edilidade que, fazendo referência á falésia Torre do Tombo e às inscrições ali encontradas em 1785, que o tempo e a mão do homem têm delindo, atestam a passagem pela Angra do Negro no decorrer de décadas e de séculos, de outras tantas embarcações portuguesas. E refere "é certo que a muitas delas as trazia aqui o nefando tráfico, no que eram imitados por outras tantas nações mas também a muitas guiava desígnio nobre e levantado". 1 Efectuados os habituais discursos o Presidente da Republica inaugurou solenemente esta 1ª fase queimando com fogo da fornalha da locomotiva a simbólica fita, tendo em seguida tomado a palavra, Nuno Pedrosa, Presidente da Associação Comercial, Agrícola e Industrial da Huila, e o Engº Melo Vieira vice-presidente da Comissão Administrativa do Fundo de Fomemto de Angola. Prosseguindo viagem para Moçâmedes, o Presidente e Comitiva fizeram ainda uma segunda paragem para uma visita ao Posto Experimental do Caraculo.
 
 
 Na tribuna armada para a recepção do Chefe do Estado estavam as principais autoridades da terra: os presidente da Câmara Municipal Dr. Mário Moreira de Almeida, os vereadores Raúl Radich Junior, Rui Torres, Virgilio Carvalho Gomes da Silva , acompanhados do Secretario Municipal Artur Trindade que entregou ao Presidente da República as chaves da cidade. Formou-se depois um cortejo que atravessou as ruas da cidade rumo ao Salão Nobre da Câmara onde se realizou a sessão solene de boas vinda, na qual o Chefe do Estado deu a direita aos Ministro do Ultramar, Governador da Huila e Engº Raimundo Serrão, e a esquerda ao Governador Geral Comodoro Sousa Uva e ao Engº Melo Vieira. Tomou então a palavra o presidente da edilidade que, fazendo referência à falésia Torre do Tombo e às inscrições ali encontradas em 1785, que o tempo e a mão do homem têm , atesta  delindo  a passagem pela Angra do Negro no decorrer de décadas e de séculos, de outras tantas embarcações portuguesas. E refere "é certo que a muitas delas as trazia aqui o nefando tráfico, no que eram imitados por outras tantas nações mas também a muitas guiava desígnio nobre e levantado". 1


Havia os que aderiam voluntariamente a estas recepções e eram muitos os brancos, negros e mestiços que a elas acorriam por mera curiosidade, mas via de regra eram recepções organizadas, uma vez que podiam sempre contar com determinados sectores da população, tais como militares, alunos filiados na Mocidade Portuguesa, alunos das diversas escolas, desportistas dos vários clubes, funcionários das mais diferentes repartições públicas, etc... E para dar o aspecto de uma maior adesão dos mais diversos sectores da população era comum as autoridades da terra solicitarem aos donos das pescarias a dispensa do pessoal contratado, bem como a disponibilização de camionetas que os transportassem ao local onde decorriam as mesmas, sendo-lhes para o efeito distribuídas pequenas bandeiras portuguesas que serviam para acenar, em gesto de boas vindas ou de despedida, imprimindo ao acto um ambiente solene de exaltação e júbilo.

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro . A petição de 13 de Julho de 1848

 

Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro 
 
DOCUMENTAÇÃO ANEXA
 
DOCUMENTAÇÃO N. 1 (*)
 
A petição de 13 de Julho de 1848
 
Illmo e Exmo. Snr.
 
As divisões políticas da nossa Pátria me obrigaram a sahir d´ella, e a vir em terra estranha procurar a subsistência por meio do trabalho. Não me posso absolutamente queixar da sorte por ter vindo para Pernambuco,  onde resido há nove annos  e tenho vivido, sinão bem, ao menos soffrivelmente: mas já há tempos desejava sahir em razão de se observar que se promovia guerra acintosa aos portugueses, oferecendo-os como cavallos de batalha,  os partidos, em que se achava dividida esta Província,  para chegarem a seus fins. Bem via eu o perigo que corriam todos os Portugueses,  os quais pela maior parte faziam chamar sobre si as vistas ambiciosas d'aquelles, que nada possuem, porque não empregam o trabalho e a industria,  fontes seguras da riqueza:  mas os horrorosos acontecimentos do dia 26 e 27  do mês passado me fizeram tomar a resolução de sahir sem demora d'uma terra, em que na presença das auctoridades e da tropa se arrombam a machados as portas das habitações, se arrancam homes inermes e sem crimes do seio de suas familias, e se assassinam  a pancadas chuçadas, golpes, facadas, e baionetadas, arrastando seus cadáveres ensanguentados pelas ruas, robando-se-lhes os seus haveres, sem que se dê uma outra razão, sino o de terem o crime de merecerem em Portugal, que por despreso denominaram marinheiros. Os gritos que  retumbaram no meio das turbas, que pelas nove horas da manhã do dia 26 começaram a inundar um dos bairros d'esta cidade eram de -mata marinheiros-- não escape um só-.  A perseguição se predispunha pelas folhas; planos infernais se urdiam em nocturnos clubs,  contra os Portugueses, e si não  acontecesse uma rixa entre um estudante do lyceo  e um caixeiro Português, o qual depois de levar uma bengalada atirou aquelle com um peso de 4 libras, não abortaria a perseguição, que se foi medonha, e mais que tudo demonstrou quam bem dispostos estavam os ânimos contra nós, seria ainda mais temível, si aparecesse com a canalha regularmente armada: devo porém dizer, em apoio da verdade que, com poucas excepções,  o grande número de turbulentos e perpetradores dos horrendos crimes era gentalha e escravatura. 
 
Tinha pois resolvido sahir com brevidade, mas deteve-me a consideração de que podia fazer um serviço aos meus Patrícios e à minha Pátria, procurando um meio de fazer sahir d'aqui um grande número de Portugueses para as nossas possessões da Azia ou da Africa. D'accordo pois com o Consul, o Snr. Joaquim Baptista Moreira, que não fez mais em favor dos seus, porque desgraçadamente as nossas divisões, nos ter reduzido alem de pequenos a zero:  a não termos o menor respeito.  e andarmos pelo mundo como judeus que sofrem toda  a qualidade de injúrias, sem ninguém tomar d´ella satisfação, lembrei-me de fazer publicar, que se  representava ao governo Português a nossa situação e que se pediam providências entre as quais o enviar transportes para serem conduzidos a um ponto das nossas possessões da Africa ou da Azia como colonos, aquelles que ahi quizessem ir estabelecer-se.  Todos ao principio repelliam esta ideia oppondo a insalubridade do clima, argumentando com o facto de que já deste Império havia sahido para África no tempo da Administração do Exmo.º Sá da Bandeira, um grande número a convite dos Consules por ordem do Governo, e que todos tinham sido vítimas de moléstias, que alli grassam.
Com geito se há rebatido a tal opposição, e hoje vejo os animos inclinados, tendo muitos dado já o seu nome como promptos a seguir para qualquer ponto que o governo determine, uma vez que envie com urgència transporte, e empregue medidas de interesse e comodidade que chamem e atraião os colonizadores: e julgo de grande utilidade aproveitar a occasiam,  pois que sendo estes bem sucedidos , para o que deveram tomar medidas, não só iram outros d´aqui  e de todo o  imperio e com fundos, mas se mudara a  mania de so virem os Portugueses procurar fortuna no Brasil.

Dar-se-ha direcção a essa grande emigração annual  para as nossas possessões e virám ellas  em poucoss annos a tornar-se proveitosas a metropole e a entreter um commercio nacional que tornara  a elevar a nossa decahida marinha. 

O  Snr Consul remettera por copia a relaação dos residentes da cidade, a quem particularmente se communicou  a medida que hia adoptar-se por quanto se julgou politico não dar porosa publicidade pellas folhas.

Eu que livre de orgulho affirmo poder seguir para onde me conviesse, sacrifiquei-me  a esperar e a ir compartilhar os trabalhos e os revezes que acompanham o estabelecimento de uma colónia, só porque vejo que comigo acarreto algum número, mormente os mais uteis que sam os que entendem de fabrico de assucares, e plantações das canas, e mesmo do tabaco e café, pois que vivo em relação com muitos engenhos, tenho nelles arranjado varios e me hei dedicado a conhecer como fundamento o modo mais profiquo de fazer o assucar,  e de agricultar a cana com vantagem, segundo a naturesa do terreno, e a tirar da matéria prima toda a possível utilidade, mormente em as destilações, que bem dirigidas sam de summo interesse.

Nas considerações que a esta acompanham, não só explicco a razão porque digo que os que entendem dos trabalhos agriculas sam os mais uteis, mas exponho alguns alvitres que me occurreram. V. Ex.ª me desculpara na certeza de que não faço,  porque não  esteja persuadido do seu  profundo saber; mas porque muitas vezes uma lembrança de um homem mediocre, faz produzir medidas accertadas.

Approveito esta occasião para offerecer a V. Exª. o meu diminuto prestimo.
Deos Guarde a V. Ex.ª  por muitos annos --

Recife d Pernambuco, 13 de Julho de 1848.


IIlmo e Exmo.º Snr. Ministro e Secretario  d´Estado dos Negocios da Marinha e Ultramar da Nação Portugueza.

À margem:  N.º   582 --A
                              848    /5
                                              8.º s

(Primeira suplica que veio dos Portuguezes em Pernambuco).
(A lápis está a seguinte anotação): Approvado este plano no seu ponto essencial em Concelho de Ministros no dia 30 d´Ábril de 1848 redigir-se-ha uma série de Instruções que serão commetidas conjuntamente ao Consul, e ao proponente no sentido que abaixo vai notado.

Convem principiar por lhes declarar que se ordenou ao Governador Geral deAngola ( e eu direi  verbalmente os motivios desta preferência que é condicional) que pozesse à disposição da Colonia com as formalidades da Lei, um ou mais tractos de terreno bem situado e salubre, e a mais própias a produzir os generos a cuja cultura vai acostumado segundo esta exposição.

N.B. -- Seguem as notas no papel das considerações.


CONSIDERAÇÔES
 
Portugueses mais habilitados pela sciencia do que eu, teem de ha muito chamado contra desleixo e indifferença,  com que a nossa Administração hãm olhado para as nossas possessões. Temos na Azia e na Africa uma superficie de quatro centas e settenta e tres mil milhas, d'onde podiamos tirar innumeras vantages, e que só nos acarretam despesas e fornecem provas da nossa incúria e ignorância.
 
Ninguem ha ahi que não saiba que a falta de braços inteligentes é a causa primária de nenhuma utilidade que nos resulta das nossas possessões; ora si o mal fôra irremediável, poderia haver desculpa, mas não: centenas de mancebos sahem todos os anos da nossa Mãe Pátria e vem procurar fortuna no Brasil, e supposto  que pella maior parte mal educados, não deixam de indicar a sua boa raça, porque se mostram superiores aos nacionaes em todos os ramos em que se dedicam; portanto, si logo depois da independência do Brasil  se houvera dado destino a esta imigração para as nossas colónias, estariam ellas hoje ao par, sinão excedessem em adiantamento a este imperio; e não se teriam repetido as scenas immoraes e aviltantes dos filhos baterem nos paes:  e porque isto sinão haja feito, nunca se deverá fazer?

Approveitar da ocasião opportuna é próprio do homem atilado: ora eu não acho, para daqui arrastar muita gente para as nossas possessóes, outra mais própria que a actual, em quanto está recente a lembrança dos horrores succedidos nos dias 26 e 27 do passado, que desconfio se repitam com brevedade e com peores resultados:  consideração que me deveria obrigar a sahir  sem demora, mas que deferirei, mesmo com risco de vida, até saber se o Governo Portuguez desenvolve actividade em se servir da crise para povoar as colonias;  o que coadjuvarei com o meu fraco mas dedicado contingente; e para o que também muito concorre o espírito  desenvolvido nas assembleias brasileiras, e nas turbas com representações de milhares de assignantes, para que acabem neste imperio as casas a retalho estrangeiras, e que não se permitta que alguns caixeiros, que não seja nacional, como a V, Exª seria patente pelos jornaes d´aqui.

Bem sabe V, Ex`ª que a maior parte dos nossos que vem estabelcer-se no Brasil, sam rapazolas sem educação, e por isso a civilização que apparentam é toda  material; não pensam e por tal motivo não professam sentimentos elevados, se acaso este estado melhorar, logo esquecem as injurias irrogadas, e difficil será arrancal-os d'aqui e por conseguinte jamais acabara a mania de vir para o Brasil procurar fortuna. Julgo pois, que seria de vital interesse  que o governo desenvolvesse a actividade possível, enviando para aqui transportes com as seguintes vantages.

Bons navios de guerra, porque animam e lisongeiam estes homês,  que se movem muito com  as apparencias,  e mesmo porque esta medida sempre faz lembrar que Portugal não está tão desgraçado do que não mande uma esquadra a terra estranha para proteger  e acolher os seus subditos ahi offendidos (1).

Armas, correamas, e munições para desembarcarem os colonos, ou para os receberem, quando se lhes destinam terreno que por foro o arrendamento devem rotear a agricultura, concedendo-se para isso certo numero de negros e cada um em particular, ou em companhia (2).

Certeza que o governo fizera seguir viagem  para o logar que destina para o desembarque dos colonos, navios com provizões de boca para seis mezes, isto é carnes salgadas, farinhas em barrica, vinhos e legumes secos; e bem assim ferramentas, instrumentos, e utensílios agriculas  (3).

Concessão de ualuer levar os effeitos que quizer, os quaes náo pagarám por esta vez direitos nas alfândegas (4). 

Lei que declare isentas de direitos por dez annos nas alfândegas de Portugal, todos os productos agriculas da colonia:  obrigando-as tão bem a so se servir dos objectos importados da mãe pátria, uma vez que ahi os haja,   quer da producção, quer das manufacturas, a fim de por esta forma se animarem as nossas fábricas, e dar extracção aos nossos generos (5). 

Obrigação de ser o seu primeiro trabalho exigir um Templo, pois que é colonia em projecto  acompanhara um sacerdote de exemplar conducta, e é de sumo interesse estabelecel-a o mais moral possível.  Alem deste sacerdote talvez vam outros, bem como muitas pessoas de conhecimentos e préstimos, e artistas de vários officios; sendo de maior utildade dous portuguezes habilissimos pharmaceuticos, António José Pimenta da Conceição e  Joaquim Martinho da Cruzz, acrescendo que o primreiro, homem cazado e de excelente conducta, é muito entendido na sciencia medica, pois que teve o 2º anno da escola médico-cirurgica do Porto:  (ambos levam com sigo uma bem sirtida botica, mormente os remédios mais necessários para as moléstias que alli passam, pello que não lembro medidas a tal respeito  (6). 

Como pois na colónia vam homes emtendidos no fabrico do assucar, plantação e tratamento da cana, no conhecimento dos terrenos, para ella adaptados, e na destilação da aguardente que se tira das fezes do charope. acho eu que seria conveniente que levasse logo todos os arranjos para estabelecer tres engenhos: um cuja máquina de moer a canna tivesse por motor a água, outro animais, outro vapor;  e se montassem por ora os laboratorios, vulgo assentamentos da forma commum, sem  ja recorrer a aparelhos de Derosne para levar o caldo ao ponto de cristalizar, pela razão de que estes sam mais dispendiosos, e ainda não sam conhecidos praticamente por aquelles que estou certo hei de resolver acompanhar-me, por que vejo que a cultura da canna  e o fabrico do assucar é a agricultura que pode dar mais prompta vantagem aos colonos e à metrópole, não querendo com isso dizer que se despeze o café, o tabaco, o algodão, e mil outras plantções que alli produz o terreno tão bem, e melhor do que aqui, porque esta virgem (7).
 
Estes tres aspectos para tres engenhos de assucar, que emportaram aqui em  dezasseis mil cruzados, moeda d'ahi, podem ser entregues a tres colonos que tiveram fundos e prática de engenhos , ou a tres companhias com obrigação de pagarem os seus emportes em tres safras, sendo a primeira em que se deve começar o pagamento a terceira que se tirar no engenho.  O Governo deve affiançar que recomendou as auctoridades para que destinassem para a colónia situação salubre e de bom terreno (8).

 Em quanto as medidas que julgo ham de empregar para o Governo Brasileiro lembro uma que seria proficua, a saber: que o Governo portuguez fissesse saber aquelle pelo nosso Embaixador no Rio que estava decidido a  mandar transportes a todos os portos, como acabava de fazer ao de Pernambuco, caso se verifique, e que roga se marque um prazo para todos os portugueses liquidarem suas fortunas, privinindo-o de que vae tratar com a sua antiga  alliada, a Inglaterra, para lhe dar um pagamento de divida pública portuguesa todos os creditos devidos a seus subditos, aos quaes dara em troca titulos de divida nacional, ou terrenos nas possessóes (9),

Ocorre-me que, tomando por pretexto o massacre de Pernambuco bem poderia o Governo Portuguez prohibir que qualquer subdito seu pudesse embarcar para os portos do Brasil, para ahi estabelecer.se, impondo graves penas aos capitaes dos navos que os recebessem a bordo.

Lembro finalmente que seria vantajosa a colonia sahida de Pernambuco, por que todos os que vam nella é gente ja habituada ao clima quente, e quasi todos levam seus fundos ou em moeda ou em effeitos, e vam muitas pessoas que entendem de serviço de campo.

Ommito outras considerações por não enfadar mais a V. Excia,  e mesmo pela perssuasão em que estou de que nada escapara a sua inteligencia, para que do mal que soffreram os nossos se tirem as possiveis vantagès para melhorarmos.


Recife de Pernambuco, 12 de Julho de 1948 .--- Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Cidadão Portugues.

Notas à nargem feitas pelo Ministério da Marinha e Ultramar, no texto das considerações:

(1) Farão já e ainda iráo outros se o estado do Thesouro o comportar.
(2) Ordenou.se a G. or. G.al. dÁngola p.º do necessario a colonia segundo a proporções com que se achar munido.

(3) Ordeno-se ao Gov. de Angola pª. subsistencias própria dopais, e ferramentas.

(4) Concedido. Foi ordem do Gov. Ordem para que todos embarquem um mez depois que os navios que os ham de transportar cheguem a este porto. Os navios ou passagens devem juntar.se um P.de, Foi ordem ao Gov de Angola para pagar os fretes.

(5) O Govº. levou às Cortes um projecto de Lei pª este effeito tão de pressa como saiba da organização da Colobia -- inxempção de direitos por um lado ---  obrigação por outro de se fonecerem dos artefactos nacionaes,
 
 
(6) Approvado -- Idem.
 
(7)  O Governo auctoriza o Proponente de accordo com o Consul a comprar os tres engenhos indicados com a condição do reembolso na forma propsta. Deixa `escolha de ambos o melhor accerto da sua entrega e os auctoriza a saccar até 8000$000 sobre o Ministerio da Marinha, em moeda de Portugal.

(8) Ordenou.se ao Governador de Angola.
(9) Estas são medids para mais pensada reflexão,
 
 
 

Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro 
 
DOCUMENTAÇÃO ANEXA
 
DOCUMENTAÇÃO N. 1 (*)
 
A petição de 13 de Julho de 1848
 
Illmo e Exmo. Snr.
 
As divisões políticas da nossa Pátria me obrigaram a sahir d´ella, e a vir em terra estranha procurar a subsistência por meio do trabalho. Não me posso absolutamente queixar da sorte por ter vindo para Pernambuco,  onde resido há nove annos  e tenho vivido, sinão bem, ao menos soffrivelmente: mas já há tempos desejava sahir em razão de se observar que se promovia guerra acintosa aos portugueses, oferecendo-os como cavallos de batalha,  os partidos, em que se achava dividida esta Província,  para chegarem a seus fins. Bem via eu o perigo que corriam todos os Portugueses,  os quais pela maior parte faziam chamar sobre si as vistas ambiciosas d'aquelles, que nada possuem, porque não empregam o trabalho e a industria,  fontes seguras da riqueza:  mas os horrorosos acontecimentos do dia 26 e 27  do mês passado me fizeram tomar a resolução de sahir sem demora d'uma terra, em que na presença das auctoridades e da tropa se arrombam a machados as portas das habitações, se arrancam homes inermes e sem crimes do seio de suas familias, e se assassinam  a pancadas chuçadas, golpes, facadas, e baionetadas, arrastando seus cadáveres ensanguentados pelas ruas, robando-se-lhes os seus haveres, sem que se dê uma outra razão, sino o de terem o crime de merecerem em Portugal, que por despreso denominaram marinheiros. Os gritos que  retumbaram no meio das turbas, que pelas nove horas da manhã do dia 26 começaram a inundar um dos bairros d'esta cidade eram de -mata marinheiros-- não escape um só-.  A perseguição se predispunha pelas folhas; planos infernais se urdiam em nocturnos clubs,  contra os Portugueses, e si não  acontecesse uma rixa entre um estudante do lyceo  e um caixeiro Português, o qual depois de levar uma bengalada atirou aquelle com um peso de 4 libras, não abortaria a perseguição, que se foi medonha, e mais que tudo demonstrou quam bem dispostos estavam os ânimos contra nós, seria ainda mais temível, si aparecesse com a canalha regularmente armada: devo porém dizer, em apoio da verdade que, com poucas excepções,  o grande número de turbulentos e perpetradores dos horrendos crimes era gentalha e escravatura. 
 
Tinha pois resolvido sahir com brevidade, mas deteve-me a consideração de que podia fazer um serviço aos meus Patrícios e à minha Pátria, procurando um meio de fazer sahir d'aqui um grande número de Portugueses para as nossas possessões da Azia ou da Africa. D'accordo pois com o Consul, o Snr. Joaquim Baptista Moreira, que não fez mais em favor dos seus, porque desgraçadamente as nossas divisões, nos ter reduzido alem de pequenos a zero:  a não termos o menor respeito.  e andarmos pelo mundo como judeus que sofrem toda  a qualidade de injúrias, sem ninguém tomar d´ella satisfação, lembrei-me de fazer publicar, que se  representava ao governo Português a nossa situação e que se pediam providências entre as quais o enviar transportes para serem conduzidos a um ponto das nossas possessões da Africa ou da Azia como colonos, aquelles que ahi quizessem ir estabelecer-se.  Todos ao principio repelliam esta ideia oppondo a insalubridade do clima, argumentando com o facto de que já deste Império havia sahido para África no tempo da Administração do Exmo.º Sá da Bandeira, um grande número a convite dos Consules por ordem do Governo, e que todos tinham sido vítimas de moléstias, que alli grassam.
Com geito se há rebatido a tal opposição, e hoje vejo os animos inclinados, tendo muitos dado já o seu nome como promptos a seguir para qualquer ponto que o governo determine, uma vez que envie com urgència transporte, e empregue medidas de interesse e comodidade que chamem e atraião os colonizadores: e julgo de grande utilidade aproveitar a occasiam,  pois que sendo estes bem sucedidos , para o que deveram tomar medidas, não só iram outros d´aqui  e de todo o  imperio e com fundos, mas se mudara a  mania de so virem os Portugueses procurar fortuna no Brasil.

Dar-se-ha direcção a essa grande emigração annual  para as nossas possessões e virám ellas  em poucoss annos a tornar-se proveitosas a metropole e a entreter um commercio nacional que tornara  a elevar a nossa decahida marinha. 

O  Snr Consul remettera por copia a relaação dos residentes da cidade, a quem particularmente se communicou  a medida que hia adoptar-se por quanto se julgou politico não dar porosa publicidade pellas folhas.

Eu que livre de orgulho affirmo poder seguir para onde me conviesse, sacrifiquei-me  a esperar e a ir compartilhar os trabalhos e os revezes que acompanham o estabelecimento de uma colónia, só porque vejo que comigo acarreto algum número, mormente os mais uteis que sam os que entendem de fabrico de assucares, e plantações das canas, e mesmo do tabaco e café, pois que vivo em relação com muitos engenhos, tenho nelles arranjado varios e me hei dedicado a conhecer como fundamento o modo mais profiquo de fazer o assucar,  e de agricultar a cana com vantagem, segundo a naturesa do terreno, e a tirar da matéria prima toda a possível utilidade, mormente em as destilações, que bem dirigidas sam de summo interesse.

Nas considerações que a esta acompanham, não só explicco a razão porque digo que os que entendem dos trabalhos agriculas sam os mais uteis, mas exponho alguns alvitres que me occurreram. V. Ex.ª me desculpara na certeza de que não faço,  porque não  esteja persuadido do seu  profundo saber; mas porque muitas vezes uma lembrança de um homem mediocre, faz produzir medidas accertadas.

Approveito esta occasião para offerecer a V. Exª. o meu diminuto prestimo.
Deos Guarde a V. Ex.ª  por muitos annos --

Recife d Pernambuco, 13 de Julho de 1848.


IIlmo e Exmo.º Snr. Ministro e Secretario  d´Estado dos Negocios da Marinha e Ultramar da Nação Portugueza.

À margem:  N.º   582 --A
                              848    /5
                                              8.º s

(Primeira suplica que veio dos Portuguezes em Pernambuco).
(A lápis está a seguinte anotação): Approvado este plano no seu ponto essencial em Concelho de Ministros no dia 30 d´Ábril de 1848 redigir-se-ha uma série de Instruções que serão commetidas conjuntamente ao Consul, e ao proponente no sentido que abaixo vai notado.

Convem principiar por lhes declarar que se ordenou ao Governador Geral deAngola ( e eu direi  verbalmente os motivios desta preferência que é condicional) que pozesse à disposição da Colonia com as formalidades da Lei, um ou mais tractos de terreno bem situado e salubre, e a mais própias a produzir os generos a cuja cultura vai acostumado segundo esta exposição.

N.B. -- Seguem as notas no papel das considerações.


CONSIDERAÇÔES
 
Portugueses mais habilitados pela sciencia do que eu, teem de ha muito chamado contra desleixo e indifferença,  com que a nossa Administração hãm olhado para as nossas possessões. Temos na Azia e na Africa uma superficie de quatro centas e settenta e tres mil milhas, d'onde podiamos tirar innumeras vantages, e que só nos acarretam despesas e fornecem provas da nossa incúria e ignorância.
 
Ninguem ha ahi que não saiba que a falta de braços inteligentes é a causa primária de nenhuma utilidade que nos resulta das nossas possessões; ora si o mal fôra irremediável, poderia haver desculpa, mas não: centenas de mancebos sahem todos os anos da nossa Mãe Pátria e vem procurar fortuna no Brasil, e supposto  que pella maior parte mal educados, não deixam de indicar a sua boa raça, porque se mostram superiores aos nacionaes em todos os ramos em que se dedicam; portanto, si logo depois da independência do Brasil  se houvera dado destino a esta imigração para as nossas colónias, estariam ellas hoje ao par, sinão excedessem em adiantamento a este imperio; e não se teriam repetido as scenas immoraes e aviltantes dos filhos baterem nos paes:  e porque isto sinão haja feito, nunca se deverá fazer?

Approveitar da ocasião opportuna é próprio do homem atilado: ora eu não acho, para daqui arrastar muita gente para as nossas possessóes, outra mais própria que a actual, em quanto está recente a lembrança dos horrores succedidos nos dias 26 e 27 do passado, que desconfio se repitam com brevedade e com peores resultados:  consideração que me deveria obrigar a sahir  sem demora, mas que deferirei, mesmo com risco de vida, até saber se o Governo Portuguez desenvolve actividade em se servir da crise para povoar as colonias;  o que coadjuvarei com o meu fraco mas dedicado contingente; e para o que também muito concorre o espírito  desenvolvido nas assembleias brasileiras, e nas turbas com representações de milhares de assignantes, para que acabem neste imperio as casas a retalho estrangeiras, e que não se permitta que alguns caixeiros, que não seja nacional, como a V, Exª seria patente pelos jornaes d´aqui.

Bem sabe V, Ex`ª que a maior parte dos nossos que vem estabelcer-se no Brasil, sam rapazolas sem educação, e por isso a civilização que apparentam é toda  material; não pensam e por tal motivo não professam sentimentos elevados, se acaso este estado melhorar, logo esquecem as injurias irrogadas, e difficil será arrancal-os d'aqui e por conseguinte jamais acabara a mania de vir para o Brasil procurar fortuna. Julgo pois, que seria de vital interesse  que o governo desenvolvesse a actividade possível, enviando para aqui transportes com as seguintes vantages.

Bons navios de guerra, porque animam e lisongeiam estes homês,  que se movem muito com  as apparencias,  e mesmo porque esta medida sempre faz lembrar que Portugal não está tão desgraçado do que não mande uma esquadra a terra estranha para proteger  e acolher os seus subditos ahi offendidos (1).

Armas, correamas, e munições para desembarcarem os colonos, ou para os receberem, quando se lhes destinam terreno que por foro o arrendamento devem rotear a agricultura, concedendo-se para isso certo numero de negros e cada um em particular, ou em companhia (2).

Certeza que o governo fizera seguir viagem  para o logar que destina para o desembarque dos colonos, navios com provizões de boca para seis mezes, isto é carnes salgadas, farinhas em barrica, vinhos e legumes secos; e bem assim ferramentas, instrumentos, e utensílios agriculas  (3).

Concessão de ualuer levar os effeitos que quizer, os quaes náo pagarám por esta vez direitos nas alfândegas (4). 

Lei que declare isentas de direitos por dez annos nas alfândegas de Portugal, todos os productos agriculas da colonia:  obrigando-as tão bem a so se servir dos objectos importados da mãe pátria, uma vez que ahi os haja,   quer da producção, quer das manufacturas, a fim de por esta forma se animarem as nossas fábricas, e dar extracção aos nossos generos (5). 

Obrigação de ser o seu primeiro trabalho exigir um Templo, pois que é colonia em projecto  acompanhara um sacerdote de exemplar conducta, e é de sumo interesse estabelecel-a o mais moral possível.  Alem deste sacerdote talvez vam outros, bem como muitas pessoas de conhecimentos e préstimos, e artistas de vários officios; sendo de maior utildade dous portuguezes habilissimos pharmaceuticos, António José Pimenta da Conceição e  Joaquim Martinho da Cruzz, acrescendo que o primreiro, homem cazado e de excelente conducta, é muito entendido na sciencia medica, pois que teve o 2º anno da escola médico-cirurgica do Porto:  (ambos levam com sigo uma bem sirtida botica, mormente os remédios mais necessários para as moléstias que alli passam, pello que não lembro medidas a tal respeito  (6). 

Como pois na colónia vam homes emtendidos no fabrico do assucar, plantação e tratamento da cana, no conhecimento dos terrenos, para ella adaptados, e na destilação da aguardente que se tira das fezes do charope. acho eu que seria conveniente que levasse logo todos os arranjos para estabelecer tres engenhos: um cuja máquina de moer a canna tivesse por motor a água, outro animais, outro vapor;  e se montassem por ora os laboratorios, vulgo assentamentos da forma commum, sem  ja recorrer a aparelhos de Derosne para levar o caldo ao ponto de cristalizar, pela razão de que estes sam mais dispendiosos, e ainda não sam conhecidos praticamente por aquelles que estou certo hei de resolver acompanhar-me, por que vejo que a cultura da canna  e o fabrico do assucar é a agricultura que pode dar mais prompta vantagem aos colonos e à metrópole, não querendo com isso dizer que se despeze o café, o tabaco, o algodão, e mil outras plantções que alli produz o terreno tão bem, e melhor do que aqui, porque esta virgem (7).
 
Estes tres aspectos para tres engenhos de assucar, que emportaram aqui em  dezasseis mil cruzados, moeda d'ahi, podem ser entregues a tres colonos que tiveram fundos e prática de engenhos , ou a tres companhias com obrigação de pagarem os seus emportes em tres safras, sendo a primeira em que se deve começar o pagamento a terceira que se tirar no engenho.  O Governo deve affiançar que recomendou as auctoridades para que destinassem para a colónia situação salubre e de bom terreno (8).

 Em quanto as medidas que julgo ham de empregar para o Governo Brasileiro lembro uma que seria proficua, a saber: que o Governo portuguez fissesse saber aquelle pelo nosso Embaixador no Rio que estava decidido a  mandar transportes a todos os portos, como acabava de fazer ao de Pernambuco, caso se verifique, e que roga se marque um prazo para todos os portugueses liquidarem suas fortunas, privinindo-o de que vae tratar com a sua antiga  alliada, a Inglaterra, para lhe dar um pagamento de divida pública portuguesa todos os creditos devidos a seus subditos, aos quaes dara em troca titulos de divida nacional, ou terrenos nas possessóes (9),

Ocorre-me que, tomando por pretexto o massacre de Pernambuco bem poderia o Governo Portuguez prohibir que qualquer subdito seu pudesse embarcar para os portos do Brasil, para ahi estabelecer.se, impondo graves penas aos capitaes dos navos que os recebessem a bordo.

Lembro finalmente que seria vantajosa a colonia sahida de Pernambuco, por que todos os que vam nella é gente ja habituada ao clima quente, e quasi todos levam seus fundos ou em moeda ou em effeitos, e vam muitas pessoas que entendem de serviço de campo.

Ommito outras considerações por não enfadar mais a V. Excia,  e mesmo pela perssuasão em que estou de que nada escapara a sua inteligencia, para que do mal que soffreram os nossos se tirem as possiveis vantagès para melhorarmos.


Recife de Pernambuco, 12 de Julho de 1948 .--- Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro, Cidadão Portugues.

Notas à nargem feitas pelo Ministério da Marinha e Ultramar, no texto das considerações:

(1) Farão já e ainda iráo outros se o estado do Thesouro o comportar.
(2) Ordenou.se a G. or. G.al. dÁngola p.º do necessario a colonia segundo a proporções com que se achar munido.

(3) Ordeno-se ao Gov. de Angola pª. subsistencias própria dopais, e ferramentas.

(4) Concedido. Foi ordem do Gov. Ordem para que todos embarquem um mez depois que os navios que os ham de transportar cheguem a este porto. Os navios ou passagens devem juntar.se um P.de, Foi ordem ao Gov de Angola para pagar os fretes.

(5) O Govº. levou às Cortes um projecto de Lei pª este effeito tão de pressa como saiba da organização da Colobia -- inxempção de direitos por um lado ---  obrigação por outro de se fonecerem dos artefactos nacionaes,
 
 
(6) Approvado -- Idem.
 
(7)  O Governo auctoriza o Proponente de accordo com o Consul a comprar os tres engenhos indicados com a condição do reembolso na forma propsta. Deixa `escolha de ambos o melhor accerto da sua entrega e os auctoriza a saccar até 8000$000 sobre o Ministerio da Marinha, em moeda de Portugal.

(8) Ordenou.se ao Governador de Angola.
(9) Estas são medids para mais pensada reflexão,
 
 
 
 
 

terça-feira, 27 de outubro de 2020

O "Chalé da Horta da Nação" em Moçâmedes e o Dr, Lapa e Faro

 

Este edificio pintado a azul, conhecido em Moçâmedes pelo "Chalé" da Horta da Nação,  ficava na margem esquerda do Rio Bero, no sitio onde surgiu a 1ª feitoria de Moçâmedes, em 1840, de António Joaquim Guimarães Junior, segundo  Manuel Julio de Mendonça Torres em seu livro sobre "Moçâmedes nas Fases da Origem e da Primeira Organização" , e no sitio conhecdo por "Gato com Botas", e era em 1975, sabemos nós,  propriedade de José Prazeres Madeira. Actualmente parece pertencer à Policia Nacional.

 

No 2º volume do seu livro "Moçâmedes, no Ciclo Aureo da Cultura do Algodão",  Manuel Júlio de Mendonça Torres, fazendo referência a um ofício de Pinto Balsemão datado de 23.03.1868, descreve a vivenda romântica, em Arte Noveau, da Rua Calheiros, no meu tempo conhecida por "Casa da Desvia", e faz igualmente referência a este Chalé, ambos mandados construir pelo Dr. Lapa e Faro (1), o 1º médico de Moçâmedes, contemporâneo da fundação,  que ficava próximo da Aguada, nos arrabaldes da vila, construído posteriormente, e que nada tinha a ver com aquela outra situada em plena vila. 

Quando Manuel Júlio de Mendonça Torres, o autor do livro, nasceu, as casas já não pertenciam ao Dr Lapa e Faro, que havia falecido há muito...   A casa romântica, revestida de fachada de grande gosto arquitectónico, que chegara a ser a melhor da vila, com dois jardins, cobertos de flores, arbustros, viveiros, quiosques, lagos, a casa da Desvia era propriedade de Rosa Gonçalves (Desvia), e o "Chalé da Horta da Nação"  que é também, sem dívida uma belíssima construção, segundo Victor Mendonça Torres fizera parte da propriedade que vinha das salinas até à Horta do Torres (Benfica incluso) e fora  mais tarde vendido, em lotes a seu tio Gaspar Madeira , tendo ainda mais tarde cabido em herança a seu irmão Prazeres, e a de Benfica passara para o Venâncio Guimarães. 




(1) Lapa e Faro, de nome completo Joãp Cabral Pereira Lapa Faro,

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